Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sábado, 31 de janeiro de 2015

Mais uma vez, Lucila!

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Lucille (B.B. King)



O som que você está ouvindo é da minha guitarra que é chamada Lucila.  

Eu sou muito louco por Lucila.
Lucila me tirou da fazenda. 
Oh, você poderia dizer que ela me trouxe fama. 

Eu não acho que eu poderia falar o suficiente sobre Lucila.
Às vezes, quando estou triste, parece que Lucila tenta me ajudar chamando pelo meu nome. Eu costumava cantar spirituals e eu pensei que esta era coisa que eu mais queria fazer. Mas de uma forma ou de outra, quando eu fui para o exército, eu peguei Lucila e comecei a cantar blues. Bem, agora, quando eu estou pagando minhas contas, talvez você não saiba o que eu quero dizer quando digo "pagar dívidas", quero dizer que as coisas estão ruins comigo. 

Eu sempre posso, eu posso sempre,você sabe como, depender da Lucila. 

É meio difícil falar com você mesmo.
Acho que vou deixar Lucila dizer algumas palavras agora...

Você sabe, eu duvido que você possa sentir como eu sinto. 

Mas quando eu penso sobre as coisas que eu já passei,como, bem, por exemplo, se eu tiver uma namorada e ela me maltratar, eu vou para casa à noite, talvez eu esteja solitário, não bem, talvez, eu estou sozinho, eu vou pegar Lucila e trazer os sons engraçados que soam bem para mim, você sabe.  
Às vezes, eu chego ao lugar onde eu posso até não dizer nada.

Preste atenção! Às vezes eu acho que ela está chorando...

Você sabe, se eu pudesse cantar músicas pop como Frank Sinatra ou Sammy Davis Junior, eu não acho que eu ainda possa fazer isso, porque Lucila não quer tocar nada diferente, só o blues. Eu acho que eu sou, eu acho que sou muito feliz com Lucila. 

Porque ninguém canta para mim como Lucila.

Canta, Lucila!

Bem, vou colocá-la assim. Pega leve, Lucila. 

Eu gosto da maneira como Sammy canta e eu gosto da maneira como Frank canta, mas posso conseguir um pouco de Frank, Sammy, um pouco Ray Charles, na verdade gosto de todas as pessoas com alma.

Um pouco Mahalia Jackson lá.

Mais uma vez, Lucila!

Acalme-se agora.

Você sabe, eu imagino que tem um monte de coisa que você quer saber, um monte de coisas que você quer saber: por que eu chamo de Lucila a minha guitarra? 

Lucila praticamente salvou minha vida duas ou três vezes.  

Não estou brincando, ela realmente fez isso. Lembro que uma vez eu estava em um acidente automobilístico, e quando o carro parou de girar, eu caí em cima de Lucila e ela me segurou, realmente, ela me segurou quando caí em cima dela e aí eu saí fora do carro. Então essa foi uma vez que ela salvou minha vida.

O jeito, o jeito que me veio o nome de Lucila? 

Eu estava em Twist, Arkansas, eu sei que você nunca ouviu falar, não é? 

E numa noite, os caras começaram uma pancada lá, você sabe, eles começaram uma briga, você sabe o que eu quero dizer. E o cara que estava louco com a sua velha senhora, quando ela caiu sobre o tanque de gás que estava queimando de quente, o gás correu por todo o chão. E quando o gás correu por todo o chão, o edifício pegou fogo, e quase me queimou, porque eu estava tentando salvar Lucila. Oh, eu imagino que você ainda está se perguntando por que eu a chamo de Lucila: a senhora que começou a briga naquela noite o nome dela era Lucila. E assim tem sido desde então, Lucila para mim.

Mais um agora, Lucila. 
Soa muito gostoso para mim. Posso fazer mais uma?

Olhe, Lucila. 
Soa muito gostoso para mim. Acho que vou tentar mais uma. 

domingo, 18 de janeiro de 2015

Literatura erótica e os contos de fada modernos (Letícia Maria Barbano)

Letícia Maria Barbano
Em termos de literatura, o assunto mais comentado nas últimas semanas pela mídia e principalmente pelo público feminino é a estreia do filme 50 Tons de Cinza, inspirado no primeiro livro da trilogia de E. L. James. Escondidas dos pais, filhos, marido, patrão e até dos amigos, mulheres na faixa dos 15 aos 40 anos se envolveram com o romance sensual entre Anastasia Steele e Christian Grey. Em meio a críticas e elogios, ficam duas perguntas: por que as mulheres tanto gostaram de 50 Tons? Quão interessante é a literatura erótica hoje para a mulher moderna?
Anastasia é jovem, delicada, inteligente e bonita. Apaixona-se pelo milionário Christian e, correspondida, vive um romance intenso. A carga moderna fica pela forma como a relação sexual é adicionada ao livro: o casal – e, consequentemente, o leitor – respira sexo durante toda a trama. É como se os contos de fadas de outrora fossem revestidos com uma capa adulta. O problema é que esta capa adulta impede o leitor de enxergar o que realmente deve ser o mote de uma obra literária sobre o amor: a essência do ser amado.
Uma famosa escritora inglesa, Jane Austen, escreveu diversos contos de fada “modernos”, captando a essência do amor entre um homem e uma mulher. Em sua obra mais famosa, Orgulho e Preconceito, cuja história é a de um jovem rico e presunçoso que se apaixona por uma moça de classe inferior e orgulhosa, Jane propõe diversos questionamentos nos entremeios da trama: é o amor racional ou irracional? Pode o amor surgir entre pessoas tão diferentes entre si? Shakespeare, no clássico Romeu e Julieta, discute a eternidade e a intensidade de um amor fresco e jovem. Clarice Lispector, sempre cortante em suas palavras, descreve em seus diversos contos e livros a profundidade, contrariedade e complexidade de se amar e ser amado. Tais autores, e outros tantos aqui não citados, tratam da mulher que ama e é amada em seu todo, por sua alma, além de seu corpo.
Ao preferir o erotismo literário, o leitor escolhe, por consequência, reduzir o amor a mero prazer passageiro e desordenado. Escolhe se deleitar e absorver apenas uma das consequências do amor, e não o sentimento por inteiro. A dignidade humana é restringida a sensações primárias de estímulo e resposta sexual, como se o indivíduo fosse um mero animal. Séculos de reflexões sobre a complexidade do amor são diminuídos em momentos íntimos de relações sexuais. Precisamos mesmo desse tipo de literatura?
50 Tons de Cinza atrai tantos leitores – principalmente mulheres – porque aborda um romance. O respeito e a dignidade da mulher conquistados ao longo dos séculos são desmoralizados quando esta é colocada na literatura erótica como artefato de prazer para o homem. Não, a mulher moderna não precisa de livros eróticos. A mulher moderna necessita ser compreendida e amada. E isso apenas uma moral elevada, muitas vezes representada em boas histórias, pode ensinar.
Letícia Maria Barbano é apresentadora do programa Modéstia&Pudor da WebRádio Vox (www.radiovox.org) e colaboradora do Instituto de Formação e Educação (IFE) em São Carlos (SP).

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

O mercado do narcisismo (Luis Felipe Pondé)

Uma nova geração de seres humanos parece estar chegando. Alguns arriscam chamar de "novos jovens". 

Uma geração que não sofre das fraquezas comuns dos mortais. No terreno dos afetos, ciúmes e inseguranças comuns no mundo romântico, eles parecem ter resolvido um drama muito antigo que é o medo de não ser amado. 

Desde a separação da atriz Gwyneth Paltrow e seu ex-marido Coldplay no ano passado e suas declarações no Facebook de que "agora" a família deles estava melhor e que eles não sofreram com o fim do casamento, uma enxurrada de casais bem resolvidos desfilam na passarela. Nós, os miseráveis ultrapassados, que não sabemos o que fazer com nossas inseguranças, babamos de inveja desta geração de bem nascidos sem ciúmes. 

Eu, que desconfio de todo mundo bem resolvido, não engulo esse papinho furado típico do marketing de comportamento. Não creio no avanço moral da humanidade, duvido dessas declarações felizes. Mas, se são falsas, de onde elas saem? 

Fácil de adivinhar: saem do velho e bom narcisismo contemporâneo. Esta cultura, baseada no fracasso do investimento na prole e em vínculos duradouros, cai bem num mundo de gente bem resolvida. Existem até psicoterapeutas e psicanalistas que começam a abraçar a causa da cultura do narcisismo afirmando que narcisistas são melhor adaptados ao mundo contemporâneo porque não sofrem dos sofrimentos imaginários dos neuróticos que idealizam o amor. 

Isso mesmo, um desses dias a psicanálise, que tanto resistiu às baboseiras do século 20, tombará sob o peso do mercado do narcisismo.

O mercado do narcisismo, além de investir em apartamentos singles com um parque de diversão na área social, vende, basicamente, estilos de vida e modas de comportamentos. Essas modas se concentram no cotidiano. Alimentação, lazer, trabalhos sem muito vínculo, relacionamentos solúveis na busca de autoestima. 

A simples ideia de que narcisistas resolvem melhor a vida já demonstra a raiz da hipótese: a solução para a insolúvel vida afetiva é não ter muitos afetos afora aqueles que são autorreferenciais. Todo mundo muito bonitinho na fita, se roendo por dentro, mas vendendo a pose de que é uma geração de evoluídos. 

A tese segundo a qual esse comportamento seria uma evolução psíquica nasce, ao final, da aceitação de uma certa vertente do pensamento pós-moderno. Esta tese pressupõe que, terapeutas, ao supor que pessoas "blasés" com relação a solidez dos vínculos são, na realidade, pessoas com pouco amadurecimento psíquico, e, portanto, doentes, fere a natureza essencialmente socio-histórica do ser humano. Complicado? Nem tanto. 

O pensamento pós-moderno tem uma vertente "otimista" segundo a qual tudo é historicamente construído, e, portanto, muda. Nada é perene. Não existe uma "natureza humana" (ponho entre aspas o termo para que os inteligentinhos não venham com suas críticas de Facebook ao conceito de natureza humana) a nos atormentar desde as trevas da ancestralidade. Tudo muda, basta você mudar sua alimentação ou forma de se locomover na cidade. Um novo estilo de se vestir gera toda um processo de evolução anímica. 

Seguindo este raciocínio, supor que o "normal" seria as pessoas buscarem relacionamentos perenes (e que aqueles que não o fazem seriam, portanto, imaturos) é ser anacrônico e fazer demandas atávicas para jovens que superaram a necessidade desses mesmos relacionamentos mais consistentes. 

Não é à toa que um comportamento light como esse é, normalmente, acompanhado de baixa fertilidade (por escolha ou mesmo por causas psicossomáticas). Filhos demandam uma certa perenidade e bastante generosidade. Características pouco comuns em narcisistas. 

Agora, se você tem um paciente que parece um zumbi alegre na vida afetiva, não assuma que ele deveria ser diferente. Assuma que você é um ultrapassado e que pessoas pós-modernas podem ser bem resolvidas e não precisam de afeto como você. Por isso, elas são tão bonitinhas o tempo todo em eventos culturais por aí. Flanam pelo mundo livremente porque (quase) ninguém depende delas. Fofos e velozes.
 
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