Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

A vingança dos quarentões – O Cristão e a Crise dos 40 (V)

Nem tudo é tragédia quando chegamos à crise da meia-idade. Aliás, muito do que vivemos pode ser levado com muito bom humor. Afinal, venhamos e convenhamos, neste mundo enfadonho e tedioso do politicamente correto e com a OMS, o Inmetro e a Anvisa invadindo cada vez mais a vida privada das famílias – braços da Grande Babá – precisamos reconhecer que tivemos uma infância muito mais divertida do que a dos nossos filhos.

Assim, se conseguimos sobreviver, chegando aos 40, só há uma única conclusão possível: somos super-heróis de outra geração! 



Leia também:

A TAL CRISE DA MEIA-IDADE (CARLA RODRIGUES)

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A TAL CRISE DA MEIA-IDADE (CARLA RODRIGUES)

Existem os clichês mais óbvios: o cara que compra, não necessariamente nessa ordem, uma mulher mais jovem, um carro esporte conversível, e uma jaqueta de couro. Ou a mulher que faz plástica peito/barriga, lifting no rosto e sai por aí se comportando como quem tem 17 anos. O fato é que todos nós, em algum momento entre os 35 e os 50 anos, passamos pela tal crise da meia idade.

De uma amiga muito querida recebi o texto abaixo, que relata a conversa de duas grandes amigas sobre como enfrentar essa passagem da vida em que tudo que até ontem fazia o maior sentido, de repente torna-se tão estranho a nós.

Para ler e reler todas as vezes que baterem as dúvidas da tal da crise da meia idade – ou seja, sempre.

Tenho uma amiga querida. Um “muito querida” que é inversamente proporcional ao nosso convívio. Acho que no último ano encontramos, no máximo, umas duas vezes. A isso se acrescem emails esporádicos e curtos. Ressalvadas poucas exceções de visitas que duraram mais tempo, sempre foi assim. E não nos conhecemos sequer há uma década. Nada pode explicar, pois, como alguém com quem convivi tão pouco tenha importância fundamental em escolhas e entendimentos centrais da minha vida.

Foi ela que me explicou que as dívidas contraídas aos 30 anos, com a balança, com o coração e com a vida, integrariam uma fatura com início de vencimento aos 45. Segundo ela, a minha geração estava se endividando alto, rápido e demais. O risco de amargar antes da hora era significativo, principalmente para as mulheres. Hoje, ainda há uma distância segura dos 40, olho para o lado e já vejo muitas de nós azedando. Amargura e chatice: faturas vencendo antecipadamente, creio eu.

Pois foi essa mesma amiga quem me contou a respeito da “crise dos 40” que pode chegar aos 37 ou apenas aos 45, não importa. O fato é que chegará em algum ponto dessas imediações. Confesso que nunca acreditei em frases que começam com: “As mulheres são …”, “As pessoas, quando fazem 40 anos…”, “Os europeus preferem…”. Depois de ler Derrida, indicado e explicado por ela, não acho que existam “as mulheres”, “os quarentões”, nem “os europeus”. Existe Maria; uma mulher, diferente de todas as outras. Existe João; um quarentão único. E existe Manoel, um português, que é europeu e casado e médico e chato e ótimo pai e que amanhã pode resolver virar uma drag queen. Ninguém pode ser aprisionado em uma categoria imutável. Daí a minha implicância com a tal “crise dos 40”. Quem é que falou que todas as pessoas, tão únicas, devem passar por um mesmo processo universal ao atingir certa idade?

A coisa começou a melhorar quando entendi que, na verdade, o processo não é o mesmo. Ele, à obviedade, é singular na história de cada indivíduo. Mas há um fundamento em comum à tal crise. Fundamento que, se nos pega desprevenidos, traz consigo o germe de uma energia desagregadora que pode ser fatal aos rumos da vida.

Para acreditar que pode, sim, haver algo em comum a tantas vidas e situações diferentes, comecei a prestar atenção nas pessoas com 50 anos ou mais. Descobri que todas, em algum momento entre 38 e 45 surtaram com algo. Uma delas largou um emprego confortável e maravilhoso em um escritório e foi, literalmente, vender pulseirinha na Praia de Porto Seguro com uma nova paixão hippie que tinha acabado de conhecer.

A outra começou a correr 30 quilômetros por dia, colocou piercing, fez 03 (três) tatuagens, comprou micro-mini-saias e foi obrigada a escutar da filha adolescente: “Mãe, estou com medo da senhora regredir para antes dos 15 anos…”

Teve o cara que terminou o casamento com uma mulher que amava e com quem havia construído 20 anos de uma história maravilhosa, para se juntar com uma biscate do trabalho, que terminou lhe tirando tudo.

O outro, desesperado porque estava solteiro, viu-se louco para ser pai; engravidou uma ficante quase desconhecida e descobriu no meio da gravidez que a felicidade pode não morar ao lado.

Alguns apaixonaram-se pelo personal ou pela estagiária com quem não tinham qualquer afinidade, enquanto terceiros mergulharam em estranhas relações de trabalho, de afeto ou familiares.

Boa parte não recuperou o prumo da vida. É que, nesses casos, as pisadas de bola tinham sido fenomenais e sem qualquer saída de emergência planejada com um mínimo de cuidado e antecedência.

Havia mesmo algo de extremo e não habitual nas ações de pessoas até então razoáveis e que, subitamente, atolaram suas vidas em coisas que pareciam vindas de ímpetos incontroláveis. E não falo do incômodo que nos faz mudar para estarmos mais próximos de quem de fato somos e apenas em um específico momento nos descobrimos. Não estou me referindo a esse tipo de reconstrução necessária e desejada. Falo de coisa diferente.

Refiro-me a bombas que aparecem do nada e que escolhemos detonar. Sabemos, ou não, que é bomba. Sabemos, ou não, que vai explodir. Muitas vezes sequer estamos certos que queremos a explosão, já que não pensamos direito sobre ela. Mas não conseguimos controlar. É uma angústia tão grande que nos domina ao ponto de puxarmos o gatilho e deixarmos a destruição alcançar o que está ao redor. Restam os estilhaços para seguir.

Foi minha sábia amiga que explicou o desespero que subjaz a tanta insanidade. “Aos 40, querida, descobrimos que vamos morrer. Do desespero da morte vem a força que move tanta insensatez.” E eu, com ar desconfiado:

– Mas sabemos da morte desde que nos tornamos capazes de entender o seu significado, ué!

– Sabemos. Mas só teoricamente. Aos 40, cada célula do nosso corpo descobre disso. Olhamos para trás e, pelo retrovisor, vemos tudo o que aconteceu, tão diferente do planejado. Descobrimos que não dá tempo mais de muita coisa. O corpo envelheceu. Estamos mais velhos, um tanto caídos e sem “a vida toda pela frente” como acreditamos ter aos 20. Não. Agora, metade da vida já se foi. E, provavelmente, não do jeito como sonhamos, desejamos, planejamos. Na maior parte das vezes, jamais sonhamos chegar aos 40 daquele jeito. Falta muito para atingir a meta básica. Mesmo que não falte muito, o pouco faltante incomoda demais. O pior é que o inconsciente se dá conta, de uma hora para outra, que não somos eternos. Mas não é “não somos eternos” como uma frase teórica qualquer. É “eu vou morrer! E sem fazer nem metade do que desejo para mim…”

Parei para pensar e vi que talvez fosse isso mesmo. Boa parte dos meus amigos entrava na fase de pensar: “Como é que eu vim parar aqui?” E começavam a se mover para sair do lugar atual.

Desajeitados, abruptos e, alguns, enlouquecidos. Plásticas, traições, álcool, casamentos-relâmpago, filhos, tudo pipocando vindo de todos os lugares, nem sempre de um modo equilibrado. Em alguns casos, vislumbrei desespero de dar pena. Foi quando olhei para ela com aquela cara apavorada de interrogação, como quem pergunta se há uma saída para escapar disso.

– Concentre-se em não ficar doida. Pense que uma besteira que você faz aos 20, é possível recuperar aos 30, com todo o vigor. Uma bobagem feita aos 30, dá para recuperar aos 40 com certo esforço. Mas uma insanidade grande demais aos 40 não é tão facilmente recuperável aos 50, quando as forças já não estarão mais no auge. Se você arrumar um filho de um doido aos 40, como se livrar do maluco daí há uma década, com um filho entrando na adolescência, e ainda ter tempo para os seus sonhos? Como aos 50 anos, depois de largar o emprego feito adolescente, você consegue reinserir-se na carreira, na época em que a maioria dos colegas já está mais para a aposentadoria do que para recomeços profissionais?

Eu permanecia lá, escutando, com aquela cara de: “Como? Como? Comooooo?”

– Veja, não é que seja impossível. Mas é difícil. Aliás, besteiras inomináveis aos 40 fazem a sua vida significativamente mais difícil daí em diante. Portanto, quando o turbilhão vier, durma sobre os ímpetos. Os sentimentos serão como bombas explodindo. Até aí, tudo bem. Mas cuidado, muito cuidado com suas ações. Acolha o pavor de envelhecer. Não negue o susto de ver o próprio corpo começando a decair, mas não deixe que isso se transforme em um horror. Aceite que o seu emprego, o seu salário, os seus colegas podem não ser os sonhados, mas valorize um pouco a história que a levou até ali. Pense em transições lentas, sem grandes cortes brutais. Pense no futuro que deseja e nas ações para chegar lá. Jamais seja covarde. Mude o que desejar. Sonhe, ame, escolha, realize. Mas com calma. Concentre-se em não enlouquecer. Cautela e muita canja de galinha antes de cada passo, por favor. E não se esqueça que há vida e mudanças possíveis até o fim. O mundo, realmente, não vai acabar amanhã.



Desde então, esse tem sido meu mantra. Não é que uma lipoaspiração tenha deixado de parecer a solução perfeita para a maioria dos meus problemas. Mas, por hora, se não o juízo, as ações estão em ordem. E melhor que isso: de repente, me dei conta que não precisava guardar tão incrível descoberta para mim. Então, está aí, dividido. Que possamos mudar e permanecer ao viver, sem enlouquecer. Esse, o meu convite.

FONTE

Leia também:

Nossos pais – o Cristão e a Crise dos 40 (IV)

sábado, 7 de novembro de 2015

Valeu a pena? – o Cristão e a Crise dos 40 (III)

Além dessa vontade doida de explodir uma bomba, li que um dos parágrafos deste roteiro da “rat race” é a falta do desejo pelo trabalho. Mas também não poderia ser diferente: imagine aquele ratinho de laboratório rodando sem parar naquela rodinha! Gira, gira, gira... Não sai do lugar e nem chega a lugar algum! Quem não enlouquece com isso? Em tempo de minorias, será que ninguém pensou ainda em defender os direitos dos ratinhos de laboratório?

Se eu perdi o desejo pelo meu trabalho?... Sim, aconteceu comigo também. Desde aquela crise de ansiedade que me acometeu (narrada no primeiro post), para sobreviver, tive que mudar o foco do meu trabalho. Em outras palavras, preparei-me durante anos para fazer uma coisa e, de repente, fui-me pego tendo que fazer outra. Talvez seja que eu antes trabalhasse numa “rodinha de rato” (pelo menos essa era a sensação da minha esposa), mas, sinceramente, eu gostava. Trabalhava com tradução e este é um trabalho que exige tempo, paciência e, principalmente (e o que eu mais gostava), exigia estudo, muito estudo. Gosto de estudar línguas. Gosto do funcionamento das gramáticas e, por isso mesmo, gostava muito do meu trabalho.

A Lu ficava cismada, pois somos muito diferentes neste ponto: ela é prática, eu sou teórico. Ela quer aqui e agora, eu sou projetos. Ela precisa ter algo nas mãos, eu preciso ter algo na mente. Ao mesmo tempo, acredito que seja por isso que encaixamos tão bem: ela é o que eu não sou, mas gostaria de ser. Nutro essa admiração profunda por tudo o que a Lu consegue ser e que, para mim, é simplesmente impossível. Por tudo o que ela é, ela está sempre me revelando uma face do mundo que, por mim mesmo, seria inacessível.

Assim, quando fui obrigado a mudar de trabalho, para ela foi ótimo, mas, para mim, foi apenas resignável. Não vou negar que gostei muito no início da minha nova função, pois era uma solução para permanecer mais tempo por aqui depois de toda a crise pela qual passei. Entretanto, passados três anos, olho para trás e sinto saudade do que não posso ter mais.

A falta de desejo pelo trabalho é um parágrafo no roteiro da “rat race”. Ela expressa a insatisfação que sentimos quando comparamos o que idealizávamos aos 20 anos de idade com aquilo que temos agora. “Valeu a pena? As escolhas que fizemos, do que abrimos mão pelo caminho, o que sacrificamos e deixamos de fazer?”, pergunta o ratinho na roda a girar.

Há um abismo entre o sonho pelo qual lutamos e a vida que realmente vivemos. Ao lado da falta de desejo pelo trabalho, encontramos outros dois itens: 1) começamos a perceber que outros homens recomeçaram suas vidas aos 40, chutando o balde e mandando a “rat race” às favas (estes homens tornam-se nossos heróis!); e 2) muitos se dão conta que, depois de todo esforço de vida que tiveram até aqui, sequer conseguiram ainda a tão sonhada “segurança material”... Mas estes já são assuntos para um outro post!

(Esta série de artigos sobre o "Cristão e a Crise dos 40" foi escrita há mais de 2 anos, mas não havia sido publicada até agora). 

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Eu quero explodir uma bomba – o Cristão e a Crise dos 40 (II)

Uma das aplicações que encontrei para expressão "a rat race" é também política. Ainda que política, violência e CIA pouco pareçam ter em comum com a crise que um quarentão possa passar, a verdade revela-se exatamente o oposto disso.

No fundo, bem lá no fundo (mas subindo numa velocidade vertiginosa rumo à superfície), parece que há um elemento comum que agirá no interior de quase todos os homens que se veem numa "rat race". Ainda não sei bem explicar o que seja esse elemento, mas, enquanto escrevo este post, sinto-me acometido por uma vontade quase incontrolável de EXPLODIR UMA BOMBA!

"Explodir uma bomba" é um dos sintomas que caracterizam a crise de quem se encontra nessa rodinha e se vê preso nela, tentando pular fora ou pará-la de alguma maneira. Explodir uma bomba seria uma espécie de reação, uma vingança seguida por um sorrisinho maldoso contra todos aqueles que contribuíram para que a rat race viesse a nos assaltar de surpresa. É aquela vontade, dizendo em linguagem popular, de jogar m*... no ventilador e, calmamente, sentar no assoalho da vida para ver tudo respingar na cara dos hipócritas!

Esse sentimento nasce evidentemente pela avaliação feita na meia-idade. Avalia-se as feridas e marcas abertas, cicatrizes feitas por pessoas em quem, um dia, confiamos. Aliás, como li certa vez, traição só é traição por ser perpetrada por amigos...

Seguindo a linha do parágrafo anterior, estive bem perto de alguém que "explodiu uma bomba"! Decepcionado por confiar numa liderança que falava muito, vivia de propaganda e que, na verdade, colocou-o numa grande enrascada, ele, finalmente, saiu. "Sair" é uma possibilidade aos incomodados. Quando não queremos causar escândalo jogando a m*... no ventilador, cabe a opção de mudarmos de mãos, mãos nas quais outrora nos colocamos, mas que revelaram sua total incompetência em guiar-nos.

No meio cristão, isto é mais complicado ainda, seja explodir uma bomba ou sair, quaisquer alternativas são dolorosas. Principalmente, quando os vilões da história são admirados por tantos que só os conhecem via propaganda e marketing ou nas fotos simpáticas que estes postam no facebook. Em situações assim, é muito provável que a parte mais fraca é que saia arranhada, machucada, mal falada e, como certa vez eu mesmo ouvi, "o que vão dizer se você desiste no primeiro obstáculo que aparece?". Quem me disse isso, revelou-me que nada sabia a meu respeito...

Bem, meu amigo saiu... Mas e eu? Explodirei uma bomba ou, simplesmente, sairei em levíssimos passos de bailarina? Eis a crise dos 40!

CUIDADO! Nunca subestime um homem com 40! rsrs

(Esta série de artigos sobre o "Cristão e a Crise dos 40" foi escrita há mais de 2 anos, mas não havia sido publicada até agora).

Leia também o 1º artigo desta série: 

Segue abaixo a tradução da música do Bob Marley, Rat race. Música de protesto contra a política americana de intervenção na Jamaica.

Ah! muito violento
Oh, que corrida de ratos
Oh, que corrida de ratos
Oh, que corrida de ratos
Esta é a corrida dos ratos


Alguns para o bem, outros bastardos, alguns mascarados
Oh, que corrida de ratos, corrida de ratos


Alguns monstruosos, alguns bandidos, alguns provocadores
Nesta corrida de ratos, sim!
Corrida de ratos
Estou cantando
Quando o gato não está
Os ratos dançam
A violência  política enche a cidade
Sim!
Não envolvam os rastas nessas suas falações
Os rastas não trabalham para a C. I. A
Corrida de ratos, corrida de ratos, corrida de ratos
Quando pensam que é tudo paz e segurança
Vem uma repentina destruição
Segurança coletiva, que certeza?
Sim!


Não esqueçam a sua história
Conheçam seu destino
Quando a água é abundante
O estúpido morre de sede
Corrida de ratos, corrida de ratos, corrida de ratos

Oh, é uma desgraça ver a raça
Humana em uma corrida de ratos, corrida de ratos
Tem a corrida dos cavalos
Tem a corrida dos cães
Tem a corrida dos homens
Mas esta é uma corrida de ratos, corrida de ratos

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A rat race - o Cristão e a Crise dos 40 (I)

Cheguei! Como cheguei até aqui? Talvez a crise tenha sido deflagrada numa caminhada que fiz há uns dois anos...* Para ser mais exato, a fatídica caminhada deu-se em julho de 2011, quando, pela primeira vez, fui assaltado pela consciência da minha finitude: era o fim da minha eterna juventude!

Naquela esteira da academia, passo a passo, doeu-me o coração como se uma faca estivesse rasgando-o por dentro. A dor foi lancinante. Parei. Fui ao médico para descobrir que tudo era um simples caso de arritmia causada pelo stress. “Stress?!”, surpreendeu-se a médica. “Nunca imaginei que na sua profissão haveria tanta pressão”, disse-me espantada, já sabendo ela qual era o meu trabalho.

“Pensei que as pessoas fossem do bem na sua profissão”, continuou ela. “Pensei que vocês fossem seres abnegados, irmãos em Cristo, cheios da glória do Senhor, repletos de amor uns para com os outros”... Enquanto ela ia desconstruindo seus mitos, eu pensava: “Eu também acreditava assim...”!

O fato é que a minha arritmia havia sido causada pela ansiedade – uma crise de ansiedade. Naquela esteira, imagino ter começado a minha crise dos 40 e já sei que ela deverá continuar ainda por uns outros dois pares de anos.

“Xiii, você vai ver quando chegar aos 44!”, disse-me meu primo, com ar de quem sabe muito bem que o pior ainda está por vir (ele acabou de completar 49). Não vou entrar em detalhes sobre o que originou aquela ansiedade toda (um dia, se Deus quiser, escreverei sobre aqueles eventos)!

Todavia, como consequência daquele momento, vi que o meu corpo não seguiria mais tão facilmente quaisquer aventuras que lhe propusesse – minha mente sim, mas meu corpo havia dado o sinal de alerta. A partir dali, pequenas, pequeninas coisinhas foram se alojando e dando forma à ansiedade sem que eu soubesse e nem me desse conta de que, na verdade, eram parágrafos num roteiro pré-determinado: a minha “rat race”!

“A rat race” é uma expressão criada para tentar traduzir o que alguns homens sentem ao chegar à casa dos 40. É uma metáfora, uma metáfora mórbida: ela remete ao ratinho branco de laboratório que fica girando sem parar naquela rodinha sem nunca sair do lugar, sem jamais chegar a lugar algum!...

"A rat race" também se aplica à corrida maluca e desenfreada das pessoas em busca de dinheiro. Neste último contexto, criticamente, aplica-se à desumanização do homem, ao mundo violento e as politicagens que fazem da raça dos homens uma raça de ratos... (vou postar uma música sobre isso depois).

Principalmente neste ano, li muito a respeito dessa tal crise dos 40 e posso afirmar que ela é cultural. Em outras palavras, a crise dos 40 é semelhante à minha crise de ansiedade - é um problema criado (ou que criaram para cima de mim)!

Não é que não seja um problema real, mas é algo assim psicossomático... Não há um agente definido (um vírus, uma bactéria, um vício, um psicopata que seja, a quem possamos responsabilizar), mas há uma complexa rede de fatores que contribuíram para que as coisas chegassem no ponto que chegaram. É uma crise criada culturalmente por nossa sociedade ocidental (parece que asiáticos e outros do lado de lá desconhecem “a tal crise”).

Realmente, depois de ler muito sobre o assunto e assistir a muitos filmes interessantes sobre o tema, preciso concordar que nossa cultura ocidental criou todas as condições necessárias para que muitos de nós viéssemos a nos ver presos nessa rodinha ou nos sentíssemos como ratinhos nas mãos de alguma criança sádica (lembram da Felícia?).

É sobre isso que quero compartilhar. Quem sabe outros não estejam passando silenciosamente por tudo isso também, enquanto suas esposas assustadas ficam sem saber como ajudar seus cônjuges em crise. É bem verdade que nem todos os itens desse roteiro se manifestaram em mim (ainda), mas os que se alojaram só me mostram que o que estou vivendo, há mais ou menos dois anos, está apenas começando... e, como meu primo já deixou claro, “o pior ainda está por vir”!

Então só posso terminar este 1º post desta série dedicada aos meus leitores quarentões (ou às esposas deles), dizendo a todos que estão comigo nesta mesma rodinha: “Bem vindo aos 40!”

* Esta série de artigos sobre o "Cristão e a Crise dos 40" foi escrita há mais de 2 anos, mas não havia sido publicada até agora. 
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