Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

"O ano do pensamento mágico" e "Noites azuis" - Joan Didion


“Não havia ninguém olhando por nós”, confessa Joan Didion na última frase do seu livro “O ano do Pensamento Mágico”. Uma narrativa cativante sobre a perda da pessoa amada. Um livro sobre o luto vivido por ela com a morte repentina do seu marido no dia 30 de dezembro de 2003. O título do livro se refere à expectativa que ela tinha da volta do marido, mesmo após a sua morte. Uma realidade criada pela mente e que a convencia, por exemplo, de que ela não poderia doar os sapatos de John, porque, assim que ele entrasse em casa, porta adentro e em carne e osso, ele precisaria deles. 

"Coincidentemente”, li os livros de Joan na semana de aniversário daqueles eventos narrados por ela e logo após mergulhar nas águas profundas do livro I das Institutas de João Calvino.Tudo isso fez com que minha leitura se encaixasse como um elo numa grande corrente de eventos conduzidos pela Providência divina, misturando as narrativas de Joan com as narrativas da minha própria vida.

Entretanto, como a própria Joan escreve, ela encontrara sentido não na crença da vida após a morte ou na fé exposta no Credo Apostólico, mas no estudo da geologia e também no seu papel de esposa e mãe. Este dava a Joan a rotina, o controle e a satisfação que ela necessitava para viver a vida cotidiana. Na geologia, num escopo mais amplo, ela via que um dia tudo terminaria, definharia, desabaria para o fim da mesma maneira que começou, da mesma forma que ela aprendera na Igreja. Não é assombroso que, inconscientemente, os dois livros de Joan sejam a demolição dessas suas duas crenças? Por fim, o mundo à sua volta não ruiu sobre ela e John, levando-os à morte juntos um do outro como ela sonhava. E foi o mundo pessoal, sobre o qual ela se sustentava, que, por fim, caiu sobre ela mesma com a morte não apenas do seu esposo, mas também de Quintana, sua filha única.

Foram várias as razões que me enredaram na trama dos dois livros de Joan. Evidente que tudo ganhou cores mais fortes por terem sido lidos à luz da doutrina da Providência divina. Assim, no momento em que lia o primeiro livro de Joan, eu me encantava e me assustava por saber de um fato que a autora ainda não sabia: sua filha morrerá quando o livro estiver sendo impresso para a publicação! Vemos Joan terminar o seu livro com esperança de que sua filha conseguirá sair da luta contra a doença que estava enfrentando desde o dia 27 de dezembro de 2003. Sim, Quintana é internada apenas alguns dias antes da morte do pai e por volta do dia 15 de janeiro, quando retorna do coma, fica sabendo do que acontecera com ele.

O que me faz pensar em algumas coisas. Se ela não escrevesse o segundo livro, só saberíamos da morte de sua filha se pesquisássemos sua biografia ou outras fontes; se ela não escrevesse o segundo livro, eu dificilmente saberia do que ocorrera com sua filha e, portanto, não teria tido a experiência inquietante de ler o primeiro livro sabendo daquilo que nem mesmo a autora sabia; se ela não escrevesse o “Noites azuis”, eu jamais saberia do que ela contou naquele livro e que o tornou tão especial para mim! Enfim, “se” introduz muitas das indagações da própria autora que está avaliando sua vida, enquanto não consegue “perceber nada de positivo no que ela está passando”.

O que ela nos conta no “Noites azuis” e que eu jamais teria ficado sabendo se Quintana não houvesse morrido e se, mesmo com a morte da filha, ela tivesse decidido não escrever sobre mais essa perda é algo que me surpreende na Providência divina. Sempre quis ler “O ano do pensamento mágico”, mas, por alguma razão, esqueci desse livro até que, em dezembro deste ano de 2018, um amigo em profunda depressão me procurou pedindo ajuda. E foi durante nossa conversa que me retornou à mente o livro nunca lido de Joan. Corri atrás, pesquisei e, finalmente, encontrei uma resenha que me apresentava ambos os livros e dizia sobre a perda de Quintana.

Se o primeiro livro eu o li pensando várias vezes na morte do meu pai e da minha irmã e no que foi para a família o luto dessas perdas, no segundo, que li praticamente num único dia, vi se abrir diante dos meus olhos questionamentos que nunca tinha feito sobre a minha própria história, graças a decisão da autora de nos contar um fato que em nenhum momento ela nos faz suspeitar no primeiro livro. “Noites azuis” se torna um daqueles livros raros que, sendo lidos, terminam por ler a gente. Faço ainda uma última pontuação. Nesse segundo livro, Joan já está com 75 anos de idade e confessa sem maquiagem alguma ao leitor um tema pouquíssimo abordado nos livros que lemos: a velhice!

“Noites azuis” foi um livro escolhido para que eu o lesse. Providencialmente escolhido para que eu o lesse. Ao contrário de Joan, eu não tenho medo da morte, não tenho medo de “cair no nada”. Ao contrário de Joan, eu sei que há Alguém olhando por mim desde o ventre da minha mãe”.    

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