Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 7 de maio de 2013

O nascimento do Amor

Para Platão, foi durante as festas natalícias de Afrodite, que Póros* (Abundância), embriagado pelo néctar dos deuses, é encontrado por Pênia (Carência). Esta, mendiga tentando alimentar-se das sobras daquela festa, deseja deitar-se com ele, porque ele possui tudo o que ela não tem. Desta relação entre a Abundância e a Carência nasce Eros, o Amor!

O que é o amor entre um homem e uma mulher? 
Há quem diga que Eros não era bonito como imaginamos pelas pinturas e imagens antigas, mas, tendo herdado a natureza pobre de sua mãe, Eros anda sempre feio, roto, sujo pelas ruas e becos, dorme no chão, contudo, paradoxalmente, por ter herdado também a natureza de seu pai, Eros está sempre em busca do que é belo, daquilo que pode encher seus olhos e lhe satisfazer sua alma! Eros fará de tudo para perseguir e alcançar o que deseja (por isso o Amor é cheio de artimanhas), mas é de sua natureza a eterna frustração...

O Amor possui esta característica da insatisfação: é e não é, tem e não tem, abundância e carência, riqueza e pobreza, vida e morte... O Amor é filho dos opostos!

“ – E quem é seu pai – perguntei-lhe [Sócrates] – e sua mãe?

-- É um tanto longo de explicar, disse ela [Diotima]; todavia, eu te direi. Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Póros (Recurso). Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pênia (Pobreza), e ficou pela porta. Ora, Póros, embriagado com o néctar – pois o vinho ainda não havia – penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pênia então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Póros, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Eros (Amor). Eis por que ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Póros e de Pênia foi esta a condição em que ele ficou. Primeiramente ele é sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão. Sendo o pai, porém, ele é insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e energético, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível mago, feiticeiro, sofista: e nem imortal é a sua natureza nem moral, e no mesmo dia ora ele germina e vivem quando enriquece; ora morre e de novo ressuscita, graças à natureza do pai; e o que consegue sempre lhe escapa, de modo que nem empobrece o Amor nem enriquece, assim como também está no meio da sabedoria e da ignorância.” (O Banquete – Platão, 203a – 204a).
* Póros, em grego, significa "caminho", daí a palavra "aporia", que é "sem saída, sem solução". 
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