Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

A TAL CRISE DA MEIA-IDADE (CARLA RODRIGUES)

Existem os clichês mais óbvios: o cara que compra, não necessariamente nessa ordem, uma mulher mais jovem, um carro esporte conversível, e uma jaqueta de couro. Ou a mulher que faz plástica peito/barriga, lifting no rosto e sai por aí se comportando como quem tem 17 anos. O fato é que todos nós, em algum momento entre os 35 e os 50 anos, passamos pela tal crise da meia idade.

De uma amiga muito querida recebi o texto abaixo, que relata a conversa de duas grandes amigas sobre como enfrentar essa passagem da vida em que tudo que até ontem fazia o maior sentido, de repente torna-se tão estranho a nós.

Para ler e reler todas as vezes que baterem as dúvidas da tal da crise da meia idade – ou seja, sempre.

Tenho uma amiga querida. Um “muito querida” que é inversamente proporcional ao nosso convívio. Acho que no último ano encontramos, no máximo, umas duas vezes. A isso se acrescem emails esporádicos e curtos. Ressalvadas poucas exceções de visitas que duraram mais tempo, sempre foi assim. E não nos conhecemos sequer há uma década. Nada pode explicar, pois, como alguém com quem convivi tão pouco tenha importância fundamental em escolhas e entendimentos centrais da minha vida.

Foi ela que me explicou que as dívidas contraídas aos 30 anos, com a balança, com o coração e com a vida, integrariam uma fatura com início de vencimento aos 45. Segundo ela, a minha geração estava se endividando alto, rápido e demais. O risco de amargar antes da hora era significativo, principalmente para as mulheres. Hoje, ainda há uma distância segura dos 40, olho para o lado e já vejo muitas de nós azedando. Amargura e chatice: faturas vencendo antecipadamente, creio eu.

Pois foi essa mesma amiga quem me contou a respeito da “crise dos 40” que pode chegar aos 37 ou apenas aos 45, não importa. O fato é que chegará em algum ponto dessas imediações. Confesso que nunca acreditei em frases que começam com: “As mulheres são …”, “As pessoas, quando fazem 40 anos…”, “Os europeus preferem…”. Depois de ler Derrida, indicado e explicado por ela, não acho que existam “as mulheres”, “os quarentões”, nem “os europeus”. Existe Maria; uma mulher, diferente de todas as outras. Existe João; um quarentão único. E existe Manoel, um português, que é europeu e casado e médico e chato e ótimo pai e que amanhã pode resolver virar uma drag queen. Ninguém pode ser aprisionado em uma categoria imutável. Daí a minha implicância com a tal “crise dos 40”. Quem é que falou que todas as pessoas, tão únicas, devem passar por um mesmo processo universal ao atingir certa idade?

A coisa começou a melhorar quando entendi que, na verdade, o processo não é o mesmo. Ele, à obviedade, é singular na história de cada indivíduo. Mas há um fundamento em comum à tal crise. Fundamento que, se nos pega desprevenidos, traz consigo o germe de uma energia desagregadora que pode ser fatal aos rumos da vida.

Para acreditar que pode, sim, haver algo em comum a tantas vidas e situações diferentes, comecei a prestar atenção nas pessoas com 50 anos ou mais. Descobri que todas, em algum momento entre 38 e 45 surtaram com algo. Uma delas largou um emprego confortável e maravilhoso em um escritório e foi, literalmente, vender pulseirinha na Praia de Porto Seguro com uma nova paixão hippie que tinha acabado de conhecer.

A outra começou a correr 30 quilômetros por dia, colocou piercing, fez 03 (três) tatuagens, comprou micro-mini-saias e foi obrigada a escutar da filha adolescente: “Mãe, estou com medo da senhora regredir para antes dos 15 anos…”

Teve o cara que terminou o casamento com uma mulher que amava e com quem havia construído 20 anos de uma história maravilhosa, para se juntar com uma biscate do trabalho, que terminou lhe tirando tudo.

O outro, desesperado porque estava solteiro, viu-se louco para ser pai; engravidou uma ficante quase desconhecida e descobriu no meio da gravidez que a felicidade pode não morar ao lado.

Alguns apaixonaram-se pelo personal ou pela estagiária com quem não tinham qualquer afinidade, enquanto terceiros mergulharam em estranhas relações de trabalho, de afeto ou familiares.

Boa parte não recuperou o prumo da vida. É que, nesses casos, as pisadas de bola tinham sido fenomenais e sem qualquer saída de emergência planejada com um mínimo de cuidado e antecedência.

Havia mesmo algo de extremo e não habitual nas ações de pessoas até então razoáveis e que, subitamente, atolaram suas vidas em coisas que pareciam vindas de ímpetos incontroláveis. E não falo do incômodo que nos faz mudar para estarmos mais próximos de quem de fato somos e apenas em um específico momento nos descobrimos. Não estou me referindo a esse tipo de reconstrução necessária e desejada. Falo de coisa diferente.

Refiro-me a bombas que aparecem do nada e que escolhemos detonar. Sabemos, ou não, que é bomba. Sabemos, ou não, que vai explodir. Muitas vezes sequer estamos certos que queremos a explosão, já que não pensamos direito sobre ela. Mas não conseguimos controlar. É uma angústia tão grande que nos domina ao ponto de puxarmos o gatilho e deixarmos a destruição alcançar o que está ao redor. Restam os estilhaços para seguir.

Foi minha sábia amiga que explicou o desespero que subjaz a tanta insanidade. “Aos 40, querida, descobrimos que vamos morrer. Do desespero da morte vem a força que move tanta insensatez.” E eu, com ar desconfiado:

– Mas sabemos da morte desde que nos tornamos capazes de entender o seu significado, ué!

– Sabemos. Mas só teoricamente. Aos 40, cada célula do nosso corpo descobre disso. Olhamos para trás e, pelo retrovisor, vemos tudo o que aconteceu, tão diferente do planejado. Descobrimos que não dá tempo mais de muita coisa. O corpo envelheceu. Estamos mais velhos, um tanto caídos e sem “a vida toda pela frente” como acreditamos ter aos 20. Não. Agora, metade da vida já se foi. E, provavelmente, não do jeito como sonhamos, desejamos, planejamos. Na maior parte das vezes, jamais sonhamos chegar aos 40 daquele jeito. Falta muito para atingir a meta básica. Mesmo que não falte muito, o pouco faltante incomoda demais. O pior é que o inconsciente se dá conta, de uma hora para outra, que não somos eternos. Mas não é “não somos eternos” como uma frase teórica qualquer. É “eu vou morrer! E sem fazer nem metade do que desejo para mim…”

Parei para pensar e vi que talvez fosse isso mesmo. Boa parte dos meus amigos entrava na fase de pensar: “Como é que eu vim parar aqui?” E começavam a se mover para sair do lugar atual.

Desajeitados, abruptos e, alguns, enlouquecidos. Plásticas, traições, álcool, casamentos-relâmpago, filhos, tudo pipocando vindo de todos os lugares, nem sempre de um modo equilibrado. Em alguns casos, vislumbrei desespero de dar pena. Foi quando olhei para ela com aquela cara apavorada de interrogação, como quem pergunta se há uma saída para escapar disso.

– Concentre-se em não ficar doida. Pense que uma besteira que você faz aos 20, é possível recuperar aos 30, com todo o vigor. Uma bobagem feita aos 30, dá para recuperar aos 40 com certo esforço. Mas uma insanidade grande demais aos 40 não é tão facilmente recuperável aos 50, quando as forças já não estarão mais no auge. Se você arrumar um filho de um doido aos 40, como se livrar do maluco daí há uma década, com um filho entrando na adolescência, e ainda ter tempo para os seus sonhos? Como aos 50 anos, depois de largar o emprego feito adolescente, você consegue reinserir-se na carreira, na época em que a maioria dos colegas já está mais para a aposentadoria do que para recomeços profissionais?

Eu permanecia lá, escutando, com aquela cara de: “Como? Como? Comooooo?”

– Veja, não é que seja impossível. Mas é difícil. Aliás, besteiras inomináveis aos 40 fazem a sua vida significativamente mais difícil daí em diante. Portanto, quando o turbilhão vier, durma sobre os ímpetos. Os sentimentos serão como bombas explodindo. Até aí, tudo bem. Mas cuidado, muito cuidado com suas ações. Acolha o pavor de envelhecer. Não negue o susto de ver o próprio corpo começando a decair, mas não deixe que isso se transforme em um horror. Aceite que o seu emprego, o seu salário, os seus colegas podem não ser os sonhados, mas valorize um pouco a história que a levou até ali. Pense em transições lentas, sem grandes cortes brutais. Pense no futuro que deseja e nas ações para chegar lá. Jamais seja covarde. Mude o que desejar. Sonhe, ame, escolha, realize. Mas com calma. Concentre-se em não enlouquecer. Cautela e muita canja de galinha antes de cada passo, por favor. E não se esqueça que há vida e mudanças possíveis até o fim. O mundo, realmente, não vai acabar amanhã.



Desde então, esse tem sido meu mantra. Não é que uma lipoaspiração tenha deixado de parecer a solução perfeita para a maioria dos meus problemas. Mas, por hora, se não o juízo, as ações estão em ordem. E melhor que isso: de repente, me dei conta que não precisava guardar tão incrível descoberta para mim. Então, está aí, dividido. Que possamos mudar e permanecer ao viver, sem enlouquecer. Esse, o meu convite.

FONTE

Leia também:

Nossos pais – o Cristão e a Crise dos 40 (IV)

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...