Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Desde quando a "sinceridade" me dá o direito de praticar o mal?

CHARLES SWINDOLL
"Ângela Atwood foi uma garota querida, honesta e sincera que — à semelhança de Cristo — morreu pelas coisas em que acreditava."

Essas palavras saíram de fato dos lábios de um padre católico romano, enquanto proferia a apologia de Ângela às pessoas que se haviam reunido na Igreja de São Paulo, do Prospect Park, em Nova Jersey. Visto que os eventos pertinentes à morte de Ângela desapareceram na história sórdida da era radical da América, permita-me refrescar-lhe a memória. Esta jovem pertencia à súcia de seis membros da pesada, que se chamavam a si mesmos "Exército Libertador Simbionês." Ela e seus companheiros foram mortos num violento tiroteio com as autoridades que fazem cumprir a lei, em Los Angeles, nos anos setenta.

"Esta moça sincera estava seguindo uma vocação cristã", disse o padre, visto que ela, à semelhança de Cristo, estava disposta a morrer pelo que ela sinceramente acatava e em que acreditava. Embora fosse uma perigosa meliante, ofensora da lei, fugitiva treinada na horrenda arte de assassinar, a sinceridade de Ângela livrou-a — assim acreditava o padre — da culpa e (acredite se quiser) ligou-a a Cristo.

"Sinceridade" é considerada cartão de crédito internacional de ampla aceitação. Esfregue-o no rosto do Senhor e Senhora Público Ingênuo e a sinceridade será honrada sem questionamento. Não importa quão imensas sejam as dívidas que o usuário possa ter contraído, ou como o cartão tenha sido mal-utilizado, a "sinceridade" apagará toda a suspeita, validará todas as ações. Você nem sequer precisa assinar um recibo comprovante. Basta escrever "Eu sou sincero" no final de cada transação e você se terá tornado mais uma criatura na fila colossal dos que carregam esse cartão, os quais mantêm o mundo na crista da crise. Por alguma razão estranha a justiça dormita, enquanto o juiz e o júri sorriem diante do veredicto final: "Não culpado... inocente, por causa da sinceridade."

Desde quando a "sinceridade" me dá o direito de praticar o mal? Charles Whitman era sincero quando levou sua arma poderosa ao topo da torre de observação da Universidade do Texas e assassinou dezesseis transeuntes inocentes. O jovem terrorista árabe era sincero quando dirigiu um veículo cheio de explosivos por cima das barracas dos fuzileiros navais em Beirut, matando 241 jovens americanos mantenedores da paz. Também era sincero Sirhan Sirhan quando assassinou o se­nador Robert Kennedy... e Adolfo Hitler, quando escreveu Mein-Kampf... e Benedic Arnold, quando traiu seu país às margens do rio Hudson... e Judas, quando vendeu a própria alma por 30 moedas de prata.

Claro que eram sinceros. Mas estavam sinceramente errados. Nenhuma terrível devoção, determinação ou envolvimento sacrificial, ainda que excepcionalmente imensos, dedicados a ações erradas, transformariam tais ações em atos corretos. Gritar mais alto não transforma um argumento fraco em forte. Guiar mais depressa não ajuda quando você está perdido. Acrescentar mais algumas assinaturas não transforma um diploma universitário falso em documento respeitável. E é assim que tampouco a sinceridade consegue desculpar o pecado, não importando de modo algum o que um clérigo bem intencionado, e mal orientado, possa dizer num funeral.

Todavia, será que isso significa que a sinceridade é questionável? Na verdade, não. Seria melhor dizer que o valor da sinceridade depende daquilo que ela representa. Em sua carta aos crentes filipenses, Paulo ora assim:

"E esta é a minha oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda percepção, para que possais discernir as coisas excelentes, para que sejais sinceros, e inculpáveis até ao dia de Cristo" (Filipenses 1:9-10)

Nós, que nos empenhamos numa busca de caráter, devemos permitir que a sinceridade se torne nosso distintivo de excelência, durante todos os nossos dias na terra. Sincero é palavra derivada do latim, significando "sem cera." O termo grego significa "testado ao sol." Entenda, então: os antigos produziam um tipo fino de porcelana que, quando exposta ao calor do forno, fissuras diminutas apareciam. Mercadores desonestos esfregavam cera branca, perolada, por sobre tais fissuras, e as peças eram vendidas como sendo íntegras — a menos que fossem expostas ao sol. Os mercadores honestos marcavam suas peças intactas com as palavras sine cera — "sem cera."

Esta é a sinceridade genuína. Nada de máscara, nada de hipocrisia. Nada de rachaduras recobertas e escondidas. Quando a verdadeira sinceridade fluí de nossa vida, aprovam-se as coisas excelentes — para fazer paráfrase de Paulo. Somos então (e só então) "semelhantes a Cristo."

Quando o sol brilha e nos aquece, e testa nossa vida, a ausência de rachaduras garante a presença da verdade. Você não consegue separar estas duas coisas... não importando quão sincero você seja.

A Busca de Hoje
João 4:23 assegura-nos que nosso Pai procura nossa adoração. Ele anseia por ter "verdadeiros adoradores," não adoradores falsificados... ou hipócritas. Visto que "todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele a quem havemos de prestar contas" (Hebreus 4:13), nem sequer façamos alguma tentativa de fingir. Os verdadeiros adoradores são os que vêm limpos, com rachaduras e tudo. Seja um deles, hoje, quando você se ajoelhar na presença de Deus.


Leia o Salmo 139.

Charles Swindoll

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...