Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Daniel na cova dos leões - o 4º post mais lido nestes 6 anos de blog!



Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo.
De amargo, então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve,
Forte, cego e tenso, fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

 
Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão.
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E eu sei que a tua correnteza não tem direção.

 
Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.


O autor nos sugere pelo uso da palavra amargo, que aquela experiência homossexual específica não foi prazerosa num primeiro momento (e ele vai tratar de "resolver" isso no restante da letra). Mas, veja, há uma mudança nos versos seguintes muito semelhante à experiência com cigarro (ou à maconha, tanto que muitos pensaram que se tratasse disso a letra da música). Entretanto, o amargo daquela primeira experiência logo se torna doce e o cheiro do outro - forte e lento - sorrateiramente se fixa nos braços do autor da letra - ou do narrador.  De qualquer maneira, as características do vício e da paixão estão presentes no turbilhão de sensações que se expressam: "forte, cego e tenso", portanto o vício está estabelecido e, insaciável, pede mais do mesmo.


Qual segredo que há entre eles? E quem ousará desafiar a intimidade dos dois? O narrador está totalmente entregue à paixão e já, inconsequentemente, não tem mais medo de errar, pois a insegurança não é mais um sentimento que o atormenta. E a identificação entre os dois nessa relação sem ontem ou amanhã, na qual apenas o momento e o instante definem e regem a liberdade entre os dois amantes, pauta para nós o ritmo do ambiente criado pela música. Entretanto, dos dois personagens apenas um está livre do medo e da insegurança. O narrador revela a nós que o outro tem medo de ter medo de ter medo de se entregar com tamanha liberdade e audácia como ele mesmo faz. A convicção e a segurança expressas pelo narrador geram no outro essa perplexidade diante de tamanha força na entrega a algo tão proibido. Aqui, neste ponto, temos o verso mais revelador da relação homossexual descrita na música: "Teu corpo é meu espelho...".  E ainda que haja de um lado insegurança, medo e confusão, do narrador em 1ª pessoa há a certeza exata de se estar no controle da situação para usufruir o máximo possível de tudo o que pode ser oferecido pelo outro.


Então, porque fugir dessa atração? Por que ter medo? Por que tanta confusão? Negar o próprio desejo homossexual é ir contra a natureza (...tão certo quanto o erro de ser barco/A motor e insistir em usar os remos). Em outras palavras, se ambos foram feitos exatamente para esse fim, porque tentar insistir em viver de outra maneira? (daí, o desafio ao instinto dissonante - quem está destoando são os outros e não os dois!). A conclusão final é a de que não se entregar aos desejos homossexuais de ambos é o mesmo que morrer afogado na frente do salva-vidas, enfim, uma imensa tolice! O que temos, então, é uma letra de sedução, persuasão e convencimento homossexual. 


Naquele disco, "Legião Urbana Dois", fomos presenteados com inúmeras músicas de um Renato Russo no auge da criatividade como letrista - um disco que ainda guardava reminiscências do "Aborto Elétrico", grupo anterior que se pautava pela forte pegada punk. Contudo, o disco superava ao mesmo tempo toda essa formação original, trazendo um Renato Russo fortemente influenciado pelos simbolistas como Baudelaire, Rimbaud e Mallarmé. Pérolas preciosas para o rock nacional estão ali naquele emblemático LP que marcou toda uma geração: "Índios", "Andrea Dorea", "Acrilic on Canvas" são apenas algumas dessas músicas.


Quanto à "Daniel na cova dos leões", ela aparece assinada pelo Renato Russo e pelo Renato Rocha, que sairia da banda logo após a conclusão desse disco. A música apontava para uma proposital ambiguidade sobre o que de fato estaria sendo dito na letra da música, mas, anos depois, o próprio Renato Russo confirmou que a música tratava da homossexualidade. Naquela efervescente década de 80 em que Brasília despontava como a Capital do Rock, é claro que Renato Russo estava muito mais antenado com o movimento gay do que nossa juventude poderia supor. Tanto que a homossexualidade da letra passou desapercebida por muitos de nós. Mas, muito antes daquela década de 80, o movimento gay mundial já transformara Jesus, Davi, Jonatas, João e tantos outros personagens bíblicos em ícones eróticos da causa gayzista. Tudo isso sendo difundido pela cultura da mídia e da música, além das artes em todas as suas expressões.  


O que mostra que a cultura artística - em quaisquer de suas expressões - nunca deve ser interpretada inocentemente e sem o crivo da Bíblia. Valores, ideias, costumes, moral, re-engenharia social e formatação das mentes têm sido feito com sucesso há anos, abrindo caminho para a silenciosa revolução que já atua e que levará o nosso mundo à hegemonia de uma Nova Era pagã.

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