Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sábado, 7 de novembro de 2015

Valeu a pena? – o Cristão e a Crise dos 40 (III)

Além dessa vontade doida de explodir uma bomba, li que um dos parágrafos deste roteiro da “rat race” é a falta do desejo pelo trabalho. Mas também não poderia ser diferente: imagine aquele ratinho de laboratório rodando sem parar naquela rodinha! Gira, gira, gira... Não sai do lugar e nem chega a lugar algum! Quem não enlouquece com isso? Em tempo de minorias, será que ninguém pensou ainda em defender os direitos dos ratinhos de laboratório?

Se eu perdi o desejo pelo meu trabalho?... Sim, aconteceu comigo também. Desde aquela crise de ansiedade que me acometeu (narrada no primeiro post), para sobreviver, tive que mudar o foco do meu trabalho. Em outras palavras, preparei-me durante anos para fazer uma coisa e, de repente, fui-me pego tendo que fazer outra. Talvez seja que eu antes trabalhasse numa “rodinha de rato” (pelo menos essa era a sensação da minha esposa), mas, sinceramente, eu gostava. Trabalhava com tradução e este é um trabalho que exige tempo, paciência e, principalmente (e o que eu mais gostava), exigia estudo, muito estudo. Gosto de estudar línguas. Gosto do funcionamento das gramáticas e, por isso mesmo, gostava muito do meu trabalho.

A Lu ficava cismada, pois somos muito diferentes neste ponto: ela é prática, eu sou teórico. Ela quer aqui e agora, eu sou projetos. Ela precisa ter algo nas mãos, eu preciso ter algo na mente. Ao mesmo tempo, acredito que seja por isso que encaixamos tão bem: ela é o que eu não sou, mas gostaria de ser. Nutro essa admiração profunda por tudo o que a Lu consegue ser e que, para mim, é simplesmente impossível. Por tudo o que ela é, ela está sempre me revelando uma face do mundo que, por mim mesmo, seria inacessível.

Assim, quando fui obrigado a mudar de trabalho, para ela foi ótimo, mas, para mim, foi apenas resignável. Não vou negar que gostei muito no início da minha nova função, pois era uma solução para permanecer mais tempo por aqui depois de toda a crise pela qual passei. Entretanto, passados três anos, olho para trás e sinto saudade do que não posso ter mais.

A falta de desejo pelo trabalho é um parágrafo no roteiro da “rat race”. Ela expressa a insatisfação que sentimos quando comparamos o que idealizávamos aos 20 anos de idade com aquilo que temos agora. “Valeu a pena? As escolhas que fizemos, do que abrimos mão pelo caminho, o que sacrificamos e deixamos de fazer?”, pergunta o ratinho na roda a girar.

Há um abismo entre o sonho pelo qual lutamos e a vida que realmente vivemos. Ao lado da falta de desejo pelo trabalho, encontramos outros dois itens: 1) começamos a perceber que outros homens recomeçaram suas vidas aos 40, chutando o balde e mandando a “rat race” às favas (estes homens tornam-se nossos heróis!); e 2) muitos se dão conta que, depois de todo esforço de vida que tiveram até aqui, sequer conseguiram ainda a tão sonhada “segurança material”... Mas estes já são assuntos para um outro post!

(Esta série de artigos sobre o "Cristão e a Crise dos 40" foi escrita há mais de 2 anos, mas não havia sido publicada até agora). 

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