Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sábado, 24 de maio de 2014

Fábio, o Máximo (ou “A origem dos nomes”)

Francisco Wanderley Dantas, meu pai (22/10/32 - 24/05/1982)
                Eu amo nomes, porque amo o significado das palavras. Em muitas culturas, os nomes carregam um significado todo especial. Na Bíblia, há muitos casos conhecidos como o de Abrão, que significava “antepassado famoso” e que, durante a Aliança (Gn 17), teve seu nome modificado para Abraão, “pai de multidões”. O mesmo ocorreu com sua esposa Sarai, em que a mudança para o novo nome Sara denota um jogo de palavras: o primeiro nome referia-se à origem nobre da família dela e  o segundo refere-se à nobreza da linhagem que dela nasceria.

               O surgimento dos israelitas está marcado também por uma dramática mudança de nome que, na verdade, indica uma mudança de coração e caráter de Jacó. Jacó significa “trapaceiro, astuto”, mas, na luta com Deus durante aquela madrugada (Gn 32), Jacó é ferido na coxa, em outras palavras, Jacó é derrubado de vez de seu orgulho e vaidade, lembrando-se para sempre daquela noite, pois mancaria pelo resto de sua vida. Além dessa marca física, visível a todos os que o conheciam e vissem a ele, houve a mudança do nome. Israel, “o que prevaleceu”!

                Aqui em casa, ao sabermos da gravidez da Lu, pensamos em muitos nomes e, evidentemente, queríamos que houvesse significados em seus nomes. Nomes carregam histórias, tradições, esperanças, expectativas. Pensamos, então, em “Hadassa”, o nome hebraico da Rainha Ester. Na época, brincamos que poderíamos colocar o equivalente grego desse mesmo nome: Murta, que se refere a uma planta de origem mediterrânea cultivada como ornamental e para usos medicinais, há milênios está associada a rituais e cerimônias. O nome “Ester”, por sua vez, está ligado a deusa babilônica do amor e da guerra, todavia, a tradição rabínica viu no nome “Ester” o significado de “a oculta”, “Deus oculta a sua face”.

                Indubitavelmente, nomes são fascinantes. E o fato é que, por mais interessante que um nome possa ser, os muitos meses de gravidez fizeram com que a Lu enjoasse de “Hadassa”. Neste momento, então, surgiu a história de uma cantora cristã que, depois de muitos anos tentando engravidar, finalmente havia conseguido e, como gratidão, dera à filha o nome de Geovana Lissa. Daí para Ana Lissa foi muito fácil. “Ana”, presenteada por Deus. “Lissa”, consagrada a Deus. Já com Gisele foi bem mais intencional, pois fui atrás mesmo de um dicionário de nomes. “Gisele”, penhor, garantia, promessa – referência direta ao Espírito Santo! “Lucila”, pequenina luz, luzinha. “Fábio”, ao pé da letra, fora o nome dado pelos romanos à família que introduziu em Roma o plantio das favas. E “Ribas”? Origem espanhola, significa rios, ribeiros. Poeticamente, portanto, sempre brinco que o significado do meu nome é “Aquele que semeia às margens dos rios”!

                Para além da origem etimológica dos nomes, há sempre um sentido histórico. Agora, cheguei ao título deste texto: “Fábio, Máximos”! Quem me deu este nome foi meu pai, Francisco Wanderley Dantas. Diz minha mãe que ele ficava como quem se postasse de mão erguida a recitar um verso, “declamando”: Fábio, o contemporizador! Mas quem foi Fábio, o Máximo (cujo nome herdara de seu pai) e que foi apelidado pelos romanos de “Contemporizador”? É bom já explicar que “contemporizador” foi chacota, foi desdém, escárnio, zombaria do povo com seu Ditador. Esse apelido significa “aquele que adia”. Vou explicar.

                Fábio foi ditador de Roma numa época dificílima. O grande império africano de Cartago vivia em conflito pelo domínio dos mares do mediterrâneo. Estes possuíam uma técnica para construção rápida dos seus barcos de guerra que os colocaram na dianteira dos romanos. Estamos em plena época das Guerras Púnicas. Aníbal, general cartaginense, tem a ideia de atacar Roma vindo da África pelo sul da Península Ibérica montado em elefantes. Sim! Um imenso exército de elefantes! Por três vezes, as táticas de Aníbal humilharam os romanos. Até que Fábio decidiu que não iria mais enfrentar os cartaginenses em batalha direta, pois isso seria um verdadeiro suicídio. O que Fábio fez? Ele cercou o exército dos cartaginenses, ameaçando enfrenta-los, mas, de fato, não o fazia. Colocava seu exército em posição para a batalha, movimentando-se ora por trás, ora pela frente, mas nunca atacava: era a famosa pressão psicológica. Fábio tentou vencer os cartaginenses pelo cansaço físico e psicológico, cortando suas vias de suprimento e caminhando sempre próximo a eles, mas sem avançar numa guerra direta. Infelizmente, as “táticas fabianas” não foram bem recebidas pelos romanos, que, então, colocaram esse apelido em Fábio, “aquele que adia”. Quando terminou o mandato de Fábio, os próximos ditadores eleitos foram exatamente aqueles que se opunham àquelas estratégias de guerra de Fábio. Entretanto, rapidamente os romanos perceberam que as táticas de Fábio eram as melhores para o enfrentamento com os cartaginenses. Até que, enfim, os romanos adotaram as estratégias de guerra de Fábio por dez anos. Sim, dez anos enrolando Aníbal até que esse ficasse velho. Que ideia, não?

                Se nomes podem, de alguma maneira, anunciar algo de nós, não sei. Sei que acredito que hoje “semeio às margens dos rios” e sei também que, por incrível que pareça, aprendi a lutar contra a vida pela perseverança, adiando, muitas vezes, um embate direto, mas vencendo-a pelo cansaço. Assim como Fábio, o Contemporizador, aprendi a cercar meus problemas e as vicissitudes desta vida, até que, exaustos pela estratégia da minha não-entrega, enfim, chegue-me a vitória tão aguardada. Estas são as esperanças e expectativas que herdei de meu pai por meio do meu nome e do exemplo de homem que ele foi. Este é o meu nome: Fábio.

3 comentários:

CJM disse...

Sim, muito bem!
Gostei da aula de cultura, meus parabéns continue a nos alimentar com suas publicações, obrigado!!!

CJM disse...

Sim, muito bem escrito e explicado,
gostei da aula de cultura, continue a nos alimentar com seus estudos, obrigado!!!

Mariani Lima disse...

Ohhhhhhh! Muito legal. Fábio - li uma vez que era feijão. Li em um livro de nomes. Talvez não fosse um livro confiável rsrs... aqui escolhi Guilherme que é guerreiro. Luiz Guilherme tem relação com guerreiro da luz.
Abraço, amigo. Beijos nas meninas.

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