Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Racismo, Filosofia e Paixão em Abelardo - Cantares sobre Cantares (XVIII)

"Uma mulher assim prefere a alegria secreta de seu homem na intimidade da cama do que ser admirada pelos demais à mesa do marido. Frequentemente, ocorre que a pele das mulheres negras, mais desagradável à vista, é também mais suave ao tato, sua sensualidade prefere e é mais adaptada aos prazeres secretos do que aos públicos e seus homens, sempre que desejam gozar de seus prazeres, a conduzem a lugares apartados e não em meio à multidão".

As palavras acima são do filósofo Abelardo (1079-1142) - mais um que se debateu contra o texto de Cantares numa tentativa malfadada de interpretá-lo alegoricamente. Abelardo chega a dizer que a cor negra da Sulamita é uma deformidade ("ipsa quippe nigredinis deformitas"). 

Contudo, talvez, Abelardo seja mais popularmente conhecido pelo seu romance proibido retratado no filme "Em nome de Deus". Abelardo, pelo pouco que lembro do filme - aliás, as cenas tórridas entre Abelardo e Heloísa são das poucas coisas que não dá para esquecer do filme! Mas, na vida real, Abelardo tinha 37 anos e Heloísa apenas 17 quando iniciaram o romance entre os dois.

O tio de Heloísa contratou Abelardo para ser professor de Heloísa e as aulas noturnas deram oportunidade para ambos consumarem os desejos que os atraíam um ao outro. Contudo, a atração entre eles não era apenas sexual, mas nutriam profunda admiração, pois ambos eram intelectuais dedicados ao conhecimento e estudiosos de Ovídio e do Cântico dos Cânticos.

Um dia, o tio de Heloísa descobre o romance entre eles e expulsa Abelardo, proibindo-o de vê-la. Entretanto, eles continuaram a se encontrar em secreto até que Heloísa engravida. Abelardo, para não expô-la ao escândalo, leva Heloísa para morar com a irma dele fora da cidade de Paris. Nasce, finalmente, o filho que recebe o nome de Astrolábio. Abelardo retorna a Paris e pede perdão ao tio de Heloísa e pede que este lhe conceda-a em casamento. O tio consente, mas com a zombaria da sociedade da época, o tio contrata alguns homens que cortarão o órgão sexual de Abelardo.

Depois desta tragédia, que se deu mesmo com ambos já casados, Abelardo nunca mais falou com Heloísa. Esta funda um convento e se retira e ele constrói uma escola ao lado do convento de Heloísa. Embora nunca mais tenham falado um com o outro, ambos se viam diariamente e trocavam ininterruptas correspondências. Heloísa, em suas cartas, não apenas demonstrava o amor que jamais se apagara do seu coração, como, também, a revolta por ter se tornado freira.

Abelardo morre aos 63 anos de idade e Heloísa lhe constrói uma tumba. Vinte anos depois, falece Heloísa e, a seu pedido, ela é enterrada ao lado de Abelardo.

2 comentários:

Cris Campos disse...

Paixão forte e avassaladora a deles. Engraçado que nessas histórias a paixão quase sempre sucumbe a razão e os resultados são caros! Somos frutos do meio, de uma sociedade, e quando fugimos aos padrões estabelecidos somos literalmente crucificados. A história de Elizabeth por exemplo, tantas vezes retratada nos filmes e de forma espetacular na última versão que vi em "A Outra", tanto sofrimento que no fundo foi fruto de uma época que determinava a conduta de seus homens e mulheres. Desculpe a referência, até porque não sou feminista, embora respeite muito essa causa, mas o machismo impera na sociedade desde que o mundo é mundo. No livro " A paixão no banco dos réus" da Promotora Luiza Nagib que relata os crimes passionais de maior destaque desde o início do século, isso fica muito evidente e realmente é lamentável. Vivemos uma "vida moderna" mas a mulher ainda é tratada como objeto a ser subjugado pelo macho, e, até entendo que isso poderia ser mudado mas falta consciência e vontade por parte de todos, daí o comportamento aprendido lá nos primórdios permanece latente. Não vi o filme mas li o livro e gostei muito de relembrar a tragédia, fruto de um meio. Gr. Abrç. Fábio!

Casal 20 disse...

Cris, as mulheres sofrem muito...

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