Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Quase a mesma coisa – traduzindo os eventos daqueles dias...

Por que você escreveu isto? - perguntaram-me. E esta foi a pergunta mais ouvida por mim naqueles dias. A pressão foi enorme. Diria mesmo que foi um imenso rolo compressor passado por cima de mim. Imaginaria eu que estaria colocando minha mão num vespeiro? Quem poderia supor que eu estava prestes a me ver no olho do furacão, num jogo de intrigas entre gregos e troianos! O que faria, então?

Terminei por fazer aquilo que eu faço de melhor: mantive a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo... Quando dei por mim, até o jornalista do SBT havia me ligado em casa. “Fábio, é o jornalista do SBT perguntando se você daria uma entrevista explicando a sua versão dos fatos. Ele quer saber se você pode falar com ele... você vai?”, disse-me assustada a Lu. Gelei! Aquela ligação deu-me a exata noção da extensão do problema que acontecera diante do que eu havia escrito.

“Mas você escreveu alguma mentira? Você inventou tudo aquilo?”, perguntaram-me. “Claro que não!” Expliquei-me: “Eu estava dando voz a um outro. Alguém pensava aquilo e eu queria fazer ressoar o que aquele alguém pensava para que pudéssemos entender o que se passava na cabeça dele e na de tantos outros. Só isso!”, insistia. Entretanto, tudo foi em vão. Queriam era a minha cabeça e, pelo visto, queriam que eu mesmo a entregasse numa bandeja de prata para não sujarem as próprias mãos.

Contando assim, até parece que fiquei isolado. Muitos que haviam me acompanhado, apoiaram-me naqueles dias negros e disseram que, se preciso fosse, escreveriam em meu favor. Porém, da maneira que tudo estava sendo montado, se eu permitisse que eles fizessem algo assim em minha defesa, todos cairíamos. E eu não queria levar ninguém comigo. 

O que mais me surpreendia no desenrolar dos eventos é que eram os da minha própria "casa" que se levantavam contra mim. Eram aqueles que, outrora, eu os defendera, advogara suas ideias e a quem eu havia entregue minha vida por aquela causa...

Atacaram-me, por quê? Porque quis abrir um diálogo entre opostos, dar oportunidade para que entendêssemos problemas que estavam sendo expostos e que precisavam ganhar uma nova perspectiva para discussão. E, inesperadamente, vi se abrir na minha direção a boca escancarada do totalitarismo: uma besta-fera que não discute ideias e nem se importa com argumentos, apenas acua os mais fracos e devora-lhes o fígado.

Foi isso o que fizeram comigo. Levaram-me aos tribunais e tive que chorar diante deles, derramar minhas lágrimas de sangue para que outros não fossem atacados junto comigo. Protegi amigos e padeci em silêncio, assumindo a responsabilidade por tudo o que eu havia escrito. Assinei papéis, ouvi ofensas e palavras de incompreensão. Em determinado momento, meu algoz, no tribunal daquele circo, disse-me: “O que eles querem é apenas que eu te ferre. Lá em cima, eles me disseram: dá um susto nele, esmaga o rapaz para que ele nunca mais se atreva a dizer de novo o que pensa e nem que fique dando voz para índio”!

Foi mais de um mês de idas e vindas ao tribunal, explicando-me, ouvindo inverdades, sendo coagido e sendo assustado, até, finalmente, ver-me vencido pelo esgotamento de minhas forças. “Mas por que você escreveu sobre isso?”, insistiam. “Eu estava numa caminhonete. Foi ali que eu o conheci e foi ele, naquela viagem de mais de três horas, quem me contou tudo. Aquele indígena foi me contando sobre a aliança entre o meu partido e os fazendeiros da Região e como isso estava prejudicando suas terras. E, assim, eu escrevi tudo o que ele havia me contado...”, expliquei. Na época, pareceu absurdo, mas, depois, tudo veio à tona: o Governador do Estado, o maior latifundiário do país, realmente era aliançado com o Presidente da República!

Mas quem eu era? Só um professorzinho de escola pública... E o partido ao qual eu pertencia, denunciado por mim, virou suas presas e garras em minha direção e eles não descansariam enquanto não me desacreditassem diante de todos...

Hoje (29/11/12), toda essa história ocorrida há mais de cinco anos (refiro-me à conversa com o indígena), retornou-me à memória, porque eu achei dentro de um livro guardado aqui em casa o “mandato de notificação” que me deram naquela época e que iniciou todo meu suplício naquele inferno. Nunca mais pegara esse livro para ler e, hoje, logo hoje, resolvi retirá-lo da prateleira para o reler. Para minha surpresa, lá estava, logo na primeira página, aquela folha dobrada ao meio e assinada pelos meus algozes da época. Vê-la, depois de tanto tempo, trouxe toda esta história que agora conto. O nome do livro em que encontrei a folha? “Quase a mesma coisa”, do Umberto Eco. Um livro apaixonante sobre tradução...

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

São Francisco de Sales - Cantares sobre Cantares (XXI)

São Francisco de Sales e sua interpretação alegórica do verso 9 do capítulo 2 do livro Cântico dos Cânticos:


Veja, este é o amor divino do amado (Jesus), como ele está por trás da parede de sua humanidade; veja que ele (Jesus) se insinuou pelas feridas de seu corpo e da abertura de seu lado, como janelas e como por uma estrutura através da qual olhamos (Saint Francois de Sales, Traité de l'Amour de Dieu, Livro V, cap. XI).

Embora esta interpretação seja alegórica (e eu já apresentei aqui, por diversos posts, o problema histórico com essa escola de interpretação, principalmente no tocante ao livro de Cantares), não há como não apreciar o "laço poético" dado por Sales a sua própria interpretação: seria a divindade de Jesus a Sulamita escondida por trás da parede de sua casa; as paredes são a humanidade (o corpo, a carne) que protege (ou esconde) dos nossos olhos a divindade dentro dessa "casa"; e, por fim, as feridas na cruz, os açoites, o lado aberto pela lança são  as janelas pelas quais tivemos o privilégio de ver revelada um pouco de sua divindade! Se nos debruçássemos nesta interpretação, que é mais uma outra imagem para tentar explicar a imagem original do texto de Cantares, realmente, é um encanto se imaginarmos que as feridas-janelas permitiram a manifestação não da humanidade fraca e débil de Jesus naquele momento, mas, antes, das fugazes amostras de sua divindade. Interpretação alegórica, mas que é cheia de beleza e poesia!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O amor total - Cantares de Salomão (XIX)


...ei-lo aí, que já vem saltando sobre os montes, pulando sobre os outeiros. O meu amado é semelhante ao gamo ou ao filho do corço; eis que está detrás da nossa parede, olhando pelas janelas, reluzindo pelas grades (2:8-9, RC).

“Ele me busca... sinto teus olhos, meu amor, percebo os olhos do amor buscando por mim. São teus olhos apaixonados e sedentos por mim. É essa tua fome que tem procurado saciar-se de meu corpo e de tudo o mais que tenho a oferecer. O meu amado é meu e eu sou do meu amado! E estes olhos à janela da casa de minha mãe são teus olhos que eu sei... é esse teu amor que me oferta as duas faces desse teu sentimento”...

As palavras acima seriam a expressão da Sulamita assediada pelos olhos de seu amado à espreita por trás das paredes. O amor tem duas faces e pouquíssimos são os que conseguem ver ambas. Felizes são os que não optam nem por uma e nem por outra, antes, percebem que não há paradoxo algum no amor, não há contradição ou ambiguidade neste sentimento criado por Deus no homem.

A Sulamita é Eva redimida! É a mulher que desfaz a opção errada que houvera feito e aproveita a nova chance para seguir o caminho inteiro e não o que foi fendido pelo pecado. Sulamita é a mulher que escolhe a interpretação de Deus sobre o amor e ignora as propostas feitas pelo anjo caído. O amor não pode ser quebrado, não deve ser partido e jamais poderia ser fragmentado por nós. A amor só é amor se vier por inteiro, se nos visitar na sua totalidade. Os poetas e os teólogos estão quase sempre cometendo a infração de danificar o amor, apresentando-o sendo "ou uma coisa ou outra". Condenam o amor a ser escolhido em partes, sem jamais apresentá-lo como um todo. Por isso os casamentos findam, os amantes se perdem e os feridos suicidam. O amor não oferece uma escolha, ele, simplesmente, entrega-se a si mesmo: completo!

Quando a Sulamita descreve seu amado, ela usa imagens antagônicas, contrárias, opostas, porém, ela não escolhe nem uma e nem a outra, porque, na verdade, a escolha dela é por tudo aquilo que ela pode e quer viver. Ela descobre que o amor tem duas faces, o gamo e o filho do corço. No primeiro, é descrito o amor selvagem, carnal, a paixão, a libido, o amor ferinus. No segundo, o filhote do corço é a imagem da ternura, da inocência, da pureza, do afeto, o amor divinus. O amado da Sulamita é assim desejado por ela, que, agora, não quer mais ceder a uma escolha, ao seu arbítrio, à metade de tudo aquilo que ela pode receber irrestritamente. Nas palavras de Leão Hebreu, “o amor é desejo de união com o amado e todo desejo é amor e todo amor é desejo”! Outros já se debruçaram sobre o “amor total”, o “amor absoluto”, e viram que os intérpretes é que insistem em violar a integralidade do amor, por isso Hobbes diz: “desejo e amor são a mesma coisa, salvo que por desejo sempre se quer significar a ausência do objeto e quando se fala em amor, geralmente, se quer indicar a presença do mesmo”.

Os olhos famintos desse amor perseguem a Sulamita escondida na segurança da casa de campo de sua mãe. Ela intui a presença daqueles olhos por detrás das janelas. Protegida pelas paredes da sua casa, a Sulamita, no entanto, anseia que ele ouse fazer o convite que ela tanto deseja... 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Pornografia é uma das maiores ameaças ao Cristianismo

Shane Morris
21 de novembro de 2012 (Breakpoint.org) — A pornografia está em toda parte por aí, e não vai desaparecer logo. Por isso, para ajudar seus filhos a se guardarem contra ela, você precisa prepará-los. De acordo com Josh McDowell, autor de livros que incluem “Evidência que Exige um Veredicto” e “Mais que um Carpinteiro”, que voltou sua atenção ultimamente para a devastação da pornografia na nossa cultura e na Igreja, considerando-a entre as maiores ameaças ao Cristianismo que já vimos.
Josh McDowell
Explicando o motivo por que ele decidiu tratar da questão da pornografia, Josh disse numa entrevista para John Stonestreet de Breakpoint como ele sentiu uma barreira para seu trabalho apologético que nada tinha a ver com a defesa da fé em si.
“Sou um apologeta”, diz Josh. “Apresento razões positivas por que acreditar, a fim de ver jovens virem a Cristo. Mas cerca de cinco ou seis anos atrás, fiquei sentindo que há um problema em toda parte. Quando eu tinha interação com jovens, algo havia se tornado uma barreira. Percebi que era imoralidade sexual e pornografia intrusiva e generalizada na internet. Como apologeta, a única coisa que pode minar tudo o que ensino não está na área da apologética, mas na área da moralidade. Se você não lida com essa questão, você não cumprirá seu papel como um apologeta bíblico”.
Sean McDowell, filho de Josh, é diretor do departamento bíblico da Faculdade Cristã do Vale de Capistrano. Ele também é autor, palestrante e apologeta em seu próprio mérito, e ele trabalha com jovens em tempo integral. Nesse processo, Sean coletou uma lista interminável de casos tristes de rapazes e moças cristãos que na aparência eram modelos, mas que caíram na armadilha armada contra eles por uma cultura saturada de sexo e lascívia.
E esse é exatamente o problema. Os primeiros pontos que Josh e Sean McDowell esperam comunicar aos pais, pastores e professores é que no mundo de hoje, a maioria das crianças e estudantes não está atrás da pornografia. “A pornografia está atrás deles”, diz Josh. “Dos adolescentes que viram pornografia, entre 75% e 91% não estavam em momento algum atrás dela. Pesquisadores mostram que 38% deles ficarão viciados”.
“Esse problema é muito grande para o corpo de Cristo agora?” pergunta John Stonestreet.
“Veja, as estatísticas que documentei”, explica Josh, “mostram que o problema está aumentando sem parar. Cinquenta por cento dos pastores estão lutando para largar do vício da pornografia. Sessenta e dois por cento dos homens que frequentam igrejas evangélicas regularmente estão lutando para largar da pornografia, e entre 65% e 68% dos adolescentes estão nessa situação. Essa é provavelmente a maior ameaça à causa de Cristo em dois mil anos de história da igreja, pois mina sua vida, sua caminhada com Cristo e suas convicções. Meu temor é que muitos pastores não estejam lidando com esse problema pelo simples fato de que eles mesmos estão envolvidos nele. De certo modo, precisamos fazer com que a liderança no corpo de Cristo trate disso”.
“Dê-nos alguns detalhes”, diz John. “Como é que a pornografia mina os cristãos? Como é que ela mina o crescimento cristão? Como é que ela mina os casamentos?”
“Mesmo deixando de fora a vergonha e a solidão”, explica Josh, “a pornografia produz um questionamento sobre a autoridade das Escrituras, de Cristo, da Ressurreição, da Igreja e dos pais. A pornografia começa a entenebrecer a porta do cérebro para considerar as verdades da fé cristã. Logo que você se envolve na pornografia, ela assume o controle dos seus pensamentos, de seus padrões morais e de sua vida. Você precisa entender: a pornografia simplesmente assume o controle da sua vida. A pornografia assume o controle dos seus relacionamentos — o modo como você vê as pessoas, as mulheres e as crianças. E como consequência, a pornografia não deixa espaço para sua caminhada com Cristo. Não dá para você se envolver com a pornografia e ter uma caminhada saudável com Cristo”.
É por isso, diz Josh, que ele lançou “Just 1 Click Away”, um site dedicado à troca de informações, recursos e ajuda entre velhos e jovens. Sean McDowell dá uma palestra nos Ministérios Summit que ecoa a mensagem de “Just 1 Click Away”. Nele, ele se baseia no trabalho do Dr. Joe McIlhaney Jr. e da Dra. Freeda McKissic Bush em seu livro pioneiro “Hooked” (Viciado), em que eles descrevem como a pornografia e a promiscuidade sexual realmente mudam a estrutura física e a química de nossos cérebros, tornando-os mais difíceis de amar, unir e ter relacionamentos sexuais com nossos cônjuges.
Outra questão crítica que os McDowells buscam tratar com essa nova campanha contra a pornografia é a temida tarefa que os pais têm de educar e preparar seus filhos. Tanto Josh quanto Sean desestimulam qualquer esperança de que nossos filhos estarão entre os poucos sortudos que nunca vão se deparar com a pornografia. Falando em termos estatísticos, dizem os McDowells, esse é um grupo que não existe.
“Seus filhos vão se deparar com a pornografia”, diz Josh. “É muito triste, mas é verdade”. Podemos tirar a internet, a televisão e os smartphones de nossos filhos e estudantes, mas essas medidas mal estancarão a maré de imagens e temas pornográficos que os bombardeiam de outras fontes que não podemos controlar, tais como amigos e colegas de classe. Ainda que isolássemos nossos filhos pequenos e adolescentes do mundo lá fora, eles ainda se tornarão adultos e terão de confrontar de repente a cultura sexual que tentamos sufocar. Nossa tarefa como pais e mentores, acredita Josh, deve agora focar em preparar nossos filhos para responder de forma temente a Deus ao se depararem com a pornografia.
É por isso que no site “Just 1 Click Away” os McDowells buscam não somente expor o problema, mas também fornecer recursos e treinamento para pais e adultos sobre como abrir canais de conversação com seus filhos cedo, como armá-los de antemão para enfrentar as batalhas a frente, e como no final das contas e de forma sistemática dizer “não” à influência desumanizadora e degradante do pior vício de nossa cultura.
Traduzido por Julio Severo do artigo de LifeSiteNews: Porn one of the greatest threats to Christianity: Christian apologist
Leitura recomendada:

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cristo e a sexualidade (Jorge Fernandes Isah)

A busca pelo mais-que-imperfeito











Escrito e narrado por Jorge Fernandes Isah

       Estive conversando com um irmão sobre vários assuntos e num determinado ponto, lá pela metade do bate-papo, ele me perguntou: Como você acha que seria a sexualidade de Cristo?... E me deu a sua opinião... Mas antes de entrar propriamente no assunto, farei alguns esclarecimentos:

1)      Sei que estarei a mexer em vespeiro, e muitos irmãos considerarão esta reflexão algo despropositada, sensacionalista, e que em nada edificará o Corpo. Dirão que os meus objetivos são a autopromoção, o exibicionismo e a carnalidade. Pois bem, quero ressaltar que ao ser surpreendido pela questão, muitos também podem sê-lo, e acredito que mais grave que a ignorância é a omissão e o querer se manter ignorante.
2)      Não abordei este tema sem antes orar, e buscar o entendimento  pela Escritura e jamais alheio a ela. Não quero inventar a roda, nem procurar chifres em cabeça de cavalo. Tratarei a questão com reverência e temor, sabendo que posso ser mal-interpretado, mas também posso auxiliar irmãos que por ventura estejam buscando uma resposta. 
3)      Verdadeiramente, falar da sexualidade de Cristo é um tabu, e penso que não deveria ser. Nem todos pensam, se interessam ou discutem a questão, mas creio que isso não deve ser o padrão cristão, de haver perguntas “imperguntáveis”. Desde que o debate seja realizado sem escanercimento nem leviandade, até mesmo a “sexualidade” de Cristo pode ser discutida.
4)      Este texto é uma resposta, não é uma tese, um ensaio ou tem qualquer outra pretensão que não seja direcionar o assunto sobre o ponto de vista escriturístico; revelando o que me foi revelado pela Bíblia. Nunca li qualquer livro sobre o assunto, nem mesmo nunca me interessei por ele, e toda a minha reflexão se baseou na pergunta daquele irmão, como formulada ao alto. Este texto será dividido em três partes, provavelmente; não distintas ou isoladas, mas ainda que focando pontos diversos dentro do tema, eles estarão interrelacionados. 
5)      Cristo é 100% Deus e 100% homem. Ainda assim, não o considero “ipsis literis” igual ao homem, visto não lhe ser possível pecar. A Bíblia afirma que Cristo jamais pecou; que ele foi o único homem sem pecado, e, por isso, ele é puro, santo, perfeito e imaculado. Cheguei a analisar esta questão no texto intitulado, “O pecado que Cristo não levou”. À época, e ainda hoje, muitos irmãos teceram críticas à minha posição, dizendo que ela alterava ou invalidava de alguma forma a expiação eficaz do Senhor, por eu sugerir que ele não tivesse a mesma humanidade que nós, em todos os seus múltiplos detalhes. Alguns alegaram que a minha ignorância antropológica levara-me ao erro. Outros, de me opor à ortodoxia cristã. Para mim, o simples fato de Cristo não poder pecar [e sequer cogito a hipótese do pecado ser algo possível na impossibilidade dele pecar] o torna diferente de nós, não em sua natureza humana, mas em sua pessoalidade, na sua natural indisposição e absoluto impedimento de pecar [sua natureza humana supostamente “poderia” pecar, mas como ela está sujeita à Pessoa do Verbo, e a Pessoa é quem determina a vontade, mesmo a humana, é fato que Cristo jamais pecaria].
  
      Feitos os esclarecimentos iniciais, prosseguirei com o que se pode chamar de introdução.
       Deus criou o homem e a mulher, “desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea” [Mc 10.6]. Assim, ele os criou com o propósito de se unirem, tornando-se uma só carne [Mc 10.7-8]; pois considerou bom que o homem não estivesse só, mas tivesse uma ajudadora idônea [Gn 2.18]. De certa forma, de uma só carne, Adão, Deus fez também Eva, para que se unissem novamente em uma só carne, não sendo mais duas. O sexo entre as criaturas sempre esteve na mente de Deus, pois ele criou homem e mulher dotados fisicamente de aparelhos reprodutores funcionais e completos, estando habilitados a cumprir a ordem de frutificar, multiplicar e encher a terra [Gn 1.28].
       O fato do sexo ser algo puro e santo, dentro dos limites estabelecidos por Deus [na união do homem e da mulher, no casamento, uma única vez, pois o que Deus ajuntou não o separe o homem (Mt 19.6)], está no fato do casal primevo estar nu e não se envergonhar da sua nudez [Gn 2.25]. Mas isso foi antes da Queda; e, após o pecado, tanto Adão como Eva sentiram-se vexados por sua nudez, revelando a mudança em seus corações, e uma disposição para a corrupção, para o adultério, para a lascívia, para a imoralidade, a perversão e a depravação; levando-os a refugiarem-se entre as árvores do jardim, crendo possível esconder-se de Deus [Gn 3.8].
       O sexo, novamente afirmo, dentro do padrão moral e santo de Deus não tem em si mesmo nenhum mal, o problema é a forma como o homem o vê, a partir da cobiça e do desejo de buscar e querer o que não lhe pertence ou o que não lhe é dado pertencer. 
       Tudo isso passa pelo crivo da Lei de Deus que estabeleceu os princípios norteadores em todos os aspectos da vida, sejam espirituais, físicos ou materiais. A Bíblia nos dá a resposta para todos os dilemas e situações, de tal forma que é o manual de conduta do homem. Ou deveria ser. Quando ele caiu no Éden, caiu juntamente consigo o padrão moral, de tal forma que dali em diante a impiedade chegaria ao ponto em que o homem perderia completamente o discernimento entre o que lhe convém e o que não lhe convém fazer, entre o santo e o profano, entre o moral e o imoral, de maneira que ele acabaria sempre optando pela escolha natural, a inclinação da carne: o pecado. Assim toda a sua natureza se viu corrompida; e o passo seguinte foi apresentar os seus membros por instrumentos de iniquidade.
        Já na primeira geração pós-Éden, Caim invejou, cobiçou, matou e mentiu. Depois, o texto sagrado relata uma sucessão de eventos em que os corpos serviram à imundície e à maldade para a maldade [Rm 6.19]. E o sexo tomou suas formas mais doentias, se transformando em um deus durante os séculos, ao qual os homens se mantiveram aprisionados, feitos escravos, alimentando-o e sendo alimentados por ele, como um tumor maligno alimenta-se do corpo debilitado até destruí-lo. 
      O que muitos não reconhecem é que o padrão humano para quase tudo será sempre aviltante e degradável. A principal característica humana é a de corromper tudo o que toca; como o Rei Mídas transformava em ouro o que tocava, ao ponto de quase enlouquecer e morrer, pois uma simples fatia de pão ou um copo de água se transformavam em ouro, impossível de ser ingerido. Ele percebeu que o seu desejo desenfreado, a ambição material, significaria a sua destruição. Essa história mitológica é uma alegoria à ganância que, como um ídolo, pode decretar a morte física e espiritual; assim como temos o "dom" de estragar o que tocamos, exatamente por causa do pecado. Alguns dirão que é exagero, que minha afirmativa está mais para o maniqueísmo do século III. Na verdade, a Bíblia diz que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Não há quem faça o bem, não há nem um só. Não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há temor de Deus diante de seus olhos [Rm 3.23, 10-18]. Porém o Senhor nos deixou o padrão correto de como fazer as coisas, inclusive, o sexo. 
       Durante séculos, acreditou-se em dois extremos: de um lado os gnósticos que viam o corpo como um vaso imundo para o espírito. De tal forma que o espírito somente estaria liberto, definitivamente, com a morte do corpo. O ascetismo e o celibato eram as melhores formas de se garantir alguma pureza, ainda que parcial. Em linhas gerais, o desejo sexual deveria ser sublimado ou abolido para que a luz derrotasse as trevas. Do outro lado, havia a depravação total; onde tudo era permitido, desde as bizarrices ou excentricidades até as aberrações mais perversas e degradantes. Para esse grupo, nada era pecado, nem proibido, ao ponto em que luz e trevas se misturavam sem que uma pudesse sobreviver sem a outra. Como antíteses de uma mesma tese.
      Se de um lado havia uma tentativa de se "parecer" com Deus, ao menos de se aproximar de sua santidade; do outro lado, havia o desejo de se afastar completamente dele, uma forma, ainda que não intencional, de não se parecer com Deus ou o que ele representasse. A questão é que, no primeiro caso, buscava-se alcançá-lo pelo esforço humano, pelo conhecimento, pela busca da pureza, alheia aos ensinos bíblicos, ainda que pudessem crer serem neles firmados. Ainda que toda a "pureza" se baseasse em uma disciplina alimentar rígida e na abstinência sexual, não procedia de Deus, mas era outra invenção humana, um placebo que não resultaria em nenhum efeito positivo, pelo contrário, manteria o homem ainda mais distante de Deus. Entendo como sendo uma forma que encontraram para se  diferenciarem dos pagãos, dados às orgias e bacanais, por isso a necessidade de rejeitarem o sexo como algo sujo e destituído de qualquer valor que pudesse aproximar o homem de Deus. 
       As duas formas continuam a existir ainda hoje com novos rótulos, e em múltiplas versões, ainda mais radicalmente estapafúrdias. O que já era ruim, piorou ainda mais. Não vou entrar em seus detalhes, a esmiuçá-los e apontando-lhes as fragilidades, mas o certo é que erram exatamente por não reconhecer o propósito eterno que Deus sempre teve para o sexo. Se temos de glorificar a Deus em tudo, seja no comer, no beber, ou fazendo qualquer outra coisa [1Co 10.31] também devemos fazê-lo no sexo.
        O problema reside na questão: a nossa sexualidade glorifica a Deus? Ou estamos buscando uma autonomia, em nós mesmos, pela liberdade de pecar? E, por fim, sermos definitivamente presos pelo pecado?
      O fato é que o sexo foi alçado a um grau de importância tão grande, tornando-se em superlativo, que muitos ergueram um altar para adorá-lo; de forma que ao invés do sexo ser normatizado e adequado ao padrão divino pelo qual o comportamento humano na sociedade seria disciplinado, passou a ser o formador do padrão pelo qual o homem viverá socialmente, no subterrâneo da imoralidade. Ao ponto em que tudo é válido, menos restringi-lo. Em outras palavras, seria uma proposta avessa ao ascetismo gnóstico, quase a gritar em nossos ouvidos: o homem não tem alma, logo, não há Deus! Então, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos [1Co 15.32]. O sexo tornou-se um meio pelo qual o homem tenta se livrar de Deus.
      Mas como sabemos, isso é impossível; ninguém está livre de Deus, mesmo aquele que não o reconhece; mesmo o que o nega.
     Concluíndo: o sexo, fora dos princípios bíblicos e dos padrões estabelecidos pelo Criador, nada mais é do que a busca pelo mais-que-imperfeito.
 
Leia a parte 2 deste artigo: Encontrando a razão

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O amor à espera de ti - Cantares para ela mesma (XVII)



Para L.R.

Amo-te! Exasperadamente: amo-te!

Amo-te nesta distância do que não vejo
E amo-te na adaga negra em meu peito!

Amo-te! Tempestuosamente: amo-te!

Amo-te no espaço vago deste espelho
E amo-te na solidão fria do meu leito!

Amo-te! Irascivelmente: amo-te!

Amo-te na privação do que mais anseio
E amo-te na omissão do que foi sobejo!

Amo-te! Enfurecidamente: amo-te!

Amo-te em arquejo pelo sabor de teu beijo
E amo-te na falta do que é meu por direito!

Amo-te! Irritadamente: amo-te!

Amo-te na frustração do meu mais ardente desejo
E amo-te no rasgo do tecido parvo do meu tempo!

Amo-te! Impetuosamente: amo-te!

Amo-te no fogo fátuo que um dia fora incêndio
E amo-te em cada verso que escrevo: amo-te!

Amo-te, enfim, como quem desesperadamente te grita:
                                                               - Amo-te!

F.R.
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