Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 3 de junho de 2014

A solidão do líder (Charles Swindoll)

Há ocasiões em que meu coração se derrete pelo Presidente dos EUA. Não só exerce ele o ofício mais difícil do mundo, mas, além de tudo, não consegue vencer, não importa que decisão tome. Visto que pombos e falcões jamais coexistem, não há maneira de confiná-los na mesma gaiola juntos. Há ocasiões em que ele começa a duvidar do seu próprio valor. . . tempos em que ouve os passos de seus críticos, e fica imaginando se eles é que têm razão. A Sala Oval precisa ser o lugar mais solitário da América. O único consolo que esse homem tem é que ele não é o único. Todos os Presidentes que o precederam experimentaram as mesmas lutas. Ser o Chefe inclui essa agrura profissional.

Lembrei-me disso, recentemente, quando li a respeito de um programa levado ao ar no PBS sobre um dos mais sérios dos assuntos: uma biblioteca. No entanto, tratava-se da biblioteca do Congresso, e o antigo presidente da PBS, Sir Huw Wheldon, estava de pé, numa floresta de arquivos de cartões de índices. O programa tinha todas as características de um documentário lento, monótono, até que...

No meio do programa, o Dr. Daniel Boorstin, bibliotecário do Congresso, tirou uma caixinha azul de um pequeno armário que, em certa época, continha as raridades da biblioteca.

Uma etiqueta colada na caixa dizia o seguinte: CONTEÚDO DOS BOLSOS DO PRESIDENTE, NA NOITE DE 14 DE ABRIL DE 1865.

Visto que foi nessa fatídica noite que Abraão Lincoln fora assassinado, a atenção de todos os espectadores foi apanhada.

Em seguida, Boorstin passou a remover os itens da caixa e a exibi-los diante da câmera. Havia cinco objetos na caixa:

§ um lenço com um bordado: "A. Lincoln"
§ um canivete de menino do campo
§ um estojo de óculos consertado com um barbante
§ uma carteira contendo uma nota do cinco dólares — dinheiro confederado (!)
§ alguns artigos de jornais, recortados, velhos e gastos

"Esses artigos recortados de jornais", explicou Boorstin, "diziam respeito às grandes realizações de Abraão Lincoln. Um deles, na verdade, relata uma palestra de John Bright, em que este afirma que Abraão Lincoln era "um dos maiores homens de todos os tempos."

Hoje, isso é do conhecimento comum. O mundo sabe, hoje, que o estadista britânico John Bright tinha razão em sua avaliação de Lincoln, mas, em 1865, milhões de pessoas mantinham uma opinião contrária. Os críticos do Presidente eram ferozes, e inumeráveis. Ele sofreu uma agonia solitária que refletia a dor e a turbulência que esfrangalhavam seu país, pelo ódio e por uma guerra cruel e caríssima.

Há alguma coisa de patético e tocante no quadro mental desse grande líder que procura consolo e auto-afirmação em alguns recortes velhos de jornais, enquanto os lê sob as chamas inquietas de uma vela, a sós na Sala Oval.

Lembre-se disto: quem é verdadeiramente responsável também é solitário. A solidão se instala onde se instala a responsabilidade.

Em última análise, os maiores líderes precisam pagar o preço da liderança. Consideremos alguns exemplos. Moisés não tinha amigos íntimos. Tampouco os teve Josué. Você encontra Davi com Jônatas apenas na mocidade — mas quando Davi se tornou rei de Israel, suas maiores batalhas, suas orações mais profundas e suas decisões mais difíceis ocorreram na solidão. O mesmo aconteceu a Daniel. E quanto aos demais profetas? Foram os mais solitários de todos os homens do Velho Testamento. Paulo freqüentemente mencionou isso em suas cartas. Assim disse ele a seu discípulo Timóteo:

"... todos os que estão na Ásia me abandonaram" (2 Timóteo 1:15)

Você alguma vez pensou no evangelista Billy Graham longe de suas cruzadas, e de suas aparições públicas periódicas? Pensou no presidente de alguma organização ou instituição educacional cristã? Faça isso durante algum tempo. Essas pessoas se qualificariam como ilustrações da declaração de A. W. Tozer: "A maior parte dos líderes deste mundo tem sentido solidão."

Por favor, não me interprete mal. Não queremos dizer que o líder mantém-se afastado, que não presta contas, que de propósito se retira, ou tem alguma coisa que esconder — trata-se apenas da natureza de suas funções. E na solidão que Deus lhe entrega grandes pensamentos; a mente precisa estar tranquila e calma para recebê-los. Grande parte do peso do ofício não pode, simplesmente não pode ser suportado por outras pessoas. Ainda que a ideia possa parecer mística, é absolutamente essencial que as pessoas a quem Deus convoca e nomeia para cargos de liderança aprendam a respirar confortavelmente o ar rarefeito das altitudes do Himalaia, pois é ali que o conforto e a segurança de Deus chegam, nas asas do profundo silêncio da solidão. Ali a opinião humana se cala. A fé substitui o medo. Aprofunda-se a busca do caráter. É ali (conforme diz F. M. Meyer) que nossa visão se torna clara, e onde se decanta a lama da correnteza de nossa vida.

É ali que os verdadeiros líderes, a sós, em solidão, adquirem o direito de ser respeitados. E aprendem o profundo sentido destas palavras imortais: "Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus."


Leia o Salmo 46.

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