Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 8 de maio de 2012

O abraço do amor - Cantares de Salomão (XVI)



A sua mão esquerda está debaixo da minha cabeça,
e a direita me abraça (RC; 2:6).

Vimos em “A espiritualidade erótica dos místicos medievais” a confusão entre religião e sexo (e boa parte dessa confusão se deve tanto à insistência em uma interpretação alegórica do livro de Cantares quanto ao paganismo resistente dentro do coração de todos nós).

Vimos também que o amado, o noivo, sustenta a jovem Sulamita em "A languidez do amor" com bolos de passas e maçãs, ambos elementos afrodisíacos nas culturas antigas e que, sem sombra de dúvida, também guardam o seu quê de paganismo. Aliás, culinária e amor são um tema sempre recorrente em filmes que traduzem bem o poder afrodisíaco que une amantes aos redor de alguns alimentos especialmente preparados para despertar o desejo erótico e possibilitar a consumação da relação sexual entre eles e essa crença em si já revela o princípio da feitiçaria (mas isso já é tema para outro post).  

Os bolos de passas, as maçãs e outros alimentos eram oferecidos aos ídolos, aos deuses da fertilidade. O próprio Rei Davi, ao entrar em Jerusalém com a Arca da Aliança, festejou distribuindo ao povo tais elementos, que sempre foram elementos usados em rituais religiosos (2 Samuel 6: 19). Os pagãos sempre ofereciam tais elementos aos seus deuses, contudo, em Cantares, o diferencial é que, enquanto pagãos e místicos oferecem tais alimentos aos deuses, o amado os oferece para Sulamita, a razão do seu amor. Portanto, é interessante notar que no poema de Cantares não há confusão entre espiritualidade e erotismo. Embora, durante muitos séculos, a interpretação alegórica é que tenha gerado essa confusão na interpretação desse livro. Em Cantares, o nome de Deus não aparece. Não é um livro sobre a relação entre Deus e os homens, mas entre um homem e uma mulher: a celebração da coroa da criação, o prazer sexual criado por Deus para ser desfrutado plenamente entre o casal!

E aqui, mais uma vez, quem nos importa é a Sulamita e suas palavras que seguem relatando aos leitores as cenas desse drama cheio de paixão, de busca e suspense. Será que ela estaria sonhando? Será que ela está recordando lembranças de um momento já ocorrido? Ou as cenas são descrições de um instante presente? Há milênios que estas perguntas suscitam as mais diversas respostas por tantos que se aventuram em enfrentar os versos dessa maravilhosa obra do Espírito Santo. 

Chegamos, portanto, a um ponto delicado do texto para muitos tradutores e comentaristas, porque há palavras aqui nestes versos que, no original hebraico, podem ter mais de um significado. Ygael Yadin resolve ousar na sua leitura do conjunto dos versos 4-6 do capítulo 2 e traduzi-lo com toda a força sexual que poderia também estar sendo sugerida pelo texto:

Ele trouxe-me à sala do banquete
Ele cuidou-me com passas
Ele consolou-me com maçãs
Pois eu estava doente de amor.

Sua mão esquerda estava sob minha cabeça,
Enquanto sua mão direita me abraçou
E sua perna estava em cima de mim no amor.

Outro estudioso do livro de Cantares, Marvin Pope, lembra-nos que o verbo "hbk" pode tanto significar abraço literalmente como também o abraço sexual. Andiñach diz que a Sulamita está descrevendo para nós a posição na qual o seu homem a está sustentando durante a união sexual.

Este abraço intenso e revigorante dado pelo amado em um momento de tamanha entrega dela voltará outras vezes durante este pequenino livro, quando, então, poderemos explorá-lo em outros contextos e confirmar com exatidão a sua natureza sexual.

É o abraço do amor que a Sulamita nos descreve. Um homem que a sustenta com toda a sua força masculina num instante de total entrega e fraqueza femininas de sua amada. Um abraço que a envolve e domina, despertando nela o desejo de ser protegida e de se deixar embevecida nos braços dele. O abraço dos amantes. Envolvida, unida, cercada, presa pelos braços do amor, assim se descreve a noiva de Cantares. O abraço de quem confia plenamente no homem que a sustenta.  

Enquanto escrevia este post, lembrei-me desta linda música que também nos fala do afeto, do amor  e da delícia de abraçarmos e sermos abraçados por quem amamos: "embreceable you" na linda voz de Billie Holiday.

4 comentários:

Mariani Lima disse...

Simplesmente espetacular e delicioso de ler.Amei!

Luciana Severo disse...

Muito interessante a forma que vc expõe partes da biblia para nós, sempre em contextos, para mim, até então desconhecidos, adoro ler os trechos e as explicações ... abços

Lamarque disse...

estudar cantares ao som desta cançao é um convite ao namoro, a ternura, ao passeio. parabens fabio. abraços lamarque

Cris Campos disse...

Esse livro sempre me encantou e confundiu, nunca entendi, na verdade, a aplicação dele, seus objetivos, suas razões. Os posts que vç tem aqui sobre ele realmente me ajudaram muito a esclarecer um pouco os mistérios de Cantares. Quanto a Billie, sem palavras, ela É o cara do Jazz! Gr. Abrç.!

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