Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Cristo e a sexualidade (Jorge Fernandes Isah)

A busca pelo mais-que-imperfeito











Escrito e narrado por Jorge Fernandes Isah

       Estive conversando com um irmão sobre vários assuntos e num determinado ponto, lá pela metade do bate-papo, ele me perguntou: Como você acha que seria a sexualidade de Cristo?... E me deu a sua opinião... Mas antes de entrar propriamente no assunto, farei alguns esclarecimentos:

1)      Sei que estarei a mexer em vespeiro, e muitos irmãos considerarão esta reflexão algo despropositada, sensacionalista, e que em nada edificará o Corpo. Dirão que os meus objetivos são a autopromoção, o exibicionismo e a carnalidade. Pois bem, quero ressaltar que ao ser surpreendido pela questão, muitos também podem sê-lo, e acredito que mais grave que a ignorância é a omissão e o querer se manter ignorante.
2)      Não abordei este tema sem antes orar, e buscar o entendimento  pela Escritura e jamais alheio a ela. Não quero inventar a roda, nem procurar chifres em cabeça de cavalo. Tratarei a questão com reverência e temor, sabendo que posso ser mal-interpretado, mas também posso auxiliar irmãos que por ventura estejam buscando uma resposta. 
3)      Verdadeiramente, falar da sexualidade de Cristo é um tabu, e penso que não deveria ser. Nem todos pensam, se interessam ou discutem a questão, mas creio que isso não deve ser o padrão cristão, de haver perguntas “imperguntáveis”. Desde que o debate seja realizado sem escanercimento nem leviandade, até mesmo a “sexualidade” de Cristo pode ser discutida.
4)      Este texto é uma resposta, não é uma tese, um ensaio ou tem qualquer outra pretensão que não seja direcionar o assunto sobre o ponto de vista escriturístico; revelando o que me foi revelado pela Bíblia. Nunca li qualquer livro sobre o assunto, nem mesmo nunca me interessei por ele, e toda a minha reflexão se baseou na pergunta daquele irmão, como formulada ao alto. Este texto será dividido em três partes, provavelmente; não distintas ou isoladas, mas ainda que focando pontos diversos dentro do tema, eles estarão interrelacionados. 
5)      Cristo é 100% Deus e 100% homem. Ainda assim, não o considero “ipsis literis” igual ao homem, visto não lhe ser possível pecar. A Bíblia afirma que Cristo jamais pecou; que ele foi o único homem sem pecado, e, por isso, ele é puro, santo, perfeito e imaculado. Cheguei a analisar esta questão no texto intitulado, “O pecado que Cristo não levou”. À época, e ainda hoje, muitos irmãos teceram críticas à minha posição, dizendo que ela alterava ou invalidava de alguma forma a expiação eficaz do Senhor, por eu sugerir que ele não tivesse a mesma humanidade que nós, em todos os seus múltiplos detalhes. Alguns alegaram que a minha ignorância antropológica levara-me ao erro. Outros, de me opor à ortodoxia cristã. Para mim, o simples fato de Cristo não poder pecar [e sequer cogito a hipótese do pecado ser algo possível na impossibilidade dele pecar] o torna diferente de nós, não em sua natureza humana, mas em sua pessoalidade, na sua natural indisposição e absoluto impedimento de pecar [sua natureza humana supostamente “poderia” pecar, mas como ela está sujeita à Pessoa do Verbo, e a Pessoa é quem determina a vontade, mesmo a humana, é fato que Cristo jamais pecaria].
  
      Feitos os esclarecimentos iniciais, prosseguirei com o que se pode chamar de introdução.
       Deus criou o homem e a mulher, “desde o princípio da criação, Deus os fez macho e fêmea” [Mc 10.6]. Assim, ele os criou com o propósito de se unirem, tornando-se uma só carne [Mc 10.7-8]; pois considerou bom que o homem não estivesse só, mas tivesse uma ajudadora idônea [Gn 2.18]. De certa forma, de uma só carne, Adão, Deus fez também Eva, para que se unissem novamente em uma só carne, não sendo mais duas. O sexo entre as criaturas sempre esteve na mente de Deus, pois ele criou homem e mulher dotados fisicamente de aparelhos reprodutores funcionais e completos, estando habilitados a cumprir a ordem de frutificar, multiplicar e encher a terra [Gn 1.28].
       O fato do sexo ser algo puro e santo, dentro dos limites estabelecidos por Deus [na união do homem e da mulher, no casamento, uma única vez, pois o que Deus ajuntou não o separe o homem (Mt 19.6)], está no fato do casal primevo estar nu e não se envergonhar da sua nudez [Gn 2.25]. Mas isso foi antes da Queda; e, após o pecado, tanto Adão como Eva sentiram-se vexados por sua nudez, revelando a mudança em seus corações, e uma disposição para a corrupção, para o adultério, para a lascívia, para a imoralidade, a perversão e a depravação; levando-os a refugiarem-se entre as árvores do jardim, crendo possível esconder-se de Deus [Gn 3.8].
       O sexo, novamente afirmo, dentro do padrão moral e santo de Deus não tem em si mesmo nenhum mal, o problema é a forma como o homem o vê, a partir da cobiça e do desejo de buscar e querer o que não lhe pertence ou o que não lhe é dado pertencer. 
       Tudo isso passa pelo crivo da Lei de Deus que estabeleceu os princípios norteadores em todos os aspectos da vida, sejam espirituais, físicos ou materiais. A Bíblia nos dá a resposta para todos os dilemas e situações, de tal forma que é o manual de conduta do homem. Ou deveria ser. Quando ele caiu no Éden, caiu juntamente consigo o padrão moral, de tal forma que dali em diante a impiedade chegaria ao ponto em que o homem perderia completamente o discernimento entre o que lhe convém e o que não lhe convém fazer, entre o santo e o profano, entre o moral e o imoral, de maneira que ele acabaria sempre optando pela escolha natural, a inclinação da carne: o pecado. Assim toda a sua natureza se viu corrompida; e o passo seguinte foi apresentar os seus membros por instrumentos de iniquidade.
        Já na primeira geração pós-Éden, Caim invejou, cobiçou, matou e mentiu. Depois, o texto sagrado relata uma sucessão de eventos em que os corpos serviram à imundície e à maldade para a maldade [Rm 6.19]. E o sexo tomou suas formas mais doentias, se transformando em um deus durante os séculos, ao qual os homens se mantiveram aprisionados, feitos escravos, alimentando-o e sendo alimentados por ele, como um tumor maligno alimenta-se do corpo debilitado até destruí-lo. 
      O que muitos não reconhecem é que o padrão humano para quase tudo será sempre aviltante e degradável. A principal característica humana é a de corromper tudo o que toca; como o Rei Mídas transformava em ouro o que tocava, ao ponto de quase enlouquecer e morrer, pois uma simples fatia de pão ou um copo de água se transformavam em ouro, impossível de ser ingerido. Ele percebeu que o seu desejo desenfreado, a ambição material, significaria a sua destruição. Essa história mitológica é uma alegoria à ganância que, como um ídolo, pode decretar a morte física e espiritual; assim como temos o "dom" de estragar o que tocamos, exatamente por causa do pecado. Alguns dirão que é exagero, que minha afirmativa está mais para o maniqueísmo do século III. Na verdade, a Bíblia diz que todos os homens pecaram e destituídos estão da glória de Deus. Não há quem faça o bem, não há nem um só. Não há quem busque a Deus. Todos se extraviaram, e juntamente se fizeram inúteis. Não há temor de Deus diante de seus olhos [Rm 3.23, 10-18]. Porém o Senhor nos deixou o padrão correto de como fazer as coisas, inclusive, o sexo. 
       Durante séculos, acreditou-se em dois extremos: de um lado os gnósticos que viam o corpo como um vaso imundo para o espírito. De tal forma que o espírito somente estaria liberto, definitivamente, com a morte do corpo. O ascetismo e o celibato eram as melhores formas de se garantir alguma pureza, ainda que parcial. Em linhas gerais, o desejo sexual deveria ser sublimado ou abolido para que a luz derrotasse as trevas. Do outro lado, havia a depravação total; onde tudo era permitido, desde as bizarrices ou excentricidades até as aberrações mais perversas e degradantes. Para esse grupo, nada era pecado, nem proibido, ao ponto em que luz e trevas se misturavam sem que uma pudesse sobreviver sem a outra. Como antíteses de uma mesma tese.
      Se de um lado havia uma tentativa de se "parecer" com Deus, ao menos de se aproximar de sua santidade; do outro lado, havia o desejo de se afastar completamente dele, uma forma, ainda que não intencional, de não se parecer com Deus ou o que ele representasse. A questão é que, no primeiro caso, buscava-se alcançá-lo pelo esforço humano, pelo conhecimento, pela busca da pureza, alheia aos ensinos bíblicos, ainda que pudessem crer serem neles firmados. Ainda que toda a "pureza" se baseasse em uma disciplina alimentar rígida e na abstinência sexual, não procedia de Deus, mas era outra invenção humana, um placebo que não resultaria em nenhum efeito positivo, pelo contrário, manteria o homem ainda mais distante de Deus. Entendo como sendo uma forma que encontraram para se  diferenciarem dos pagãos, dados às orgias e bacanais, por isso a necessidade de rejeitarem o sexo como algo sujo e destituído de qualquer valor que pudesse aproximar o homem de Deus. 
       As duas formas continuam a existir ainda hoje com novos rótulos, e em múltiplas versões, ainda mais radicalmente estapafúrdias. O que já era ruim, piorou ainda mais. Não vou entrar em seus detalhes, a esmiuçá-los e apontando-lhes as fragilidades, mas o certo é que erram exatamente por não reconhecer o propósito eterno que Deus sempre teve para o sexo. Se temos de glorificar a Deus em tudo, seja no comer, no beber, ou fazendo qualquer outra coisa [1Co 10.31] também devemos fazê-lo no sexo.
        O problema reside na questão: a nossa sexualidade glorifica a Deus? Ou estamos buscando uma autonomia, em nós mesmos, pela liberdade de pecar? E, por fim, sermos definitivamente presos pelo pecado?
      O fato é que o sexo foi alçado a um grau de importância tão grande, tornando-se em superlativo, que muitos ergueram um altar para adorá-lo; de forma que ao invés do sexo ser normatizado e adequado ao padrão divino pelo qual o comportamento humano na sociedade seria disciplinado, passou a ser o formador do padrão pelo qual o homem viverá socialmente, no subterrâneo da imoralidade. Ao ponto em que tudo é válido, menos restringi-lo. Em outras palavras, seria uma proposta avessa ao ascetismo gnóstico, quase a gritar em nossos ouvidos: o homem não tem alma, logo, não há Deus! Então, comamos e bebamos, pois amanhã morreremos [1Co 15.32]. O sexo tornou-se um meio pelo qual o homem tenta se livrar de Deus.
      Mas como sabemos, isso é impossível; ninguém está livre de Deus, mesmo aquele que não o reconhece; mesmo o que o nega.
     Concluíndo: o sexo, fora dos princípios bíblicos e dos padrões estabelecidos pelo Criador, nada mais é do que a busca pelo mais-que-imperfeito.
 
Leia a parte 2 deste artigo: Encontrando a razão

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