Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Nossos pais – o Cristão e a Crise dos 40 (IV)

Em geral, a chegada aos 40 gera a crise, porque, dentre tantos fatores, coincide com dois que ocorrem concomitantemente: primeiro, nosso corpo não acompanha mais a juventude de nossa mente e, segundo, nossos pais estão ainda mais velhos do que nós.

Ano passado*, minha mãe deu entrada na UTI, ficando duas semanas internada. Foi um susto! Despenquei-me daqui para ficar com ela em São Paulo no hospital. Pude ver sua fragilidade, a fragilidade de alguém que, em outros tempos, sustentou a minha própria fragilidade infantil na força de suas mãos maternas...

Chegar aos 40 é tomar consciência de muitas coisas tão reais quanto um soco que se leva na cara: de repente, os filhos começam a cuidar dos pais... O que agravou essa situação foi o fato de estarmos longe dos nossos pais. Não estávamos perto para vê-los envelhecer, mas um susto nos trouxe à realidade enfrentada por eles.

Este ano, novamente, minha mãe deu nova entrada na UTI, mas, dessa vez, em Brasília. Saí daqui para estar com ela. Era véspera de seus 80 anos de idade. 80 anos de idade!!! O dobro da minha: 40 X 2 = 80!!! Uau! E quem disse que números não pesam? Da parte da Lu, o pai dela vem enfrentando – heroicamente, diga-se de passagem - há uns dois, três anos, o mal de Parkison. Estamos longe deles, mas estamos perto, bem pertinho. Mas estamos longe...

A chegada aos 40 está sendo marcada pela necessidade maior que nossos pais estão tendo de nós. Esse contato vívido com a fraqueza e finitude deles, inexoravelmente, remete às fraquezas e finitudes de nós mesmos. É a vida apresentando o implacável ciclo que atinge todos os seres humanos.

Contudo, para o cristão (pelo menos para mim), há um anseio real de ir morar logo no céu. Este desejo só esbarra na vontade concorrente de querer estar aqui para encaminhar bem minhas filhas em bons casamentos e ver netos. Acredito que essa contradição é humana e normal. Não foi o próprio Jesus quem clamou: “Pai, se for possível afasta de mim este cálice”? Porém, a despeito das contradições da nossa natureza humana, creio que, no fim, a vontade de Deus prevalecerá. Ainda que, vez em quando, veja-me pedindo perdão a Deus por essa fraqueza minha.

Faz parte do roteiro da rat race um certo cansaço que começa a nos acometer. Cansaço da vida? Não! Cansaço de pessoas. O mal, a hipocrisia, o jogo do poder, a politicagem e o corporativismo são coisas que cansam agora muito mais do que cansavam antes.

Passamos a ficar mais intolerantes com os hipócritas, talvez por vermos que não duraremos para sempre mesmo e que nossos pais estão indo embora, por que ficaríamos, então, adiando dizer o que nunca falamos? Se a gente passa a não suportar nem mais as nossas próprias hipocrisias, vamos tolerar as dos outros por quê? 

Nossos pais estão indo embora? Com eles, irão também certos pruridos da educação que nos deram. É neste momento que começamos a entender que, se não dissermos o que temos a dizer, iremos morrer sufocados pelas palavras que nunca ousamos falar!... 

* Esta série de artigos sobre o "Cristão e a Crise dos 40" foi escrita há mais de 2 anos, mas não havia sido publicada até agora. 
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