Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

O amor como verbete no dicionário de filosofia de Ferrater Moura

Empédocles foi o primeiro filósofo que utilizou a ideia de amor em sentido cósmico-metafísico, ao considerar o amor e a luta como princípios de união e separação, respectivamente, dos elementos que constituem o universo.

Mas a noção de amor só alcançou uma significação simultaneamente central e complexa em Platão. São muitas as referências ao amor, as descrições e as classificações do amor que encontramos em Platão. É comparado a uma forma de caça - o Sofista-, é como uma loucura -Fedro-; é um Deus poderoso. Pode haver três espécies de amor: o do corpo, o da alma e uma mistura de ambos -Leis-. Em geral, o amor pode ser mau ou ilegítimo, e bom ou legítimo: o amor mau não é propriamente o amor do corpo pelo corpo, mas aquele que não está iluminado pelo amor da alma e que não tem em conta a irradiação que as ideias produzem sobre o corpo. Seria, pois, precipitado falar, no caso de Platão, de um desprezo do corpo; o que acontece é que o corpo deve amar, por assim dizer, por amor da alma. O corpo pode ser, deste modo, aquilo em que uma alma bela e boa resplandece, transfigurando-se aos olhos do amante, que assim descobre no amado novos valores, talvez invisíveis para os que não amam. O amor é, para Platão, somente amor a algo. O amante não possui este algo que ama, porque então já não haveria amor. Também não se encontra completamente desprovido dele, pois então nem sequer o amará; é uma oscilação entre o possuir e o não possuir, o ter e o não ter. Na sua aspiração para o amado, o acto de amor do amante engendra a Beleza. Surge aqui o motivo metafísico dentro do humano e pessoal, pois, em última análise, os amantes das coisas particulares e aos seres humanos particulares não podem ser senão reflexos, participações do amor à beleza e ao belo absoluto - Banquete-, que é a ideia do Belo em si. Sob a influência do verdadeiro e puro amor, a alma ascende à contemplação do ideal e eterno.

Em Plotino, é também o que faz que uma realidade volte o seu rosto, por assim dizer, para a realidade da qual emanou, mas Plotino fala muito particularmente do amor da alma à inteligência -Enéadas-.

Com o aparecimento do cristianismo, o tema do amor assume renovada importância. Inclusive, por vezes, alguns pensadores, como S. Clemente, insistiram demasiado no tema e parece que reduziram a vida divina, e em geral todo o ser e perfeição, a amor, indo dar à chamada “gnose do amor”, origem da “disputa para o amor puro”, teve grande ressonância na era moderna.

Santo Agostinho considera frequentemente a caridade como um amor pessoal (divino e humano). A caridade é sempre boa, em contrapartida o amor pode ser bom ou mau, consoante seja, respectivamente amor ao bem ou amor ao mal. O amor do homem a Deus e de Deus ao homem é sempre um bem. O amor do homem pelo seu próximo pode ser um bem (quando é por amor de Deus) ou um mal (quando se baseia numa inclinação puramente humana).

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