Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O que você estava fazendo em 1986?

O que eu estava fazendo em 1986?... Eu sei que foi o ano do falecimento do escritor argentino Jorge Luis Borges e também o ano das tragédias da explosão da Challenger e de Chernobyl. Mas será que 1986 só foi notícia ruim? Pode ser considerado também o ano da vergonha nacional, pois foi o ano em que milhares de pessoas saíam como zumbis pelas ruas para serem “fiscais do Sarney”, lembra? É melhor esquecer.

Em 1986, eu estava com apenas 13 anos de idade, que é, exatamente, a mesma idade que a minha primogênita tem hoje. Vejo os 13 anos que eu tive e os 13 anos que esta geração está vivendo. O que a cultura oferece às crianças de 13 anos hoje e comparo com o que me foi oferecido naquela época. Concluo: como são mundos, universos tão drasticamente diferentes!!!

Naquele ano, filmes que me desarranjaram a cabeça foram produzidos: desde o enlouquecedor “Veludo azul” de David Linch, passando por “Eu sei que vou te amar” do Arnaldo Jabor, indo até o “Nove semanas e meia de amor” e aquele filme sobre o baixista do Sex Pistols, o “Sid e Nancy”. Mas, naquele ano, também foram produzidos “Highlander”, “O nome da Rosa”, “Peggy Sue” e “Labirinto”. Ah! E também foi o ano da passagem do cometa Halley! 

Mas o que eu lembro mesmo é de estar caminhando pelo corredor da escola Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Brasília, com meus amigos e todos encantados com aquela música tão diferente que vinha de mais um grupo do chamado “boom” do rock nacional. A música era “Eduardo e Mônica” e o disco era o Legião Urbana dois.

Desde o primeiro disco com "Geração coca-cola", Renato Russo mexia com a cabeça daquela garotada e o disco dois veio como uma bomba de referências à história, à arte, aos movimentos do punk e do rock, à religião, mas, principalmente, à poesia. Eram letras cheias de imagens e com uma narrativa totalmente diferente do que era feito pelas outras bandas. Do disco 2, músicas como "Índios", "Andrea Doria", "Acrilic on Canvas" e "Daniel na cova dos leões" (que eu já analisei aqui) eram de uma linguagem muito instigante e que nos fazia querer ir à biblioteca para descobrir do que, afinal, ele estava falando! 

No ano anterior, com a abertura democrática, muitos grupos jovens apareceram e marcaram aquela geração: Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso, RPM (que, em 1986, lançaria o “RPM ao vivo”) e tantas outras bandas que floresceram em 1985.

No ano seguinte, em 1987, foi o ano em que eu me despediria de Brasília para morar em Belo Horizonte para ingressar como Seminarista católico na ordem dos orionitas, na Pampulha.   

Porém o que eu queria dizer mesmo é como que uma música pode ter esse poder doutrinador. Os jovens aprendem muito mais (des)valores e (des)ensinos pelas músicas que ouvem do que pelos livros que leem (se é que leem).

A música também tem esse poder de unir a melodia, o ritmo e a mensagem ao momento, ao espaço e ao tempo, fazendo com que tudo isso fique em algum lugar aqui dentro de nós por muitos e muitos anos até que o esquecimento cubra, enfim, toda essa associação e à condene ao nada. Todavia, basta a audição de uns poucos acordes (como os 3 primeiros segundos de “Eduardo e Mônica”) para que a memória reative toda a teia de associações trazendo para o presente o mais longínquo dos passados.  

E você? O que você estava fazendo em 1986?

Um comentário:

Samuel Costa disse...

Gostei do artigo, Fábio, pois me fez relembrar muita coisa. 1986 foi o ano de minha formatura no Seminário Presbiteriano do Norte. Abraços!

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