Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sábado, 13 de dezembro de 2014

Eu acredito em fadas (Luciane Hagemeyer) - propedêutica à leitura do Senhor dos Anéis e Divina Comédia (I)


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“Contos de fadas não fazem as crianças acreditarem que monstros existem. As crianças já sabem que eles existem. Contos de fadas fazem as crianças acreditarem que monstros podem ser mortos.”
Gilbert Keith Chesterton
 

Eu gosto muito de epígrafes. Aliás, a palavra epígrafe bem que poderia ser o nome de uma fada, a musa inspiradora, aquela que, uma vez pousando sobre o papel, traz consigo a inspiração necessária para o início do primeiro parágrafo.


Não sei se Gilbert Keith Chesterton acreditava em epígrafes, mas certamente acreditava no poder dos contos de fadas. Nasceu em Londres, no ano de 1874, escreveu diversos ensaios, novelas e histórias curtas. Além disso, inspirou dois grandes autores, verdadeiros mestres do gênero fantasia (ou contos de fadas modernos): C.S. Lewis, autor de as Crônicas de Nárnia e J.R.R. Tolkien, de O Senhor dos Anéis.


Em seu livro Ortodoxia, há todo um capítulo dedicado ao tipo de ética e de filosofia que brotam dos contos de fadas e sobre como estas narrativas nos ensinam a olhar para a vida, sem excluir a razão – ou melhor, a razoabilidade – e ao mesmo tempo conservam a nossa capacidade imaginativa e criadora. Assim, a Lei de Grimm, que não é uma lei, mas sim a magia, funciona segundo a maneira filosófica destes contos, uma vez que tocam o “nervo do velho instinto de admiração”. E nada pode ser mais filosófico do que o fato de maravilhar-se! Portanto, o fascínio dos contos de fadas provém desse espanto, que contraria a lógica cartesiana e determinista.


E aí cabe a pergunta: de onde viria esta disposição para o “maravilhar-se”? Ora, nos contos de fadas, também chamados contos maravilhosos, nunca se pode dizer com plena certeza onde se inicia a fantasia e onde exatamente acaba a realidade.


Além disso a “ética do país das fadas” baseia-se na virtude, uma vez que o “teste de toda a felicidade é a gratidão”. Nestas narrativas tudo depende de um ‘se’, pois as personagens nunca questionam a razão dos fatos se apresentarem desta ou daquela maneira. A virtude e a felicidade estão sempre condicionadas a uma incompreensível condição, como no caso de Cinderela, que deve deixar o castelo antes do soar da meia-noite; de Branca de Neve, que deve resistir ao vermelho vivo da maçã envenenada; ou de Bela Adormecida, que não deve tocar no fuso que a fará dormir por cem anos.


Ainda para Chesterton, o vidro que está presente não apenas no sapatinho de Cinderela, como também em diversos outros contos, é um dos elementos mais simbólicos destas narrativas. Isso me faz lembrar do espelho da madrasta de Branca de Neve e do fragmento que atinge os olhos de Kay, personagem de Hans Christian Andersen em um de seus melhores contos, A Rainha da Neve. Além disso, segundo o Dicionário de Símbolos, o espelho reflete também a verdade, a sinceridade, o conteúdo do coração e da consciência. E aí, voltamos ao que  nos diz Chesterton: “Esse leve resplendor de vidro por toda a parte é a expressão do fato de que a felicidade é radiante, mas frágil.”


Talvez a “magia” e o “maravilhar-se”, que se escondem dentro da palavra “imaginação”, tão presente nos contos de fadas, estejam aí para nos informar sobre o fato, ou melhor, sobre o sentimento que inspira a Chesterton, “de que a vida não é somente um prazer, mas uma espécie de excêntrico privilégio”, um privilégio inexplicável.  E considero que seja desse modo que os contos de fadas nos confrontam eterna e diretamente com as exigências básicas do ser humano e suas possibilidades, pois não apenas se apresentam interligados, como fornecem explicações fundamentais sobre variados aspectos da vida, graciosamente preservadas no lento ruminar da cultura popular.

Assista ao ótimo vídeo abaixo e maravilhe-se com as palavras de Chesterton:


Luciane Hagemeyer
(com  uma gentil contribuição)
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Referências:
CHESTERTON, G.K.Ortodoxia. São Paulo: Mundo Cristão, 2008. CHEVALIER, J. & GHEERBRANT, A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, figuras, formas, números. Rio de Janeiro: José Olympio, 2003.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

De longe, bem de longe, eu também sou bonito! (Charles Swindoll)

Isso é Los Angeles?

A neve caíra havia pouco, cobrindo como um cobertor a cadeia de montanhas na borda nordeste da bacia em que jaz Los Angeles. Dei a primeira olhadela quando guiei para o escritório, nesta manhã de fevereiro. Alguém poderia pensar que estaríamos à beira dos Alpes! Quando cheguei ao alto de uma colina vi-me sorrindo e falando, em voz alta: "que bonito!"

Em geral, a poluição encobre a vista, mas a chuva de ontem à noite lavou o céu, que ficou claríssimo, proporcionando-nos um dia muito raro, em que se pode usufruir a visão da serra recoberta de neve, que cobre agora 700 metros dos picos para baixo. As montanhas são bonitas, vistas à distância de 120 quilômetros.

Ontem, entretanto, a coisa estava diferente; tão diferente como o dia é diferente da noite. Bem cedo, de manhã, Cynthia e eu decidimos desfrutar algumas horas juntos, perto do lago Arrowhead, numa cabana tranquila aninhada numa fenda daquelas montanhas, a cerca de 2.000 metros de altura. As nuvens pareciam um tanto ameaçadoras quando partimos, mas nada que nos deixasse preocupados. Uma caminhada dura, lá pelos 2.000 metros de altura, seria refrescante e revigorante... algo que deveríamos ter feito há muito tempo. Foi assim que empacotamos nossas coisas e partimos. Defrontamo-nos com aquilo que se poderia facilmente chamar de "acredite se qui­ser" — da seção de Seleções do Readers' Digest, mas não vou dar-me ao trabalho de escrever esse artigo. Vou contar-lhe apenas um pouquinho da coisa, visto que o pesadelo como um todo trouxe consigo algumas lições tremendas.

Quando atingimos mais ou menos 1.500 metros de altitude, a estrada estreita (rodovia 18) começou a receber um pozinho branco. A temperatura estava no nível de congelamento, as nuvens grossas, e o vento soprava com força. Poderíamos ter regressado, então — e deveríamos tê-lo feito — mas estávamos a apenas 15 ou 20 minutos de nosso destino. Acelerei, fomos em frente. A "tempestade caprichosa" — como algumas pessoas da vila costumam chamá-la, foi surpreendente para os habitantes de Arrowhead e, devo admiti-lo, aterrorizadora para nós. Foi ficando cada vez mais óbvio que as coisas não iriam melhorar, de modo que resolvemos interromper nosso passeio. Por essa altura, o vento rugia e a neve despencava, em fúria. Desapontados, pusemos as malas no carro e iniciamos uma viagem de que jamais esqueceremos, se partilharmos outros trinta e dois anos juntos, como marido e mulher. Uma breve conversa perseguiu-me como fantasma durante vários quilômetros. Perguntou-me minha esposa, antes de sairmos:

— Não seria melhor comprarmos correntes para as rodas?
— Não. Não vai haver problemas, respondeu o marido.
— Tem certeza? Na volta estaremos descendo a serra, respondeu a esposa.
— Não se preocupe, querida. Sairemos disso bem depressa, mentiu o marido.

Uma hora e meia depois (que nos pareceu mais do que dez anos) chegamos à cidade de San Bernardino. Entre a altitude de 2.000 metros e o nível do mar só Deus e nós sabemos o que aconteceu. Guio carro desde meus quatorze anos. Já me vi nas situações mais incríveis que se possa imaginar — sozinho, ou num carro cheio de crianças, no deserto e nas montanhas, de noite, em silêncio fúnebre, ou sob sol abrasador, em carros tipo esporte ou em carrões possantes, na cidade ou através do continente, sob neblina, ou sob chuva ou saraiva — contudo, jamais passei noventa minutos numa situação de arrepiar os cabelos, em toda a minha vida, como nesta ocasião. Confessei tudo quanto foi pecado — mortal ou venial, de pensamento, palavra ou obra, de omissão ou de comissão — não deixei de confessar um sequer. Usei todo tipo de oração. Reivindiquei todos os versículos que contêm promessas. Você sabia que as pessoas dizem que quem se está afogando vê a própria vida passar-lhe perante os olhos, como um filme? Posso garantir-lhe que o mesmo é verdadeiro quando você desliza à deriva montanha abaixo, numa estrada estreitinha, recoberta de gelo liso, sob o vento, pondo em prática todas as manobras conhecidas na história humana, a fim de evitar uma colisão com outro veículo, bater contra a encosta da montanha... ou precipitar-se no abismo lá embaixo.

Tony Bennett poderá ter deixado seu coração em San Fran­cisco, mas nós deixamos nosso estômago, rins, fígado e bexiga pelo caminho — descendo aquela traiçoeira estrada 18. A barra de direção adquiriu novas marcas de dedos — não estavam lá há dois dias atrás. Se alguém tiver a ousadia de perguntar-me se planejo comprar algumas correntes para rodas, devo advertir por antecipação que vou dar-lhe um murro no nariz. Pode crer, meu caro, que eu aprendi — embora seja teimoso — uma boa lição, para sempre. Toda e qualquer pessoa com sangue de Swindoll terá correntes para pneus. Vou ver se existem correntes para bicicletas e triciclos!

Há outra lição, e essa estará em minha mente cada vez que eu vir uma linda serra recoberta com manto de neve. Pode ser linda à distância mas, quando você se lhe aproxima — chega bem pertinho, o cenário muda totalmente. Por detrás de toda aquela beleza há o frio cortante, os ventos uivantes, a neve cegante, a estrada escorregadia, recoberta de gelo, o medo indisfarçável, os perigos indescritíveis. A distância alimenta nossas fantasias. Toda serra parece mais bonita se vista de uma rua batida de sol a 120 quilômetros de distância. Não é de admirar que os artistas pintem cenários assim, a preços elevadíssimos, paisagens que deixam os admiradores sem fala... a maioria dos quais foi pintada em "estúdios" quentinhos, seguros, bem no centro da cidade! Coloquemos os artistas no banco traseiro de um veículo de quatro rodas, em que se vêm as coisas como um enorme borrão, e onde a sobrevivência é o único objetivo a perseguir e — eu garanto — as telas sairão diferentes.

Há outra lição mais pessoal. À distância, somos todos pessoas bonitas. Bem vestidos, sorridentes, aparência amigável, cultos, sob controle, pacíficos. Mas, que quadro diferente quando alguém chega bem perto e entra em contato conosco!

O que parecia tão plácido é, na verdade, uma mistura: estradas sinuosas que inspiram insegurança o incerteza, ventos enlouquecedores de luxúria, cobiça, auto-indulgência, caminhos de orgulho envernizados e lustrados, recobertos de farta camada de hipocrisia; tudo isso escondido numa nuvem de medo — o medo de ser descoberto. À distância, brilhamos... de perto, ficamos apagados. Se alguns de nós fôssemos colocados juntos, pareceríamos uma serra impressionante. Porém, quando você chega bem perto, à beira dos precipícios sombrios... não somos mais os Alpes.

Estou convencido de que é por essa razão que o Senhor Jesus significa tanto para nós. Ele está intimamente familiarizado com nossas vidas. A escuridão e a luz são a mesma coisa para ele. Nenhum de nós está oculto, diante de seus olhos. Todas as coisas estão abertas e descobertas diante dele: nosso segredo mais escuro, nossa vergonha mais profunda, nosso passado tempestuoso, nossos pensamentos mais malévolos, nossos motivos escondidos, nossa imaginação mais vil... até mesmo nossas tentativas inúteis, vãs, de recobrir toda essa feiura com uma capa de beleza branca de neve. Ele vem perto de nós. Vê tudo. Conhece nossa estrutura. Lembra-se de que somos pó. Acima de tudo, ama-nos, apesar de tudo.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

COMO EDUCAR SEU FILHO DE MODO QUE ELE SE TORNE UM DELINQUENTE (Charles Swindoll)

As regras abaixo foram tiradas de um artigo publicado há anos, pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos.

1. Enquanto seu filho ainda é criança, dê-lhe tudo quanto quiser. Dessa forma, ele vai pensar que o mundo lhe deve um meio de vida, ao atingir a idade adulta.

2. Quando ele contar anedotas indecentes, ou pronunciar palavrões, ria bastante, encoraje-o. Quando for maior, irá dizer coisas "mais engraçadas" ainda, que deixarão você com a cara no chão.

3. Nunca lhe dê qualquer incentivo espiritual. Espere até que ele faça vinte e um anos, e se decida por si mesmo.

4. Evite usar a palavra errado. Ela dará a seu filho um complexo de culpa. Você pode condicioná-lo a crer, mais tarde, quando for preso por roubar um carro, que a sociedade está contra ele, e que ele está sendo perseguido.

5. Guarde as coisas que ele deixa ao léu — vá apanhando livros, sapatos e roupas. Faça tudo por ele, de modo que ele terá experiência quanto a jogar a responsabilidade sobre os outros.

6. Deixe-o ler todo e qualquer material impresso que lhe cair nas mãos... (nunca pense em controlar seus programas de televisão ou internet). Esterilize louças e talheres, mas deixe-o nutrir o espírito com lixo.

7. Brigue com frequência na presença dele. Ele não se surpreenderá quando seu próprio lar desintegrar-se, mais tarde.

8. Satisfaça todos os seus desejos quanto a comida, bebida e conforto. É preciso gratificar-lhe todos os desejos sensuais; a negação pode induzir a frustrações danosas.

9. Dê a seu filho todo o dinheiro que ele quiser. Não permita que ele receba dinheiro em troca de trabalho efetuado. Por que é que ele precisará trabalhar tanto quanto você trabalhou?

10. Defenda-o sempre contra os vizinhos, professores e policiais. Todos estão contra seu filho.

11. Quando ele arranjar encrenca brava, arranje desculpas para você mesmo, dizendo: "jamais consegui alguma coisa dele; já nasceu assim mau."

12. Prepare-se para uma vida cheia de tristezas.


Muito bem, tudo certo... talvez tudo isso seja um bocado sarcástico. Mas, antes de jogar fora a água do banho e o bebê junto com a água, dê mais uma olhada, com atenção. Como estão indo as coisas entre você e seus filhos?
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