Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sexta-feira, 23 de março de 2012

Eu destruí a cultura indígena!


Nunca contei esta história a ninguém. Ela se manteve no meu inconsciente, atormentando-me por todos estes meses desde que saí da aldeia. Até hoje, vejo-me acordando de madrugada, o suor frio escorrendo pelo corpo e as palpitações do meu coração aceleradas. Agora, contudo, venho confessar o meu pecado na esperança de que isso abra de alguma maneira uma passagem para que eu fuja do fardo que pesa sobre minhas costas: eu destruí a cultura do povo indígena!

Por medo ou vergonha (ou os dois), eu nunca trouxe esta história a vocês. Sempre contando narrativas benevolentes e alegres, escondi a parte podre do que eu fiz. E tudo aconteceu por causa da escola, este instrumento do imperialismo burguês, esta máquina de manipulação mental! E eu, eu fui o culpado pelo estrago que ocorreu. A ninguém mais cabe a culpa das decisões que eram de responsabilidade exclusivamente minha.

Entrei na sala de aula naquela tarde e iniciei o processo terrível de destruição daquela cultura indígena, mas é óbvio que eu, naquele momento, não poderia jamais supor a extensão das consequências que estavam por vir. Levara um enorme plástico, era uma lona preta e a estendi no chão para que eu e os alunos pudéssemos sentar. Coloquei-os em uma roda e comecei a explicar as regras do que estávamos prestes a fazer. Meninos e meninas indígenas, todos ali sendo aliciados moral e intelectualmente por mim. Após explicar as regras, cometi o erro fatal: “Então, o vencedor vai ganhar o baralho para jogar em casa”, disse. 

O que parecia algo simples e sem a menor importância iria ter consequências gravíssimas no modus operandi da economia da aldeia. O jogo foi seguindo e a cada partida saía um perdedor. Até que na roda sobraram apenas 4 alunos. E eles riam e se mostravam inocentes diante daquela terrível ameaça que já corroía sua cultura. Qualquer antropólogo me acorrentaria ali mesmo, tenho certeza disso, porque, antecipando o que estava para acontecer, passaria um rádio a FUNAI, que, indubitavelmente, enviaria a Polícia Federal para me levar dali. Mas não havia ninguém e eu na minha estultícia estava livre para seguir adiante. Finalmente, o vencedor. Peguei o baralho e, como prometido, entreguei para ele. Os alunos saíram, mas, como acontecia todos os dias, eu fiquei para arrumar a sala. Juntei as cadeiras, aspergi água no chão de terra, varri. Pronto! Estava tudo consumado!

Com a chegada da TV na aldeia, há muito que não se contavam mais as histórias do povo. As histórias que os jovens, as mulheres, as crianças e até os homens queriam ouvir eram outras: os filmes de Bruce Lee faziam sucesso na aldeia, as novelas da Globo e também os grupos de forró. Mas lembro da filha de cinco anos de idade do ribeirinho dizendo que os indígenas da aldeia estavam assistindo filme de SE-XO trazido da cidade. Aquela menininha me dizia a palavra SE-XO enquanto abria calmamente a boca em cada sílaba. E imaginar que a TV entrou nas aldeias de todo o Brasil mediante um projeto que veio pelas mãos de antropólogos que, contraditoriamente, defendem a unhas e dentes que a cultura não pode ser transformada ou alterada. Muitos antropólogos lutam pela preservação das culturas indígenas, permitindo que muitos povos continuem enterrando suas crianças quando nascem defeituosas, filhas de mães solteiras ou gêmeas. Ao mesmo tempo, eu mesmo conheci algumas antropólogas que saíram grávidas das aldeias em que pesquisavam, levando consigo não apenas material intelectual para seus mestrados e doutorados, mas, também, material genético em seus ventres. Sei de antropólogos (caso documentado no livro “Trevas no Eldorado”) que introduziram práticas homossexuais nas aldeias e aliciaram crianças indígenas para suas “pesquisas acadêmicas”. Sei de brancos que, acobertados como funcionários da FUNAI, introduziram a maconha, a bebida alcoólica e a prostituição, escravizando aldeias inteiras. Sei de muitas outras coisas.

Como dizia, naquela tarde, ao sair da escola, vi no centro da aldeia um alvoroço. Eram os homens fumando a planta alucinógena do pajé e também algum fumo forte que traziam da cidade. Inesperadamente, pude ver que as coisas talvez pudessem estar retornando aos costumes antigos. A cultura parecia dar conta de si mesma e se defender contra a influência da TV. Fui me aproximando do grupo efusivo de homens e jovens reunidos, mas o meu júbilo logo se transformou em terror! Creio mesmo que o meu rosto deve ter-se transfigurado de iludida inocência à constatação da tragédia da qual eu mesmo fora sujeito: era o UNO! Era o UNO o que aqueles homens estavam jogando ali no meio da aldeia! O jogo que eu acabara de ensinar aos alunos, eles já tinham ensinado aos seus pais e, ali, diante dos meus olhos, aquele jogo estava destruindo a cultura deles. Os índios já não estavam em suas casas em frente à TV, mas ali, alegres e empolgados com aquele instrumento da destruição.

Naquele mesmo instante, dei-me conta do que havia feito: destruíra séculos de cultura com um simples jogo de cartas! Pude perceber claramente que eles estavam deixando de ser indígenas e que, durante o jogo, já não conseguiam mais falar a própria língua e, após uma ou duas partidas, eles se levantavam já esquecidos de quem eram e nem sabiam mais dançar ou tocar suas flautas. Mas, quanto a mim, convidado por eles, que continuavam tão empolgados com aquele jogo, sentei-me e joguei também. Se o estrago era irreversível, então, por que não jogar?

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8 comentários:

CORAÇÃO QUE PULSA disse...

AMIGUINHO...O QUE O MUNDO ESTÁ FAZENDO DE NÓS...O QUE NÓS ,ESTAMOS FAZENDO DO MUNDO...Senti tua tristeza, teu lamento.
Crianças que não sabem mais brincar de bonecas, pique esconde, bola de gude, amarelinha, mas, conhecem muito bem o SE-XO.Vovós e vovôs que não podem mais contar suas histórias de vida, porque não tem mais netos para ouvi-las...À internete faz isso por eles.Pai e mães que não veem mais os filhos, trabalham tanto, que quando chegam em casa, eles já estão dormindo.Crianças que choram a espera do colo da mãe.
Aldeias que já não sabem mais seus dialetos, não conhecem mais seus costumes.Justiça que tranca os bons nas grades das casas e soltam os maus para a LIBERDADE.Professores que ensinam o "SUFICIENTE" para não se ser NADA.Alunos que dominam salas de aula e dizem o que querem aprender.Homens que não querem mais conhecer pessoalmente a mulher, porque é mais fácil e sem compromisso TRANSAR pela net.Mulheres que trocam o seu corpo, o seu amor, POR UM PRATO DE LENTILHAS. Policiais que se corrompem por um som melhor e mais potente, por uma carro novo e é capaz de ver jorrar no chão....o sangue do INOCENTE sem se COMOVER.
Mundo sem português mas, com muita gíria.Filhos de muitos pais e mães.Divórcio é rotina...comum...descartável.
Mesas postas para famílias...mas, solitárias de pessoas.
Casais que não conhecem o próprio corpo, mas definem o do "outro".Igrejas abrindo as portas para o PECADO e...deixando JESUS do lado de fora.
QUE MUNDO É ESSE? O QUE FIZ DE MIM?
O QUE FEZ DELE.
QUE MUNDO É ESSE?!

Norma disse...

Queridos, que texto fantástico! Gostei demais, mesmo!

Grande abraço!

Moyses Godoi disse...

Mano, pelo que você relata, a cultura deles já estava comprometida através da TV, (Graças a Deus que não assistiram o Malafaia, o Valdomiro, o R.R. Soares ou o Macedo) e cá entre nós; antes o UNO do que a TV convencional!

Espero que tenha aproveitado a oportunidade de eles crerem que você tinha novidades interessantes para eles e introduzido das mais variadas formas possíveis o Evangelho de Cristo...

Anônimo disse...

Rapaz, que legal o jogo com a ironia. Gostei do texto. Muito bom isso. Que denúncia contra os antropólogos!

José.

Mariani Lima disse...

Fábio, o texto é seu? Vc é o professor em questão?
Olha, eu não sei por que a culpa rs... a história nos ensina que as culturas vão se aglutinando com o contato, não foi uma imposição sua, foi uma troca, vc trouxe deles e eles ficaram com um pouco do que vc representa. Não sou antropóloga rs... e talvez por isso não consiga visualizar o tal estrago. Vejo que se não fosse o professor seria outro.
Não permitir que eles decidam se gostam do que é diferente e assimilem outras coisas tb não é limitar as possibilidades? Sei lá. Tudo muda! Sempre.
Abração!!Fica com Deus.
Abração!! fica com Deus.

Casal 20 disse...

Queridos todos, muito obrigado pelos comentários. Foi muito interessante ver como que o texto foi recebido por cada um. Tanto nos comentários aqui, como nos do e-mail (ou no blog da Rô).

O texto é uma brincadeira séria. Embora seja verdade a minha história sobre o UNO com meus alunos, o foco é sobre o mal, a perversidade que alguns antropólogos REALMENTE têm cometido sobre os povos indígenas. Pessoas que muitas vezes se apresentam como "defensores", mas que têm se comportado como donos dos índios.

Fica a dica de leitura do "Trevas no Eldorado".

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

Márcia Gomes disse...

Amei o texto! Parabéns!

Márcia Gomes disse...

Vou comentar de novo: amei o texto, fantástico!

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