Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

O dia em que o príncipe beijou o dragão - o 2º post mais lido nestes 6 anos de blog!

Gosto de histórias, tramas, personagens conflituosos, porque, desde criança, aprendi a ler e assistir a boas narrativas. Encantei-me com livros como “O Pássaro da chuva”, “Meu pé de laranja lima” e a sensacional coleção que havia na Biblioteca do meu pai chamada “O mundo da criança”. 

Aliás, foi nessa biblioteca que a magia se abriu para mim desde cedo: lia e relia “a Barsa”, “a Delta Larousse”, os livros repletos de gravuras sobre a 2ª Guerra Mundial, outro repleto de desenhos de pássaros do mundo inteiro, a coleção que havia de histórias e lendas de todos os Estados brasileiros, enfim, foram essas as leituras da minha infância.

Lembro-me que eu tinha em minha casa um “bolachão preto” com histórias de ciranda. Eram músicas e narrativas dramatizadas que me marcaram profundamente também. Neste “bolachão”, uma das histórias que eu mais ouvia era a “O feitiço virou contra o feiticeiro”, que falava de um menino travesso que afrouxara as peças de uma bicicleta para fazer maldade com um colega, mas, no fim, foi esse mesmo menino quem terminou acidentando-se com a bicicleta que ele mesmo havia preparado para machucar o outro.

Cresci assistindo “Branca de neve”, “A Bela adormecida” e todas aquelas histórias em que o Bem sempre vencia o Mal. Histórias em que as donzelas eram salvas pelos príncipes, heróis que enfrentavam terríveis perigos por amor de suas amadas. 

As novelas também eram um mundo fascinante e misterioso. Quem ainda se lembra daquela novela com a Bruna Lombardi e Rubens de Falco em que este era um vampiro? Ou aquela com o Professor que virava lobisomem? Foram tantas personagens que marcaram o nosso universo infanto-juvenil e adolescente com ótimos atores, “gigantes” como dizia minha mãe, que carregavam nos ombros as grandes atuações que aqueles personagens exigiam.

Mas, com o tempo, a magia foi cedendo espaço à realidade e, finalmente, a desculpa era que a teledramaturgia copiasse a vida. A vida sem graça e os vícios dominaram os enredos das novelas assistidas por crianças e adolescentes: pais e mães solteiros, divórcio, traição, drogas, prostituição, fornicação, etc. 

Os heróis eram revelados como bandidos nas tramas e os bandidos foram transformados (mesmo imorais e corruptos) nos príncipes que as mocinhas desejavam. As mocinhas deixaram de ser mocinhas. Os meninos viraram meninas e as meninas viraram meninos. 

Não havia mais castelos para conquistar, perigos para enfrentar e nem a princesa deixava-se salvar pelo seu herói, porque aprendera a se virar sozinha. A imaginação, o simbolismo, o sublime, a magia foram desaparecendo até que, num triste dia, o príncipe cansado de princesas feministas salvou o dragão, dando-lhe um beijo encantado!

Quando parei de assistir às novelas? Estávamos eu e minha esposa deitados na cama diante de mais um capítulo da novela “Celebridade”, era uma quinta-feira. Terminou o episódio naquela noite, víamos os créditos subindo na tela da tv e apenas um silêncio incômodo no quarto, como se além de nós, sentado ali bem junto aos nossos pés, houvesse a presença vitoriosa do dragão que fora salvo pelo príncipe: “Você viu?”, perguntei à minha esposa. Ela acenou positivamente com a cabeça e, então, eu constatei: “No capítulo de hoje, apareceram cinco casais que foram para cama em momentos diferentes e, em cada uma das cenas de sexo, a novela mostrou que o homem e a mulher, que não eram casados, faziam sexo entre si, mas cada um pensando em outra pessoa”!  

Decididamente, não era aquela confusão que gostaríamos de ver entrando diariamente em nossa casa. Não eram aqueles pecados, aquelas ervas daninhas que gostaríamos de ver crescendo em nosso jardim. Minha primeira filha estava com apenas seis meses quando a novela estreou, portanto, ela estava deitada ao nosso lado naquela cama, inocente de tudo aquilo que acabávamos de testemunhar. 

Decidimos, então, que ensinaríamos a ela que o Bem sempre vence o Mal, que o príncipe fará de tudo, colocando a própria vida em risco, para salvar a princesa; decidimos que ensinaríamos que o Dragão precisava ser morto e não beijado pelo príncipe e que este deveria encarnar os valores que nossas filhas aprenderiam a procurar nos homens: coragem, amor sacrificial, honestidade, perseverança, bondade, fidelidade, lealdade, honra!

Desligamos a televisão naquela noite e, desde então, nunca mais assistimos a quaisquer novelas e, hoje, enquanto tantos debatem sobre os últimos escândalos da teledramaturgia, a última cena de novela que eu não assisti, felizmente, nem podemos participar dessas discussões, porque, no horário dessas novelas, estamos juntos em família no nosso culto doméstico, lendo a Bíblia e orando com nossas filhas, ensinando a elas que ainda é possível acreditar que podemos ser felizes para sempre.  

Postado originalmente em 03/02/2014

Um comentário:

Anselmo Melo disse...

Meu querido amigo. Não sei qual é o post com mais acessos em seu blog. Para mim esse é o primeiro. Infelizmente sua narrativa ainda não chegou aos milhares, milhões de acessos, principalmente entre nós, cristãos.Muitos continuam alimentando através da audiência a perversa retórica das tramas televisivas.É fácil descobrir porque na verdade a sensação nítida que temos é de que não é mais a arte que imita a vida e sim a vida que imita a arte.
Grande abraço.

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