Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sábado, 14 de junho de 2014

Com a couraça ao lombo (Camila Abadie)


Na terça à tarde, Chloe veio empolgada ler essa fábula do Monteiro Lobato para mim. Chama-se "Dois viajantes na Macacolândia", do livro "Fábulas".
"Dois viajantes, transviados do sertão, depois de muito andar alcançam o reino dos macacos. Ai deles! Guardas surgem na fronteira, guardas ferozes que os prendem, que os amarram e os levam à presença de Sua Majestade Simão III.
El-rei examina-os detidamente, com macacal curiosidade, e em seguida os interroga:
- Que tal acharam isto por aqui?
Um dos viajantes, diplomata de profissão, responde sem vacilar:

- Acho que este reino é a oitava maravilha do mundo. Sou viajadíssimo, já andei por Ceca e Meca, mas, palavra de honra, nunca vi gente mais formosa, corte mais brilhante, nem rei de mais nobre porte do que Vossa Majestade.
Simão lambeu-se todo de contentamento e disse para os guardas:
- Soltem-no e deem-lhe um palácio para morar e a mais gentil donzela para esposa. E lavrem incontinênti o decreto de sua nomeação para cavaleiro da mui augusta Ordem da Banana de Ouro.
Assim se fez e, enquanto o faziam, El-rei Simão, risonho ainda, dirigiu a palavra ao segundo viajante:

- E você? Que acha do meu reino?
Este segundo viajante era um homem neurastênico, azedo, amigo da verdade a todo o transe. Tão amigo da verdade que replicou sem demora:
- O que acho? É boa! Acho o que é!...

- E que é que é? - interpelou Simão, fechando o sobrecenho.
- Não é nada. Uma macacalha... Macaco praqui, macaco prali, macaco no trono, macaco no pau...
- Pau nele! - berra furioso o rei, gesticulando como um possesso. - Pau de rachar nesse miserável caluniador...
E o viajante neurastênico, arrastado dali por cem munhecas, entrou numa roda de lenha que o deixou moído por uma semana.

Quem for amigo da verdade, use couraça ao lombo.
"
Parando para ouvi-la, percebi o quão incrível é a fábula e passamos a conversar a respeito. Tudo começou graças à imagem da couraça ao lombo, que chamou-lhe a atenção, pois a palavra "couraça" é uma velha conhecida, lá da Carta de São Paulo aos Efésios, capítulo 6.

"Mas por que o homem que disse a verdade acabou apanhando?", inquietou-se minha filha. E fomos, então, ao Sermão da Montanha. Lembrei-lhe daquilo que disse Jesus a respeito de quem ama a verdade e a justiça: "Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos céus!".

Expliquei-lhe que quem ama a verdade e a justiça não é bem visto. A pessoa sincera é, no imaginário popular, o estraga-festas. O próprio Monteiro pintou o "amante da verdade" como um "neurastênico, azedo"! Ou seja, legal mesmo é quem mente, quem faz de tudo para agradar, este, sim, merece todas as recompensas e benefícios. É o "diplomata" de profissão e/ou vocação, o que sacrificará tudo e todos para garantir o seu.
Com ele nunca ocorrem atritos, os ânimos nunca se acirram, ninguém fica aborrecido.

Por outro lado, expliquei-lhe que o "neurastênico, azedo", isto é, o verdadeiro, este abre mão das amenidades, das amizades fáceis e da paz aparente pela verdade. Ele abre mão até de si mesmo, expondo-se ao ridículo, à solidão, e talvez até à morte, mas não trai a realidade, não finge em seu coração e, menos ainda, em seus lábios.


Disse-lhe que, embora pareça que quem "se dá bem" é o "diplomata", as palavras de Jesus mostram o contrário. Pois mesmo havendo perseguição ao "amante da verdade", seu fim é o Reino dos céus, enquanto que ao outro, o mentiroso, o destino é o inferno. Assim, no fim das contas, quem está realmente certo e ao lado de Deus é o perseguido e não o louvado.
Por isso, apesar da pintura negativa que Lobato deu ao sincero, a moral da história é acertada: Quem for amigo da verdade, use couraça ao lombo.

Mas, é claro, tudo isso só fez sentido para a Chloe por sua familiaridade com as Escrituras, assim como com a linguagem das fábulas, da qual Esopo é o principal representante aqui em casa. Como eu haveria de comunicar tudo isso se minha filha já não possuísse em sua bagagem literária tais obras? Enfim, quanto mais e mais cedo se conhece a boa literatura, maior é a riqueza de repertório imaginativo, maiores são as possibilidades compreensivas e mais íntima é a apropriação das verdades universais.

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