Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 10 de abril de 2018

Seio incoeso (ou "Poema para a irmã morta")



de um golpe em tua taça, 
tez nua da flor desta lágrima,
feita pranto sob a tez da tua dor 
a queixa urdida no corte à míngua
da tua algia muda, calada e feminina
fez na pele nua da insensatez a estria:
riso que se fere e se mutila num rasgo
em feitio de revés, fracasso e naufrágio
cissura exasperadamente aberta, 
com punho assassino, desferida
em tua taça (in)contida, encoberta.

Fábio Ribas 

terça-feira, 13 de março de 2018

A essência da feminilidade (Ayn Rand)

“Para uma mulher enquanto mulher, a essência da feminilidade é o culto ao herói – o desejo de reverenciar o homem. ‘Reverenciar’ não significa dependência, obediência ou qualquer coisa que implique inferioridade. Significa um tipo intenso de admiração; e admiração é uma emoção que só pode ser experimentada por uma pessoa de caráter forte e juízos de valor independentes. Um tipo dependente de mulher não é uma admiradora, mas uma exploradora de homens. O culto ao herói é uma virtude exigente: a mulher tem que ser digna disso e do herói que ela cultua. Intelectualmente e moralmente, isto é, enquanto um ser humano, ela tem que ser sua igual; assim, o objeto do seu culto é especificamente a masculinidade dele, não uma virtude humana que possa faltar a ela.

Isso não significa que uma mulher feminina sinta ou projete o culto ao herói para qualquer e todo homem individual; enquanto seres humanos, muitos deles podem, de fato, ser inferiores a ela. O seu culto é uma emoção abstrata ao conceito metafísico de masculinidade enquanto tal – a qual ela experimenta completamente e concretamente apenas com o homem que ela ama, mas que colore a sua atitude em direção a todos os homens. Isso não significa que há uma intenção romântica ou sexual na atitude dela para com todos os homens; muito pelo contrário: quanto maior a sua visão da masculinidade, mais severamente exigente serão os seus padrões. Isso significa que ela nunca perde a consciência da sua verdadeira identidade sexual e da identidade sexual deles. Significa que uma mulher adequadamente feminina não trata os homens como se ela fosse sua camarada, irmã, mãe – ou líder.”

AYN RAND, 1968, An Answer to Readers (About a Woman President)



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Salmo 45 - O casamento real entre o Ungido de Deus e sua Noiva


O meu coração ferve com palavras boas, falo do que tenho feito no tocante ao Rei. A minha língua é a pena de um destro escritor.

Tu és mais formoso do que os filhos dos homens; a graça se derramou em teus lábios; por isso Deus te abençoou para sempre.

Cinge a tua espada à coxa, ó valente, com a tua glória e a tua majestade.

E neste teu esplendor cavalga prosperamente, por causa da verdade, da mansidão e da justiça; e a tua destra te ensinará coisas terríveis.

As tuas flechas são agudas no coração dos inimigos do rei, e por elas os povos caíram debaixo de ti.

O teu trono, ó Deus, é eterno e perpétuo; o cetro do teu reino é um cetro de eqüidade.

Tu amas a justiça e odeias a impiedade; por isso Deus, o teu Deus, te ungiu com óleo de alegria mais do que a teus companheiros.

Todas as tuas vestes cheiram a mirra e aloés e cássia, desde os palácios de marfim de onde te alegram.

As filhas dos reis estavam entre as tuas ilustres mulheres; à tua direita estava a rainha ornada de finíssimo ouro de Ofir.

Ouve, filha, e olha, e inclina os teus ouvidos; esquece-te do teu povo e da casa do teu pai.

Então o rei se afeiçoará da tua formosura, pois ele é teu Senhor; adora-o.

E a filha de Tiro estará ali com presentes; os ricos do povo suplicarão o teu favor.

A filha do rei é toda ilustre lá dentro; o seu vestido é entretecido de ouro.

Levá-la-ão ao rei com vestidos bordados; as virgens que a acompanham a trarão a ti.

Com alegria e regozijo as trarão; elas entrarão no palácio do rei.

Em lugar de teus pais estarão teus filhos; deles farás príncipes sobre toda a terra.

Farei lembrado o teu nome de geração em geração; por isso os povos te louvarão eternamente.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Por que amamos?


O amado que se deixa subjugar por um amante possesso desse delírio entrega-se a uma paixão deveras nobre, que será uma fonte de felicidade.  Assim se deixa seduzir o que foi seduzido...
Sócrates a Fedro

                Segundo Sócrates, na obra platônica “Fedro”, éramos almas aladas. Incriadas e imortais, seguíamos os deuses em seu séquito real e contemplávamos o universo das Ideias, mas era ela, a Beleza, a que mais fulgurava diante dos nossos olhos.

                Ávidos por acompanharmos os deuses e desejando estar mais próximos do que víamos, se entregues ao pecado, à desordem, causávamos confusão e nos feríamos, perdendo assim nossas asas. Sem elas, caímos, tombamos sobre nossos corpos físicos, ficando presos, distante do mundo em que habitávamos, encarcerados em nossos corpos, sepulcros de nossas almas!

                Alguns de nós, talvez os filósofos, os artistas e músicos, receberam o dom da reminiscência e, quando se deparam nesta terra com algo ou alguém em que reconhecem o Belo, são como que despertados, relembrados de alguma maneira daquilo que, um dia, viram: a própria beleza. Mas esses de nós, que reconhecem o Belo no mundo que nos cerca, ficam como que admirados, em delírio e são tratados pela gente comum como loucos, porque ninguém compreende o que se passa conosco: o êxtase de nos depararmos com um pouco daquilo tudo do que, em um tempo perdido, fomos testemunhas.

                Somos chamados amantes e queremos estar próximos, unidos com a pessoa amada, pois reconhecemos nela o Belo de outrora. A alma que nos habita o corpo, diante desse maravilhoso encontro, anseia de novo retornar e suas asas e penas voltam a nascer e é essa a origem da dor que o amante sente dentro de si, ao mesmo tempo que lhe nasce também a alegria de estar próximo, aos pés, postado e prostrado diante do ser amado.

                O deslumbramento causa esse desprezo pela vida. Nada mais quer, seja amigos, familiares ou dinheiro. Somente estar próximo ao ser amado, pois esta loucura, esse delírio, é o que lhe dá asas para retornar ao Belo. Esse amor alado, na verdade, também é chamado pelo nome de Pteros, pois é ele quem nos dá asas ao nosso mais profundo desejo... Esta é a origem da paixão dos amantes! E bem-aventurado será o amado que se entrega ao desejo de seu amante, pois o objetivo do amante é moldar o seu amado à imagem e semelhança cada vez maiores das reminiscências vistas na Eternidade.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Amor para corajosos - Luiz Felipe Pondé

Por Eliana de Castro (revista Fausto)

Talvez, Luiz Felipe Pondé seja o último romântico. Na filosofia contemporânea, me refiro. Porque é um “espírito romântico” e porque é escravo do gosto. Prova é Amor para corajosos.

Gosto do quê?

Gosto do próprio amor, gosto da mulher, o gosto agridoce desse sentimento que, em suas palavras, pode levar-nos ao desespero ou à deliciosa experiência de uma reinvenção da vida.

Quando compara o tipo de amor kantiano e nietzschiano, por exemplo, Pondé pertence ao segundo time, justamente por ser um romântico, como Nietzsche. É importante saber disso para compreender porque o filósofo visceral pensa o que pensa sobre o amor. Ou seja, não é nada protocolar como seria em Kant.

Voltemos, entretanto, a Contra o mundo melhor, de 2013. Em um de seus aforismos em que fala de amor – tema, aliás, recorrente em praticamente todos os livros – Pondé anuncia: Só desejo uma mulher que seja dependente de mim. E quero que ela seja viciada e dependente de mim até a morte.

Veja, não seja raso na compreensão da sentença. Romantismo é assunto sério e exige de quem decide entrar nesse universo complexo e contraditório o mínimo de boa educação, que neste caso é não gritar convicções sobre a “submissão” da mulher. Como diz em Amor: a pressa é um pecado no pensamento.

Não é nada disso a que o filósofo se refere. Em Amor para corajosos fica mais claro: A autenticidade não é mera mania de dizer verdades inconvenientes, mas a virtude de se ver constantemente no amor e no desejo de fazer o outro feliz. Perder-se no amor por alguém é encontrar-se como ser humano que para existir precisa de um outro a quem reconheça como o ser humano mais importante do mundo para si.

Confesse, porque faz bem à saúde, você também deseja ser a pessoa mais importante da vida de alguém.

A autenticidade é o maior bem romântico. Bem que, inclusive, vem antes dessa concepção particular de amor. Mas assim como o amor, a autenticidade foi colocada no mercado. Daí as mentiras de que tanto você pode amar do seu jeito como pode ser quem você quiser. Não é bem assim e nas palavras de Pondé: O indivíduo empoderado do capitalismo ama apenas abstrações que não implicam nenhum risco ou sofrimento.

Em resumo: você nunca vai ter controle sobre o amor. Ou viverá em desejo ou viverá em culpa.

Amor para corajosos então é um desses títulos que se lê escondido, por medo de os olhos brilharem demais e denunciarem que também somos vítimas da invenção dos românticos históricos.

O que ler Pondé, contudo, permite: primeiro, ver que o amor romântico é melhor do que hoje é apresentado; segundo, aceitar que na tentativa de não sofrer de amor podemos deixar de viver uma das mais significativas experiências que essa vida sem sentido é capaz de nos proporcionar. Ou seja, o amor é um sentido enquanto tal, e evitá-lo é tornar a vida ainda mais vazia.

Por fim, não tentar enquadrar o amor, formatá-lo, dar-lhe regras ou torná-lo a “cereja do bolo” de seu lifestyle invejável, o “toque final” de sua vida bem planejada. Nada pode ser pior para o amor do que tornar-se capa da Casa Vogue.

Creia: amor não é narcísico e os narcísicos não tem vez no amor. É preciso predisposição para o fracasso para amar. Pondé concorda.

Um dos segredos para manter o amor, segundo o filósofo, segue sem meias palavras: A intimidade sexual é uma das rotinas mais poderosas para manutenção do amor. Não existe amor platônico, a não ser em pessoas doentes de alguma forma, pois o amor pede carne. É carnívoro como um predador pré-histórico. O amor gosta de se melar na fisionomia de quem ama. Na filosofia, ele pertence ao universo de tudo que é empírico, nunca do que é metafísico. Pede toque. Uma mulher amada morre quando é tratada como santa. Seu ambiente natural são o pecado e a posse. A separação entre amor e sexo é para ignorantes.

Sobre a bagunça que o amor pode fazer se cedermos a ele – e ao cedermos, ele pode ir facilmente da bagunça à destruição – Pondé classifica suas vítimas – eu e você, talvez – como dois condenados: os canalhas e as vagabundas. Diga-se: Como saber se você é um canalha ou uma vagabunda? é um dos mais libertadores ensaios do livro. Direto ao ponto, pode economizar anos de terapia.

Pois é. Além de toda essa agonia, quem ama precisa lidar com a inveja de quem não é capaz de amar.

É ou não algo para corajosos?

Seja como for, você coitado e você condenada: não estamos sozinhos. Pondé está conosco. Além-vida, talvez Nietzsche agarrado a um exemplar de Anna Kariênina.
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