Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Eu tenho problemas com oração! (uma breve conversa sobre responsabilidade cristã e divórcio)

Devo confessar que eu tenho problemas com oração. 

Aliás, tenho sérios problemas com a oração e o que fazem dela dentro dos arraiais evangélicos.

Vou compartilhar um diálogo que ilustra o que estou tentando dizer...

Um dia desses, depois de ouvir todas as minhas dificuldades e reticências em relação a um tipo de oração que certas pessoas insistem em fazer, alguém me questionou: "Então, você acha que eu não devo orar?!". Logo vi que ele não entendera nada do que eu havia dito sobre os meus conflitos com oração. "Orar, claro que você deve. A Bíblia diz que devemos orar sem cessar. Eu só acho que não é certo orar como fuga de uma decisão que só cabe a você mesmo", tentei explicar. Ele ficou quieto, mas percebi que eu precisava deixar mais bem exposto qual o meu exato problema com esse tipo de oração. Aí desenvolvi a conversa abaixo:

- Fulano, você começou essa conversa, falando do Ciclano* que divorciou, não foi?
- Foi... Você acha que ele não pode fazer uma campanha de oração na Igreja e pedir para as pessoas orarem por ele? Para que o casamento dele retorne?
- Não. Não acho. Não acho que ele deva colocar esse peso sobre a Igreja... Bem, na verdade, ele é livre para fazer o que ele quiser, só que eu no lugar dele não oraria por isso e, muito menos, colocaria sobre os ombros da Igreja esse jugo: é covardia!
- Mas Deus não quer que o casamento dele retorne?!
- Não sei, sinceramente. O que eu posso afirmar com certeza bíblica é que Deus odeia o divórcio, mas não sei se Deus quer que eles retornem um para o outro neste caso específico. Por isso, eu não oraria pela volta dela. E sei que nem ela deve também orar ou ficar pedindo para outros fazerem isso.
- Mas, então, você acha errado ele orar por ela e ela orar por ele? E a Bíblia também não diz que devemos orar uns pelos outros?
- Fulano, se era para um ficar orando pela vida espiritual do outro, eles não teriam se separado! Entende? O que eu estou dizendo é que o momento para eles se ajudarem mutuamente em oração passou! Eles tinham que ter se sustentado em oração antes, se não fizeram, podem até fazê-lo agora, mas eu acredito que eles estão errando o alvo.
- Sinceramente, não estou entendendo.
- Simples: o divórcio é um processo que não ocorre de um dia para o outro. Não é uma coisa que você acorda pela manhã, olha para a pessoa que está ao seu lado e, repentinamente, decide que vai embora para nunca mais. Talvez o divórcio deles já tenha até mesmo se iniciado na casa dos pais, quando o casal ainda era criança. Quando casamos, nós trazemos para dentro do nosso casamento a nossa história e, talvez, nessa história pregressa deles já havia a discórdia, o desentendimento, o desrespeito e o ódio semeados por sob o solo da existência de cada um.
- Mas o que isso tudo tem com a conversa de oração?
- Veja, se você ficar em casa orando, mandando recadinho pelo celular, dizendo para ela que está orando “para que ela seja restaurada” ou vice-versa, você não estará enfrentando o real problema da separação. Pior, ainda toma uma atitude covarde de enfiar o outro (seja um amigo, seja a igreja) no meio dessa sua história sórdida. Indo ao ponto: o problema é VOCÊ! “Orar pelo outro”, numa hora dessas, pode até parecer bonitinho e põe você diante dos outros com uma auréola de santo, de herói ou de vítima, mas, definitivamente, não muda VOCÊ!
- Então eu não posso orar por ela?
- Poder pode, mas o alvo da sua oração, antes de tudo, precisa ser VOCÊ MESMO e não ela. Porque que você não pede que a Igreja faça uma campanha de oração pela SUA conversão?
- !!!
- Veja, é igual na casa do marido alcoólatra. Todo mundo fica orando para que ele abandone a bebida até que, num belo dia, ele para de beber. Aí a casa cai, ou melhor, as máscaras de todos caem, porque começam a aparecer os problemas individuais que ficavam camuflados sob a doença pública do bode expiatório beberrão. Sem o bode, cada um tem que enfrentar a sua própria doença e tomar os remédios necessários para si mesmo. E isso dói. É mais fácil ter um doente público em casa do que ter que enfrentar as próprias doenças privadas do coração. Trazendo isso para o assunto da separação ou divórcio, ele fica dizendo que a culpa é dela e ela, que a culpa é dele. Adianta pedir para a Igreja orar? Cada um precisa se enfrentar, assumir suas próprias responsabilidades na separação e buscar a cura pessoal diante de Deus.
- Mas tem muita gente na igreja querendo orar por nós, para que a gente volte...
- Fulano, vou ser claro. Tem muito casamento falso, porque a igreja resolveu entrar nessa de fazer campanha de oração, chamar o casal para orar e orar publicamente para resolver logo a situação. O que acontece? Muitos acabam voltando por constrangimento, por coação social, pressão do meio mesmo. Pior, retornam ainda mais doentes só para manter a fachada. E isso é muito triste, pois duas coisas acabam acontecendo: o reatamento hipócrita ou uma nova separação muito mais dolorida logo depois. 
- Agora comecei a entender...
- Pára de ficar colocando a Igreja para orar, porque isso só contrange a todos. E, no final das contas, não é o pastor, não é a liderança da igreja ou sua mãe que vão ficar casados com você o resto da vida, por isso mesmo eles não podem assumir uma responsabilidade que, amanhã, é você quem, sozinho, vai arcar com o ônus das consequências! Também não fica cobrando do irmãozinho uma resposta "de Deus" para o problema que VOCÊ e ELA criaram juntos. Vocês terão que se enfrentar primeiramente cada um sozinho, depois, os dois juntos precisarão fechar o acordo. Porque, Fulano, acredito que casamento é cumplicidade, é acordo, é pacto baseado no amor de Deus por nós. Um amor sacrificial que entregou o próprio Filho por nós (Jo 3:16). A pergunta final que vocês dois vão ter que responder para si mesmos é: então, vamos viver esse amor de Cristo em nós? E esta é a pergunta que cada um vai ter que responder a si mesmo e não pelo outro e nem esperar que alguém responda isso por vocês. Não fique esperando um irmão dizer: "Olha, eu estava orando e tive um sonho e Deus me mostrou vocês juntos de novo no altar"! Até porque esse irmãozinho sonhador pode não ter percebido que o altar do sonho não era o da Igreja, mas o do sacrifício do bode... O sonhador nem se deu conta de que não era uma igreja, mas um açougue!...
- Agora, entendi!
- Então vai e resolva o SEU problema com Deus, assuma a SUA parcela de responsabilidade nisso tudo, buscando de Deus a cura pessoal antes de seguir em frente. E, principalmente, não use a oração como um mecanismo de fuga ou de manipulação, por favor! 

*A conversa dele começou em 3ª pessoa exatamente por esse meu amigo não conseguir enfrentar a situação que ele mesmo estava vivendo.

8 comentários:

Anderson Andujar disse...

Particularmente eu gosto de uma passagem no livro de Juízes quando Sansão colocou fogo na seara dos filisteus (e olha que por coincidência foi por causa do casamento 'proibido por Deus' que deu errado). Após a 'besteira' que fez ele vai se esconder numa caverna 'fenda da rocha de Etã' (Jz 15.8) e coloca todo o Israel em perigo devido a vingança que os filisteus engendraram.

O problema só se resolve quando ele é convencido pelo seu povo a sair da fenda e enfrentar seu problema de frente. Aí o que acontece? O Espírito do Senhor vem sobre ele e a vitória é conquistada com uma queixada nas mãos.

Abraços amigo. Fique na paz...

Casal 20 disse...

Andujar, muito boa a ilustração para tudo o que eu escrevi. Abraços sempre afetuosos, meu amigo!

Guiomar Barba disse...

Estou ajudando algumas pessoas que estão separadas. Um deses casais, Deus me levou a interceder pelo homem sem que eu soubesse nada que estava acontecendo, minha oração foi intensa para Deus livrá-lo da morte. Pouco tempo depois ele sofreu um acidente e não morreu por intervenção divina.
O casal já casou muito mal, depois de muitas feridas, a esposa queria ajuda. Tentei, na verdade lutei por eles, mas Deus me fez entender perfeitamente que não haveria restauração, existem feridas que não cicatrizarão tão cedo. O casamento realmente acabou.

Em outro caso, alguém chegou a me dizer que não havia solução, mas eu sentia que deveria está com eles e lutar. Consegui conversar muito com a esposa e levá-la a reconhecer que ela precisava mudar independente do marido; quando ela começou a mudar, ele também mudou, e ontem tive a alegria de conversar com ela novamente, faz alguns meses que os dois estão vivendo um lindo processo de restauração.

Concordo cem por cento com você, o divórcio começa na infância, talvez, na maioria das vezes.
Entendo que expor problemas semelhantes a igreja, é falta de responsabilidade para com a igreja.

Muito bom o texto. Abraço.

Casal 20 disse...

Verdade, querida Guiomar. Casamento é coisa séria e, se há feridas, eleas precisam ser enfrentadas profundamente para que haja cura. Do contrário, só serão reabertas caso não nos enfrentemos diante de Deus. É a luta de Jacó com o anjo! O problema de Jacó não era com o irmão, mas com Deus e consigo mesmo. Se o casal não entender isso, continuará ferido e carregando feridas. Abraços sempre afetuosos. Fábio.

Tom Alvim disse...

Existe tempo para tudo, até para a oração...temos na Bíblia casos em que Deus mandou que seus servos parassem de orar e fossem á luta. Um exemplo clássico disso é o de Moisés...e outros tantos. Muitos querem fugir de suas responsabilidades e fingem-se de santos orando quando deviam "marchar" e partir para a luta. Abraços mano.

Pri disse...

Olá Fabio e Lucila,
bom dia!!!

O texto está de parabéns, concordo plenamente que dentro do casamento (como diz o ditado popular)a roupa suja tem que ser lavada em casa e não enviar para terceiros.

Em muitos casamentos os casais não permanecem no amor do principio e isso certamente faz com que a relação se desgaste.
Lá no livro de Efésios 5:25 quando diz que os maridos devem CONTINUAR a amar as vossas esposas( e visse e versa) como ama a si próprio não diz que é por tempo limite e sim a permanecer amando,isso é o que vejo está é falta o amor que é essencial
dentro do relacionamento se está adormecido,não tem relação que dure.

Outro dia li no blog de uma amiga que uma conhecida sua ia completar 52 anos de casada, e quando lhe perguntaram qual era o segredo ela disse: È olhar para meu marido todos os dias, como se fosse a primeira vez e sentir a mesma emoção ou seja permanecer amando.

São casos raros mas reais, que servem de exemplos para essa geração onde tudo é normal,casar hoje e se separar amanhã é algo tão normal.

Bem meus estimados amigos fico por aqui e mais uma vez digo: Excelente Post.

Lembranças da Pri e do Carlos :-)

Casal 20 disse...

Tom, verdade! Sabedoria é o que falta aos que se dizem discípulos de Jesus. Abraços sempre afetuosos!

Casal 20 disse...

Pri, saudades! Estivemos fora, mas estamos já "retornados". Bom te ver por aqui. Concordo contigo também. Abraços sempre afetuosos!

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