Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A languidez do amor - Cantares de Salomão (XV)

Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor (RC; 2:5).

Ao ler este verso e ver como que a própria Sulamita descreve seu estado diante do homem amado, essa frouxidão do corpo dela, essa moleza e fraqueza, essa prostração da carne e do espírito num momento tão sensual e voluptuoso, fez-me recordar de uma palavra muito usada pelos poetas românticos do século XIX – languidez!

Languidez era sempre a palavra em voga para se falar do estado de meiguice, doçura, ternura, suavidade e brandura da musa do poeta, contudo, poderia significar também um estado de abatimento, de grande fraqueza física e psicológica; sem forças, sem energia. Esta última definição foi mais sugerida pelos poetas românticos exatamente por eles descreverem a mulher amada como uma estátua, uma imagem apática sempre ligada à santidade, à virgindade, à inatingibilidade da musa. Assim, o paradoxo da palavra revela o charme da língua assim como denota o nosso problema com sexo.

Lângüido” era assim, escrito assim, mas em tempos de ditadura linguística em que a lei pesa sobre nós normas de conduta de uma minoria “iluminada”, despencaram com o charmoso trema. Todavia, escreva-se como se quiser, o fato é que, para quem é amante das palavras, “lângüido” encarna a contradição da sociedade ocidental: uma mesma palavra que tanto denota o sagrado como o profano! O que mostra que o problema do barroco e do rococó com seus anjinhos com cara de safados manteve-se no Romantismo do século XIX, mas, ali, não eram mais anjinhos e sim as musas virgens e sacras e pudicas que despertavam a adoração sexual profana de seus devotos sedentos de um idealismo sagrado.

Nos versos da Sulamita, entretanto, não há aquela crise romântica. Não há aquele paradoxo barroco. Há o desejo sem vergonha alguma! O Cântico, enquanto livro do Cânon Sagrado, não necessita de desculpa alguma e de nenhum paliativo. É um poema que “expressa uma aceitação honesta da maravilha que é o amor humano tanto nos seus aspectos físicos como psíquicos, e reflete o milagre recorrente da primavera no coração como na natureza” (Hugh J. Schonfield). O desejo da Sulamita tem nomes e carne, muita carne. É a boca, os beijos, os cheiros, as cores, etc. Enfim, ela está totalmente embriagada pelo amor, languida de paixão! E como toda paixão que se preza, há súplica: “Eu vos suplico, fortalecei-me com passas, reavivai-me com maçãs que estou doente de amor” (tradução alternativa)! Há uma mulher no poema que necessita ser fortalecida, porque o amor a embriagou, o amor lhe retirou as forças e agora ela precisa se recuperar antes que morra!

Mas o que, afinal, adoece a Sulamita? O desejo amoroso! O amor que não se realiza, que não tange, que não se efetiva, adoece os amantes – este tema perpassa toda literatura amatória. A imagem aqui é a do náufrago que vê a praia, todavia, por mais que nade, não consegue atingi-la e começa a perceber que talvez morra antes que consiga pisar em terra firme, a terra firme da consumação do amor! 

Mas, então, o jovem casal ainda não teria se entregue sexualmente um ao outro? Esta pergunta já foi levantada antes durante nossa extraordinária viagem pelos versos da Sulamita e estamos prestes a dar a resposta, que já se adivinha na Sulamita que aqui desfalece de desejo...

O Cântico se encerra como uma bela afirmação do prazer de Deus no amor físico entre um homem e uma mulher. A relação deve ser única e apreciada. A satisfação recíproca é o que procuram ao aderirem-se mutuamente. A intimidade sexual é seu objetivo, prelibação de um tempo de união, de alegria e de prazer e deve ser gozada com frequência e com a benção de Deus” (Isidore Epstein).

Um comentário:

Celêdian Assis disse...

Olá Fábio,

Primeiramente quero agradecer-lhe pela gentil visita ao meu blog e ao generoso comentário deixado lá, obrigada e seja muito bem vindo. Igualmente vejo aqui um belo espaço literário e terei muito prazer em apreciar seus escritos.

Sobre o texto "A languidez do amor", é excelente a exploração da temática sobre a multiplicidade de significados que podem nos oferecer as palavras, além do que nos dizem os seus sinônimos ou antônimos, há uma perfeita correlação com as situações, ou comportamentos. A languidez explorada nesse contexto, tornou-se um excelente exemplo.
Um ótimo texto!
Um abraço a vocês, Casal 20.
Celêdian

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