Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quinta-feira, 14 de março de 2013

Eros e Psique - Dia da Poesia (14/03)




Novamente, Fernando Pessoa. Os versos, sua mitologia, seus símbolos. Quantas leituras!

Quem é a Princesa? Quem é o Infante?

Psique fora encantada! E só acordará aos desejos da carne se ela for despertada pelo infante Eros, tal qual a noiva em cantares de Salomão. Psique é a personagem que sublima. Ela é a alma, o espírito, o céu, a religião etérea, o divino, a figura da castidade com todas as suas implicações. Eros é o infante - infantil e guerreiro! Ele é a sexualidade que precisa ser realizada, que urge como pulsão da carne, do desejo, o inferno, a religião vulgar, o terreno, o natural, o imperfeito, o humano.

Psique está trancada em seu castelo, mas há um caminho... o caminho errado que deve levar nosso herói até ela. Errado pelas dificuldades, obstáculos, terribilidades! Mas Eros precisa se libertar? Ele também está preso? A Princesa encerrada no castelo e ele encarcerado no emaranhado dos discursos sobre o Bem e o Mal. Ele precisa se libertar desse maniqueismo funesto que o separa de sua amada. O mundo não é a luta eterna de duas forças iguais e, muito menos, manter-se-á o equilíbrio das coisas, acreditando-se nisso. Não! Nem ele é o inferno, nem ela é o céu!

Como que morta, a Princesa está enfeitada em seu esquife e aguarda por aquele que pode trazer vida à morte que a domina. Ela anseia, ela deseja, ela espera! Mas as imagens agora parecem se inverter, pois ela, a vida, está morta e ele, a morte, luta contra o equilíbrio das coisas para dar a vida que ela tanto necessita. E ele, o infante, lutará e virá, ainda que sem saber qual o propósito de tudo isso, apenas porque as coisas devem ser assim: ele não é razão, ele é pulsão. É preciso enfrentar o caminho errado. Por quê? Ele não sabe: ele não é razão. Ele segue esforçado. Quem é ele? Ela não sabe. Quem é ela? Ele não a conhece.

Todavia, ainda que ignorantes acerca do verdadeiro conhecimento sobre si mesmos, há um Destino, um Propósito que os guia e faz com que haja a estrada. Alguém quer esse encontro entre o Infante e a Princesa, entre Eros e Psique. Tudo está sendo cumprido conforme o planejado: este encontro, a busca da unidade!

A nossa ignorância do que somos e do que há na estrada não é usada como desculpa para a fatalidade ou desistência. Ele segue até ela, ainda que não possa nem mesmo confiar na estrada, porque também não a compreende na sua totalidade.

A luta do Infante – a passagem da infância à vida adulta – o despertar do amor erótico na tez fria da razão que nega que ela mesma era o príncipe que a descobre!

Finalmente, revela-se a todos (personagens e leitores) que a luta era pela unidade dos cacos dispersados pela excessiva queda (a criada descuidada) – o fim da dicotomia, o fim desse dualismo!

A negação da existência de um conflito cósmico entre o reino da Luz (Psique) e o das sombras (Eros), porque somos uma unidade: Eros e Psique presentes numa só natureza - caída, depravada, estilhaçada, carentes da glória de Deus - esta natureza humana e nossa ânsia por redenção...

(Texto revisto e atualizado, publicado originalmente em 04/01/2011)

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...