Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 4 de maio de 2012

A espiritualidade erótica dos místicos medievais - Cantares sobre Cantares (XVII)

Sempre causou-me certa perplexidade como muitos dos teólogos marxistas do passado como Leonardo Boff e Rubem Alves passaram de seu cristianismo materialista, centrado na experiência humanista e na práxis, para o misticismo neopagão e espiritualista. Causou-me certa estranheza também como os seguidores da Teologia da Libertação, carentes da verdadeira Palavra de Deus que sacia a alma, acabaram buscando para si outras fontes para substituir a verdadeira água viva que somente Jesus pode oferecer. É uma tragicomédia, na verdade, o que assolou a maioria dos que trilharam o caminho árido da Teologia Liberal e dos filhotes bastardos nascidos dela. 

Sabemos que até mesmo os mais enfáticos materialistas precisam suprir sua sede de Deus de alguma forma, assim não é de surpreender que o escritor Jorge Amado, comunista de carteirinha do PCB, tenha dito para Caetano Veloso que, embora ele não acreditasse em Deus, milagres existem sim e sem a menor sombra de dúvida. E foi esse pensamento esquizofrênico de Jorge Amado que inspirou Caetano Veloso a compor a música "Milagres do Povo". Aliás, essa música é uma bom exemplo de tudo o que está sendo dito aqui neste post.

E não foi apenas o ateu Jorge Amado que acreditava em milagres, mas muitos outros materialistas comunistas neste Brasil tropical são espíritas, são frequentadores assíduos dos terreiros de Candomblé e colecionam suas estranhíssimas superstições oriundas de suas crenças primitivas mais profundamente escondidas. Os filhos órfãos da antiga Teologia da Libertação também buscaram suas próprias fontes para nutrir suas espiritualidades carentes e ressecadas pela bandeira tão defendida do "marxismo cristão" (expressão auto-contraditória e suicida).

De todas as buscas por uma espiritualidade que os saciasse, a mais estranha e paradoxal é isso que se alastrou entre pastores e teólogos protestantes e reformados de beberem da fonte espiritual dos santos da Contra-Reforma, por exemplo, os ensinamentos de Santa Tereza d'Ávila e São João da Cruz. Virou moda no Brasil, principalmente entre os que fizeram os seus "Mestrados e Doutorados em Divindade", pregar e escrever muitos livros sobre castelos cheios de labirintos e discursos mil sobre as tão escuras noites da alma.

Então, vi-me mais uma vez buscando uma lógica nessa loucura toda de tantos que saíram de um marxismo cristão indo parar num misticismo medieval romano cheio de disciplinas meritórias. Finalmente, encontrei uma chave comum a todas essas portas aparentemente contraditórias: a sensualidade religiosa, o erotismo anti-cristão, a sexualidade neopagã da Nova Era! A devassidão sexual é tema e prática recorrente nas ditaduras totalitárias, nos discursos libertários socialistas e no misticismo medieval romano. Arrisco dizer, portanto, que houve tão somente uma sútil mudança de uma carnal espiritualidade para uma espiritualidade da carne! Os Teólogos da Libertação de ontem saíram de um paradigma cristão-materialista-ateu para um novo paradigma: o cristão-espiritualista-pagão! É evidente que o Comunismo é uma religião que abocanhou o cristianismo e, agora, vomitou sobre uma Europa pós-cristã essa cria anômala e sincretista a que muitos têm chamado de Nova Era.

Para quem ainda não se enveredou pela mística medieval, selecionei alguns textos de comentaristas e biógrafos que darão uma ideia do ponto em comum e que acabam nos explicando que os antigos marxistas cristãos não deram um salto e nem uma meia volta, mas, tão somente, trocaram seis por meia dúzia. Em outras palavras, continuam tão distantes do puro e simples Evangelho agora quanto estavam naqueles tempos quando se sentavam aos pés de Marx nas distantes décadas de 60 e 70 do século passado. E continuam arrastando uma multidão de incautos com essa sua nova mentira velha assim como o faziam antigamente com sua velha mentira nova. 


Beata Ludovica Alberoni, Gianlorenzo Bernini, Roma, Cappella Altieri (San Francesco a Ripa), 1671-74 (se uma imagem vale mais do que mil palavras...)
Santa Tereza era sempre facilmente transportada para seus encontros com Jesus que um padre chegou a lhe proibir que orasse mesmo mentalmente. Ao padre, Tereza não confessou que tinha ciúmes de Maria Madalena. Mas confessou seu ciúme a Jesus, que a tranquilizou dizendo que preferia Tereza a Maria Madalena e que, sempre que Tereza estivesse com ele, ela seria a única (Guido Ceronetti, L'Occhiale Malinconico).

Catarina de Siena (1347-1380) num dos seus frequentes momentos de êxtase diz que recebeu das mãos de Jesus o prepúcio dele para que se tornasse sua esposa “não com um anel de prata, mas com uma aliança feita de sua própria carne sagrada, pois quando lhe circuncidaram esse aro foi retirado do seu corpo sagrado” (citado por Diane Ackerman, Le livre de l'amour).

Angela de Foligno (1248-1309), ainda casada, teve visões de Jesus em que mantinha relações amorosas com Ele e, para isso, diante do crucifixo, tirava toda a sua roupa (Adolf Holl, A mão esquerda de Deus: Uma biografia do Espírito Santo).

De Catarina de Gênova (1447-1510) Jesus lhe beijava a boca (Cioran, Précis de décomposition).

Deus era não somente o esposo ideal das virgens como também um amante mais ardente do que qualquer homem (São João Crisóstomo, 350-407, Porque as mulheres não devem coabitar com homens).

LEIA TAMBÉM:

Hilda Hilst – uma bruxa em prosa e verso!

3 comentários:

Pr. Anselmo Melo disse...

"Finalmente, encontrei uma chave comum a todas essas portas aparentemente contraditórias: a sensualidade religiosa, o erotismo anti-cristão, a sexualidade neopagã da Nova Era"!
A afirmativa acima tem causado perplexidade em praticamente todos os interlocutores com quem tenho conversado sobre o tema.E,minha perplexidade é a de perceber que o assunto acaba por sequer despertar o interesse investigativo destas pessoas.Não só por esse "singelo" detalhe mais por tantas outras coisas que tenho visto,lido e ouvido creio que a mais verdades relacionadas ao tema do que eu mesmo gostaria de acreditar.
Um grande abraço meu amigo.

Casal 20 disse...

Verdade, Pastor! E o mais assombroso é que o paganismo nunca foi abortado, mesmo dentro dos arraias romanos e protestantes, ele assumiu formas diversas. Ou, nas palavras de um escritor, ele sempre esteve ali debaixo das cinzas como uma brasa escondida numa fogueira que, aparentemente, estava apagada.

Há mais, muito mais por esta trilha do que a nossa vã teologia possa imaginar!

Sigamos salgando.

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

Smareis disse...

Olá Fábio,

Adorei a postagem, super inteligente e reflexiva.
Por mais que as pessoas diz não acreditar em Deus, e em milagres no profundo elas acreditam. Acho que Deus jamais deixaria um filho dele não acreditar na justiça e verdade que ele nos ensina.


Grande abraço meu amigo!

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