Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Blog Gândavos (Carlos Lopes) - SEXO E OS BLOGS (III)

Nas próximas postagens (uma por dia), queremos prestar uma homenagem aos blogs que o Casal 20 lê, publicando posts em que esses blogs abordaram o tema da sexualidade. Boa leitura!

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Cinema paradiso - Autor: Carlos Lopes

             Naquela tarde atendi o telefone e uma voz conhecida do outro lado da linha disse: ¨Eu acabo de ver você!¨ Respondi o óbvio: ¨Eu!¨ E não havia muito a discutir. Saí do trabalho e me encontrei com uma velha amiga na porta do cinema do Shopping Recife. Lá, de olhos vedados, fui conduzido ao interior da sala de exibição.
             E naquele fim de tarde conheci Totó, o coroinha do filme Cinema Paradiso, um habitante de um vilarejo no interior da Itália nos anos que antecederam a chegada da televisão. Mas fiquei emocionado mesmo com o ator Philippe Noiret, ou mais precisamente com o seu personagem Alfredo. Não pelo seu enorme coração e sim pela sua dedicada vida a profissão de projecionista de cinema.
            Tal Alfredo, passei parte da minha vida enfurnado numa minúscula cabine de projeção de filmes. De início, acostado num projecionista hábil, mas que abusava nos goles da branquinha. E nos abusos do vício de Beto, aprendi o ofício, e aos doze anos de idade era o projecionista do único cinema do lugar. E nessa profissão, amigo, não nego não, eu era muito bom.
            Ser um projecionista naquela pequena cidade, ia além da projeção em si do filme, também ser cioso, evitando algazarras da garotada na ¨Idade do Aborrecer.¨ Algumas precauções se faziam pertinentes, tais como: cortar o som da película ou evitar o vôo do Condor na abertura das películas da produtora. Soldados em marcha, nem pensar! Afinal, o sossego de uma noite de apurado dependia de atentar-se ao primeiro ¨bater de pé,¨ senão, virava um ato sincronizado. 
            Ser um projecionista, lá em Iracema, ia além de ecoar musicas nas tardes através de uma difusora amplificada e instalada na esquina do prédio, ou também, anunciar o filme em carro de som volante pelas ruas do lugar.  Também era não postergar, semanalmente, ir ao Recife devolver e receber o filme da vez. Lá, o Edifício Alfredo Fernandes abrigava a Columbia, Paramount, Universal, Pelmex, Condor, 20th Century Fox, entre outras. Aliás, era a tarefa mais árdua dos dez anos em que meu pai foi dono do cinema. Descíamos ao nível do mar em ônibus, geralmente em pé, a conversar com o motorista. E o pior, só havia duas empresas que atendia o trajeto, sendo a Realeza a única a aceitar o transporte de películas. Porém, ¨quebrava¨ com freqüência, ocasiões em que os passageiros  seguiam seus rumos enquanto esperei, tantas vezes, o socorro mecânico vindo de Arcoverde, local de origem da empresa.
             Ser um projecionista era também renunciar aos costumeiros flertes e namoros na praça após a celebração da missa das sete. Enquanto a praça enchia-se de gente eu tinha de me recolher à solidão numa cabine de teto baixo, e ensimesmo espreitava através de uma pequena abertura o mesmo filme por dias seguidos. E naquela solidão, vi o mundo evoluir, seja com as informações do Canal 100, seja com a chegada de filmes diferenciados, tais como: Love Story, A História de Adeli H, e, sobretudo, ¨Houve uma vez um verão.¨ A partir deste filme, a curiosidade pelo sexo foi despertada nos jovens da minha geração, lá em Iracema. Naqueles meados dos anos setenta, algo havia mudado nas nossas mentes e nos nossos corpos. Enfim, além dos aspectos biológicos e suas modificações visíveis, havia  uns tantos outros questionamentos em relação ao nosso mundo. A gente não era mais a gente! Havia ânsia pelo novo e me sentia atraído pela realidade orgânica do consumo e dos prazeres.
             E naquela sociedade fechada onde até um filme educativo foi trancafiado numa cela de prisão resolvi montar meu próprio filme de sexo. Afinal, meu pai não se atrevia a estabelecer censuras leves tipo 18 anos. Ao ¨revisar¨ os filmes, subtraia da película beijos ou cenas ousadas. Aos poucos tinha em mãos um filme, digamos, erótico e atraente aos ânimos da molecada da minha idade. Das minhas tesouradas não escapou Vera Fischer, Giuliano Gemma, Marcello Mastroianni, entre outros. Lembro que, um dia, não tendo fundos para manutenção do time de várzea, exibi o tal filme erótico num povoado de nome Sítio dos Nunes. Casa cheia! E se quer saber do paradeiro do tal filme? Sei lá, um dia, por motivo não lembrado doei a um senhor de nome João.
             E, voltemos a Cecília, lá na Itália. Tal o garoto apelidado de Totó ou Salvatore di Vita, já diretor renomado de cinema em Roma e que foi surpreendido com a notícia da morte de Alfredo, o do filme Cinema Paradiso, lembra? Eu também nunca havia me recuperado da perda frustrada do amor da minha adolescência. É fato que naquela tarde quando a minha amiga me convidou a assistir um filme, vi naquela oportunidade a possibilidade de reverter a perda da minha amada. E após assistirmos o filme, nos deslumbramentos de felicidade daquela noite, perdoei suas traições ocorridas naquelas noites em que projetava filmes. E ali, na saída do cinema olhei para Anita com olhar de nostalgia e a pedi em casamento. Das suas mãos recebi um saco de pipocas e, também, um sorriso de quem a muito tempo esperava para se atirar nos meus braços.  
Autor: Carlos Lopes - Olinda/PE
P.s. Neste texto a ficção apenas encosta na realidade

5 comentários:

Cris Campos disse...

Genteee, que história! Como assistir Cinema Paradiso e não se apaixonar pelo filme não é mesmo? Agora, ter vivido uma realidade bem parecida com ele é algo maravilhoso Carlos! Adorei relembrar o filme, adorei conhecer um pedacinho de sua vida. Gr. Abrç.!

Carlos Lopes disse...

Olá meu amigo. Abri o seu blog e me deparei com um texto de minha autoria. Obrigado amigo pelo carinho para comigo. Um abraço e felicidades.

Casal 20 disse...

Carlos! E o mais engraçado é que acabei de te escrever para falar deste post.

Não foi só a Cris, não, eu também amei o teu texto. Assisti ao filme e posso dizer que fiquei encantado com os pontos de contato.

Linda narrativa.

Parabéns!

Como disse a Cris, "genteee, que história!"

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

"LABAREDAS DE FOGO" disse...

Rapaz essa história daria um bom filme!

Carlos Lopes disse...

Olá pessoal, andava um pouco distante e só agora apareço para agradecer os comentários feitos sobre o meu texto. Obrigado mesmo! Do coração!

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