Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sábado, 23 de março de 2013

"Amor" (Roger Scruton)

- E nos seus períodos sombrios, onde você procura consolação? Em que século, em que espécie de música ou de poesia? - pergunta o entrevistador ao filósofo Roger Scruton.

- A minha consolação principal é minha mulher, que é o meu primeiro e principal objeto de afeto na minha vida. Ela mudou minha vida. Só casamos recentemente. Então, só recentemente tive o conforto de usufruir dessa alegria noutra pessoa. Já tinha sido casado, mas não retirava daí consolação. Mas agora retiro.

- Qual o aspecto mais importante dessa relação de onde você retira consolação? - pergunta o entrevistador.

- O mais importante talvez seja ela ser para mim mais importante do que eu e os sentimentos dela tomarem minha atenção constantemente. E isso, é claro, é algo que me dá grande consolo, pois significa que temos uma razão no meio de toda a nossa experiência, temos uma razão para dizer: “deixa de pensar em si mesmo, não é você que é importante”!

- Por que ela é mais importante? - indaga o entrevistador.

- É isso o que é o amor (…). Quando se reconhece que alguém é mais importante que nós, decidimos, se pudermos, ligar as duas vidas uma à outra.

- Você falou há pouco na transformação da vulgaridade numa natureza melhor do mundo. Isso também se aplica ao amor pela sua mulher?

- Há um ponto em que a razão expira, em que as opções deixam de ser racionais. Devemos usar a razão, mas não para além do ponto em que ela perde o sentido. E claro, um casamento, ou uma relação entre pessoas, obriga-nos a repensar muitas coisas. Mas chega a altura em que todas as razões pró e contra se esgotam e só nessa altura nos rendemos à vida e ela se torna uma coisa de suprema importância, mas é a vida de um ser consciente de si próprio, não apenas de um animal. Acredito firmemente no casamento como exemplo do que falávamos há pouco, da nossa capacidade de elevar a nossa experiência acima do reino animal, como se estivéssemos, afinal, a inscrevê-la no eterno. O casamento, devidamente entendido, tem essa ideia no seu âmago, não é uma promessa para ficar junto enquanto as coisas correm bem, é um voto e o seu significado é eterno e, mesmo que o quebremos, ele continua conosco. Ter este sentimento para com outra pessoa e estarmos ambos preparados para fazer isto já é automaticamente viver acima dessa rotina cotidiana, sair dela e experimentar algo sublime. E isso contém em si significados estéticos, morais e também espirituais. E é por isso que nos anos 60 as pessoas consideravam o casamento como uma coisa corriqueira. E isso é o oposto da verdade. As modernas formas de coabitação, passando de uma relação para outra, crivadas porventura de todo tipo de tensões e infidelidades, é que são corriqueiras e vulgares, porque nunca tomam a decisão de nos elevar acima dessa rotina, para algo que ofereça alguma compreensão sobre ela e a desvende, sob uma perspectiva transcendental. Nada do que acontece no casamento é fútil, insignificante e rotineiro. Tudo faz parte de um esforço criativo para ser algo maior do que nós mesmos. É uma das minhas consolações e pouco mais posso dizer sobre ela.

- Quando foi que viu sua mulher pela primeira vez?

- Numa caçada. Fui-lhe apresentado há três anos. Eu estava ensinando em Boston e vim para cá numa sexta-feira à noite, para uma caçada no sábado de manhã e, então, fomos apresentados. Não lhe prestei grande atenção na hora, mas, quatro semanas depois, caí do meu cavalo e ela veio ajudar-me a subir outra vez. Tornamo-nos bons amigos e, lentamente, comecei a sentir que a sua naturalidade me influenciava. Começamos uma relação lenta, calma e respeitosa. Mas, desde o princípio, senti que ela personificava uma certa serenidade que eu procurava. Ela representava para mim uma imagem de serenidade interior, que eu tentei retratar numa peça musical, uma peça de piano que escrevi e que deveria mostrar a compostura e equilíbrio de Sophie, dando também uma pista para a aparência dela. Contém uma citação de Debussy, de “La Fille aux Cheveux de Lin”, por ela também ter cabelos cor de palha. A peça se chama “Bóreas não sopra”. É uma citação de Heródoto. Bóreas, o Vento Norte, não sopra através da jovem virgem que vive sozinha em casa, com a mãe, pois, nessa época, a Sophie vivia sozinha com a mãe. É uma descrição de Bóreas, o Vento Norte, que se recusa a soprar, ou que é incapaz de soprar através desta minha pequena casa reconfortante... 
 
Roger Vernon Scruton (nascido a 27 de Fevereiro de 1944) é um filósofo e escritor inglês cuja especialidade é a Estética. Ele já escreveu mais de trinta livros, incluindo Art and Imagination (1974), Sexual Desire (1986), The Aesthetics of Music (1997), A Political Philosophy: Arguments for Conservatism (2006), Beauty (2009), Our Church (2012) e The Palgrave Macmillan Dictionary of Political Thought.[1] Scruton também já escreveu livros didáticos sobre filosofia e cultura, dois romances, e compôs duas óperas.

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