Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Erotismo e feitiçaria - o amor bruxo através dos tempos



Encerrei a leitura desse interessante livro ainda no ano passado, mas como tenho postado recentemente uma série de textos sobre o tema do erotismo e religião (ver aqui, aqui, aqui e aqui), vi que seria um ótimo momento de trazê-lo ao blog.

Jacques Finné é mais conhecido por suas extensas pesquisas na área da literatura fantástica com longa lista de obras publicadas. "Erotismo e feitiçaria" foi publicada pela primeira vez em 1972. O autor faz um apanhado desde os primeiros casos de bruxaria até os mais notórios bruxos do século XX.  A obra é repleta de informações interessantes e descreve casos famosos da Inquisição, suas repercussões e avalia os execessos e as mitificações ocorridas em torno desses casos.

Logo no início, o autor faz uma separação sobre religião e para-religião, analisando as sociedades secretas sobrenaturais, esotéricas, místicas e misteriosas (máfia, Ku Klux Klan, maçonaria, etc). O livro parte da seguinte tese: "Todas as sociedades secretas com tendência sobrenatural comportam  uma certa parte de erotismo em suas manifestações. Raríssimas são as excessões" (p.9).

Achei interessante também o autor declarar que evitou tratar no livro do simbolismo sexual. "Desconfio dos símbolos", diz ele. O que, particularmente, achei um ganho para o leitor, não só porque concordo (interpretação de símbolos é só para quem faz escola), mas também porque tornou a obra menos hermética. 

Outro aspecto positivo do livro foi a defesa de que o Gnosticismo (e não o Cristianismo) é o responsável por originar o amor idealizado que exilava a mulher sensual e por ter criado a adoração mariana; por outro lado, esse mesmo Gnosticismo originou também a licenciosidade da carne. Mestres gnósticos como Carpocrates pregavam a comunhão de bens materiais, comunhão de mulheres inclusive, e recomendavam a prostituição.

Finné avança na história tratando das sociedades secretas dos bogomilos, catharos (também conhecidos por albigenses), estes eram favoráveis ao suicídio e recusavam certos alimentos por razões de estarem ligados ao sexo (leite, ovos, queijo) e carne, esta por razões re-encarnacionistas. 

Ao falar da feitiçaria propriamente dita, Finné a liga à floresta, que gera no homem medieval a angústia, miséria, isolamento e solidão. Finné ainda destaca que a feitiçaria sempre esteve presente no mundo medieval cristão, como "as brasas por debaixo das cinzas".  A feitiçaria teria sido apenas reaceita, talvez como revolta contra Deus e a Igreja (paganismo X cristianismo). “A feitiçaria é um luxo dos tempos modernos. Durante os primeiros séculos da época medieval a igreja atacava as seitas gnósticas, particularmente os maniqueus, porém nem admitia a existência da bruxaria", diz Finné.

Enfim, vi no livro uma contribuição para entendermos o histórico de um paganismo que sempre esteve em intensa relação, ora de oposição, ora de sincretismo, com o cristianismo que nunca de fato o suplantou. 

Embora a obra seja resultado de pesquisa acadêmica e contenha verdadeiros escândalos sexuais e eclesiásticos cometidos na história, é leitura indicada a todos os que têm se dedicado a compreender o advento do moderno paganismo e como sua cosmovisão animista tem se levantado, mais uma vez, para se opor ao cristianismo. Segue abaixo um excerto do livro sobre os encantamentos eróticos usados na bruxaria para se conquistar a pessoa amada.

Antigo como o mundo, uma vez que as representações de animais ornamentando as grutas pré-históricas exteriorizavam uma vontade de enfeitiçar, o feitiço concretizava o elo unindo magia, amor e morte.

De alguns anos para cá, depois dos mais recentes trabalhos dos ocultistas, entendemos por feitiço toda ação, engendrando às vezes a produção de um objeto, que tem por fim conferir a certa pessoa um poder sobre a vida e os sentimentos de uma vítima. Dependendo da finalidade do encantador, distinguimos encantamentos de amor e encantamentos de ódio. É difícil e discutível a classificação, uma vez que está centralizada sempre sobre a personalidade do encantador e não sobre o que recebe, a vítima. Um encantamento de amor, para o primeiro, pode ser um encantamento de ódio para o segundo. Não se trata no entanto de tentar uma nova nomenclatura (…).

Os poetas decidiram que o amor era irmão da morte. Tomo no entanto a liberdade de eliminar o estudo dos encantamentos de morte para centralizar minha atenção sobre os encantamentos eróticos. Entretanto convém observar que esses últimos, se bem que muito antigos, revelam-se posteriores aos primeiros. Parecem mesmo constituir um luxo dos tempos modernos, uma guloseima permitida quando se atingiu um certo grau de conforto e civilização. Será preciso, como Roland Villeneuve, levar o raciocínio além dos limites razoáveis e ver no encantamento sensual, um cúmplice esperado, quando “os lazeres, as delícias da paz, a segurança do amanhã, levam o homem, inquieto por natureza, a procurar divertimentos eróticos ou mórbidos?” Não o creio.

O encantamento é mais do que um acréscimo destinado a reforçar um erotismo doentio. O simples fato de existir fórmulas ou gestos rituais para impedir a procriação mostra, pelo contrário, que o encantamento podia responder a uma certa necessidade, concretizar um ódio ancestral, uma rivalidade entre tribos para as quais os nascimentos representam uma necessidade biológica. Mais simples do que uma rivalidade genética, uma rivalidade amorosa, que não pode confundir-se com a gratuidade erótica, está quase sempre no início de um encantamento de ódio ou de uma volta de afeição. É claro que sempre existiram libertinos procurando por todos os meios, até sobrenaturais, aumentar o número de suas conquistas. Formam, no entanto, uma minoria em relação aos maridos enganados ou amantes ciumentos querendo vingar-se de uma infiel.

O que chama sobretudo a atenção nos encantamentos eróticos é o seu aspecto individual. Algumas cerimônias de encantamento sexual são praticadas com o auxílio de uma parceira de boa vontade, mas sempre em proveito de um único cliente. Da mesma forma, o encantamento magnético em cadeia, reúne alguns participantes mas essencialmente em benefício de uma individualidade. Nesse sentido, o encantamento opõe-se ao Sabbat e à Missa Negra, desencadeamento coletivo de erotismo. Opõe-se ou os completa? Talvez represente um outro lado deste desejo instintivo de unir magia e erotismo.

Todo encantamento é mágico. Procura conciliar poderes desconhecidos, superiores aos homens, com fins essencialmente egoístas e a maior parte do tempo eróticos. O namorado platônico, esperando horas sob a chuva, apenas para avistar o seu amor, o amante romântico, em todo sentido ridículo da palavra, até a noiva sincera que só procura dentro de sua paixão um aburguesamento através do casamento, não saberiam o que fazer da ajuda sobrenatural dos bruxos. O encantamento tem por fim essencial, a posse carnal, momentânea, às vezes interesseira, de uma presa que só desperta interesses carnais, intenções sensuais. Ninguém ficará admirado de constatar que o encantamento apresenta um conteúdo pejorativo; não é errôneo descrevê-lo como uma manifestação dos maus instintos do ser-humano, um desejo de subjugar, à sua vontade, o poder psíquico de um igual ou superior. Mantendo-se as proporções, não seria o encantamento uma tentativa do homem para sobrepor-se às forças da natureza ou da divindade, que regem os destinos da humanidade? A realização de um velho sonho que levou outros loucos a soltar, sobre a terra, uma soldadesca ululante?

O encantamento é um comando de guerra. Guerra contra a vontade e liberdades humanas. Uma guerra de trevas. Uma guerra de covardes". (Jaques Finné, Erotismo e feitiçaria – o amor bruxo através dos tempos, p. 107-109).

7 comentários:

Pr. Anselmo Melo disse...

Excelente dica meu irmão.Vai ficar em 1º em minha fila.No momento ainda estou tentando digerir o "A ameaça pagã" e "O Deus do sexo"ambos do Peter Jones.
Um grande abraço.

Cris Campos disse...

Muito bom seu artigo Fábio! Esse assunto rende horas e horas de debate não é mesmo? Como curiosa que sou, sempre atalhei por diversos caminhos somente para conhecê-los de perto. Conheci Wicca, Ayhuasca, Espiritismo e até tive um contato com a bruxaria branca, como os seguidores dizem, mas que no fundo é puro culto aos demônios mesmo. Dessas minhas insanas aventuras, sempre saí incólume, sabe porque? Entrava nelas consciente da fé que tenho. Nada do que era praticado nessas seitas me sujeitou a elas, em algumas reuniões, tive a ousadia de pedir permissão para orar, e me deixaram assim fazer! Então orava e clamava a Deus libertação para aquelas pessoas, e elas diziam amém, talvez por uma questão de educação, somente, mesmo assim dei graças a Deus! Creio que quando estamos firmados na Palavra e na fé, assim como ela mesmo nos diz, "o maligno não nos toca". Sofremos muitas adversidades nesse mundo, mas possessão,encantamento e correlatos, não. Isso atinge pessoas onde Deus não habita, tenho essa certeza em mim. Rebeca Brown e todos os demais que seguem esse mergulho profundo nesse mar, acabam sendo um pouco antagônicos à Palavra. Não duvido de suas experiências e conhecimento, apenas penso que em algum momento desse mergulho, a água acaba por penetrar a mente, trazendo como consequência confusão, ainda que rasa. Naquele meu escrito que comentastes, falei sobre minhas certezas que só me trouxeram dor e sofrimento, pois depois de muito estudar a Palavra, tive muitas respostas, e tantas outras interrogações. Por esta razão optei por viver num plano mais meditativo em relação a ela, do que questionante. Tento não pesar o espírito, pois se assim o fizer, penso que me colocaria num hades existencial crucificador. Tomemos apenas um exemplo, dentre os muitos que poderíamos, em 1 João 5:18 "Sabemos que todo aquele que é nascido de Deus não peca; mas o que de Deus é gerado conserva-se a si mesmo, e o maligno não lhe toca.", sobre a segunda parte já discorri, agora, analisa a primeira. Se o Espírito Santo de Deus passa a habitar em nós, nascemos de novo, correto? Continua mais um pouco e vç se depara com uma afirmação, "não peca", pensa um pouco e me diz se isso é real em nossas vidas, quando digo nossas me refiro aos que nasceram de novo, é real?? Olha Fábio, te afirmo, sem medo, não. Acaso conservamo-nos a nós mesmos? Ah que paranoia chata não é mesmo? Falei d+++! Desculpe! Gr. abr. Fica na Paz!

Casal 20 disse...

Querida Cris, que comentário fascinante. Você tem um dom mesmo para se descortinar em palavras! Quanto ao "não peca" - o sentido é não viver pecando! Claro, continuamos pecadores, mas, ao contrário dos que não amam a Deus, nós não permanecemos prostrados. O cristão se arrepende e sabe que há um Pai misericordioso.

O mesmo João lá no início da carta já tinha explicado melhor sobre isso, por isso acho que na conclusão a que você se refere o verso parece abrupto e radical, mas veja: Assim, quem vive unido com Cristo não continua pecando. Porém quem continua pecando nunca o viu e nunca o conheceu (I Jo 3: 6).

João está falando sobre falsos crentes, pessoas que se dizem crentes, cristãs, mas que continuam deliberadamente a se enlamear numa vida de pacado.

Em resumo, para João, é o seguinte: Se você é de Jesus, então você sabe que é pecador e se arrepende, pede perdão, retorna e busca santidade. Agora, dizer que é cristão e continuar pecando, aí não dá. Em outras palavras, é transformar a liberdade em Cristo em libertinagem.

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

Cris Campos disse...

Ok. Certo, sei que o sentido é esse, mas... esse tb é o ponto, nós vivemos pecando! Quando Jesus disse: "vá e não peques mais", ele quis dizer exatamente isso, caso contrário, ele poderia ter dito, (conjeturas, hein)"vá e sempre que pecares arrepende-te", não poderia? Claro, não devemos usar da liberdade que nele temos para tornar o pecado usual. Teria que pesquisar, de novo, um pouco mais sobre isso, porém aos meus ouvidos, "não peques", seja lá em grego ou hebraico, continua sendo, apenas, isso.

Andei fazendo um tour pelo seu espaço e vou te falar uma coisa viu, tem muito artigo bom por aqui... Não fique bravo comigo quando te deparares com meus comentários infindos por aí![rsrs]

Abrç!

Casal 20 disse...

Cris, para mim é um privilégio ter teus comentários riquíssimos por aqui. Pode entrar na nossa casa que ela é sua. Fique à vontade!

Quanto ao "não peques mais", Jesus sempre se refere aquele pecado específico da pessoa com a qual ele está tratando. Por exemplo, a mulher adúltera, ele falava do adultério. Assim, quando Jesus diz essas palavras, ele está lidando com pessoas como eu e você, pessoas que tem algum "pecado de estimação", pecados contra os quais temos de ter uma atitude mais firme e, verdadeiramente, nos arrependermos deles (sem jamais nos acomodarmos ou cauterizarmos a consciência em relação a eles).

No mais, somos pecadores, mas os nossos pecados foram cobertos pelo sangue do Cordeiro, então, diante de tão maravilhosa Graça só há uma resposta que podemos dar em amor a Deus: não pecarmos mais, em outras palavras, investirmos numa vida de santidade.

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

Cris Campos disse...

ôpa! Fechaste com chave de ouro. Abrç Fábio!

jose claudio disse...

Gostaria de ler esse, Fábio. Li um correlato há muito tempo, chamado Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras) mas com abordagens diferenciadas. Gostei da resenha e coloquei na minha lista. Grande abraço e um lindo dia das mães para você e a Lu. paz e bem.

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