Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Hilda Hilst – uma bruxa em prosa e verso!




 
Hilda Hilst me foi apresentada por professores de literatura na Faculdade. Creio que a obra dela seja ainda muito restrita ao público em geral e arrisco dois motivos para isso: é uma obra filosófica e também de forte apelo erótico. Para quem se aprofunda em seu trabalho, principalmente no que ela escreveu a partir do início da década de 70, sabe bem que tudo o que ela escreveu carrega uma forte carga blasfemadora. Então, uma escritora instigante e difícil. Mas, sem sombra de dúvida, Hilda Hilst é porta-voz da sua geração e admirada por muitos teólogos e filósofos pós-modernos. Hilda Hilst é autora de poesias, prosa de ficção e teatro, sendo que entre suas obras de ficção mais citadas está a “A obscena senhora D”.

Sei que muito já se escreveu sobre a poesia e a prosa de Hilda Hilst. No entanto, quero olhar hoje para a teóloga, a filosofa que discorreu em versos, em obras de ficção e no teatro sua luta contra o Deus judaico-cristão. A poesia de Hilda é fortemente marcada pela presença de Deus e pela luta travada contra esse Deus. Hilda Hilst não O aceita como Ele é, por isso ela se volta para desconstruí-lo pelo poder de sua palavra escrita para fazer dEle um novo ser à imagem e semelhança da poetisa (ou, pelo menos, fazer de Deus um Ser mais digerível ao seu paladar). E para operar tal reconstrução, ela precisa primeiramente atacá-lo, destruí-lo, reduzi-lo ao pó.

Então, o novo deus de Hilda é o deus do seu tempo. Ler Hilda Hilst é ler em verso a teologia do processo, a teologia da Libertação; é ler em estrofes e rimas Leonardo Boff, Ricardo Gondim e toda a perdição do descaminho da teologia liberal desde o século XIX. Se Boff e Ricardo Gondim são os profetas de uma teologia humanista e centrada tão somente no homem, Hilda Hilst, por sua vez, é a bruxa, é a sacerdotisa, é a serpente que repete o discurso da teologia liberal européia e que confunde o que se sabe sobre Deus, levando uma multidão à adoração de Gaia (a nova deusa de Boff, do Partido Verde e tutti quanti).

Hilda sabe que há uma outra tradição e que o que Boff e tantos outros estão fazendo no campo da teologia, ela deve fazer no campo das artes. O plano da mentalidade revolucionária é cultural. A pregação deve acontecer em todas as esferas da vida e assumir as roupagens necessárias para se infiltrar em todos os ambientes: o novo paradigma pagão precisa ser implementado não só na teologia e na filosofia, mas, principalmente, deve moldar a economia, as artes, as universidades, a música, a arquitetura, a escola, os casamentos, as famílias, enfim, a revolução pagã (como toda revolução) é sempre um fenômeno epistemológico.

E como Hilda Hilst colocou em prática a sua agenda artística pagã? Ela concentrou o seu trabalho literário na pessoa de Deus, confundiu as palavras da tradição judaico-cristã, esvaziando e dando a elas novos significados. Assim, quando Hilda fala de Deus, ela o está transmutando para que Ele se encaixe dentro da teologia da Nova Era. Quando ela fala do Pai, do Filho, do amor, do ódio, da violência, do sexo, enfim, todas as palavras são preparadas para que o efeito final seja o de destronar o Deus judaico-cristão. E Hilda Hilst escolheu o caminho do erotismo para isso: na busca pelo novo deus, ela o busca em um texto fortemente marcado pelo erotismo, pela espiritualidade erótica: uma espiritualidade da carne – da carne dela e da carne de Deus!

Aqui, Hilda revela toda sua mística à moda dos grandes místicos medievais como Tereza D'Ávila, Juan de La Cruz e São Bernardo, que, por exemplo, são místicos cristãos cuja espiritualidade também se manifesta escandalosamente por um viés erótico, amenizado sob a desculpa de que as descrições de suas orações e transes fossem simplesmente alegorias. Todavia, são verdadeiramente tão pornográficos como Hilda Hilst em suas buscas por Deus. Mas, enfim, que deus eles procuram? Para Hilda Hilst, sua espiritualidade é carnal, é pagã, é o retorno da figura da bruxa e dos seres incubus e succubus. E na sua busca por Deus, o seu desejo se manifesta numa luta contra e à favor do objeto do seu desejo: Aquele que crucificou tão sadicamente o próprio Filho, segundo Hilda compreendia. Mas, para Hilda, para que haja essa entrega mútua entre ela e Deus, Deus deve mudar primeiro! E mais uma vez, aqui, Hilda põe em versos as teologias de Rubem Alves e Leonardo Boff – ela é a sacerdotisa de uma cosmovisão, de uma Tradição, de uma mentalidade e de toda uma teologia liberal neopagã... Mas, enfim, que deus eles procuram?!

Por que escrever hoje sobre Hilda Hilst? Três são minhas razões: 1º) porque hoje lembro os 11 anos do falecimento dela; 2º) porque ela é uma dos muitos que representam nas artes o equivalente ao que outros fizeram nas áreas da teologia liberal e filosofia pagã do século XX e 3º) sua obra tem profundo valor literário, mas é também um exemplo de que Satanás atua com criatividade em diversas áreas para destronar Deus da cultura humana. O ataque de Satanás não se restringe às teologias e filosofias heréticas, mas, todas as áreas da cultura estão no alvo da mentalidade revolucionária, desde as conversas de botequim, passando pelas novelas da tv e pelos magistrados do STF, até os verdadeiros detentores dos principados e potestades deste mundo tenebroso. É o que a Bíblia chama de mistério da injustiça (II Tessalonicenses 2:7ss). E nossa geração precisa, mais do que nunca, clamar a Deus por sabedoria para nós e nossos filhos para discernirmos o paganismo emergente que assola todas as esferas da nossa cultura cristã e que planeja tomar o trono de Deus.
_________________________________________________________________________________Mais sobre Hilda Hilst:

 "Deus é muito complexo. É muito difícil falar de Deus. Só na poesia mesmo"

"Deus? Uma superfície de gelo ancorada no riso!"
“Posso blasfemar muito, mas o meu negócio é o sagrado. 
É Deus mesmo, meu negócio é com Deus.”
Hilda Hilst
Cadernos: Noutras palavras, a sua poética, de certo modo, sempre foi a do desejo?
Hilda Hilst: Daquele suposto desejo que um dia eu vi e senti em algum lugar. Eu vi Deus em algum lugar. É isso que eu quero dizer.
Cadernos: E a importância de Deus diminui também agora?
Hilda Hilst: Não preciso mais falar nada, entende? Quando a gente já conheceu isso, não precisa mais falar, não dá mais pra falar.
Cadernos: É, portanto, um esgotamento da linguagem, um impasse, digamos, "expressivo", que leva ao silêncio?
Hilda Hilst: É verdade. Leva ao silêncio. Eu fui atingida na minha possibilidade de falar. Lá do alto me mandam não falar. Por isso é que estou assim.
Cadernos: Sua obra, no fundo, então, procura...
Hilda Hilst: Deus.
Cadernos: Ele não significava o Outro, o outro ser humano?
Hilda Hilst: Deus é Deus. O tempo inteiro você vai ver isso no meu trabalho. Eu nem falo "minha obra" porque acho pedante. Prefiro falar "meu trabalho". O tempo todo você vai encontrar isso no meu trabalho.

(Cadernos de Literatura Brasileira - Hilda Hilst / Instituto Moreira Salles - São Paulo - SP: Outubro de 1999.)
____________________________________________________________
Para alguns críticos, como Léo Gilson Ribeiro, trata-se do "maior escritor vivo em língua portuguesa". Para outros, simplesmente ilegível, incompreensível em seu código expressivo pessoalíssimo e deliberadamente cifrado.
Caio Fernado Abreu à época da publicação de "A obscena senhora D"

Do desejo - V ( Hilda Hilst )

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me 
De fidelidade e de conjura. O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele. 
E dele também não fui lacaia. 
 
Leia também: Ayres Britto, Maquiavel e a mentalidade revolucionária 

8 comentários:

Tom Alvim disse...

Isso é algo realmente maquiavélico, pois muitas das vezes nós mesmos, se não vigiarmos, estaremos usando destas filosofias heréticas pensando que estamos apenas sendo justos e ponderados. Lembro-me de que em minha juventude tinha uma calça jeans bem surrada e nela estava escrito a seguinte frase: "Brasil quem te USA não te ama!" USA - Abreviação de United State of América. Eu achava o máximo e nem sabia que estava sendo moldado para pensar como a esquerda queria que pensasse. Assim muitos hoje o fazem, inclusive dentro da igrejas.
Que o Senhor nos oriente a ver com os olhos espirituais e a pensarmos com a mente de Cristo,
Valeu Fábio,
Tom.

Casal 20 disse...

É muito bem montado, Tom. É sempre a desculpa da cultura, mas cultura alguma no mundo é inocente ou neutra. É o grande desafio dos pais cristãos prepararem seus filhos para viverem num mundo tão dissimuladamente (às vezes, escancarado mesmo)anti-cristão.

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

Janaina Cruz disse...

Casal lindo, pocha, senti-me agora, quase que homenageada... A Hilst, é meu simbolo de poeta, meu primeiro nome é o mesmo dela.

Quando descobri isso, passei a buscar tudo que era possível sobre ela, as vezes eu me sentia ela quando lia as histórias de amor, com os antigos galãs... Ai ai ai... rs

Abraços mil

Otimo fim de semana, fiquem com Deus

Mariani Lima disse...

Fábio, não conhecia a escritora e achei muito interessante a sua escrita, a sua abordagem e seu poema final. Não acredito que Satanás poderá desbancar Deus e com isso não me preocupo pois sei que Deus é Deus, a poesia para mim é coisa de homens,não me converte não me toca a espiritualidade, acho que ela apenas exorciza. Não vejo as artes de forma nenhuma como cristãs ou pagãs, arte é arte é do homem concebê-las. Não há mesmo possibilidade de em um mundo tão vasto de ideias desejarmos que a arte se limite aos ideias cristãos. Ainda não é o tempo.
Abração amigo!! Fica com Deus.

Casal 20 disse...

Mariani, querida, em nenhum momento eu disse que eu vejo que o mundo deveria reduzir a arte aos ideais cristãos.

O que eu disse é que, para Hilda, segundo ela mesma disse, sua obra é sobre Deus.

Agora, poesia para mim, não é coisa de homens. A poesia é transcendente, é estética, é o Belo. Na Bíblia, o livro de Cantares de Salomão é Palavra de Deus! Paulo diz que somos poesia de Deus! Mas as artes também eram pensadas assim por Platão e Aristóteles. Achei sua visão sobre poesia e arte muito materialista. Para Drummond e Vinícius de Moraes, por exemplo, arte nunca foi coisa de homens, sempre foi espiritualista. Aliás, na história da arte, a origem da filosofia, da arte e da religião é a mesma. É na admiração, na perplexidade, na estupefação do Belo, da Ideia, do imaterial, do espiritual que nasce o filósofo, o artista e o religioso.

E como nossas buscas são diferentes, porque somos diferentes, é claro que acabam surgindo religiões diferentes, filosofias diferentes e artistas de diferentes cosmovisões e que produzirão suas obras a partir daquilo que acreditam, veja Aleijadinho e Marques de Sade. O primeiro é contemplação, o segundo profanação. E tanto um quanto o outro sabiam de seus papéis na história da arte.

A arte pode tanto glorificar a Deus como desumanizar o homem.

Talvez eu pense assim, por causa da verdade que eu sigo de que Deus é o artista por excelência e que nós só podemos fazer arte, porque Ele compartilhou conosco esse atributo maravilhoso dele.

Mas, além dos artistas acima citados, sugiro a leitura de um ótimo livro: "O Deus que intervem", de Francis Schaeffer. E também um outro post meu que falo sobre a minha confissão de fé sobre poesia: http://casal20ribas.blogspot.com.br/2012/03/dia-nacional-da-poesia-1403-minha.html

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

António Jesus Batalha disse...

Estive a ver algumas coisas em seu blog gostei do que li e vi. E desejo deixar um convite, tenho um blog com o nome de Peregrino e Servo. Meu nome é Antonio Batalha sou portugues. Se desejar fazer parte, eu ficaria radiante em que fizesse parte dos meus amigos virtuais, isto é, não quero que se sinta coagido a faze-lo mas apenas se deseja. Se achar que não merece a pena fico-lhe grato na mesma. Decerto irei retribuir seguindo o seu blog também. Um obrigado.

Cris Campos disse...

Hilda é uma escritora que gosto de ler, assim como gosto da grande maioria que escreve em versos. Vejo nela um grande amargor, peculiar aos poetas, e sobretudo uma mulher perturbada com suas interrogações sem resposta, alguém que quis sobremaneira encontrar o caminho e não conseguiu, ou quem sabe? Esse encontro com Deus é tão íntimo e pessoal que não me arrisco a emitir qualquer julgamento sobre ela. Seu tom ácido, entendo, é fruto de sua insatisfação com o padrão de Deus para o homem. Esse padrão, nós nunca alcançaremos, não nessa vida, penso. Não vislumbro nela, nada diferente do que vemos no nosso cotidiano, nos desenhos que nossos filhos assistem na tv, nas músicas que ouvimos em toda parte, nos vídeos de de Lady Gaga que,inclusive, jovens cristãos gostam, ouvem e vêem, nos programas decadentes que fazem parte da rotina diária de muitos fiéis como BBB e correlatos. Já estudei muito sobre a Nova Era, seus planos para mudança dos paradigmas e vários outros assuntos de escatologia, desculpe se escandalizo, mas não poderia deixar de mencionar que no próprio meio cristão, entenda-se aqui igreja, encontramos uma contemporização velada, que me provoca náuseas. Pastores que são verdadeiros lobos, com pele de cordeiro. Os Poetas, assim como Hilda, vivem em sua maior parte, uma luta profunda com Deus, discorrem nos versos suas inconformidades, seus eternos choques da realidade do padrão de Deus com seus desejos mais íntimos pautados, claro, no carnal. Gibran disse sobre eles: "Os poetas são pessoas infelizes, porque, não importa quão alto ergam seus espíritos, eles estarão sempre encerrados numa cápsula de lágrimas." Pra mim é mais ou menos isso, os vejo como pessoas que nos versos desabafam sua ânsia por Deus, que vive em conflito eterno com sua intensidade no amar. Gr. Abrç Fábio!

Casal 20 disse...

Uau! Cris! Assino embaixo do seu comentário. Estou ainda sob o efeito das suas palavras aqui. Verdadeiramente, creio que o caminho que muitos poetas seguiram é esse mesmo.

Volte sempre aqui em casa.

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

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