Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O caso do vestido - Cantares de todos nós (XV)

Ouvíamos uma, duas, três vezes o poema. Logo após, explicava o poema dramaticamente e os meus alunos sempre se espantavam, seus olhos chocados, bem abertos, pasmos ao perceberem finalmente os sentimentos ali envolvidos...

Mas o que tanto haveria de extraordinário naquele poema para aqueles jovens adolescentes? A resposta descobri quando os ouvi falar da realidade ordinária de suas próprias casas. Os sentimentos confusos, apaixonados, escandalosos, as atitudes desmedidas presentes naqueles versos eram os mesmos que residiam nas casas de meus alunos. O espanto, a estupefação, a reação deles era tão somente a incômoda percepção do poema ser um espelho no qual estávamos todos nos vendo.

O poema fala de um vestido – o vestido que a “dona ruim” usara na noite em que havia deitado com um pai de família, todavia, o ponto mais dramático na história é que fora a própria esposa que pedira para aquela mulher se deitar com seu marido. É história de uma paixão doentia, da obsessão de um homem por uma mulher. Um sentimento desarrazoado puramente carnal, apenas sexual.

O adultério, a traição é sempre uma violação. A violação da aliança – a quebra da promessa de cuidarmos do outro, protegermos o outro até que a morte nos separe. Todavia, nesta quebra de aliança, quem irá pagar pelos danos ocorridos? Os meus alunos sabiam muito bem daquela realidade descrita no poema. Drummond captou uma verdade universal mineira, goiana, sul-americana, planetária... humana! E meus alunos daquela pequena cidadezinha cravada à força gravitacional satelizando a capital federal do Brasil eram filhos de casas quebradas, casas divididas, casas que nunca foram casas.

Quando eu estava no primeiro ano naquela escola, durante as férias escolares, fui ajudar na secretaria com a organização das matrículas. Foi ali que me surpreendi com o tenebroso fato escrito naqueles papéis: o lugar em que se deveria escrever o nome do pai do aluno estava em branco. A maioria dos alunos não conhecia o pai. As razões eram diversas e revelam-se a cada caso. Homens que nunca assumiram gravidezes, homens que fugiram pelo mundo, mulheres que nem sabiam a quem pertenciam aqueles filhos... essa era a realidade das escolas em que dei aula.

O poema foi escrito por um homem, mas o narrador é uma personagem feminina. O homem sempre pairando acima das intrigas do universo feminino, enquanto as duas se colocam no tabuleiro sempre a serviço do rei: a esposa que enlouquece, a “dona ruim” que se apaixona. Mas o homem vai-se embora largando as duas para trás. Os anos passam e as duas se re-encontram velhas, acabadas, destruídas pelo mundo masculino que as usou, marcou-as, subjugo-as, aproveitando-se das escolhas erradas que ambas fizeram contra si mesmas.

É bom salientar que as duas mulheres (como tantas aí pelo mundo afora) estão exercendo a liberdade de suas escolhas, arcando com as piores consequências daquilo que elas mesmas tomaram para si. Portanto, o texto termina com a esposa recebendo o marido mais uma vez em casa, recebendo-o como se nada tivesse acontecido. Eis a alma feminina posta à mesa para autópsia por Drummond: "o barulho da comida na boca me acalentava, me dava uma grande paz"... Enfim, um texto genial. 

Drummond por Drummond

2 comentários:

Cris Campos disse...

O poema é demais e reflete a realidade de muitos que pela insatisfação carnal buscam incessantes novos rumos, espatifando suas vidas e as outras envolvidas. O Novo atrai, mas a alma vazia nunca valoriza o que perto está. Não acho que a alma feminina está aqui posta à mesa. Sem generalizações Fábio, please! Gr. Abrç!

Casal 20 disse...

Calma, Cris, rsrsrs "Alma feminina" já é uma generalização em que não se especifíca os indivíduos, mas apenas nos dá uma média geral. Seria a mesma coisa se eu falasse "a alma masculina". Mas respeito o teu ponto de vista como mulher... Até mesmo porque foi um homem quem escreveu sobre a prostituta que se perde de paixão e a santa que se perde na submissão e, você sabe né, essa mania de homem querer entender os opostos da alma feminina nem sempre agrada, mesmo sendo Drummond. Abraços!

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