Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O cheiro do pequi - uma história indígena (Prof. Wanderley Dantas)

O delicioso (e cheiroso) pequi!
Os povos daqui contam uma interessante história sobre a origem do cheiro do pequi... E eu acho essa fruta deliciosa, mas confesso que, depois dessa história, passei a apreciá-la ainda mais... 
Há muito tempo, quando um índio saía para caçar, suas duas esposas iam para a beira do rio e chamavam o jacaré. Este vinha das águas em forma de homem e deitava-se primeiro com a mais velha e depois com a mais nova. Era sempre assim toda vez que esse índio saía para caçar.
Entretanto, numa de suas caçadas, esse índio viu uma cotia e, então, preparou seu arco e sua flecha para acertá-la. Já mirava para matar a cotia, quando esta lhe falou: “Calma, meu neto, não me mate, não! Você sabe o que suas esposas estão fazendo agora? Se você não me matar, eu te mostrarei”.
Assim saíram os dois, a cotia e o índio até próximo do rio. Ao chegarem, a cotia disse ao índio: "Olhe lá, é o jacaré deitando-se com suas esposas". O índio ficou furioso, mas a cotia disse ao índio que não matasse o jacaré ainda. Após se deitar com a mais velha, o jacaré foi se deitar com a mais nova. Foi aí que a cotia deu ao índio uma de suas flechas invisíveis. A cotia disse para o índio apontar, mas esperar um pouco mais antes de matar o jacaré. Quando este já estava quase ejaculando, a cotia mandou que o índio atirasse sua flecha invisível. O jacaré caiu morto na hora, mas as índias não viram o que aconteceu por ser a flecha invisível. Após chorarem muito, elas resolveram enterrá-lo e voltaram para casa.
Quando o índio chegou em casa, deu uma surra em suas esposas. Então elas pegaram as coisas do seu marido e jogaram para fora da casa e ele foi morar na casa dos homens. Elas estavam com muita saudade do jacaré e não quiseram mais o marido que matara o jacaré. Cinco dias passaram e elas resolveram ver o lugar onde o enterraram. Chegaram e havia um lindo pé de pequi nascido no lugar onde elas haviam enterrado o jacaré.
O Sol desceu do céu e foi ver o índio na casa dos homens. E perguntou ao índio: “Por que você está aqui?” Aí, o índio contou a história ao Sol e disse que suas esposas não o queriam mais. O Sol disse que sabia uma oração que faria com que suas esposas o quisessem de volta. O Sol fez com galhos e argila uma figura da vagina e disse assim: “Segure esta vagina e você vai mostrar para suas esposas e vai dizer: Olhe para a sua vagina, olhe para a sua vagina. E elas vão achar graça e vão querer você de volta”. Assim, o Sol e o índio, cada um segurando uma vagina feita de galhos e argila, saíram para a casa onde estavam as esposas. O Sol também pintou todo o corpo do índio com desenhos de vaginas. Chegaram lá, eles ficaram cantando para elas: “Olhe sua vagina, olhe sua vagina”. As esposas acharam graça e começaram a brincar de jogar terra no Sol e no marido. Elas acharam tanta graça que esqueceram o jacaré (e, até hoje, quando uma esposa não gosta mais de seu marido, este realiza esse ritual chamado “a oração do Sol”, para que a esposa volte a aceitá-lo).
Blog "O Seringueiro"
Mas e o cheiro do pequi? Bem, a origem do pequi vem do jacaré. Assim, toda vez que o pé do pequi está novinho ainda, o dono do pé tem que ir lá e desenhar com um facão um jacaré no tronco da árvore, para que ela cresça forte. Mas e o cheiro do pequi?! Quando nasceram os primeiros pequis, as esposas que haviam enterrado o jacaré foram lá para ver aquela fruta diferente. A esposa mais velha pegou um pequi, mas ele não tinha cheiro. Ela achou a fruta sem graça e jogou fora. Mas a esposa mais nova ouviu o beija-flor dizer: “Pegue o pequi e passe na sua vagina”. Ela fez. E foi assim que todo pequi ficou com esse cheiro bem peculiar desde então. 


 

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Racismo, Filosofia e Paixão em Abelardo - Cantares sobre Cantares (XVIII)

"Uma mulher assim prefere a alegria secreta de seu homem na intimidade da cama do que ser admirada pelos demais à mesa do marido. Frequentemente, ocorre que a pele das mulheres negras, mais desagradável à vista, é também mais suave ao tato, sua sensualidade prefere e é mais adaptada aos prazeres secretos do que aos públicos e seus homens, sempre que desejam gozar de seus prazeres, a conduzem a lugares apartados e não em meio à multidão".

As palavras acima são do filósofo Abelardo (1079-1142) - mais um que se debateu contra o texto de Cantares numa tentativa malfadada de interpretá-lo alegoricamente. Abelardo chega a dizer que a cor negra da Sulamita é uma deformidade ("ipsa quippe nigredinis deformitas"). 

Contudo, talvez, Abelardo seja mais popularmente conhecido pelo seu romance proibido retratado no filme "Em nome de Deus". Abelardo, pelo pouco que lembro do filme - aliás, as cenas tórridas entre Abelardo e Heloísa são das poucas coisas que não dá para esquecer do filme! Mas, na vida real, Abelardo tinha 37 anos e Heloísa apenas 17 quando iniciaram o romance entre os dois.

O tio de Heloísa contratou Abelardo para ser professor de Heloísa e as aulas noturnas deram oportunidade para ambos consumarem os desejos que os atraíam um ao outro. Contudo, a atração entre eles não era apenas sexual, mas nutriam profunda admiração, pois ambos eram intelectuais dedicados ao conhecimento e estudiosos de Ovídio e do Cântico dos Cânticos.

Um dia, o tio de Heloísa descobre o romance entre eles e expulsa Abelardo, proibindo-o de vê-la. Entretanto, eles continuaram a se encontrar em secreto até que Heloísa engravida. Abelardo, para não expô-la ao escândalo, leva Heloísa para morar com a irma dele fora da cidade de Paris. Nasce, finalmente, o filho que recebe o nome de Astrolábio. Abelardo retorna a Paris e pede perdão ao tio de Heloísa e pede que este lhe conceda-a em casamento. O tio consente, mas com a zombaria da sociedade da época, o tio contrata alguns homens que cortarão o órgão sexual de Abelardo.

Depois desta tragédia, que se deu mesmo com ambos já casados, Abelardo nunca mais falou com Heloísa. Esta funda um convento e se retira e ele constrói uma escola ao lado do convento de Heloísa. Embora nunca mais tenham falado um com o outro, ambos se viam diariamente e trocavam ininterruptas correspondências. Heloísa, em suas cartas, não apenas demonstrava o amor que jamais se apagara do seu coração, como, também, a revolta por ter se tornado freira.

Abelardo morre aos 63 anos de idade e Heloísa lhe constrói uma tumba. Vinte anos depois, falece Heloísa e, a seu pedido, ela é enterrada ao lado de Abelardo.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Felicidade do peregrino - Cantares da Felicidade (XV)

Bem-aventurados os que habitam em tua casa; louvar-te-ão continuamente. (Selá) 
Bem-aventurado o homem cuja força está em ti, em cujo coração estão os caminhos aplanados, o qual, passando pelo vale de Baca, faz dele uma fonte; a chuva também enche os tanques. 
Sl 84: 4-6

Estamos na “Era da felicidade fácil”! Nunca foi tão acessível a felicidade às mãos das gerações anteriores como tem sido para nós hoje. Criamos nossas máquinas de felicidade virtual e as colocamos diante dos olhos de nossos jovens, seja a TV, seja o computador. Para eles, a felicidade está logo ali na breve distância de um simples “click”. São programas e vídeos de humor e lazer tão tolos e vazios, mas que preenchem o tédio do nosso dia-a-dia: CQC, zorra total, pânico, MTV, UFC fight, etc. 

Conseguimos aprimorar a regra tão conhecida de controle social do “pão e circo” oferecendo maior número de variedades de pães para todos os gostos, desde o simples pão francês até o brioche e diversos tipos de croissant. Os circos de outrora foram ultrapassados pela febre hodierna das grandes produções cinematográficas em 3D e vídeo games excessivamente reais. E não parece mais haver limites para nossa geração hedonista. Há uma cultura do entretenimento especialmente voltada ao meu lazer e diversão. Para nós, desajustados com toda essa high-tech que cerca nossos filhos, há ainda as caixinhas pró-felicidade que podemos comprar: desde o já consagrado prozac, passando pelo truptanol, até aquelas caixinhas contra nossas crises de ansiedade - cebrilin, butal sedin, arotin... Sem esquecer da maior invenção de felicidade em drágeas desde o surgimento do anticoncepcional: aquela pilulazinha azul, o viagra, que trouxe um novo conceito de terceira idade! Enfim, parece que não há mais como NÃO ser feliz!

Todavia, se tudo isso que foi dito acima lhe soar muito mundano, por favor, não torça o nariz, porque a cultura também pensou em você: as igrejas se proliferam não apenas pelos canais de TV, mas em cada esquina de nossas ruas. Há mega shows de uma fé não apenas internacional, mas, também, mundial e universal!!! Verdadeiros espetáculos de histeria coletiva da felicidade eufórica sob o rótulo santo do nome de “jesus”! São os BBBs gospel em rede nacional recheados de exorcismos e milagres bem ali na igreja mais próxima da sua casa ou nas melhores lojas do ramo. O mercado da felicidade contagiou o mundo cristão! Diversifica-se cada vez mais as inúmeras versões do texto bíblico - RC, RA, NTLH, Contemporânea, NVI, etc - enquanto isso, o povo nunca leu tão pouco qualquer um desses textos... Multiplicam-se os artistas na mesma medida em que a qualidade de suas músicas se esvai. Mas é preciso que seja assim, porque a felicidade fácil só "cola" nas mentes em hits fáceis e de fácil digestão espiritual. "Tudo muito fácil, extremamente fácil, pra você e eu e todo mundo cantar junto" - segue-se a receita do mundo. É preciso muito fogo ou muita chuva sobre a multidão sedenta por fuga e escapismo dos problemas reais que lhes batem à porta: uma dose farta de ópio para que possamos chegar até o dia seguinte... Não há mais como dar desculpas por NÃO sermos felizes!

O salmista, contudo, não viveu nestes nossos tempos fáceis. O peregrino tinha que enfrentar até meses de longas e difíceis jornadas caso quisesse chegar ao templo em Jerusalém – lugar determinado por Deus no Antigo Testamento para a manifestação da sua presença. Às vezes, famílias inteiras com crianças e mulheres grávidas viajavam por regiões áridas como o vale de Baca, conhecido também por “vale de lágrimas”. Assim, a alegria do salmista se revela quando este chega, depois de longa jornada, aos átrios de Deus. O salmista inveja os passarinhos: melhor seria ser como o pardal e a andorinha que fizeram seus ninhos sobre o Templo, assim jamais ele sairia de perto da presença de Deus.

A felicidade do peregrino é concluir sua dura travessia até encontrar-se com Deus. A nossa felicidade é encontrarmos nossa força em Deus para conseguirmos concluir a viagem que já começamos nesta vida por causa de Jesus, que fez do meu corpo o Templo do Espírito Santo! Por causa de Jesus, somos peregrinos perseguindo o céu: o templo do nosso Deus Vivo!

Aguardo, Senhor, o dia maravilhoso, o fim desta minha jornada, em que minha alma suspirará e desfalecerá ao se encontrar eternamente nos braços da verdadeira felicidade! Amém!

Linda música sobre o salmo 84:

Leia também: 

A Felicidade-Maravilha (ou “Sobre Cantares da Felicidade”)


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

AS FILHAS QUE O XINGU ESQUECEU

       O recente filme Xingu, do diretor Cao Hamburger, trouxe às telas  a história dos irmãos Villas Boas, famosos sertanistas que contribuíram muito para o trabalho junto aos indígenas brasileiros e para a criação do Parque Nacional do Xingu. Aproveitando o momento, a revista Claudia trouxe aos seus leitores a história da filha que um dos citados irmãos teve com uma índia. E a reportagem me remeteu a uma outra índia do Xingu  que teve um romance com o sertanista uruguaianense Ayres da Cunha.
     Certamente muitos já ouviram falar da célebre Expedição Roncador-Xingu, que  foi uma parte do processo de interiorizacão do Brasil, a Marcha para o Oeste, criada em 1943 pelo governo de Getúlio Vargas. Os irmãos Vilas-Boas (Cláudio, Orlando e Leonardo) se integraram a ela e passaram cerca de trinta e cinco anos no Brasil Central e contribuíram de maneira expressiva para o conhecimento da região e para a preservação do local. Catalogaram cerca de cinco mil indígenas e várias tribos. Criaram algumas cidades como postos de base na região, como a cidade de Nova Xavantina. Criaram também o Parque Indígena do Xingu. A chefia dos irmãos mudou o caráter da Marcha para o Oeste, que tinha tudo para ser uma expedição violenta, mas se tornou uma expedição de contato baseado no ideal do Marechal Cândido Rondon: "Morrer se preciso, matar nunca".
        Mas o que muita gente não sabe ou não lembra é de um drama familiar que sucedeu aos Villas Boas quando um dos três irmãos (Leonardo, o mais impulsivo, destemido e teimoso) apaixonou-se por uma índia camaiurá , chamada Mavirá, que era uma das esposas do chefe da tribo, Kutumapy. Leonardo tomou-a do chefe, levou-a para viver com ele e pediu autorização ao Serviço de Proteção ao Índio e à Fundação Brasil Central para casar-se com ela. O pedido foi negado, pois os índios eram considerados inimpuitáveis aos olhos da legislação e não poderiam casar-se perante a lei. Além disso, o fato poderia abrir um precedente para os mateiros e peões das expedições quererem casar-se com índias. O problema agravou-se com a indignação dos índios perante o roubo de uma das esposas do chefe. E Leonardo, preocupado com a segurança de Mavirá, fugiu com ela de barco pelo rio Culuene, ajudado pelos irmãos.

    Tempos depois, tendo os índios desistido de vingar-se, voltaram para a aldeia, estando Mavirá grávida. Nasceu uma menina, registrada como filha de Leonardo e Mavirá, a qual recebeu o nome de Maialu. Entretanto, Leonardo  tinha medo de que os índios pudessem fazer alguma coisa contra a menina, pois o infanticídio era comum entre os camaiurás, principalmente se a criança tinha algum defeito físico ou não tinha um pai oficial. Além disso, os filhos de brancos com índias eram raros e mal vistos nas tribos. Assim, quando a menina estava com 10 meses, Leonardo encarregou um major da expedição de roubar a menina de Mavirá e levá-la de avião para a família dele em São Paulo.
    Assim, Maialu foi criada pela tia Lourdes, irmã dos Villas Boas. "Ela foi a minha mãe verdadeira. Cresci como filha dela e nunca mais retomei ao Xingu. Mas sempre foi uma  situação tranquila. Minha tia me amou muito”, afirmou  Maialu em entrevista exclusiva a CLAUDIA. “Meus  tios (Orlando e Cláudio) sempre disseram que me afastaram da minha mãe biológica para minha segurança.” Aos 5 anos, a tia Lourdes lhe contou a verdade .  "Ela disse que minha mãe era uma índia do Xingu e que meu pai tinha gostado muito dela, mas  que não puderam ficar juntos. Apenas isso; eu era pequena para uma conversa mais profunda." Desde que tirara Maialu da mãe, Leonardo manteve-se afastado dos camaiurás. Receoso de que todo o trabalho  caísse por terra com a repercussão negativa, Orlando o enviou para trabalhar com os índio xicrins , no Pará, bem longe das confusões. Mas sempre que podia vinha a São Paulo para ver Maialu. Em 1961, entretanto, Leonardo morreu de complicações cardíacas, aos 43 anos. Ele sofria de febre reumática, consequência da vida difícil nos sertões. Após uma cirurgia malsucedida, uma calcificação acabou desencadeando um infarto fulminante. "Ele era difícil, mas comigo foi muito carinhoso e presente," diz Maialu.
    Os Villas Boas sempre trataram com discrição da história de Maialu. "Não era um segredo. Tenho orgulho de saber que temos esse laço direto com o Xingu. Meu pai, porém, toda a vida tentou protegê-Ia de qualquer exposição indevida", conta Noel Villas Boas, filho de Orlando e guardião da história da família.   "‘Sinto que a minha história era um tabu. Acho que fizeram tudo isso para proteger minha mãe Lourdes. Eu também não fui além nas perguntas porque não queria que pensasse que eu não a considerava boa mãe," fala Maialu.

     Mas ter crescido em São Paulo não afastou totalmente Maialu da tribo camaiurá. "Os índios vinham para São Paulo e ficavam na casa da minha mãe.” Nessa época, ela teve contato com alguns familiares indígenas, como o pai adotivo de Mavirá, o cacique Mariká. "Eu não falava tupi muito bem, sabia apenas umas canções que meus tios tinham me ensinado” Mas eles insistiam em falar comigo no idioma camaiurá," conta. "De algum modo, me sentia parte deles.'".
        Mavirá, a mãe de Maialu, ainda é viva. Ela fugiu da aldeia e foi viver com um índio carajá, o cacique Maluaré, morando na região da Ilha do Bananal, na divisa de Mato Grosso e Tocantins. Hoje, aos 75 anos, Mavirá parece te reconquistado o respeito entre os camaiurá. Retorna todos os anos para a aldeia onde nasceu para visitar a irmã. Continua bonita, é alta, altiva e se impõe.
     Maialu nunca mais encontrou a mãe biológica. Foi no enterro de Orlando, há nove anos, que, pela primeira vez na vida adulta, teve notícias dela. Soube que estava viva e viu sua imagem. Uma meia-irmã índia, filha de Mavirá com o cacique carajá, veio a São Paulo para a ocasião e trouxe uma fotografia.
     Atualmente, Maialu dedica-se à família que  formou. Casada desde os 26 anos com João Francisco Menella, um colega que conheceu na faculdade de matemática, tem duas filhas, a socióloga Ana, 32 anos, e a professora de português Giovanna, 29, que ainda mora com os pais em uma casa no bairro do Jabaquara, na Zona Sul de São Paulo. Hoje, Maialu está aposentada por causa de uma tendinite no ombro.
     Para Carmen Junqueira, a história de Maialu é um exemplo do impacto da política na vida dos índios, sobretudo das mulheres. "Essa trama teve um pano de fundo político. Todos os personagens atuantes foram os homens, que decidiram o destino delas sem consultá-las. No fim, Mavirá e Maialu acabaram separadas por toda uma vida.”  A tristeza surgiu nos olhos de Maialu apenas uma vez durante a conversa com CLAUDIA, que ela encerrou com uma confissão: "Sempre tive a sensação de que, se meu pai não tivesse morrido tão cedo, muita coisa  teria sido diferente. Sentia que ele estava esperando eu crescer para falar sobre minha mãe.”
     Outro caso parecido com esse, mas com final mais triste foi o da índia Diacuí, retirada do Xingu por um sertanista, para uma breve felicidade, cujo fim prematuro e trágico comoveu a todos. O sertanista chamava-se Ayres da Cunha, homem branco, gaúcho natural de Uruguaiana, benquisto na tribo de Diacuí, os kalapalos.
     Fascinado pela beleza da índia, Ayres propôs-lhe que viessem para o Rio de Janeiro, onde se casariam. Consultado, o pai de Diacuí consentiu, resolvendo acompanhar o casal à cidade grande. Houve dificuldades burocráticas, pois a maioria se indagava se era correto a um civilizado desposar uma “selvagem”, no regime em que o Código Civil mantém nossos silvícolas.
   Superados os entraves, graças ao prestígio da então poderosa cadeia de Jornais e Emissoras Associados, de Assis Chateaubriand, que encampou a festa, dela tirando o maior proveito publicitário, realizou-se o casamento, que encheu muitas páginas da imprensa, não só nacional como internacional.
    Diacuí e Ayres da Cunha voltaram para a tribo dispostos a viver mais tranquilos. Pelo menos era isso que garantia o sertanista. Foi  então que Diacuí ficou grávida. Mas infelizmente não chegou a ver o fruto do seu amor, pois morreu  após o  parto.
    Passaram-se os anos e, quando andava profissionalmente pelo Rio Grande do Sul, fazendo uma série de reportagens, acompanhado pelo fotógrafo Antonio Ronek, o jornalista Mário de Moraes soube, em  Uruguaiana, que a filha de Diacuí, de quem ninguém tinha notícia, encontrava-se naquela cidade. Investigaram  e era verdade. Ninguém, até então, sabia do seu paradeiro, pois, depois da morte de Diacuí, Ayres levou a filha para local ignorado.
      A menina nada sabia sobre sua mãe. Para ela, a vovó Honorina, mãe do sertanista Ayres, é que era a sua “mãezinha”.  Quando o jornalista  descobriu a filha de Diacuí, trazendo o assunto novamente para a mídia, ela vivia na casa de um tio, Arnóbio, irmão solteiro de Ayres. Ninguém desejava perturbar a sua imensa alegria de viver, que herdara da índia Diacuí. Seu sorriso, cheio de inocência, era o mesmo sorriso da mãe que não a conhecera.
    Isto aconteceu em 1958. Hoje, se viva for, a filha de Diacuí estará com 53 anos. Possivelmente casada e mãe de alguns filhos.
  
FONTE: Blog MINÚCIAS & (IN)CONFIDÊNCIAS

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Cabe aos pais e não ao Estado definir o que os filhos podem assistir na TV! - Cantares alheios (XVIII)

Stalimir Vieira é publicitário, professor e escritor.

 

Criança e consumo: realidade e terrorismo

A “bandeira” da proteção da criança é uma das mais fáceis de portar. Entusiasma, comove, incendeia…

Um documentário bem produzido, um discurso de boa retórica, uma denúncia dramática, levarão platéias a cerrar os dentes e derramar lágrimas. As mesmas platéias que, a bordo de seus automóveis, cruzarão, em seguida, por esquinas infestadas de pequenos famintos e esfarrapados, sem perceber ou sem aprofundar a questão em suas consciências.

Aqueles que se organizam pela “causa” da criança sabem muito bem do comodismo e da hipocrisia da sociedade. Sabem que a sociedade, de um modo geral, está sempre predisposta a assinar uma “procuração” a quem dispensá-la do comprometimento direto com atos e atitudes que deem trabalho e impliquem em algum tipo de renúncia.

Quando uma organização não-governamental propõe a proibição da publicidade dirigida às crianças, sob a alegação de que as crianças estão sendo educadas pela televisão, por conta dos pais disporem de cada vez menos tempo para filtrar as influências sofridas por seus filhos, está propondo uma solução sob medida para o comodismo.

O risco de uma adesão incondicional e empolgada é grande; afinal, em tese, ninguém vai precisar fazer mais nada.

Os argumentos são verdadeiramente assustadores: obesidade infantil, erotização precoce, materialismo consumista… O discurso “do bem” é uma vestimenta que cai perfeita em todo mundo. Não importa o que fizermos ou deixarmos de fazer, desde que sob a indumentária do “politicamente correto”.
A história é rica em experiências malsucedidas de imposição de vontades. Podemos dizer que, em muitos casos, gente corrupta subjugou povos com o mero interesse de roubar-lhes as riquezas naturais. Isso é cruel. Mas não menos cruéis foram os ditadores imbuídos de idéias que acreditavam serem as melhores para a sociedade.

Para impor uma idéia, seus seguidores não vacilavam em eliminar aqueles “que não queriam ver a verdade”. Em nome de dogmas, foram mortos homens, mulheres e crianças.

Nos tempos modernos e mais civilizados, em que o assassinato puro e simples torna-se intolerável, o processo de eliminação do contraditório ocorre através da censura ou da manipulação da informação. E o pior se dá quando a censura passa a ser uma reivindicação da sociedade.

É interessante observar a maneira como aqueles que pregam a proibição da publicidade dirigida às crianças buscam um engajamento apaixonado pela causa.

Seu método aterrorizante de convencimento tem duas bases de sustentação: pregar que a publicidade dirigida às crianças é nefasta e que as famílias não podem por si sós, fazer nada para evitar as suas consequências. Ou seja, mães, pais, tutores e responsáveis pelas crianças são impotentes diante do “mal”.

É esse sentimento de impotência que nos é incutido aquele que abre caminho para a aceitação de uma “terceirização” das ações.

No entanto, temos na pedagogia uma das áreas do conhecimento mais evoluída. Há disponibilidade farta e democrática de informação sobre educação de crianças a quem estiver interessado.

Ideal, portanto, seria que responsáveis por crianças buscassem informação não contaminada por ideologizações.

Mas quem está interessado? Apenas os “idealistas” formam e consomem informação relevante. São eles que desenvolvem teses acadêmicas, embasadas num cientificismo dirigido, pois o mundo é bastante vasto e a história bastante longa para sustentações “empíricas” do que quer que seja.

Não existe, por outro lado, ato sem consequência. Quando aderimos a idéias sem termos clareza sobre elas, estamos, de fato, exercendo a entrega inconsciente e irresponsável do nosso futuro àqueles que se pretendem donos da verdade.

Todo o discurso radical, seja contra ou a favor do quer que seja, deveria merecer uma avaliação preocupada.

Defensores de certas “bandeiras dogmáticas” contam sempre com meios dramáticos para envolver-nos com seus objetivos.

No discurso contra ou a favor da publicidade dirigida às crianças é exatamente isso o que ocorre.

Quando alguém declara que publicidade dirigida à criança “promove obesidade, erotização precoce e mentalidade materialista” está fazendo, propositalmente, afirmações atormentadoras.

Seria o equivalente a dizer, em sentido contrário, que “proíba-se a publicidade, diminua-se o consumo, fechem-se as fábricas, desempreguem-se as pessoas e estaremos alimentando a prostituição infanto-juvenil como meio de sobrevivência das famílias”.

Mentira? Verdade? Depende, num caso e outro, da nossa pré-disposição em adotar bandeiras ideologizadas.

Excetuando-se os casos patológicos, a obesidade infantil pode ser provocada, certamente, pela alimentação inadequada. Mas até que ponto pode-se afirmar, categoricamente, que a publicidade promove a alimentação inadequada das crianças?

A publicidade promove produtos e marcas, legalmente fabricados e socialmente aceitos, dentro de um contexto de normalidade social.
Fora disso, teríamos que considerar um “estado de exceção”, uma sociedade caótica, desequilibrada, irresponsável, absolutamente incapaz de agir ponderadamente…

Há quem defenda que, de uma maneira geral, essa é a realidade que vivemos. Um mundo em que as crianças não estão sujeitas a nenhuma disciplina, nenhum comando que ordene ocasião e quantidade de consumo do que é anunciado, estabelecendo-se, daí, uma relação direta entre anunciar, consumir e engordar.

Se pensarmos um pouco, é uma suposição típica de ficção futurista, uma circunstância imaginária em que meninos e meninas, instrumentalizados por “babás eletrônicas” – a televisão e a geladeira –, são escravizados para uma “engorda” permanente e infinita.

Ora, isso é a negação absoluta da célula familiar como base da sociedade. E, pior, a ser aceita como verdade, reforça a idéia de a solução ser pela “terceirização” da administração das relações humanas àqueles “que sabem o que é melhor para a sociedade”. Uma deturpação.

A questão da “erotização precoce” é outra “bandeira” fácil e dramática. Um pouco de serenidade vai mostrar que a publicidade que trabalha a feminilidade e a vaidade das crianças não inventa nada. A menina não necessita da publicidade para “pintar as unhas” ou calçar o sapato de salto da mãe. Isso acontece em 2012, como aconteceu em 1912 e em 1812.

Nada mais eficaz para aterrorizar as mães, no entanto, do que acusá-las de negligentes, diante da “erotização precoce” de suas filhas. A expressão, por si só, já coloca, em tese, todas as meninas à mercê de pedófilos. O que é, enfim, “erotização precoce”? É a menina excitar-se diante do sexo oposto “antes da hora”? Erotização precoce é namorar com 10 ou 11 anos? É fazer sexo com 13 ou 14 anos? O quanto disso é, necessariamente, produto da “fabricação” de um modelo consumista de menina para atender ao interesse do mercado? O que tem a ver erotização precoce com prostituição infantil?

Certas confusões “apavorantes” são do interesse de quem milita pela censura. Há mais de 100 anos, sem publicidade estimulando a “erotização precoce”, casavam-se as meninas com 13, 14 anos!

Provavelmente, elas não “sofressem” de “erotização precoce” e fossem defloradas passivamente por seus maridos, circunstância moralmente, quem sabe, mais digna para a época.

Em nome dessas bandeiras fáceis, busca-se aterrorizar as famílias. Quando o que se deveria fazer é resgatar a autoestima dos pais, dar-lhes coragem e segurança para tratar do assunto em casa, aproveitando, inclusive, a abordagem explícita adotada pela mídia sobre as questões.

É preciso levar o assunto para a sala de aula, com realismo e espírito contemporâneo. É preciso escapar da tentação comodista de aceitar certezas absolutas sobre os nossos destinos. Sob pena de nos tornarmos reféns de nosso medo e daqueles que dominam a arte de promovê-lo e manipulá-lo.

Stalimir Vieira, publicitário, dirigiu criação na DPZ, W/Brasil, em São Paulo e DDB, Argentina; professor convidado de pós-graduação em Comunicação Social pela Universidade de Havana; membro do Conselho de Ética do CONAR; autor de Raciocínio Criativo na Publicidade e Marca: o que o olhos não veem o coração não sente (Editora Martins Fontes).

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Winter (Rolling Stones) - Cantares de todos nós (XIV)



"Cantares de todos nós" é uma página neste blog em que apresento palavras de outras pessoas, textos, poesias e canções alheias, mas, ao contrário da página "Cantares alheios", em que posto conteúdo semelhante mas sem tecer qualquer comentário, "Cantares de todos nós" é um espaço para entrelaçar meus pensamentos aos de outros, questionando, confirmando ou, simplesmente, identificando-me como o faço abaixo.

"Inverno" é uma música em feitio de oração que conheci no fim de uma das mais difíceis fases da minha vida. Sim, passei por um longo inverno, mas quem nunca passou? Tempo de perplexidade, desconfiança e mágoas pelas atitudes de pessoas das quais esperava carinho, compreensão e amizade. Foi uma fase em que descobri que não posso medir as pessoas com a mesma régua com a qual me meço, porque eu não posso esperar das pessoas o mesmo que esperaria de mim se estivesse no lugar delas. O outro não sou eu! Sofri muito até aprender essa verdade tão óbvia. O outro não orou a mesma oração que orei, o outro não se debruçou sobre a Bíblia como eu me debrucei; não leu os livros que li, não amou e nem odiou com o mesmo vigor que eu já fiz; o outro não chorou ou sorriu e nem teve as perdas e os ganhos que tive na vida: ele não tem estes olhos que estão no meu rosto e nem o coração que bate em seu peito é o meu... O outro apenas teve suas próprias vivências em maior ou menor escala e intensidade, mas não na mesma medida que eu as vivi. E hoje eu entendo que o outro pode nem estar vendo o mesmo céu que eu, ainda que esteja olhando na mesma direção. 

Como diz a música abaixo, nos invernos, o amor é sempre queimado... O coração é machucado pelo gelo que queima e destrói o que acumulamos tão preciosamente. Contudo, o inverno sempre passa e a esperança é que a primavera dure por um pouco mais de tempo. O que eu aprendi com o inverno? Aprendi a dura lição de que devo me proteger, porque só eu sei o que sofri, só eu sei quantas lágrimas derramei e só eu sei como minha saúde foi debilitada naquele longo e tenebroso inverno... Só eu sei como minha família é um bem precioso para mim e que devo, portanto, proteger-me para que minha esposa e minhas filhas possam estar protegidas também. Até porque, o que eu quero dizer para você, Lu, é que "sim, eu quero guardar você"! 

É preciso, então, que se tome mais cuidado ao chamar alguém de amigo ou irmão... No meu inverno, não havia ninguém ao meu lado. Eu e minha esposa nos surpreendemos com o silêncio daqueles que deveriam ser responsáveis por nós, aqueles que, um dia, comprometeram-se conosco. Constatei que, muitos dos que nos cercavam, tinham-nos tão somente como “amigos funcionais”: pessoas que estavam conosco porque precisavam de nós, porque havia algo a ganhar conosco, enquanto tínhamos alguma função para elas (eu sei, isso é assustador...). Mas o coração é sempre uma casa que corre o risco de ser violada de novo se, ao perdoar, não se proteger contra novos salteadores. O perdão deve trazer o amadurecimento, assim como as tribulações encorpam a fé.  É preciso estar atento ao outro, pois, embora EU tenha despertado dessa hibernação invernal, o outro permanece do mesmo jeito que era quando me causou tanto mal. Assim, posso dizer que aprendi a lidar com o outro, pois hoje sei do ele é capaz, da inconsciência e dos arroubos impensados de sua falta de ética e anseios pessoais. O inverno ensinou-me a arte do Krav Maga! Atenta, minha alma se lança de volta ao tráfego intenso da vida, mas, agora, fui forjado na direção defensiva...

Sei também que haverá outros invernos, e aprendi que não adianta debater-me contra a estação que se impõe naturalmente. Deus não “permitiu” aquele inverno sobre minha vida, Ele o PLANEJOU! Por isso, é preciso viver o inverno com paciência e resignação, porque descobri também que, quando finalmente chegou ao fim, o inverno fez-me mais sábio e prudente. Estou maior agora do que quando fui esmagado pela negligência, egoísmo e vaidade alheias. E hoje dou muito mais valor ao sol que beija minha pele!

Depois de todo aquele inverno, aguardo muito mais ansiosamente pelo Céu! Espero muito mais avidamente pela volta do meu Senhor, porque eu sei que a promessa é que quando aquele Dia chegar, já não haverá noite, nem precisaremos mais da luz da candeia, nem da luz do sol, porque o próprio Senhor Deus brilhará sobre mim e nunca mais seremos queimados pelos invernos novamente. Amém!



Inverno

E com certeza foi um inverno frio, frio
E o vento não está soprando do sul
Tem sido com certeza um inverno frio, frio
E muito, muito amor foi todo queimado

Com certeza foi um inverno duro e difícil
Meus pés se arrastando pelo chão
E tenho esperança que vai ser um verão longo e quente
E muito, muito amor estará aceso e brilhante

E eu gostaria de estar na Califórnia
Quando as luzes em todas as árvores de Natal se acenderem
Mas tenho acendido meu sino, livro e vela
E as peças de restauração se perderam todas

Com certeza foi um inverno frio, frio, Senhor
Meus pés se arrastando pelo chão
E os campos têm estado arados e sem semear
E a primavera vai seguir um caminho mais comprido

Sim, e eu gostaria de estar Stone Canyon
Quando as luzes em todas as árvores de Natal se acenderem
Mas tenho acendido meu sino, livro e vela
E as peças de restauração se perderam todas
Tudo certo, bem, bem, bem

Às vezes penso em você, baby, oh bem
Oh, às vezes eu choro por você, sim Senhor
Bem, bem, bem, bem, bem

Sim e eu vou colocar meu casaco em torno de você, mulher,
Sim e eu vou colocar meu casaco em torno de você, mulher,
Oh Senhor, eu estou falando

Sim, eu vou colocar meu casaco em volta
Bem, bem, bem,
Querida, às vezes eu quero proteger você, mulher
Querida, às vezes eu quero envolver meu casaco em torno de você
Às vezes eu quero acender uma vela para você
Às vezes eu quero envolver meu casaco em torno de você, sim Senhor
Às vezes eu quero acender uma vela para você
Sim eu quero guardar você, wa wa wa
Às vezes eu quero envolver meu casaco em torno de você 
Senhor, eu estou chorando
Às vezes parece que ...

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Eu tenho problemas com oração! (uma breve conversa sobre responsabilidade cristã e divórcio)

Devo confessar que eu tenho problemas com oração. 

Aliás, tenho sérios problemas com a oração e o que fazem dela dentro dos arraiais evangélicos.

Vou compartilhar um diálogo que ilustra o que estou tentando dizer...

Um dia desses, depois de ouvir todas as minhas dificuldades e reticências em relação a um tipo de oração que certas pessoas insistem em fazer, alguém me questionou: "Então, você acha que eu não devo orar?!". Logo vi que ele não entendera nada do que eu havia dito sobre os meus conflitos com oração. "Orar, claro que você deve. A Bíblia diz que devemos orar sem cessar. Eu só acho que não é certo orar como fuga de uma decisão que só cabe a você mesmo", tentei explicar. Ele ficou quieto, mas percebi que eu precisava deixar mais bem exposto qual o meu exato problema com esse tipo de oração. Aí desenvolvi a conversa abaixo:

- Fulano, você começou essa conversa, falando do Ciclano* que divorciou, não foi?
- Foi... Você acha que ele não pode fazer uma campanha de oração na Igreja e pedir para as pessoas orarem por ele? Para que o casamento dele retorne?
- Não. Não acho. Não acho que ele deva colocar esse peso sobre a Igreja... Bem, na verdade, ele é livre para fazer o que ele quiser, só que eu no lugar dele não oraria por isso e, muito menos, colocaria sobre os ombros da Igreja esse jugo: é covardia!
- Mas Deus não quer que o casamento dele retorne?!
- Não sei, sinceramente. O que eu posso afirmar com certeza bíblica é que Deus odeia o divórcio, mas não sei se Deus quer que eles retornem um para o outro neste caso específico. Por isso, eu não oraria pela volta dela. E sei que nem ela deve também orar ou ficar pedindo para outros fazerem isso.
- Mas, então, você acha errado ele orar por ela e ela orar por ele? E a Bíblia também não diz que devemos orar uns pelos outros?
- Fulano, se era para um ficar orando pela vida espiritual do outro, eles não teriam se separado! Entende? O que eu estou dizendo é que o momento para eles se ajudarem mutuamente em oração passou! Eles tinham que ter se sustentado em oração antes, se não fizeram, podem até fazê-lo agora, mas eu acredito que eles estão errando o alvo.
- Sinceramente, não estou entendendo.
- Simples: o divórcio é um processo que não ocorre de um dia para o outro. Não é uma coisa que você acorda pela manhã, olha para a pessoa que está ao seu lado e, repentinamente, decide que vai embora para nunca mais. Talvez o divórcio deles já tenha até mesmo se iniciado na casa dos pais, quando o casal ainda era criança. Quando casamos, nós trazemos para dentro do nosso casamento a nossa história e, talvez, nessa história pregressa deles já havia a discórdia, o desentendimento, o desrespeito e o ódio semeados por sob o solo da existência de cada um.
- Mas o que isso tudo tem com a conversa de oração?
- Veja, se você ficar em casa orando, mandando recadinho pelo celular, dizendo para ela que está orando “para que ela seja restaurada” ou vice-versa, você não estará enfrentando o real problema da separação. Pior, ainda toma uma atitude covarde de enfiar o outro (seja um amigo, seja a igreja) no meio dessa sua história sórdida. Indo ao ponto: o problema é VOCÊ! “Orar pelo outro”, numa hora dessas, pode até parecer bonitinho e põe você diante dos outros com uma auréola de santo, de herói ou de vítima, mas, definitivamente, não muda VOCÊ!
- Então eu não posso orar por ela?
- Poder pode, mas o alvo da sua oração, antes de tudo, precisa ser VOCÊ MESMO e não ela. Porque que você não pede que a Igreja faça uma campanha de oração pela SUA conversão?
- !!!
- Veja, é igual na casa do marido alcoólatra. Todo mundo fica orando para que ele abandone a bebida até que, num belo dia, ele para de beber. Aí a casa cai, ou melhor, as máscaras de todos caem, porque começam a aparecer os problemas individuais que ficavam camuflados sob a doença pública do bode expiatório beberrão. Sem o bode, cada um tem que enfrentar a sua própria doença e tomar os remédios necessários para si mesmo. E isso dói. É mais fácil ter um doente público em casa do que ter que enfrentar as próprias doenças privadas do coração. Trazendo isso para o assunto da separação ou divórcio, ele fica dizendo que a culpa é dela e ela, que a culpa é dele. Adianta pedir para a Igreja orar? Cada um precisa se enfrentar, assumir suas próprias responsabilidades na separação e buscar a cura pessoal diante de Deus.
- Mas tem muita gente na igreja querendo orar por nós, para que a gente volte...
- Fulano, vou ser claro. Tem muito casamento falso, porque a igreja resolveu entrar nessa de fazer campanha de oração, chamar o casal para orar e orar publicamente para resolver logo a situação. O que acontece? Muitos acabam voltando por constrangimento, por coação social, pressão do meio mesmo. Pior, retornam ainda mais doentes só para manter a fachada. E isso é muito triste, pois duas coisas acabam acontecendo: o reatamento hipócrita ou uma nova separação muito mais dolorida logo depois. 
- Agora comecei a entender...
- Pára de ficar colocando a Igreja para orar, porque isso só contrange a todos. E, no final das contas, não é o pastor, não é a liderança da igreja ou sua mãe que vão ficar casados com você o resto da vida, por isso mesmo eles não podem assumir uma responsabilidade que, amanhã, é você quem, sozinho, vai arcar com o ônus das consequências! Também não fica cobrando do irmãozinho uma resposta "de Deus" para o problema que VOCÊ e ELA criaram juntos. Vocês terão que se enfrentar primeiramente cada um sozinho, depois, os dois juntos precisarão fechar o acordo. Porque, Fulano, acredito que casamento é cumplicidade, é acordo, é pacto baseado no amor de Deus por nós. Um amor sacrificial que entregou o próprio Filho por nós (Jo 3:16). A pergunta final que vocês dois vão ter que responder para si mesmos é: então, vamos viver esse amor de Cristo em nós? E esta é a pergunta que cada um vai ter que responder a si mesmo e não pelo outro e nem esperar que alguém responda isso por vocês. Não fique esperando um irmão dizer: "Olha, eu estava orando e tive um sonho e Deus me mostrou vocês juntos de novo no altar"! Até porque esse irmãozinho sonhador pode não ter percebido que o altar do sonho não era o da Igreja, mas o do sacrifício do bode... O sonhador nem se deu conta de que não era uma igreja, mas um açougue!...
- Agora, entendi!
- Então vai e resolva o SEU problema com Deus, assuma a SUA parcela de responsabilidade nisso tudo, buscando de Deus a cura pessoal antes de seguir em frente. E, principalmente, não use a oração como um mecanismo de fuga ou de manipulação, por favor! 

*A conversa dele começou em 3ª pessoa exatamente por esse meu amigo não conseguir enfrentar a situação que ele mesmo estava vivendo.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

É possível ser casado e é possível ser casado e feliz! - Rev. Hernandes Dias Lopes

Você é uma pessoa feliz? Você é uma pessoa alegre?
Sua mulher pode garantir que você é um marido feliz?
Seu marido pode garantir que você é uma esposa feliz?

domingo, 12 de agosto de 2012

Dia dos Pais (porque família é um trabalho em equipe)!

Dia dos pais! E que tal passar alguns bons momentos ao lado dos filhos brincando de compor músicas? Tenho certeza que a família toda vai se divertir muito com essa delícia de brinquedo. Está esperando o que? É só clicar nos quadradinhos e aos poucos sua composição vai surgindo... Façam uma bela música, porque família é um trabalho em equipe, depende de todos nós! Quando quiser nova música é só entrar no blog de novo.

DICA: Se você ficar apertando o dedo no botão esquerdo do mouse e deslizar sobre os quadradinhos rsrsrs é muito legal!

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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Bibliotheca - Cantares para ela mesma (XVI)


Para Lucila Ribas

Teu corpo de femininas folhas infindas
convida-me sempre à página seguinte...

Teu corpo retém os poemas de Dante:
Beatrice levando-me pela mão adiante.

Teu corpo, peça interminável da Odisseia:
Penélope fiel recosendo o tempo à espera.

Teu corpo, assim que te descrevo, logo ouço:
“Louco! Não há essa tal Donzela del Toboso”!

Teu corpo, da taça do teu umbigo, transborda tragédias:
Marguerite que jaza ao Mal do Século entre suas camélias.

Teu corpo, enciclopédia de tantas personagens femininas:
Catherine, Annabel, Nastácia, Capitu e até Ana Karenina!

Teu corpo é Index Librorum Prohibitorum e nele eu leio
Lolita escandalosa de flor ainda em botão daquele seio.

Teu corpo é texto eterno que se deita sobre mim em aberto:
De Ramsey e Mitsuko a Ana Terra e Macabéa, todas decerto!

Teu corpo de páginas marcadas em alto relevo:
Diadorim morrendo sem revelar aquele segredo!

Teu corpo de letras mágicas é um chamado à aventura:
Wendy, Emília e Alice presas na tez desta tua tessitura!

Teu corpo, contudo, não oculta teus rasgos e rasuras:
Engraçadinha e Doroteia atiçando-me descomposturas!

Teu corpo é minha ardilosa bibliotheca em labirinto:
O nome da Rosa que 'inda hoje não me é conhecido!

Teu corpo fecundo de cirandas e lendas:
A Pandora que atordoa com suas oferendas!

Teu corpo irrompe à força das minhas mãos: és meu livro
Onde só eu leio o que nunca por outros já fora antes visto! 

F.R.
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