Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A languidez do amor - Cantares de Salomão (XV)

Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor (RC; 2:5).

Ao ler este verso e ver como que a própria Sulamita descreve seu estado diante do homem amado, essa frouxidão do corpo dela, essa moleza e fraqueza, essa prostração da carne e do espírito num momento tão sensual e voluptuoso, fez-me recordar de uma palavra muito usada pelos poetas românticos do século XIX – languidez!

Languidez era sempre a palavra em voga para se falar do estado de meiguice, doçura, ternura, suavidade e brandura da musa do poeta, contudo, poderia significar também um estado de abatimento, de grande fraqueza física e psicológica; sem forças, sem energia. Esta última definição foi mais sugerida pelos poetas românticos exatamente por eles descreverem a mulher amada como uma estátua, uma imagem apática sempre ligada à santidade, à virgindade, à inatingibilidade da musa. Assim, o paradoxo da palavra revela o charme da língua assim como denota o nosso problema com sexo.

Lângüido” era assim, escrito assim, mas em tempos de ditadura linguística em que a lei pesa sobre nós normas de conduta de uma minoria “iluminada”, despencaram com o charmoso trema. Todavia, escreva-se como se quiser, o fato é que, para quem é amante das palavras, “lângüido” encarna a contradição da sociedade ocidental: uma mesma palavra que tanto denota o sagrado como o profano! O que mostra que o problema do barroco e do rococó com seus anjinhos com cara de safados manteve-se no Romantismo do século XIX, mas, ali, não eram mais anjinhos e sim as musas virgens e sacras e pudicas que despertavam a adoração sexual profana de seus devotos sedentos de um idealismo sagrado.

Nos versos da Sulamita, entretanto, não há aquela crise romântica. Não há aquele paradoxo barroco. Há o desejo sem vergonha alguma! O Cântico, enquanto livro do Cânon Sagrado, não necessita de desculpa alguma e de nenhum paliativo. É um poema que “expressa uma aceitação honesta da maravilha que é o amor humano tanto nos seus aspectos físicos como psíquicos, e reflete o milagre recorrente da primavera no coração como na natureza” (Hugh J. Schonfield). O desejo da Sulamita tem nomes e carne, muita carne. É a boca, os beijos, os cheiros, as cores, etc. Enfim, ela está totalmente embriagada pelo amor, languida de paixão! E como toda paixão que se preza, há súplica: “Eu vos suplico, fortalecei-me com passas, reavivai-me com maçãs que estou doente de amor” (tradução alternativa)! Há uma mulher no poema que necessita ser fortalecida, porque o amor a embriagou, o amor lhe retirou as forças e agora ela precisa se recuperar antes que morra!

Mas o que, afinal, adoece a Sulamita? O desejo amoroso! O amor que não se realiza, que não tange, que não se efetiva, adoece os amantes – este tema perpassa toda literatura amatória. A imagem aqui é a do náufrago que vê a praia, todavia, por mais que nade, não consegue atingi-la e começa a perceber que talvez morra antes que consiga pisar em terra firme, a terra firme da consumação do amor! 

Mas, então, o jovem casal ainda não teria se entregue sexualmente um ao outro? Esta pergunta já foi levantada antes durante nossa extraordinária viagem pelos versos da Sulamita e estamos prestes a dar a resposta, que já se adivinha na Sulamita que aqui desfalece de desejo...

O Cântico se encerra como uma bela afirmação do prazer de Deus no amor físico entre um homem e uma mulher. A relação deve ser única e apreciada. A satisfação recíproca é o que procuram ao aderirem-se mutuamente. A intimidade sexual é seu objetivo, prelibação de um tempo de união, de alegria e de prazer e deve ser gozada com frequência e com a benção de Deus” (Isidore Epstein).

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Especialista em educação diz que pais e escola estão falhando

Professor Luis Carlos Farias e família

Para Luiz Carlos Farias, a sociedade afrouxou no campo dos valores, como honestidade e fidelidade

O professor Luiz Carlos Farias da Silva teve destaque na imprensa por ter optado por retirar seus dois filhos da escola para educá-los em casa. O episódio foi parar na Justiça, mas até agora Farias e a mulher, Dayane, vêm colhendo vitórias e a educação dada aos filhos foi avaliada como positiva pelas autoridades educacionais.

A crítica ao modelo educacional fundamentada nas correntes construtivistas é feita justamente por um pedagogo com doutorado e mestrado em Educação, que há 15 anos é professor do Departamento de Fundamentos da Educação da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

Aos 54 anos, esse carioca flamenguista que já foi frade dominicano diz ter certeza de que é criticado por seus pares por seu pessimismo com relação aos caminhos que a Educação vem tomando no Brasil, mas não se furta em afirmar com todas as letras que o modelo precisa ser repensado, que é necessário descobrir em que ponto ele está falhando, qual o papel dos professores e, principalmente, da família na educação das crianças.

Aliás, ele considera que os pais são os que mais falham ao deixar a educação dos filhos exclusivamente à escola, TV e computador.

Para o professor Luiz Carlos Farias, a sociedade moderna afrouxou no campo dos valores humanos, como honestidade, fidelidade, lealdade, a busca resultados pelo trabalho, pela aplicação, e já está pagando por isso com os rumos errados tomados por muitos jovens, mas a situação ainda pode piorar se não for repensado o papel que cabe à escola e ao que cabe à família na formação dos jovens.

O DIÁRIO – Como a escola poderia contribuir para ajudar reduzir problemas sociais comuns hoje como uso de drogas, gravidez na adolescência e delinquência?
LUIZ CARLOS FARIAS DA SILVA – A escola brasileira, como ela é hoje, apresenta falhas, mas não pode ser responsabilizada pelo problema. É preciso ser levado em consideração o papel da família na formação dos jovens e o que vemos são pais cada vez menos interessados na educação de seus filhos.

Em que os pais estão falhando?
A família poderia fazer muito na formação dos jovens, mas parece que ela não se interessa porque está em frangalhos e empurra toda a responsabilidade para a escola. Os pais querem que a escola funcione de 1º de janeiro a 31 de dezembro, de preferência ficando com seus filhos de manhã, de tarde e de noite. E o pior é que quando chegam as férias eles enfiam as crianças em colônias de férias. As famílias precisam pensar também qual é o grau de responsabilidade delas, porque a escola não pode fazer tudo sozinha.

O que a família deveria fazer pelos jovens?
Há estudos bem fundamentados que comprovam que a convivência da criança com o pai e mãe biológicos, em famílias estruturadas, com relações duradouras, é fator que predispõe positivamente para uma trajetória favorável de desenvolvimento cognitivo e sócio-comportamental.

O contrário também é verdade?
Sim. Crianças criadas em famílias monoparentais, submetidas a stress, que são levadas muito cedo para a escola, mesmo em condições favoráveis, tendem a não ter uma trajetória de desenvolvimento tão favorável quanto às que passaram a infância protegida em um ambiente que promove a confiança, a segurança e a alegria.

Por essa falha da família, as crianças ficam expostas a influências externas negativas?
Os pais não assumem mais. Deixam as crianças à mercê do computador, da TV, vídeo game, depois mandam para a escola, terceirizam a criação das crianças. Recentemente, três cientistas cruzaram dados do registro civil com os do Ministério das Comunicações e descobriram que há uma correlação muito forte entre a entrada das novelas de televisão no interior do País com a mudança comportamental das famílias. Eles descobriram que a chegada das novelas aumentava o número de separações de casais e caía a taxa de fecundidade. Aumentava o número de divórcios e diminuía o de filhos.

Esse é um assunto que ninguém quer falar abertamente.
Se alguém for colocar esse debate em público, imediatamente vão dizer que a pessoa está querendo censurar. Mas a verdade é que se você pega a novela das nove da noite verá que só tem mulher traindo o marido, marido traindo mulher, deslealdade, mentira…

Mas, com relação à escola, o Ministério da Educação diz que há avanços.
O MEC tem dito que as coisas têm melhorado baseando-se em resultado de avaliações de larga escala, internacionais e nacionais, como o Pisa, um programa de avaliação comparada cuja finalidade é produzir indicadores sobre a efetividade dos sistemas educacionais. São avaliados três domínios de conhecimento: a Leitura, Matemática e Ciências. Aconteceu que o próprio relatório do Pisa diz que o Brasil foi um dos países que mais melhorou, mas foi uma melhora pífia em cima de uma base desastrosa. O MEC, ao dizer que o Brasil foi o terceiro país que mais evoluiu, mais desinforma do que informa. Na verdade o Brasil continua entre os últimos no mundo nesses quesitos.

E os dados do Ideb, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica?
Algumas escolas estão se aproximando do Ideb ideal, porém a Prova Brasil mostra que há uma proficiência média em leitura e matemática que o próprio MEC diz que é insuficiente.

Nesse caso, o que a sociedade precisa saber?
Esses questionamentos são muito técnicos e a sociedade não consegue acompanhar direito. Esses dois dados não podem sustentar e dar base para nenhuma afirmação de melhora na Educação. Depois, a escola não aplica pedagogias eficazes. Há 30 anos usamos procedimentos ineficazes e a própria universidade elabora, preconiza e difunde esse conhecimento equivocado. Então o resultado não podia ser outro.

Mas podemos dizer que a escola hoje está melhor aparelhada do que há alguns anos?
Se você fizer uma lista dos fatores cuja melhora os educadores dizem que têm impacto positivo na qualidade da educação, todos eles melhoraram nos últimos 20 anos: salário de professor, quantidade de alunos por sala, porcentagem de professores com formação superior, as crianças recebem livros gratuitamente desde que entram na escola, há um programa nacional de alimentação que dá comida de boa qualidade, balanceada, e tem ainda a gratuidade do transporte.

E essas condições não ajudam no resultado final?
As condições de trabalho hoje são muito melhores, as circunstâncias são muito mais favoráveis e vêm melhorando constantemente. Porém, se tomarmos a curva da evolução desses fatores, ela é de elevação nos últimos anos, mas a curva que mede a proficiência média dos alunos é de involução. As curvas estão desencontradas, não batem. Os fatores que impactariam melhoraram, mas o desempenho medido em testes padronizados não teve avanços.

Em que ponto começa a curva da involução?
Há indícios muito claros de que um fator que tem importância grande é o fracasso do aprendizado da leitura lá na primeira série. Cientistas fizeram um balanço do estado da educação, com uma análise da teoria e da prática alfabetizadora brasileira. Resumo da ópera: o Brasil está afastado de tudo o que a ciência produziu nos últimos 30 anos a respeito de alfabetização e os modelos usados não deram certo.

LEIA MAIS SOBRE A EXPERIÊNCIA DE LUTA DE EDUCAÇÃO EM CASA DO PRÓPRIO PROFESSOR LUIS CARLOS FARIAS E DE OUTROS PAIS, CLICANDO AQUI!

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Um poema sagrado... - Cantares sobre Cantares (XIII)


À casa do vinho, levou-me,
e seu amor divino, eu lá senti;
cercou-me de maçãs, e perfumes,
as feridas, e eu estou muito doente de amor.

Ao quarto do vinho, penetrou-me:
descuidada, eu segui seu estandarte,
valei-me, amor, que eu estou perdendo os sentidos.

(Frei Luis de León em sua interpretação alegórica de Cantares 2:4)

 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Por que distribuir 70 milhões de camisinhas durante o carnaval?


 Matéria da Folha Online:

O governo brasileiro distribuirá durante o Carnaval deste ano 70 milhões de preservativos como medida de prevenção contra a Aids e outras doenças sexualmente transmissíveis, anunciou nesta quinta-feira o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.
Nas cidades que mais recebem visitantes durante o carnaval, que será celebrado em todo o país entre 17 e 22 de fevereiro, como Rio de Janeiro, Recife, Salvador, Olinda, São Paulo e Ouro Preto, serão realizados exames gratuitos de HIV, com resultado imediato, indicou Padilha.
O ministro, citado pela estatal Agência Brasil, apontou que a campanha de prevenção neste ano terá como foco os jovens homossexuais com idades entre 15 e 24 anos.
O Ministério da Saúde indicou que o contágio de aids nos jovens heterossexuais entre 15 e 24 anos caiu 20,1% entre 1998 e 2010, mas na população homossexual dessa faixa etária aumentou 10,1% no mesmo período.
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Será que casais casados tem mais relações sexuais durante o feriado do carnaval? LEIA MAIS DESTE NOSSO POST, CLICANDO AQUI: "POR QUE DISTRIBUIR 70 MILHÕES DE CAMISINHAS DURANTE O CARNAVAL?"

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

COMO SE DESCONSTRÓI A CENSURA (Velvet Poison)

"É absolutamente irracional, em sociedade aberta, constituída sobre liberdade, que se censure o fluxo de informações na internet." (Procurador Ailton Benedito)

O Ministério Público Federal em Goiás, pelo Procurador Regional dos Direitos do Cidadão, Ailton Benedito, manifestou-se nesta segunda, 13, pelo indeferimento da petição inicial e pela extinção do processo, sem resolução de mérito, na ação civil que o governo federal, através da Advocacia-Geral da União move contra o Twitter, com o objetivo de bloquear as contas de usuários que alertam da posição e horários das blitze de trânsito no estado de Goiás.

A AGU apresentou a ação na Justiça Federal daquele estado sob argumento que tais contas atentam contra a segurança viária. Entretanto, caso o pedido seja acatado, estender-se-á a decisão por todos os estados. Aqui no DF, por exemplo, o perfil @RadarBlitzDF, que presta informações diversas sobre o trânsito na capital federal e entorno, decidiu por conta própria suspender o serviço, até que a ação seja julgada. No Rio de Janeiro, o @LeiSecaRJ, principal perfil de tais informações e verdadeiro case do gênero no Twitter, que conta com quase 300 mil seguidores, apresenta-se com uma tarja preta de "censurado".

Os advogados do Estado-governo sustentam, na ação, que as blitze não são apenas importantes para evitar acidentes de trânsito, mas também para evitar delitos como roubo de veículos, posse ilícita de armas e tráfico de drogas e pedem a imposição de uma multa diária de R$ 500 mil em caso de descumprimento. Além disso, opinam que mediante os avisos divulgados pelas titulares das contas estão sendo violadas disposições previstas no Código Penal e no Código de Trânsito.

O procurador da República Ailton Benedito, dentre diversos embasamentos contrários à ação, ressalta que tal "possibilidade é rechaçada peremptoriamente pela Constituição Federal, pela Convenção Americana dos Direitos Humanos", de acordo, dentre outros, com o artigo 220, caput, §§ 1º e 2º da Constituição, que determina que "nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV, V, X, XIII e XIV. É vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.”, e do artigo 13 da citada CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS (PACTO DE SAN JOSÉ DA COSTA RICA) que discorre sobre Liberdade de pensamento e de expressão.

A peça do procurador tece, in my opinion, uma profunda defesa da garantia de direito à liberdade do tráfego de informações das comunicações sociais via web, e do respeito à liberdade individual do cidadão cumpridor das leis, ao acesso à informação. Complementa, ainda, com o que eu interpreto como verdadeira "chamada" no governo federal, por não assumir suas responsabilidades concernentes à prevenção de acidentes e outros crimes, conforme suas funções constitucionais. A tentativa de censura às contas do Twitter seria, por assim dizer, como um meio de transferir responsabilidades. Eu traduziria assim: "sou governo, não faço, pois não tenho competência, mas para não parecer que nada faço, proíbo que outros façam o que faz notar que eu não faço."

Em sua argumentação, Ailton Benedito assevera que "na contenda entre a pretensão da UNIÃO FEDERAL, pela sua Advocacia-Geral, e os direitos e garantias constitucionais supramencionados, vê-se, claramente, que se pretende infligir ao Twitter e seus usuários uma proibição juridicamente impossível, vedada que é pela Constituição da República, contudo apropriada a regimes totalitários incompatíveis com o Estado Democrático de Direito."

Prossegue, ainda, o procurador, destacando que "exsurge absolutamente irracional, desde a pressuposição de convivência em sociedade aberta, constituída sobre os alicerces de liberdade, que se divise alguma possibilidade de se impedir o livro fluxo de informações pela internet. Tentativas com esse desiderato mostram-se, em regra, não somente inúteis como também contraproducentes. Especialmente, o Estado-governo pretende impor tais limitações de forma genérica e abstrata, a fim de inibir a prática de crimes. Nesses casos, as autoridades públicas jamais conseguem fechar todas as portas abertas aos criminosos, que, ordinariamente, sempre desenvolvem novas formas de comunicar suas práticas escapando dos supostos limites estatais. De ordinário, aquelas autoridades unicamente logram atingir os indivíduos e organizações que, de fato, estão no tráfego lícito de informações."

A manifestação do Ministério Público Federal na ação concluiu que "a) a petição inicial da demanda é inepta, porque não atende completamente os requisitos fixados pelo Código de Processo civil; b) pretensão veiculada não guarda interesse útil à alteração da realidade prática; e c) a mesma pretensão não acha guarida no ordenamento jurídico. Mais que isso, até, a sua possibilidade é rechaçada peremptoriamente pela Constituição Federal, pela Convenção Americana dos Direitos Humanos."

Recomendo que leiam a íntegra. Não é muito extensa e tampouco de difícil entendimento para quem não é versado nas letras do Direito, como eu não sou. Recomendo, principalmente, para aqueles que, como eu, são defensores intransigentes da liberdade, da garantia dos direitos individuais humanos como regra básica de uma democracia verdadeiramente constituída. Trata-se, essa peça do procurador Ailton Benedito, de um verdadeiro libelo ao Estado Democrático de Direito e às garantias constitucionais ultimamente tão vilipendiadas pelas interpretações político-partidárias de "interésses" diversos nestepaiz... 

Os verdadeiros democratas agradecem.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A embriaguez do amor - Cantares de Salomão (XIV)

“Levou-me à casa do banquete e o seu estandarte sobre mim é o amor” (2:4; RC)

Ainda há o desejo em nossas relações? Ainda há a paixão? Esse anelo? O propósito dessa embriaguez... Ainda há?

Pretendemos uma união conjugal que possa nos satisfazer num nível acima e mais real do que o mundo nos tem oferecido? O mundo e sua ilusão de realização e independência sexual tem se enganado e enganado muitos na busca da plenitude sexual, todavia, cada vez mais máscaras são sobrepostas e lágrimas descem ao chão por causa de uma sexualidade de fetiche carnavalesco. E fetiches são doenças, não amor. Carnavais são falácias da concupiscência e não a realidade plena que podemos alcançar na intimidade proposta na Bíblia.

O propósito bíblico da união conjugal em Cristo é que possamos viver sexualmente uma plenitude espiritual, que muitas vezes só almejamos para outras esferas de nossa vida! Assim como almejamos um crescimento espiritual, não podemos relegar nossa sexualidade à uma condição sub-cristã!

A jovem Sulamita já vem fazendo referência à “casa da natureza” em que se encontrava com seu amado, por isso que a “casa do banquete” seria, portanto, uma mudança de ambiente para os dois. O amado toma a iniciativa de levá-la à “casa do vinho” (tradução literal). Todavia, o vinho não era guardado como o é nos dias de hoje em quartos escuros e em adegas, mas em lugares altos da casa. A casa do banquete, então, é um recinto particular.

É ele quem a leva para lá. Mais uma vez, apresenta-se o homem, esse homem amado, o noivo, como aquele que a domina, que a toma pelas mãos, que a guia e, enfim, quem satisfaz os anseios dela. Mas quais as vontades da Sulamita?  Ser conduzida pelo amado (1:4)! Ela espera que ele a trate como um homem deve tratar uma mulher: ela anseia que o seu amado à introduza nas suas câmaras (1:4), em outras palavras, ela anseia por intimidade! Ele se encontra levando-a finalmente à satisfação dos desejos do coração dela. Ela tem vontades! Ela está sedenta pelos beijos de sua boca (1:2).

Ela já nos havia declarado que melhor do que o vinho é o amor. Por que, então, ele a introduziria na “casa do banquete”, na “casa do vinho”? A resposta que, creio eu, melhor se adequa ao contexto do que vimos até aqui é que a expressão “casa do vinho” é uma metáfora da embriaguez do amor, da entrega dos dois um ao outro. Uma expressão do profundo grau em que se encontra a avidez dela por ele. Para mim, o mais importante em todo o contexto do que vimos até agora neste pequeno grupo de versos tão intensos do livro de Cantares é que há uma mulher sem pudor de expressar os apelos do seu próprio corpo. E há também a expectativa de um homem que se apresente a essa mulher para satisfazê-la em seus desejos!

Estamos mergulhados não apenas numa cultura castradora, mas libertina ao mesmo tempo! E se fomos tolhidos em expressar ao nosso cônjuge o que de fato são os apelos de nosso corpo, o que verdadeiramente o nosso corpo espera dele, por outro lado, muitos se perderam no labirinto de uma sexualidade devassa e pantomímica, uma proposta mundana e coisificada de não distinguir o ser humano como uma unidade: carne e espírito.

O livro de Deus para a salvação de nossas almas 
quer resgatar também a carne que anseia pela própria ressurreição!  

Paulo é muito sábio ao mostrar que há uma embriaguez superior à do vinho, que é a embriaguez do Espírito Santo. A Sulamita é sábia também ao revelar ao seu amado que, semelhantemente, há uma embriaguez da qual o corpo dela tem expectativas: a embriaguez do amor! E na adega da casa dele, no quarto do vinho, ela espera por um homem que compartilhe com ela a intimidade dele. Enfim, ela aguarda ansiosamente que ele ofereça a ela o estandarte (novamente a imagem de proteção militar), a insígnia, o símbolo, o pendão do que ele sente por ela: o amor!

Assim, o novo e o antigo Concerto, o novo e o antigo Testamento, a nova e a antiga Aliança unem-se sob a mesma proposta para o casamento cristão – o resgate de uma vida conjugal plena no poder do Espírito Santo. Embriague-mo-nos, portanto!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Brasil: um país de três banheiros...

Querido leitor, já fizemos vários posts alertando sobre a relação da lei da homofobia e suas paranóias sociais, caso venha a ser aprovada. Mas nem precisamos ir muito longe, pois São Paulo mesmo tem uma lei que já tem atuado especificadamente na defesa dos direitos contra a família. É a lei 10.948/2001, promulgada pelo então Governador GERALDO ALCKIMIN DO PSDB.

Os dois artigos abaixo precisam ser lidos, porque refletem as consequências diretas de leis como essa para a sociedade brasileira. Entretanto, antes de ler e refletir sobre os artigos abaixo, assista ao vídeo da reportagem  sobre o caso no Jornal Bom Dia Brasil, que se encerra, chegando a simplista conclusão que o jeito é começarmos a ter 3 banheiros... e em nenhum momento foi dito que a vítima do ocorrido era uma menina de dez anos de idade.


A menina, o banheiro e o marmanjo gay
Uma menina de dez anos entra no banheiro feminino de uma pizzaria e se assusta. Ela volta para sua mãe e cochicha: “Tem um homem lá dentro do banheiro! Ele tá vestido de mulher!”
A mãe não tem dúvida: numa reação natural que qualquer outra mãe teria, reclama para o dono da pizzaria.
O dono, em atenção à mãe e à segurança dela e sua filha, pediu, quase que implorando, para que o homem vestido de mulher não voltasse mais ao banheiro feminino.
Toda a humilhação e imploração do dono de nada valeram. O caso chegou à Secretaria da Justiça do Estado de São Paulo, que telefonou — não para a mãe e sua filha —, mas para o homossexual, de nome Laerte Coutinho, dizendo que a pizzaria violou a lei estadual 10.948/2001, sobre discriminação por orientação sexual ou identidade de gênero. A pizzaria será multada e ameaçada por forças governamentais a serviço e seviciadas pelo movimento gay. Laerte está determinado a exigir essa truculência estatal contra a pizzaria, como lição para todas as meninas do Brasil que encontrarem um gay no banheiro das mulheres.

Homossexual Laerte Coutinho exige “direito” de estar em banheiros femininos com meninas de 10 anos

A Secretaria da Justiça não se incomodou em telefonar para a menina de 10 anos, nem para sua mãe, talvez porque o marmanjo gay seja funcionário do notório jornal esquerdista Folha de S. Paulo, que já foi denunciado por defender descaradamente o assassinato de crianças em gestação.
O caso expõe nitidamente a hipocrisia do governo e da imprensa esquerdista. Na polêmica lei da palmada, os dois atacaram os pais e sua autoridade, alegando que os interesses das crianças devem estar acima de tudo. Mas quando um homossexual entra no cenário, o holofote fica só para ele, e a pobre criança é atirada para um cantinho escuro.
Se a menina tivesse ligado para a Secretaria de Justiça denunciando que sua mãe lhe deu umas palmadas, a resposta governamental teria vindo imediatamente para punir a mãe.
Mas se a menina tivesse denunciado, “Tem um homem vestido de mulher no banheiro!”, a resposta governamental nunca viria para punir o sem-vergonha. Viria, isso sim, para ameaçar o dono do estabelecimento, a mãe da criança (por ter ensinado “homofobia” para a menina) e para dar uma bronca na menina por deixar sua mãe lhe ensinar “preconceito, discriminação e ódio”.
O governo e a mídia incitam crianças a denunciar os pais, que são os maiores protetores de seus filhos.
Mas o governo e a mídia nunca incitam crianças a denunciar predadores homossexuais. Tudo indica que, na visão governamental e midiática, pais são muito mais perigosos do que esses predadores.
A Folha de S. Paulo, que está gritando histericamente em favor de seu funcionário homossexual, calou-se para o fato de que uma menina estava envolvida. Nenhum jornalista nem autoridade governamental e muito menos um membro do Conselho Tutelar apareceu para dizer: “Ei, temos de colocar a menina antes do homossexual!” É uma vergonha colossal que o Estado de São Paulo sob o PSDB e a Folha de S. Paulo estejam colocando o homossexual na frente da menina.
Poderia haver perigo com a presença de um homossexual num banheiro feminino com uma menina por perto? Homens homossexuais também ameaçam meninas. Apesar de seu padrão politicamente correto, até mesmo a Globo não deixou de noticiar o caso de dois pais-de-santo homossexuais que estupraram uma menina de 9 anos.
Qualquer caso de uma menina na presença de um homem no banheiro feminino é suficiente para despertar justa indignação em qualquer pessoa normal, especialmente nos pais. Tal indignação só aumenta diante da injustiça de uma imprensa e até governo que tratam com descaso uma menina e sua mãe a fim de prestigiar um marmanjo homossexual.
Casos como esse só tendem a inflamar e incitar a violência contra os homossexuais, porque embora a imprensa e até o governo coloquem homossexuais na frente de uma menina e sua mãe, as pessoas normais sempre defenderão uma menina ameaçada pela presença de marmanjos em banheiros femininos.
Se até nos banheiros masculinos os homens estão enfrentando problemas provocados por homossexuais, por que estender agora essa insegurança aos banheiros das mulheres?
Cada vez mais, de forma descarada, shopping centers e outros lugares estão sendo usados como pontos de prostituição gay — bem nos banheiros masculinos. E, talvez por temor da obsessão anti-“homofobia, os homens olhem e ignorem. Já presenciei homossexuais que, dentro do banheiro do shopping, ficam ali como canibais do sexo anal, olhando cada homem que entra, esperando uma oportunidade de sexo.
A lei 10.948/2001, que está sendo usada para garantir que o marmanjo gay tenha acesso aos banheiros femininos, é uma insanidade do PSDB. Embora o PLC 122 não tenha sido aprovado como lei federal, o governo estadual do PSDB aprovou uma lei anti-“homofobia” no Estado de São Paulo em 2001. A lei foi criada em resposta à reivindicação de dois homossexuais que estavam se beijando em público e se queixaram de pessoas próximas que se sentiram ofendidas. A lei do PSDB foi criada especificamente para proteger o erotismo homossexual em público.
Como resultado direto dessa lei:
* Homossexuais dançaram de calcinha na Assembleia Legislativa de São Paulo em 2007, sem nenhum impedimento.
* Um pastor foi preso no centro de São Paulo, após pregar contra as práticas homossexuais.
* O Estado de São Paulo lidera o ranking de incitação de denúncias por “homofobia”.
* Um bêbado foi multado em quase 15 mil reais por chamar um homossexual de “veado”.
* Uma  igreja evangélica teve seus outodoors com versículos bíblicos violentamente removidos pela “justiça” de São Paulo.
Todas essas consequências vieram de uma lei específica para beneficiar dois gays que queriam a liberdade de se beijar em público, na frente de adultos e crianças.
Que tipo de lei farão agora para atender ao marmanjo gay que exige estar com meninas e suas mães nos banheiros femininos?
Enquanto isso, o que uma mãe deverá dizer à sua filha de 10 anos que testemunhar um marmanjo gay no banheiro feminino? Ficar em silêncio para não ofender o marmanjo?
A vitória da mulher de mentira sobre a mulher de verdade?
A mulher de verdade tinha valor no passado? Meu artigo “As mulheres e o futuro da humanidade”, publicado em 2008, mostra o que os homens faziam pelas mulheres:
“No passado, onde o feminismo acusa que as mulheres não tinham valor, não eram necessárias placas ‘Preferência para mulheres grávidas’. A própria responsabilidade social dos homens impunha respeito e proteção às mulheres — sem placas. Quando um navio afundava, as mulheres tinham direito prioritário de salvamento. Aliás, em todas as outras situações de grande perigo, as mulheres e crianças recebiam prioridade absoluta. Os homens ficavam em último plano, muitas vezes perdendo suas vidas para que mulheres e crianças pudessem viver”.
Então, vieram as feministas e disseram para as mulheres: “Vocês só são objetos dos homens!” Mas já viu, no momento do afundamento de um navio, um homem colocar todos seus objetos pessoais no bote salva-vidas e dizer: “Primeiro, meus objetos! Perco minha vida, mas salvo meus objetos.”
Mulher de verdade: apenas objeto dos homens no passado?
Os homens faziam questão de abrir a porta para as mulheres e ajudá-las no que fosse possível. Se uma mulher gritasse, “Há um homem no banheiro feminino!”, outros homens viriam e dariam uma surra no sem-vergonha. A proteção à mulher era garantida.
Hoje, um homem pode entrar no banheiro feminino, desde que disfarçado de mulher, e os homens de verdade não podem bater no sem-vergonha. Eles não podem nem mesmo abrir a boca porque o movimento feminista os castrou. Eles têm medo da mulher de verdade e da mulher de mentira, por causa da cobertura estatal sobre ambas.
De forma igual, as mulheres pouco ou nada podem fazer contra um homem disfarçado de mulher no banheiro feminino, pois a mulher de mentira, fortalecida pelo movimento feminista, tem agora prioridade sobre a mulher de verdade.
A mulher de verdade calou-se quando a mulher feminista exigiu a queda e rebaixamento do homem.
Mulher de mentira: agora é minha vez!
Quem falará agora pela mulher de verdade quando a mulher de mentira exigir sua queda e rebaixamento, não só no banheiro, mas também em todas as outras áreas?
“Ah, o Estado poderá nos ajudar! O Estado moderno sempre disse que nos protegeria dos homens!” Isso é verdade — até o aparecimento da mulher de mentira. A vez das mulheres de verdade está indo. O que está vindo agora é a preferência às mulheres de mentira.
O Estado continuará dando preferência para as mulheres em todos os casos envolvendo homens.
Mas nos casos envolvendo homens disfarçados de mulher, as mulheres de verdade levarão a pior. Mesmo quando a mulher de verdade é apenas uma menina de dez anos, a mulher de mentira — um marmanjo sem vergonha — leva a melhor.
Concordo: agora é a vez da mulher de mentira!
Com a igualdade sexual imposta pelo movimento feminista e a castração dos homens, já vimos que quando um barco está afundando, homens e mulheres brigam igualmente pelos botes salva-vidas. Viva a igualdade sexual, não?
E o que foi que aconteceu com a “tradição patriarcal masculina” de se dar preferência para as mulheres e crianças? Esse lugar foi ocupado pela mulher de mentira. Os holofotes agora estão sobre essas mulheres falsificadas (também conhecidas pela sigla LGBT), que têm a preferência da mídia e do governo.
Aliás, mulheres e homens serão obrigados a ceder os botes salva-vidas às mulheres de mentira, sob risco de serem acusados de “homofobia” no próprio afundamento do navio.
Depois, poderão entrar nos botes crianças que foram doutrinadas a adorar o homossexualismo. Depois, as feministas pró-aborto e pró-homossexualismo. Por último, os homens castrados.
Os cristãos e todas as pessoas conservadoras, inclusive mulheres e crianças que se opõem à agenda gay, serão deixados no navio que está afundando.
No passado, as mulheres eram prioridade de salvamento. E hoje, com a moderna “igualdade”, como fica a situação delas?
A cultura feminista/homossexual coloca o homem abaixo da mulher, e a mulher abaixo do homossexual.
Não era melhor a cultura “patriarcal”, onde o homem era cabeça, e na hora do perigo, salvavam-se as mulheres primeiro?
Os homens “patriarcais” davam a vida pelas mulheres.
Quem hoje dará a vida por elas?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

O Cântico dos Cânticos e o Yom Kipur - Cantares sobre Cantares (XII)

O rabino Simão Ben Gamaliel (140 d. C.) comenta o antigo costume de saírem a dançar pelas vinhas as meninas de Jerusalém, no Dia da Expiação, exortando os homens a escolher entre elas e suas noivas e invocando versículos do Cântico dos Cânticos. Tal costume, porém, pode-se relacionar com resquícios de cultos da fertilidade e, nesse caso, não deixa de ter, igualmente, um significado religioso (G. H. Cavalcanti).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Uma pequena parábola para minhas filhas...

    Nestas férias, minhas meninas apareceram um dia com um ninho em suas mãos. O ninho fora encontrado no chão após uma chuva. Elas estavam elétricas diante da possibilidade de pegarem o filhote de passarinho para criá-lo.

    - Pai, a tia disse que a gente poderia criá-lo. Pode?
    - Creio que não - disse, jogando logo um balde de água fria em suas intenções infantis – até mesmo, porque acho que não vai sobreviver sem a mãe. Acho que o melhor seria retornar com o ninho e colocá-lo na árvore em que vocês o encontraram...
    - Meninas, não fiquem pegando assim não - disse a Lu – porque eu ouvi dizer que na natureza, quando os filhotes ficam com outro cheiro, a mãe rejeita e não cuida mais...
    - Mas, pai - insistiu Aninha - a gente pega e leva para nossa casa, cuida dele e ele vai crescer...
    - Aí, você vai colocar esse passarinho em que lugar?
    - Na gaiola, pai, aí ele fica cantando para nós!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Não desista de amar a sua rosa!

"Foi o tempo que investiste em tua rosa que fez tua rosa tão importante"
Pude bem cedo conhecer melhor aquela flor. Sempre houvera, no planeta do pequeno príncipe, flores muito simples, ornadas de uma só fileira de pétalas, e que não ocupavam lugar nem incomodavam ninguém. Apareciam certa manhã na relva, e já à tarde se extinguiam. Mas aquela brotara um dia de um grão trazido não se sabe de onde, e o principezinho vigiara de perto o pequeno broto, tão diferente dos outros. Podia ser uma nova espécie de baobá. Mas o arbusto logo parou de crescer, e começou então a preparar uma flor. O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de preparar sua beleza, no seu verde quarto.

Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma suas pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza é que ela queria aparecer. Ah! sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara dias e dias. E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal, mostrado.

E ela, que se preparara com tanto esmero, disse, bocejando:
- Ah! eu acabo de despertar... Desculpa... Estou ainda toda despenteada...
O principezinho, então, não pôde conter o seu espanto:
- Como és bonita!
- Não é? respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol...
O principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!
- Creio que é hora do almoço, acrescentou ela. Tu poderias cuidar de mim...
"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas".
E o principezinho, embaraçado, fora buscar um regador com água fresca, e servira à flor. Assim, ela o afligira logo com sua mórbida vaidade. Um dia, por exemplo, falando dos seus quatro espinhos, dissera ao pequeno príncipe:
- É que eles podem vir, os tigres, com suas garras!
- Não há tigres no meu planeta, objetara o principezinho. E depois, os tigres não comem erva.
- Não sou uma erva, respondera a flor suavemente. Perdoa-me... Não tenho receio dos tigres, mas tenho horror das correntes de ar. Não terias acaso um pára-vento?
"Horror das correntes de ar... Não é muito bom para uma planta, notara o principezinho. É bem complicada essa flor..."
- À noite me colocarás sob a redoma. Faz muito frio no teu planeta. Está mal instalado. De onde eu venho... Mas interrompeu-se de súbito. Viera em forma de semente. Não pudera conhecer nada dos outros mundos. Humilhada por se ter deixado apanhar numa mentira tão tola, tossiu duas ou três vezes, para pôr a culpa no príncipe:
- E o pára vento?
- Ia buscá-lo. Mas tu me falavas...
"A gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixou cativar..."
Então ela redobrara a tosse para infligir-lhe remorso. Assim o principezinho, apesar da boa vontade do seu amor, logo duvidara dela. Tomara a sério palavras sem importância, e se tornara infeliz.
"Não a devia ter escutado - confessou-me um dia - não se deve nunca escutar as flores. Basta olhá-las, aspirar o perfume. A minha embalsamava o planeta, mas eu não me contentava com isso. A tal história das garras, que tanto me agastara, me devia ter enternecido". Confessou-me ainda:
"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos atos, não pelas palavras. Ela me perfumava, me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar."

Creio que ele aproveitou, para evadir-se, pássaros selvagens que emigravam. Na manhã da partida, pôs o planeta em ordem. Revolveu cuidadosamente seus dois vulcões em atividade. Pois possuía dois vulcões. E era muito cômodo para esquentar o almoço. Possuía também um vulcão extinto. Mas, como ele dizia: "Quem é que pode garantir?" revolveu também o extinto. Se eles são bem revolvidos, os vulcões queimam lentamente, regularmente, sem erupções. As erupções vulcânicas são como fagulhas de lareira. Na terra, nós somos muito pequenos para revolver os vulcões. Por isso é que nos causam tanto dano.
"Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível aos olhos".
O principezinho arrancou também, não sem um pouco de melancolia, os últimos rebentos de baobá. Ele julgava nunca mais voltar. Mas todos esses trabalhos familiares lhe pareceram, aquela manhã, extremamente doces. E, quando regou pela última vez a flor, e se dispunha a colocá-la sob a redoma, percebeu que estava com vontade de chorar.
- Adeus, disse ele à flor.
Mas a flor não respondeu.
- Adeus, repetiu ele.
Revolveu cuidadosamente seus dois vulcões. A flor tossiu. Mas não era por causa do resfriado.
- Eu fui uma tola, disse por fim. Peço-te perdão. Trata de ser feliz.
A ausência de censuras o surpreendeu. Ficou parado, inteiramente sem jeito, com a redoma no ar. Não podia compreender essa calma doçura.
- É claro que eu te amo, disse-lhe a flor. Foi por minha culpa que não soubeste de nada. Isso não tem importância. Foste tão tolo quanto eu. Trata de ser feliz... Mas pode deixar em paz a redoma. Não preciso mais dela.
- Mas o vento...
- Não estou assim tão resfriada... O ar fresco da noite me fará bem. Eu sou uma flor.
- Mas os bichos...
- É preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas. Dizem que são tão belas! Do contrário, quem virá visitar-me? Tu estarás longe... Quanto aos bichos grandes, não tenho medo deles. Eu tenho as minhas garras.
E ela mostrava ingenuamente seus quatro espinhos.
Em seguida acrescentou:
- Não demores assim, que é exasperante. Tu decidiste partir. Vai-te embora!
Pois ela não queria que ele a visse chorar. Era uma flor muito orgulhosa ...

"O pequeno príncipe", capítulos VIII e IX de Antoine de Saint-Exupéry. 
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