Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Fantasias sexuais no canto da Sulamita - Cantares de Salomão (XVII)


Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém, pelas gazelas e cervas do campo,
que não acordeis nem desperteis o *amor, até que este o queira
(2:7; *sem pronome possessivo).


De quem, afinal, é a voz dos versos acima? Da Sulamita, do noivo ou seria a voz do narrador? A resposta definirá não só o caminho que devo seguir para interpretar o resto do poema, mas, também, justificará o tema deste post. Assim, quero começar descartando duas possibilidades e me aterei há apenas uma alternativa e justificarei minha escolha. Vejamos.

A primeira hipótese que quero descartar é a de que o verso 7 seja uma interferência do narrador do poema, uma terceira voz fora do texto. Faço isso, porque se eu optar por essa interpretação, não apenas este verso ficaria desconectado de uma possível trama narrativa que poderia ligar os poemas de Cantares entre si, como, também, ele ficará desconectado do texto nas outras duas vezes em que aparecer. Quem segue essa interpretação transforma esse verso em uma espécie de refrão do poema que, no máximo, seria divisões dentro do texto. Contudo, a ideia não dará certo no todo do poema e fará com que uma certa unidade que vejo se desfaça e o clímax não ocorra no desfecho do poema.

A segunda hipótese diz que seria a voz do amado, mas tal ideia sofre das mesmas limitações dadas no parágrafo anterior e não se encaixa quando esses versos reaparecem depois no correr do poema. Além disso, essas palavras na boca do amado, logo após os arroubos eróticos dos dois, soam contraditórias. Por que o amado diria que o amor não pode despertar antes do tempo? Por que ele diria isso logo após um abraço tão cheio de ardor sexual? Ou será que o amor sexual não foi de fato despertado ainda? O que me leva a uma terceira hipótese.

A terceira hipótese não está livre de dúvidas, mas é, ao meu ver, a que melhor fará jus tanto à estrutura da obra, quanto ao seu romantismo e também à personalidade da Sulamita. A obra de Cantares é uma obra feminina, já vimos isso. A principal voz que nos guia pelos versos é a da noiva, da camponesa, da menina "queimada pelo sol" e desprezada por seus irmãos. É, portanto, a voz de uma mulher que não esconde os desejos do seu corpo no meio de uma série de livros de autoria masculina. Assim, descarto as ideias de uma despropositada fala do noivo e de uma infeliz intervenção da voz do narrador.

E aqui – na voz da Sulamita – é que está a chave que abre mais uma vez uma linha sedutora, o mitte que tece e dá ao texto a sua coesão e singularidade, principalmente,  a esse movimento narrativo de apresentação-suspense-distensão que ocorre durante esta obra. E o verso 7 é exatamente o primeiro momento de distensão dentro da obra (ocorrerão pelo menos mais dois). Após tamanho apelo sexual e desejo e busca de um pelo outro, agora, inesperadamente, a Sulamita está como que falando para si mesma: “Meninas, não deixem que eu me excite em demasia, porque ainda não é chegada a hora da entrega”!

Então foi tudo um sonho? Foram devaneios a cena descrita na sala do vinho? Aquele abraço do amor não se consumou de fato? Eram apenas fantasias de uma menina que sonha com o momento do encontro com seu homem amado? Para que minha escolha interpretativa possa ficar ainda mais convincente, precisaremos continuar a ler o poema e descobrir, por exemplo, que a Sulamita é apenas uma jovenzinha, uma menina indefesa aos olhos dos irmãos ciumentos e possessivos (1:6 e 8:8). Sim, ao mesmo tempo em que a Sulamita revela-nos os desejos apaixonados do seu coração, ela também tem medo dos obstáculos que deve enfrentar para conseguir consumar as fantasias do seu coração.

De outra forma, que sentido faria ela mesma ter pedido ao amado que a levasse à sala do vinho e a alimentasse com frutas afrodisíacas e, repentinamente, mandasse por meio de juramento que suas amigas não festejassem sua iniciação no amor sexual, porque o amor tem seu próprio tempo de maturação?

Por fim, instaura-se o tema deste post: a fantasia sexual! Se toda a cena da sala do vinho foi devaneio, se foi a expressão do que ela gostaria que acontecesse, mas não ocorreu, então o poema ousa, mais uma vez, trazendo àquela época e sociedade um tema que ainda hoje é tão controverso, o das fantasias eróticas, das fantasias sexuais. E sempre na voz da mulher!

A Sulamita é uma mulher que não se envergonha de desejar sexualmente ao seu homem e ela chega mesmo a fantasiar com ele. Mas qual o limite das fantasias sexuais? Alguns dos limites bíblicos foram apresentados pelo próprio texto: sem imoralidade e sem pornografia, fantasias entre ela e o seu homem (em outras palavras, quando não há a presença imaginária de uma segunda ou terceira pessoa). No caso específico de Cantares (um contexto ainda veterotestamentário apenas), temos uma jovem noiva ansiosa pela consumação sexual entre ela e o seu amado, sonhando com a noite de núpcias, fantasiando tudo aquilo que ela poderá usufruir de uma vida sexualmente plena e feliz ao lado do homem por quem enfrentará tantos perigos para ser sua mulher. 

Um comentário:

Mariani Lima disse...

Fábio, que interessante isso! Sempre achei que as vozes do texto eram alternadas a da noiva e do noivo. Lindo pensar que ela sonhava com ele. Meu querido amigo, sem ser tiete, puxa-saco ou coisa desse tipo, mas esse blog é muito bom!!
Abração! Fica com Deus

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