Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A rat race - o Cristão e a Crise dos 40 (I)

Cheguei! Como cheguei até aqui? Talvez a crise tenha sido deflagrada numa caminhada que fiz há uns dois anos...* Para ser mais exato, a fatídica caminhada deu-se em julho de 2011, quando, pela primeira vez, fui assaltado pela consciência da minha finitude: era o fim da minha eterna juventude!

Naquela esteira da academia, passo a passo, doeu-me o coração como se uma faca estivesse rasgando-o por dentro. A dor foi lancinante. Parei. Fui ao médico para descobrir que tudo era um simples caso de arritmia causada pelo stress. “Stress?!”, surpreendeu-se a médica. “Nunca imaginei que na sua profissão haveria tanta pressão”, disse-me espantada, já sabendo ela qual era o meu trabalho.

“Pensei que as pessoas fossem do bem na sua profissão”, continuou ela. “Pensei que vocês fossem seres abnegados, irmãos em Cristo, cheios da glória do Senhor, repletos de amor uns para com os outros”... Enquanto ela ia desconstruindo seus mitos, eu pensava: “Eu também acreditava assim...”!

O fato é que a minha arritmia havia sido causada pela ansiedade – uma crise de ansiedade. Naquela esteira, imagino ter começado a minha crise dos 40 e já sei que ela deverá continuar ainda por uns outros dois pares de anos.

“Xiii, você vai ver quando chegar aos 44!”, disse-me meu primo, com ar de quem sabe muito bem que o pior ainda está por vir (ele acabou de completar 49). Não vou entrar em detalhes sobre o que originou aquela ansiedade toda (um dia, se Deus quiser, escreverei sobre aqueles eventos)!

Todavia, como consequência daquele momento, vi que o meu corpo não seguiria mais tão facilmente quaisquer aventuras que lhe propusesse – minha mente sim, mas meu corpo havia dado o sinal de alerta. A partir dali, pequenas, pequeninas coisinhas foram se alojando e dando forma à ansiedade sem que eu soubesse e nem me desse conta de que, na verdade, eram parágrafos num roteiro pré-determinado: a minha “rat race”!

“A rat race” é uma expressão criada para tentar traduzir o que alguns homens sentem ao chegar à casa dos 40. É uma metáfora, uma metáfora mórbida: ela remete ao ratinho branco de laboratório que fica girando sem parar naquela rodinha sem nunca sair do lugar, sem jamais chegar a lugar algum!...

"A rat race" também se aplica à corrida maluca e desenfreada das pessoas em busca de dinheiro. Neste último contexto, criticamente, aplica-se à desumanização do homem, ao mundo violento e as politicagens que fazem da raça dos homens uma raça de ratos... (vou postar uma música sobre isso depois).

Principalmente neste ano, li muito a respeito dessa tal crise dos 40 e posso afirmar que ela é cultural. Em outras palavras, a crise dos 40 é semelhante à minha crise de ansiedade - é um problema criado (ou que criaram para cima de mim)!

Não é que não seja um problema real, mas é algo assim psicossomático... Não há um agente definido (um vírus, uma bactéria, um vício, um psicopata que seja, a quem possamos responsabilizar), mas há uma complexa rede de fatores que contribuíram para que as coisas chegassem no ponto que chegaram. É uma crise criada culturalmente por nossa sociedade ocidental (parece que asiáticos e outros do lado de lá desconhecem “a tal crise”).

Realmente, depois de ler muito sobre o assunto e assistir a muitos filmes interessantes sobre o tema, preciso concordar que nossa cultura ocidental criou todas as condições necessárias para que muitos de nós viéssemos a nos ver presos nessa rodinha ou nos sentíssemos como ratinhos nas mãos de alguma criança sádica (lembram da Felícia?).

É sobre isso que quero compartilhar. Quem sabe outros não estejam passando silenciosamente por tudo isso também, enquanto suas esposas assustadas ficam sem saber como ajudar seus cônjuges em crise. É bem verdade que nem todos os itens desse roteiro se manifestaram em mim (ainda), mas os que se alojaram só me mostram que o que estou vivendo, há mais ou menos dois anos, está apenas começando... e, como meu primo já deixou claro, “o pior ainda está por vir”!

Então só posso terminar este 1º post desta série dedicada aos meus leitores quarentões (ou às esposas deles), dizendo a todos que estão comigo nesta mesma rodinha: “Bem vindo aos 40!”

* Esta série de artigos sobre o "Cristão e a Crise dos 40" foi escrita há mais de 2 anos, mas não havia sido publicada até agora. 

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