Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

"Dedos de prosa" - uma palavra sobre literatura e filosofia


Autor: Carlos Lopes

Valor R$ 20,00 (incluindo o envio)
Solicitar:
gandavos@hotmail.com
Creio ser impossível fazer filosofia sem literatura!* 

O verdadeiro filósofo busca na literatura o seu referencial, o seu alimento para dar carne às divagações, às suposições, às possibilidades do fazer filosófico. Historicamente, a filosofia nasceu mergulhada num ambiente literário que foi fartamente usado por Sócrates, Platão e Aristóteles. A filosofia, a verdadeira filosofia, sempre se valeu do arcabouço criado pela boa literatura. Os mitos antigos, os amores impossíveis, a comédia de costumes, a sátira, a poesia épica, a tragédia sempre foram a fonte para o filósofo compreender e tanger a alma humana.

Essa antiga relação entre filosofia e literatura revela também a tensão sempre existente entre a realidade e a ficção. E pode parecer contraditório, eu sei, que a filosofia – com sua busca pelo conhecimento – venha se valer da literatura, que é a arte que se expressa pela tensão entre o real e o imaginário, entre a verdade e a mentira, entre o dito e o não-dito, entre o objetivo e o subjetivo. Contudo, é exatamente a partir dessa tensão, que vemos saltar das mãos do contador de histórias, é que o filósofo encontra o material necessário para refletir sobre o mundo em que vivemos.

O contador de histórias, o poeta, o artista das palavras e artífice do texto, ele cria personagens, dramas, enredos, crises e catarses que são capazes de alimentar o pensamento filosófico, forçando o leitor a pensar a própria humanidade. Daí, o valor da literatura universal: ela oferece ao leitor o homem universal! Entretanto, como se manifesta a literatura universal? De grandes temas, grandes heróis, épicos de bravura e santidade? A resposta da própria literatura é negativa se buscarmos a universalidade por tais caminhos. Guimarães Rosa já nos demonstrou que a universalidade literária se manifesta nas coisas simples, nos homens simples, no cotidiano das relações humanas e na relação do ser humano com o meio ambiente que o cerca, nas memórias da infância.

As tramas, os personagens, a infância, a juventude, as aventuras amorosas, as frustrações, as indagações presentes no texto de Carlos Lopes descrevem o interior que há em todos nós, reflexo de um mundo no qual vivemos, mas que talvez não exista mais. Ou percebemos que o autor nos desenha um mundo no qual gostaríamos de ter vivido, mas já não nos é permitido mais... E o que seria realidade e ficção nas memórias de Carlos Lopes? A resposta desnecessária a essa pergunta tem consumido os teóricos da literatura por séculos e a própria literatura se nega a romper essas duas esferas com as quais ela retrata o nosso mundo sob uma única concepção: a verdade da literatura. Fica sempre a máxima do poeta português de que o contador de histórias, que também é um poeta, é um fingidor, alguém que finge ao seu leitor doer a dor que verdadeiramente ele sente. É sob esta perspectiva que Carlos Lopes vai reconstruindo sua infância e juventude e o mundo atual em que vivemos, despreocupado com o rigor cronológico e com a descrição exaustiva do tempo; ele oferece ao leitor o espaço – o espaço instaurado pela sua verdade literária!

Conheci Carlos Lopes quando entrei em contato com seu precioso blog Gândavos. Logo se revela ali alguém de alma generosa, que tenta trazer para perto de si e do seu leitor uma gama de outros tantos escritores, para construírem juntos essa proposta da verdade da literatura, que cada um segue por si. A verdade da literatura de Carlos Lopes pode ser vista em cada texto apresentado neste livro, mas, de forma muito especial, quero citar “A esposa virgem”, que funciona como um cartão de entrada ao maravilhoso universo no qual todo bom contador de histórias se lança: o de contar da melhor maneira possível uma história com o objetivo de alterar a percepção nossa de realidade. Não apenas a realidade ficcional das personagens da trama, mas alterar a própria realidade da vida do leitor. Somos, portanto, atingidos por cada texto, seja por causa de alguma identificação (“Pedrinha”), seja por sermos denunciados em nossa alienação (“A moça do Jornal”), ou, ainda, pelo desejo de transformar a nossa realidade difícil numa ficção (“Cinema Paradiso”). Mas estes são apenas alguns poucos exemplos do que a literatura nas mãos de um bom contador de histórias pode fazer conosco, seus leitores.
Fábio Ribas - responsável pelos Blogs "O Seringueiro" e "Casal 20"

A literatura tem esse poder de transformar o leitor, o bom leitor, num filósofo. Mas não falo desses filósofos pedantes, que amargam a vida da gente com seus discursos chatos ou suas visões desencantadas da vida, claro que não! Digo que, mesmo quando a literatura é pura diversão e despretensiosa, ainda assim nada passa desapercebido pelos olhos de um leitor mais atento. 

Passeando pelas palavras de Carlos Lopes, somos, assim, convidados a pensar esse mundo que nos cerca e que, tantas vezes, nos sufoca, mas também somos convidados ao mundo aqui de dentro, um mundo grande e pequeno, como dizia Drummond, e que nos aperta o peito e nos dói de vez em quando. Enfim, comparo Carlos Lopes a um desses equilibristas que se colocam sobre uma frágil corda bamba, uma corda que insiste em balançar entre a realidade e a ficção e, sem nunca sabermos se é técnica ou arte (ou os dois), somos o público aqui embaixo encantado por não saber ao certo o que sustenta esse equilibrista das histórias. Convido-o, atento leitor, a confirmar minhas palavras. Boa leitura!

Fábio Ribas - Casal 20
*O presente texto encontra-se como prefácio no livro "Dedos de prosa". Também escrevo semanalmente no Blog da Rô e no Blog Gandavos, neste especialmente apresentando a série "Dias Índios" (clique aqui).

2 comentários:

Cris Campos disse...

Humm.. Gostei disso viu? A filosofia mais profunda isenta de qualquer alarde é aquela nasce de uma boa digestão intelectual, resultado da mistura de um bom autor e leitor. Gr. Abrç. Fábio! Parabéns pelo belo texto/prefácio.

Carlos Lopes disse...

Meu caro amigo Fábio, boa noite. Li o seu magnífico texto como se fosse a primeira vez. É uma obra de arte. E pensar que ele faz parte do meu modesto livro? O teu texto tem a palavra acesa e como se diz aqui: ¨Palavra quando acesa não queima em vão¨. Gostaria de aproveitar o espaço do teu blo não para elogios a sua pessoa pois você não precisa disso. Seu talento e conhecimento dispensa tal necessidade. Queria mesmo é agradecer pela sua amizade. Espero um dia poder recebê-lo aqui na minha terra para lhe mostrar as pontes, os rios e as belezas da minha terra. O Recife é tão bonito quanto a sua terra, apenas são encantos diferentes porém irmãos. Obrigado meu amigo Fábio Ribas. Tenha uma boa noite.

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