Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 25 de março de 2013

"Amor" (Lucrécio)

O beijo - Gustavo Klimt
Enfim, no completo desejo,
na avidez espumante,

apertam-se, murmuram,
expiram os corpos dos amantes.

agarram-se, apertam-se, as
línguas úmidas tocando,

o caminho para o coração
do outro forçando,

em vão, pois apenas
pela costa navegam...

nos corpos, não penetram,
e além não chegam...

Outra vez, um no outro
sucumbem, mas barras
impenetráveis os dividem.

Todas as maneiras tentam,
e sem sucesso se diria

a cura da secreta ferida
do amor que não sacia.

De rerum natura

sábado, 23 de março de 2013

"Amor" (Roger Scruton)

- E nos seus períodos sombrios, onde você procura consolação? Em que século, em que espécie de música ou de poesia? - pergunta o entrevistador ao filósofo Roger Scruton.

- A minha consolação principal é minha mulher, que é o meu primeiro e principal objeto de afeto na minha vida. Ela mudou minha vida. Só casamos recentemente. Então, só recentemente tive o conforto de usufruir dessa alegria noutra pessoa. Já tinha sido casado, mas não retirava daí consolação. Mas agora retiro.

- Qual o aspecto mais importante dessa relação de onde você retira consolação? - pergunta o entrevistador.

- O mais importante talvez seja ela ser para mim mais importante do que eu e os sentimentos dela tomarem minha atenção constantemente. E isso, é claro, é algo que me dá grande consolo, pois significa que temos uma razão no meio de toda a nossa experiência, temos uma razão para dizer: “deixa de pensar em si mesmo, não é você que é importante”!

- Por que ela é mais importante? - indaga o entrevistador.

- É isso o que é o amor (…). Quando se reconhece que alguém é mais importante que nós, decidimos, se pudermos, ligar as duas vidas uma à outra.

- Você falou há pouco na transformação da vulgaridade numa natureza melhor do mundo. Isso também se aplica ao amor pela sua mulher?

- Há um ponto em que a razão expira, em que as opções deixam de ser racionais. Devemos usar a razão, mas não para além do ponto em que ela perde o sentido. E claro, um casamento, ou uma relação entre pessoas, obriga-nos a repensar muitas coisas. Mas chega a altura em que todas as razões pró e contra se esgotam e só nessa altura nos rendemos à vida e ela se torna uma coisa de suprema importância, mas é a vida de um ser consciente de si próprio, não apenas de um animal. Acredito firmemente no casamento como exemplo do que falávamos há pouco, da nossa capacidade de elevar a nossa experiência acima do reino animal, como se estivéssemos, afinal, a inscrevê-la no eterno. O casamento, devidamente entendido, tem essa ideia no seu âmago, não é uma promessa para ficar junto enquanto as coisas correm bem, é um voto e o seu significado é eterno e, mesmo que o quebremos, ele continua conosco. Ter este sentimento para com outra pessoa e estarmos ambos preparados para fazer isto já é automaticamente viver acima dessa rotina cotidiana, sair dela e experimentar algo sublime. E isso contém em si significados estéticos, morais e também espirituais. E é por isso que nos anos 60 as pessoas consideravam o casamento como uma coisa corriqueira. E isso é o oposto da verdade. As modernas formas de coabitação, passando de uma relação para outra, crivadas porventura de todo tipo de tensões e infidelidades, é que são corriqueiras e vulgares, porque nunca tomam a decisão de nos elevar acima dessa rotina, para algo que ofereça alguma compreensão sobre ela e a desvende, sob uma perspectiva transcendental. Nada do que acontece no casamento é fútil, insignificante e rotineiro. Tudo faz parte de um esforço criativo para ser algo maior do que nós mesmos. É uma das minhas consolações e pouco mais posso dizer sobre ela.

- Quando foi que viu sua mulher pela primeira vez?

- Numa caçada. Fui-lhe apresentado há três anos. Eu estava ensinando em Boston e vim para cá numa sexta-feira à noite, para uma caçada no sábado de manhã e, então, fomos apresentados. Não lhe prestei grande atenção na hora, mas, quatro semanas depois, caí do meu cavalo e ela veio ajudar-me a subir outra vez. Tornamo-nos bons amigos e, lentamente, comecei a sentir que a sua naturalidade me influenciava. Começamos uma relação lenta, calma e respeitosa. Mas, desde o princípio, senti que ela personificava uma certa serenidade que eu procurava. Ela representava para mim uma imagem de serenidade interior, que eu tentei retratar numa peça musical, uma peça de piano que escrevi e que deveria mostrar a compostura e equilíbrio de Sophie, dando também uma pista para a aparência dela. Contém uma citação de Debussy, de “La Fille aux Cheveux de Lin”, por ela também ter cabelos cor de palha. A peça se chama “Bóreas não sopra”. É uma citação de Heródoto. Bóreas, o Vento Norte, não sopra através da jovem virgem que vive sozinha em casa, com a mãe, pois, nessa época, a Sophie vivia sozinha com a mãe. É uma descrição de Bóreas, o Vento Norte, que se recusa a soprar, ou que é incapaz de soprar através desta minha pequena casa reconfortante... 
 
Roger Vernon Scruton (nascido a 27 de Fevereiro de 1944) é um filósofo e escritor inglês cuja especialidade é a Estética. Ele já escreveu mais de trinta livros, incluindo Art and Imagination (1974), Sexual Desire (1986), The Aesthetics of Music (1997), A Political Philosophy: Arguments for Conservatism (2006), Beauty (2009), Our Church (2012) e The Palgrave Macmillan Dictionary of Political Thought.[1] Scruton também já escreveu livros didáticos sobre filosofia e cultura, dois romances, e compôs duas óperas.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Diário de uma paixão - uma história real!


Para manter o amor vivo, marido de 91 anos lê diário para mulher com amnésia

O inglês Jack Potter não quer que sua esposa Phyllis esqueça o amor que os une há mais de 70 anos. Sabendo que Phyllis sofre de demência e falta de memória, o homem visita todos os dias a casa de repouso na cidade de Rochester, Inglaterra, e lê para ela o diário que guarda desde o dia em que se conheceram.

O inglês, de 91 anos, disse ao jornal Daily Mail Online que lembra exatamente do momento em que os dois se cruzaram, num baile. Foi em 1941 (casaram em 1943) e no diário escreveu: “Foi uma noite muito agradável. Dancei com uma garota muito legal. Espero encontrá-la novamente”.

Esses e outros momentos, como o casamento, as férias, as fotografias e todos os momentos partilhados a dois, estão nesse diário que Jack faz questão de ler para sua esposa demente. Apesar de debilitada, Phyllis se esforça para abraçar o marido. Eles festejaram 70 anos de casamento.







Imagens por Casey Gutteridge e Andy Payton/SWNS

FONTE: HYPENESS

Trailler do filme (que, eu acredito, inspirou-se na história real acima):

quarta-feira, 20 de março de 2013

Eu sei que vou te amar (Emílio Santiago)

O Brasil perde uma das vozes mais lindas e marcantes da sua música! Intérprete maravilhoso, Emílio Santiago deixa órfãos tantos casais apaixonados que viveram seus melhores momentos embalados pela qualidade de seu belo repertório. Emílio Santiago é o símbolo de um Brasil de muitíssimo bom gosto e que ainda resiste à decadência cultural de nosso tempo...

sexta-feira, 15 de março de 2013

Lucila, esta é a minha vida ao teu lado...

Meu amor, são quase 18 anos de paixão ao teu lado! Momentos maravilhosos e momentos difíceis já passamos juntos. E o que há de melhor nesta nossa encantada jornada é poder olhar para o lado e ainda te ver feliz por viver comigo: eu te amo!

Dedico este vídeo e esta linda música a ti, meu amor, e a todos os casais que, assim como nós, vivem uma eterna paixão!

quinta-feira, 14 de março de 2013

Eros e Psique - Dia da Poesia (14/03)




Novamente, Fernando Pessoa. Os versos, sua mitologia, seus símbolos. Quantas leituras!

Quem é a Princesa? Quem é o Infante?

Psique fora encantada! E só acordará aos desejos da carne se ela for despertada pelo infante Eros, tal qual a noiva em cantares de Salomão. Psique é a personagem que sublima. Ela é a alma, o espírito, o céu, a religião etérea, o divino, a figura da castidade com todas as suas implicações. Eros é o infante - infantil e guerreiro! Ele é a sexualidade que precisa ser realizada, que urge como pulsão da carne, do desejo, o inferno, a religião vulgar, o terreno, o natural, o imperfeito, o humano.

Psique está trancada em seu castelo, mas há um caminho... o caminho errado que deve levar nosso herói até ela. Errado pelas dificuldades, obstáculos, terribilidades! Mas Eros precisa se libertar? Ele também está preso? A Princesa encerrada no castelo e ele encarcerado no emaranhado dos discursos sobre o Bem e o Mal. Ele precisa se libertar desse maniqueismo funesto que o separa de sua amada. O mundo não é a luta eterna de duas forças iguais e, muito menos, manter-se-á o equilíbrio das coisas, acreditando-se nisso. Não! Nem ele é o inferno, nem ela é o céu!

Como que morta, a Princesa está enfeitada em seu esquife e aguarda por aquele que pode trazer vida à morte que a domina. Ela anseia, ela deseja, ela espera! Mas as imagens agora parecem se inverter, pois ela, a vida, está morta e ele, a morte, luta contra o equilíbrio das coisas para dar a vida que ela tanto necessita. E ele, o infante, lutará e virá, ainda que sem saber qual o propósito de tudo isso, apenas porque as coisas devem ser assim: ele não é razão, ele é pulsão. É preciso enfrentar o caminho errado. Por quê? Ele não sabe: ele não é razão. Ele segue esforçado. Quem é ele? Ela não sabe. Quem é ela? Ele não a conhece.

Todavia, ainda que ignorantes acerca do verdadeiro conhecimento sobre si mesmos, há um Destino, um Propósito que os guia e faz com que haja a estrada. Alguém quer esse encontro entre o Infante e a Princesa, entre Eros e Psique. Tudo está sendo cumprido conforme o planejado: este encontro, a busca da unidade!

A nossa ignorância do que somos e do que há na estrada não é usada como desculpa para a fatalidade ou desistência. Ele segue até ela, ainda que não possa nem mesmo confiar na estrada, porque também não a compreende na sua totalidade.

A luta do Infante – a passagem da infância à vida adulta – o despertar do amor erótico na tez fria da razão que nega que ela mesma era o príncipe que a descobre!

Finalmente, revela-se a todos (personagens e leitores) que a luta era pela unidade dos cacos dispersados pela excessiva queda (a criada descuidada) – o fim da dicotomia, o fim desse dualismo!

A negação da existência de um conflito cósmico entre o reino da Luz (Psique) e o das sombras (Eros), porque somos uma unidade: Eros e Psique presentes numa só natureza - caída, depravada, estilhaçada, carentes da glória de Deus - esta natureza humana e nossa ânsia por redenção...

(Texto revisto e atualizado, publicado originalmente em 04/01/2011)

sábado, 9 de março de 2013

"Amor" (Camões)



Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

                           Luís de Camões

segunda-feira, 4 de março de 2013

"Amor" (Ruth de Aquino)


RUTH DE AQUINO  é colunista de ÉPOCA raquino@edglobo.com.br (Foto: ÉPOCA)
Um título pode dizer muito ou nada. “Amor” é uma palavra batida e banalizada que ganha uma dimensão épica no filme indicado, na semana passada, a cinco estatuetas do Oscar. Amor, do diretor Michael Haneke, Palma de Ouro em Cannes, retrata um casal de octogenários, Georges e Anne, professores aposentados de música clássica. A história narra nossa impotência diante da doença e da morte.

Em duas horas de cinema ou um ano de vida real, dois atores magistrais, Jean-Louis Trintignant, de 82 anos, e Emmanuelle Riva, de 85 (a belíssima protagonista de Hiroshima meu amor em 1959), nos transformam em passageiros da agonia humana. A agonia diante do sofrimento da pessoa que amamos. O que fazer quando o doente nos faz prometer que nunca mais será hospitalizado? Estamos dispostos a adoecer junto? Será a doença mais forte que o amor?

À exceção de uma cena de concerto, o filme se passa inteiro dentro do apartamento elegante e forrado de livros, com um piano na sala de estar. São idosos com cultura, dinheiro e prestígio. Vivem sós – sem empregados, como é o normal na Europa. O que mais nos encanta, quando Georges e Anne ainda estão sadios, não são as conversas sobre literatura e música, mas os olhares amorosos, os gestos de carinho, a cumplicidade nos atos mais cotidianos, como o café da manhã na cozinha. 
>>Leia também: Oscar 2013 já tem um vencedor: Michael Haneke

A rotina se quebra numa dessas manhãs, quando Anne sofre um AVC, acidente vascular cerebral. De repente, ela olha o vazio, não responde. O casal vai ao hospital, mas nós, espectadores, não. Na cena seguinte, Georges e Anne chegam de volta ao apartamento, ela de cadeira de rodas, com o lado direito paralisado e o orgulho ferido. “Quando adoecemos e ficamos imobilizados, passamos a viver entre quatro paredes. O mundo exterior desaparece”, diz Haneke. Nosso olhar profana a intimidade do casal, da cozinha ao banheiro, do banheiro à sala, da sala ao quarto, do quarto ao corredor.


Será a doença mais forte que o amor? Estamos dispostos a adoecer junto
com quem amamos? 


Daí em diante, cama e móveis são adaptados às limitações de Anne. E Georges passa a viver em função dela. Ele se debilita aos poucos, até que Anne sofre um novo ataque, enfermeiras vêm e vão, e a música envolvente de Schubert é substituída por gritos dela: “Mal... mal... mal”. Na tradução literal, “dói... dói... dói”. E mais do roteiro não conto ao leitor, embora Haneke antecipe o final na primeira cena. Talvez para não encorajar ilusões.

O casal tem uma única filha, Eva (Isabelle Huppert), que vive no exterior, em Londres, com o marido, ao jeito das famílias contemporâneas globalizadas, em que os velhos vivem muito mais e os filhos, de longe, não conseguem ajudar sem virar suas vidas pelo avesso. Eva, em raras visitas, chega ansiosa, com muitas perguntas e nenhuma solução. “De que nos serve sua inquietação?”, pergunta o pai, friamente.

É um filme duro, e quem conhece a direção de Haneke – A professora de piano, A fita branca, Caché – sabe que esse austríaco nascido na Alemanha não dá brecha para a pieguice. “Quando escolhemos um tema universal, como amor, velhice e morte, há dois grandes perigos: o sentimentalismo e a autocomiseração. Não é por ser sentimental que alguém tem emoções, não se iluda!”, afirmou o diretor.

Segundo as resenhas dos críticos, eu deveria ter chorado ao ver o filme na tarde fria de Paris na semana passada. Deveria, porque todo mundo chora. Talvez devesse ter soluçado, me acabado em lágrimas. Mas não. Meu pai e minha mãe têm 90 anos, estão no Rio. Meu pai acaba de sair de uma internação no hospital por pneumonia e minha mãe foi diagnosticada há dez anos com Alzheimer. Ela é linda, inteligente e ainda reconhece filhos e netos. Por mais cruel que seja a enfermidade da perda gradual da lucidez, continuam intactos seu instinto maternal e o ciúme que sente de meu pai.

A realidade da minha família é tão mais branda do que vi na tela. Nossos momentos presentes precisam ser celebrados porque não se controla o amanhã. Amor é uma lição de vida, mais que de morte.

Haneke não quis mostrar tudo, muito menos “os horrores e as humilhações” das clínicas de repouso, dos asilos ou das alas geriátricas dos hospitais. “Um filme onde tudo é dito está morto. Devemos nos aproximar ao máximo da complexidade de uma situação e deixar aberta a interpretação, para que o filme não termine na tela, mas na sua cabeça, no seu coração... ou no seu ventre.”

Há quem saia do cinema chocado pelas cenas mais duras do filme. Eu saí envolvida pelas cenas mais ternas. Quando Georges retira do banheiro Anne, já paralisada parcialmente, e a levanta, os corpos enlaçados, em pé, ambos arrastando os pés numa dança trôpega até a cadeira de rodas. Quando ela interrompe uma refeição e pede com urgência os álbuns de fotos da juventude a dois. Quando Georges vê a miragem de Anne tocando piano, o som de Schubert invade tudo e, repentinamente, ele desliga o aparelho de CD. Triste, simples, real e belo.


FONTE
 
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