Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Minha esposa é poliglota!

Obviamente, minha esposa domina muito bem os mecanismos da sua própria língua materna, porém, ela não se deteve apenas nisso e terminou aprimorando-se tanto na graduação como na pós-graduação nas áreas de gramática e literatura luso-brasileira. Ainda assim, sei que não seria esse o fato que faria dela uma poliglota. Segundo o dicionário, poliglota é aquele que sabe ou fala muitas línguas.

Há poliglotas escandalosos como é o caso de Guimarães Rosa: “Eu falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituano, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do checo, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração”, dizia o grande escritor. 

Eu gosto mesmo é dos sinônimos para a palavra poliglota: equilíngue, equilinguista, multilíngue, multilinguista, plurilíngue, plurilinguista - um cabedal de palavras muito gostosas de se falar e que revelam o charme desta nossa flor "inculta e bela", "desconhecida e obscura", como dizia o poeta parnasiano.

Um poliglota não se faz de uma língua só! Há outras línguas com as quais minha esposa brinca e o inglês é uma delas. E a Lu não se faz de tímida na hora de exercitar o que tem aprendido com nossos amigos americanos. Além do inglês, há uma língua indígena falada no interior do Brasil por mais ou menos uns 1000 indígenas. E nesta língua indígena, uma língua fascinante principalmente pelas diferenças notadas com a nossa língua majoritária brasileira, é que a Lu também se aventura exercitando sua inteligência linguística.

A facilidade para o aprendizado de línguas pode ser também algo herdado pelo meio em que se viveu, penso eu. Meu sogro, filho de imigrantes alemães de Santa Catarina, viu-se obrigado de uma hora para outra a falar o português, obrigado por funesta lei de Getúlio Vargas. Nas escolas daquele Brasil, todos foram forçados a falar o português, até mesmo os professores que só falavam o alemão com seus alunos! E agora? Os alunos mais subversivos (entre estes, o meu sogro), durante os recreios, reuniam-se escondidos dos fiscais da escola para praticarem entre si o terrível crime de falarem a própria língua materna! No sul do Brasil, isso aconteceu com todos os imigrantes, tanto os alemães, como os italianos e quem mais houvesse. A dívida histórica de opressão e humilhação com os colonos imigrantes no Sul do Brasil ainda é uma página a ser contada por um Brasil que, infelizmente, não tem orgulho de ser mestiço, ao contrário, ainda insiste em dividir seus filhos pela cor da pele.

Minha esposa, todavia, fala ainda uma outra língua, que, de todas, é a que eu mais admiro. Uma língua universal, embora seja para poucos e por muito poucos conhecida. Uma língua escrita e lida por pessoas das mais diferentes nacionalidades. O que (entendo eu) torna essas pessoas, falantes dessa maravilhosa língua, uma imensa família espalhada sobre a terra: eles são um povo, uma etnia sem terra e governo, libertários unidos pelo que há de mais belo na humanidade! Sim, minha esposa faz parte destes... Alguns desses "nativos" são exóticos e soberbos, outros são "etnocêntricos" e muitos já morreram incompreendidos, mas todos estão unidos por uma paixão comum: a música! Evidentemente, não estou falando de qualquer música, mas daquelas escritas em “hieroglifos”, “ideogramas”, símbolos de um outro mundo que caem sobre o papel e que formam as partituras - esta linguagem matematicamente fascinante!

Também gosto de estudar línguas, seus caracteres, suas histórias e gramáticas. Conheço os alfabetos do sânscrito, do aramaico, do grego e do hebraico antigos, mas nenhum deles é capaz de trazer aos meus ouvidos o que os sinais impressos numa partitura conseguem. Diz a lenda que Mozart morreu compondo para Saliere, enquanto este anotava na partitura branca o que lhe era ditado pelo Gênio em convalescença. Antonio Saliere era italiano, Mozart falava o alemão. Mas a música – esta linguagem universal – precisava ser anotada: claves de fá, sol e dó distribuídas nos pentagramas; os símbolos da colcheia, da breve e da semibreve na pauta; cabeças, hastes, colchetes; vozes e instrumentos descritos ali naquela folha de papel magistral – tudo isto parece gritar petulantemente à minha ignorância: “Decifra-me ou te devoro”!

A palavra poliglota também está ligada aos oráculos. Os oráculos eram as respostas, na Antiguidade, que os deuses davam aos que lhes haviam perguntado algo. Oráculo é outra palavrinha cheia de surpresas: ela quer dizer pequena capela ou oratório, mas também significa verdade irrefragável! Por tudo isto, historicamente, oráculo liga-se à palavra poliglota. Poliglota, em grego, quer dizer: “aquele que pronuncia muitos oráculos”. E os oráculos também são mensagens vindas de Deus. Os profetas pronunciavam oráculos da parte do Deus de Israel. E eu creio que Deus fale plena e inequivocamente conosco por meio de sua Palavra – as Sagradas Escrituras – a revelação especial. Todavia, de um modo comum, geral, a Bíblia diz que Deus fala também por meio da sua Criação. Por isso, creio que a todos os homens é dado conhecer algo da Beleza divina através da música, embora a música – ou a Arte - jamais possa redimir esse homem. E, neste sentido, lato sensu, é que sei que posso apreciar o Belo, quando me recosto sobre a poltrona da minha casa, ouvindo minha esposa diante de suas partituras ao piano... São em momentos especiais como este que me sinto exercendo meu dom de glossolalia – outra palavrinha fascinante, porque ela só cabe aos doentes mentais, que creem inventar uma linguagem nova, e aos místicos, que abjuram a mediocridade mundana dos mortais materialistas e se põem a conversar com os céus em línguas estranhas... 

Assista ao belíssimo, delicado e criativo vídeo abaixo:

Um comentário:

CORAÇÃO QUE PULSA disse...

É ZOINHO VERDE, tocando? QUE LINDO!!!!

Essa MULHER...é POLIGLOTA, em TUDO!!!
kkkkkk

VAMOS QUE VAMOS!

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