Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Ricardo de Saint-Victor e o Cântico dos Cânticos - Cantares sobre Cantares (XX)

Fonte da imagem: Wikipedia.
Ricardo de Saint-Victor (morto em 1173), que atribui a Salomão a autoria de Provérbios, do Eclesiastes e do Cântico dos Cânticos, argumenta que a ordem que esses livros aparecem na Bíblia não é casual. Os antigos - diz - afirmam ter três ordens de vida, a moral, a natural e a contemplativa. Essas mesmas vidas foram chamadas pelos gregos de ética, física e teórica. Nos Provérbios designa-se a vida moral. No Eclesiastes, considera-se a vida natural. No Cântico dos Cânticos expõe-se a vida contemplativa.

A ordem dos três Patriarcas - Abraão, Isaque e Jacó - também significa as três vidas. Abraão, pela obediência, figurou a moralidade. Isaque, que cavou poços, significou a vida natural, pois cavar poços na profundidade da terra significa investigar, inquirindo pelas consideração natural as coisas inferiores. A Jacó coube a vida contemplativa, por ter visto os anjos subindo e descendo.

A perfeição natural, porém, não conduz à perfeição absoluta se antes não se possui a moralidade; corretamente, portanto, coloca-se o Eclesiastes depois de Provérbios. A suprema contemplação, por outro lado, não é alcançada se antes não se desprezam as coisas inferiores; por isto, corretamente, o Cântico dos Cânticos é colocado depois de Eclesiastes. Em primeiro lugar, devem-se compor os costumes, depois considerar todas as coisas presentes como se não fossem presentes. Então, finalmente, a agudeza do coração purificado contemplará o interior e o mais elevado. Estes livros, assim dispostos em graus, formam uma certa escada para a contemplação. Quiseram eles que em primeiro lugar soubéssemos administrar corretamente as coisas do mundo; depois que soubéssemos desprezar as coisas honestas do tempo presente para que, finalmente, pudéssemos contemplar a intimidade divina (Prólogo ao Comentário aos Cânticos dos Cânticos, texto posto à disposição na internet pelos monges da Abadia de Saint-Victor, em Paris - por GH Cavalcanti). 

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