Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Porque escrevemos, segundo George Orwell - Cantares alheios (IX)

George Orwell - autor de 1984 e Revolução dos Bichos

Aparte a neces­si­dade de ganhar a vida, penso haver qua­tro gran­des moti­vos para escre­ver, segu­ra­mente para escre­ver prosa. Exis­tem em dife­ren­tes graus em cada escri­tor, e no mesmo escri­tor vari­a­rão com o tempo, e de acordo com a atmos­fera em que ele está a viver. São eles:

1. Puro egoísmo. O desejo de pare­cer esperto, de ser falado, de ser recor­dado depois da morte, de con­se­guir a des­forra dos adul­tos que nos des­pre­za­ram na infân­cia, etc., etc. É ridí­culo fin­gir que isto não é um motivo, e forte. Os escri­to­res par­ti­lham esta carac­te­rís­tica com os cien­tis­tas, artis­tas, polí­ti­cos, advo­ga­dos, sol­da­dos, empre­sá­rios de sucesso – em suma, com a camada supe­rior da huma­ni­dade. A grande massa dos seres huma­nos não são pro­fun­da­mente egoís­tas. Depois dos trinta anos aban­do­nam quase por com­pleto o sen­ti­mento de indi­vi­du­a­li­dade – e vivem ape­nas para os outros, ou dei­xam sim­ples­mente abafar-​​se pelas suas labu­tas. Mas há tam­bém a mino­ria de pes­soas dota­das, espe­ran­ço­sas, que estão deter­mi­na­das a viver as suas vidas até ao fim, e os escri­to­res per­ten­cem a esta classe. Os escri­to­res sérios, devo acres­cen­tar, são de forma geral mais vai­do­sos e egoís­tas que os jor­na­lis­tas, embora menos inte­res­sa­dos no dinheiro.

2. Entu­si­asmo esté­tico. A per­cep­ção da beleza no mundo exte­rior, ou, por outro lado, nas pala­vras e na sua pre­cisa dis­po­si­ção. O pra­zer do impacto de um som em outro, da fir­meza da boa prosa ou do ritmo de uma boa estó­ria. O desejo de par­ti­lhar uma expe­ri­ên­cia que se con­si­dera de valor, e imper­dí­vel. A moti­va­ção esté­tica é muito débil em inú­me­ros escri­to­res, mas mesmo um pan­fle­teiro ou um autor de manu­ais terá pala­vras favo­ri­tas e fra­ses que lhe ape­lam por razões não uti­li­tá­rias; ou pode ainda ser sen­sí­vel à tipo­gra­fia, ou à lar­gura das mar­gens, etc. Acima do nível dos horá­rios dos com­boios nenhum livro está com­ple­ta­mente livre das con­si­de­ra­ções estéticas.

3. Impulso his­tó­rico. O desejo de ver as coi­sas como são, de des­co­brir os fac­tos verí­di­cos e preservá-​​los para uso da posteridade.

4. Pro­pó­sito polí­tico – usando a pala­vra “polí­tico” no seu sen­tido mais lato. O desejo de empur­rar o mundo numa certa direc­ção, de mudar as ideias das pes­soas sobre o tipo de soci­e­dade pela qual devem lutar. Mais uma vez, livro algum está livre de uma ten­dên­cia polí­tica. A ideia de que a arte não deve ter nada a ver com a polí­tica é, em si mesma, uma ati­tude política. 

Encontrei o texto acima no Uai, mundo? O blog do Cacá. Que, por sua vez, o achou no blog do João Nunes. Que, por sua vez, foi quem o traduziu do original.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Diálogo ou dueto? - Cantares de Salomão (X)



(Ela) - Enquanto o rei está assentado à sua mesa, o meu nardo exala o seu perfume. O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios. Como um ramalhete de hena nas vinhas de Engedi é para mim o meu amado.
(Ele) - Eis que és formosa, ó meu amor, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas.
(Ela) - Eis que és formoso, ó amado meu, e também amável; o nosso leito é verde.
(Ele) - As traves da nossa casa são de cedro, as nossas varandas de cipreste.
(Ela) - Eu sou a rosa de Sarom, o lírio dos vales.
(Ele) - Qual o lírio entre os espinhos, tal é meu amor entre as filhas.
(Ela)- Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos; desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento; e o seu fruto é doce ao meu paladar. Levou-me à casa do banquete, e o seu estandarte sobre mim era o amor. Sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, porque desfaleço de amor. A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a sua mão direita me abrace.
(1:12- 2:6; Fiel)

O amor é mais do que simples diálogos. E compreender isso é o ponto central do livro de Cantares: o livro é um canto, uma ardente música, uma obra a dois – os cantos, os elogios, as juras de amor, a cumplicidade entre o noivo e a noiva de Cantares conseguem exceder o diálogo e transcendê-lo até sua forma mais apropriada ao amor: o dueto! 
 
O diálogo já nasce comprometido por causa da sua própria natureza desafiante. O diálogo foi o instrumento dos filósofos, dos grandes retóricos, dos sofistas, que souberam muito bem usá-lo com o fim de convencer seus oponentes. Diálogos correm o sério risco de ser mal interpretados, mal compreendidos. Não deve ser essa a postura que enlaça os cônjuges. 
 
O dueto - ao contrário do que pode ocorrer com o diálogo - é uma composição para que dois a possam executar. Talvez o dueto seja o diálogo despido de suas possibilidades de imposição, manipulação e mascaração diante do outro! Enquanto o diálogo possa se transmutar em sermão, em monólogo, em confrontação, sem o empenho positivo e favorável de uma das partes jamais haverá o dueto.

Dueto é cooperação. Uma partitura composta pelo Maestro ou uma coreografia elaborada pelo Artista para que seja cantada ou dançada a dois. Para que tudo dê certo, é necessário que haja o acordo: que alguém se deixe levar, enquanto o outro o guia segurando-lhe pela cintura. É imprescindível que haja ensaio: a partitura ou a coreografia já estão totalmente prontas, mas os dois – o marido e a esposa – são bailarinos que precisam se conhecer, são intérpretes dessa mesma vida e, por isso, há de se saber de suas possibilidades e limitações individuais, conhecer, afinal, o que os trouxe até ali. Precisam, também, fazer o dever de casa: estudar juntos todos os detalhes dessa partitura ou coreografia, conhecer verdadeiramente seu Autor. Tristes são os que exigem que o amor venha como um espetáculo consumado... O amor é a arte do ensaio!

No casamento, portanto, é preciso acertar o passo, esperar pelo outro, estar atento à deixa, improvisar quando o cônjuge esquecer a própria fala. É preciso aprender a parar, recomeçar, transpirar, chorar, sangrar como sangram os pés dos melhores bailarinos! Casamento – vejam! - também é disciplina. O dueto é duas pessoas envolvidas e empenhadas, esforçando-se e entregando o melhor de si pela glória do resultado final!

Enfim, o matrimônio é a obra genial do Artífice e, por isso mesmo, precisamos dar o melhor de nós mesmos para que esse espetáculo seja digno do Seu criador!

Assim o dueto pode ser um encontro inusitado de dois instrumentos numa interpretação maravilhosa e criativa. Como ilustração de tudo o que foi escrito aqui, deixo a belíssima obra "nightclub 1960" interpretada pelo dueto inusitado e festivo entre uma flauta de pã e um violão, que cooperam para nos revelar toda a beleza dessa peça do mestre Astor Piazolla. O convite de Cantares é que nossos casamentos expressem toda a beleza do Deus que nos uniu - um dueto entre um homem e uma mulher para celebrar a Glória dAquele que compôs a obra da nossa aliança.


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Ana, minha filha, eu vou te levar para trabalhar no circo!


Ana, minha filha, eu vou te levar para trabalhar no circo! - sempre brinquei com isso desde que Ana Lissa começou a fazer suas “coisinhas engraçadas”. Ela vira o polegar totalmente para trás, vira o dedo mindinho mais que 90 graus para trás, ela pega o pé e passa por trás do corpo e da cabeça e brinca, nessa posição, de roer a unha. “Aninha, vamos treinar aquele número da palhacinha que entra dentro da caixa e fica parecendo um boneco de pano, toda dobradinha na pequenina caixa, vamos?”, ríamos dizendo isso para ela, porque ela sempre foi bem "molezinha". Ana é a nossa primogênita: a nossa linda bonequinha de pano! Mas, um dia, Ana Lissa caiu!

LEIA MAIS DESTE TEXTO, É SÓ CLICAR AQUI EM CIMA.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Eles nunca leram Cantares de Salomão... - Cantares alheios (VIII)

 

Os paranaenses Roberto, 35, e Fernanda, 29, estavam quase se separando. A rotina corrida da médica colidia com o trabalho desgastante do advogado e os momentos íntimos do casal acabaram virando um balé sem graça debaixo dos lençóis, segundo eles. Mera necessidade. “Ele botava a culpa em mim, na minha falta de tempo. Mas ele também não me procurava, se é que você me entende”, conta Fernanda. Um dia, aconselhado por colegas, Roberto levou para casa uma mulher que falava abertamente sobre diferentes posições sexuais e que carregava em sua mala aquela coisa toda de sempre: algemas, vibradores, você sabe. Fernanda diz que achou estranho: “A gente estava cogitando a separação e meu marido ainda põe dentro de casa uma bonitona e que se dizia consultora sexual.”

A intrusa era (ainda é) Elis Medeiros, 34, curitibana que se formou em administração de empresas e fez curso de “sex coaching” nos EUA. As sessões com Elis, que se estenderam por três meses, rolavam três vezes por semana e duravam uma hora.

Nos primeiros encontros, ela ouviu as queixas de cada um separadamente. Depois, passou a dar dicas íntimas. Quais? Aquela coisa toda de sempre: mude o cenário, mude a roupa, você sabe. “Somos professores, ensinamos, eles fazem a lição de casa”, diz a “sex trainer”.

Nem todas as lições têm sucesso. Uma noite, Fernanda foi dançar para o marido sobre a cama, como mandou a treinadora. “Acabei não vendo a beirada e caí no chão. O sexo terminou ali.” Mesmo assim, o casal pagou R$ 2.500 para descobrir aspectos multifuncionais do chuveiro e da cozinha. “No começo, foi constrangedor, mas no fim, voltamos a ser como antes”, diz o marido. E Fernanda completa: “Hoje, algema é rotina.”

Orientadores sexuais desse naipe não faltam na praça - se é que alguém precisa de um, tendo TV e internet. Alguns desses fiscais da vida alheia, por sinal, se comparam aos conselheiros Tracey Cox e Michael Alvear, do programa inglês “Os Inspetores do Sexo”, que até agosto esteve na grade do GNT. No reality show, as relações sexuais do casal em crise são filmadas por câmeras instaladas na casa. Os apresentadores assistem às imagens gravadas, diagnosticam e depois passam a lição. “A única diferença é que eu não tenho câmeras para acompanhar o casal o tempo todo. Só fico sabendo pelo que eles me contam”, diz Rita Rostirolla, 45, que se apresenta como a “primeira personal sex trainer do Brasil”. [...]

Esse investimento todo em agradar o homem pode ser um desperdício, na opinião da sexóloga e psicanalista Regina Navarro Lins, autora do livro A Cama na Varanda (Best Seller). “O sexo tem que ser valorizado pelo prazer que ele proporciona, pela sua espontaneidade, e não a representação de um papel”, afirma ela. A terapeuta acha “abominável” a mulher se fantasiar ou dançar apenas para se ajustar ao desejo masculino.

O papel de treinadores sexuais também é questionado por sexólogos, em especial quando envolve aconselhamento de casais. “Elas dão conselhos sem ter nenhuma formação”, critica Maria Luiza Macedo de Araújo, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana. “Nós lidamos com coisas muito mais complexas do que isso de ‘beija aqui, põe a mão ali’, conselhos que qualquer amigo de bar dá”, diz.

Segundo a sexóloga, muitas insatisfações sexuais podem esconder problemas que só em uma psicoterapia a pessoa vai conseguir trabalhar, como traumas, repressões e até abusos.

A psiquiatra Carmita Abdo, do Programa de Estudos em Sexualidade do Hospital das Clínicas, concorda. “O trabalho de ‘personal’ pode ser interessante para casais que têm muita falta de percepção deles mesmos, mas se o problema é uma disfunção sexual ou um conflito psicológico, daí só o terapeuta é que pode resolver.” [...]

(Folha de S. Paulo, 30/11/10)

Nota: Orientadores profissionais para ensinar a usar... algemas [!]; TV e internet... É dessas fontes que virão boas dicas para uma vida sexual plena? Duvido. E os números mostram isso. Os brasileiros estão entre os que se declaram mais sexualmente ativos, no entanto, cerca da metade da população em nosso país se diz insatisfeita com sua vida sexual. Pelo visto, erotismo explícito e quantidade (como apregoado pelas revistas femininas e masculinas, por exemplo) não é o problema. Se a sociedade atual não descartasse a Bíblia como manual da vida, poderia ser muito mais feliz em várias áreas, inclusive a sexual. O livro Cantares de Salomão (ou Cântico dos Cânticos) é um poema de exaltação do amor erótico puro, do relacionamento abençoado entre homem e mulher. Ali há declarações de amor como estas: “Beija-me com os beijos de tua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho” (1:2); “O meu amado é para mim um saquitel de mirra, posto entre os meus seios” (1:13); “Qual o lírio entre os espinhos, tal é a minha querida entre as donzelas” (2:2); “A sua mão esquerda esteja debaixo da minha cabeça, e a direita me abrace” (2:6); “O meu amado é meu, e eu sou dele” (2:16); “Como és formosa, querida minha, como és formosa!” (4:1); “Sim, ele é totalmente desejável. Tal é o meu amado, tal, o meu esposo” (5:16); “Quão formosa e quão aprazível és, ó amor em delícias! Esse teu porte é semelhante à palmeira, e os teus seios, a seus cachos” (7:6, 7); “Eu sou do meu amado, e ele tem saudades de mim” (7:10); “Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura, o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, são veementes labaredas. As muitas águas não poderiam apagar o amor, nem os rios, afogá-lo” (8:6, 7). 

Não faltam assessórios eróticos, mais sexo ou “criatividade” nas relações. Falta verdadeira religião que banha o relacionamento conjugal com carinho, fidelidade, respeito, paixão e doação.[MB]

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Love is a losing game (Amy Winehouse) - Cantares de todos nós (X)

O amor é um jogo de azar

Para você eu fui um caso
O amor é um jogo de azar
Cinco andares se incendiaram quando você veio
O amor é um jogo de azar
Como eu queria nunca ter jogado
Oh, que estrago que nós fizemos
E agora o lance final...
O amor é um jogo de azar

Desgastado pela banda
O amor é uma aposta perdida
Mais do que eu poderia aguentar
O amor é uma aposta perdida
Declarado... intenso
Até o encanto se quebrar
Notar que você é um jogador
O amor é uma aposta perdida

Apesar de estar bastante cega
O amor é um resignado destino
Lembranças frustram minha mente
O amor é um resignado destino
Acima de inúteis expectativas
E ridicularizado pelos deuses
E agora o lance final
O amor é um jogo de azar


Será o amor, então, um jogo de azar? O “jogo”, essa palavra que marca insistentemente toda a música de Amy Winehouse, expressa o velho modelo do amor como um campo de batalha. Uma disputa em que ele e ela se veem como adversários e, armados de suas estratégias e mentiras, precisam se impor ao outro como o melhor jogador.

Será o amor, então, um jogo de azar? Um jogo entre duas pessoas que se desejam, mas que não se entregam, antes, elas marcam suas áreas de ação, lançam seus dados, fazem suas apostas e aguardam o resultado? Distâncias que se queriam próximas, entretanto, há um jogo que não se pode perder, há uma diferença que não pode ser transposta...

Por mais estabelecida que esteja a premissa errada do amor como um jogo, a trama se complica ainda mais no fato de ambos aceitarem que o amor seja um jogo de azar, um lance de sorte. Ambos aceitam de comum acordo o fato infeliz de estarem esperando o resultado dos dados que foram lançados sobre a mesa. E seguirão assim até o lance final!


O que há de comum nestas velhas histórias de amor? A certeza tardia de que, em algum momento, houve a chance de se decidir não jogar. Aquele mesmo momento que foi dado a Caim de não sucumbir ao turbilhão das emoções: “Cabe a ti dominar-se”, ouviu Caim. Estamos falando agora da paixão como aquele fogo que vem e incendeia os 5 andares do prédio. A paixão tem muitas acepções, mas trato aqui da acepção grega, ligada à história da palavra, que nos coloca a todos numa condição passiva. Assim, a paixão será sempre aquela que nos atropela, que está à espreita de nós, escondida atrás da porta, e pronta para desestruturar todas as nossas convenções...



A confusão entre amor e paixão está no cerne da decepção na música. Porque é do amor a característica da racionalidade, da perseverança, do planejamento, mas é da paixão o impulso, a pulsão, o instinto, o momento. Daí ela se arrepender de ter entrado nesse jogo, de ter cometido esse estrago ao lado dele e, tarde demais, só agora perceber que, para ele, ela sempre foi apenas um caso, uma chama, uma brincadeira. O arrependimento, então, é de quem cedeu à paixão em braços alheios, sabendo que houve um momento em que poderia ter decidido não continuar. A belíssima voz de Amy embala toda essa frustração de perceber tarde demais que, ao final de tudo, ela era apenas um jogo para ele - este é o momento da quebra do encanto.

E qual o destino final disso tudo? A resignação. Aqui, há uma triste ironia na letra da música, porque resignação é o contrário da paixão. Se paixão é fúria, resignação é exatamente renunciar ao desatino do destino. Todavia, a resignação não vem mais pela via da decisão (esta já fora desperdiçada quando ainda podia ter sido tomada), a resignação vem pela constatação humilhante de que tudo não passou de inúteis expectativas. Dizer que o amor é um resignado destino é compreender que toda aquela paixão foi uma aposta perdida - e ela confessa isso agora, apesar de estar bastante cega. E toda aquela sensação de onipotência e de que "tudo no universo conspirava em favor dos amantes", percepções ilusórias que nos são dadas pela paixão, “os deuses”, enfim, se riem de todas essas tolices.


Mas há como evitar tudo isso? Há como se proteger do turbilhão que se anuncia ainda antes que você se abandone sobre a mesa de apostas desse cassino dos desejos irrefreáveis? Sim, do contrário, Deus não teria dito a Caim sobre sua responsabilidade moral:  é a vitória de José diante da mulher de Potifar; é a vitória de Daniel diante das iguarias da Babilônia. Mas o que mais demonstra a nossa oportunidade como seres morais é aquela fração do tempo. A fração momentânea e eterna de tempo, precioso presente que Deus nos dá para tomarmos consciência de todas as coisas antes que seja tarde demais e decidirmos, assim, se daremos ou não o passo seguinte.


A paixão é um sentimento natural tanto para homens como para mulheres. Entretanto, cabe a cada um de nós controlá-la e canalizá-la para retirar dela toda a possibilidade de uma experiência positiva, construtiva, criativa, artística e bela.  E, enfim, direcioná-la, toda a nossa paixão, a quem prometemos amar até que a morte nos separe.




sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Quem sou eu?

"Jesus Cristo, e não homem algum ou o Estado, é o nosso único Salvador" (Bonhoeffer).


"Quem sou eu?" é o título do último poema escrito pelo teólogo Dietrich Bonhoeffer. Um desses poucos cristãos que não serviu ao diabo e, por causa disso, pagou com a própria vida. Ele escreveu seu poema enquanto estava em sua cela em Berlim, aguardando sua execução. Qual o crime do teólogo cristão? Ter participado efetivamente de um complô para matar Hitler.

LEIA MAIS DESTE POST NO BLOG DA RÔ, É SÓ CLICAR AQUI.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

O espírito dos casamentos arranjados (Philip Yancey) - Cantares alheios (VII)

Postado por Melissa Cruz às Quarta-feira, Setembro 22, 2010

O Espírito dos Casamentos Arranjados






Você já pensou sobre quanto nosso Produto Interno Bruto depende do romance? Ele domina as artes: sintonize qualquer estação de rádio que toque música popular e tente encontrar uma canção que não trate do amor. Na área editorial, os romances góticos vendem mais do que qualquer outro estilo de livros. E existe alguma novela ou comédia sem um romance ardente entretecido no enredo? Frases como "conseguir um homem" e "perseguir uma mulher" resumem um fato da vida em nossa cultura e presumimos que em todas as outras também. A vida é assim, pensamos nós.

Ah, mas aqui há um fenômeno notável: ainda hoje, em nossa aldeia global, mais da metade de todos os casamentos acontecem entre um homem e uma mulher que jamais sentiram qualquer pontada de amor romântico e talvez nem mesmo reconheçam o sentimento, se acontecer com eles. Adolescentes na maior parte da África e da Ásia tem como certa a noção dos casamentos arranjados por seus pais, assim como nós é certa a noção do amor romântico.

Um jovem casal de indianos, Vijay e Martha, explicaram como foi o casamento deles. Os pais de Vijay avaliaram todas as garotas de seu círculo social antes de se decidirem por uma chamada Martha para ser a noiva de seu filho. Ele tinha 15 anos na ocasião e ela acabara de completar 13. Os dois só haviam se encontrado uma vez antes, e muito rapidamente. Mas, depois que os pais dele chegaram a uma decisão, reuniram-se com os pais dela e marcaram a data do casamento para dali a oito anos. Depois que combinaram tudo, contaram aos filhos com quem eles iriam se casar e quando.

Durante os oito anos seguintes Vijay e Martha tiveram a permissão de escrever uma carta por mês. Viram-se duas - apenas duas -  vezes, e muito bem acompanhados, antes da data do casamento. Mesmo assim, hoje o casamento deles parece ser tão seguro e amoroso quanto qualquer outro que conheço. Na verdade, missionários que vivem nestas sociedades relatam que, regra geral, os casamentos arranjados são mais estáveis, com a taxa de divórcios muito menor do que a dos que resultam de romance.

Nas culturas ocidentais as pessoas se casam  porque sentem atração pelas qualidades agradáveis do outro: sorriso aberto, espirituosidade, aparência bonita, habilidade atlética, bom humor, charme. Com o passar do tempo estas qualidades se alteram. Enquanto isso, podem aparecer surpresas: desleixo no cuidado da casa, tendência à depressão, problemas sexuais. Ao contrário de tudo isso, os companheiros em um casamento arranjado não baseiam o relacionamento na atração mútua. Ao ser informada da decisão dos pais, a pessoa aceita que viverá muitos anos com alguém a quem mal conhece. Assim, a questão deixa de ser "Com quem me devo casar?" e passa para " Que tipo de casamento eu e este meu companheiro construiremos?"

Duvido muito de que o Ocidente algum dia venha a abandonar a idéia de romance, a despeito da base fraca que ele constitui para a estabilidade familiar. Mas, nas conversas que mantenho com cristãos das mais diversas culturas comecei a ver como o "espírito dos casamentos arranjados" poderia transformar outras atitudes. Poderíamos aprender alguma coisa sobre as nossas expectativas quanto à vida cristã, por exemplo.

Sempre achei estranha a fixação da teologia moderna com o problema do sofrimento. As pessoas em nossa sociedade vivem mais tempo, com saúde muito melhor e com menos sofrimento físico do que em qualquer outra época da história. E ainda assim nossos artistas, escritores, filósofos e teólogos se atrapalham na procura de novas formas de apresentar as questões milenares de Jó. Por que Deus permite tanto sofrimento? Por que Ele não intervém? E é significativo notar que os brados não partem do Terceiro Mundo - onde a miséria grassa - ou de pessoas como Solzhenitsyn, que suportou enorme sofrimento. O grito angustiado parte basicamente daqueles dentre nós que vivem no Ocidente confortável e narcisista. E por pensar nesta tendência estranha que continuo a voltar ao paralelo com os casamentos arranjados, que se transformou para mim em uma espécie de parábola sobre as formas diferentes pelas quais as pessoas se relacionam com Deus.

Algumas aproximam-se da fé basicamente como uma solução para seus problemas, e escolhem Deus assim como escolhem o cônjuge, procurando as qualidades agradáveis. Sua expectativa é a de que Deus sempre lhe trará boas coisas. Dão o dízimo porque receberão de volta dez vezes mais. Tentam levar uma vida reta porque acreditam que Ele lhes dará prosperidade. Interpretam a frase "Jesus é a resposta" em seu sentido mais literal e inclusivo: a resposta para o desemprego, um filho com problemas mentais, um casamento em ruínas, uma perna amputada, um rosto feio etc. Contam como certo que Deus interferirá em seu favor; providenciando um emprego; curando o filho, a perna e o rosto feio e colando de volta os pedaços do casamento partido.

Em meio a tudo isso, precisamos continuar a levantar o problema do sofrimento, exatamente porque a vida não é sempre como gostaríamos de que fosse. Realmente, em muitos países, ao tornar-se cristã a pessoa pode ter certeza de que perderá o emprego, será rejeitada pela família, enfrentará o ódio social e talvez, até, seja presa. Em seu maravilho livro The Mind of the Maker, Dorothy Sayers sugere um outro modo de enxergar o envolvimento de Deus conosco. Afirma em palavras que merecem muita reflexão:

" O artista não vê a vida como um problema a ser solucionado, mas como um agente da criação."

Somo como artistas que receberam a incumbência de construir nossa vida a partir de uma massa sem forma de matéria-prima. Uns são feios, outros bonitos. Há os brilhantes, os profundos, os charmosos.

Sob esse aspecto, precisamos do "espírito dos casamentos arranjados" em nosso relacionamento com Deus. Ele me criou como sou: com meus traços físicos particulares, minhas dificuldades e limitações, meu corpo, minha capacidade mental. Posso passar toda a vida ressentido com uma característica ou outra, e pedindo a Deus que mude minha "matéria-prima". Ou posso aceitar-me como sou, humildemente, com as falhas e tudo mais, como a matéria-prima com a qual Deus pode trabalhar. Não faço uma lista de exigências que precisam ser atendidas para que eu aceite firmar um compromisso. Como o marido de um casamento arranjado, comprometo-me apesar do que acontecerá no futuro. Não tenho certeza do que está por vir.

Pode-se dizer que fé significa prometer estar junto no melhor ou no pior, na riqueza ou na pobreza, na doença ou na saúde, amando a Deus ou apegando-se a Ele, apesar do que vier a acontecer. Felizmente, o "espírito do  casamento arranjado" funciona nos dois sentidos: Deus também firma um compromisso comigo. A fé significa acreditar que Ele fez a mesma promessa, e Jesus Cristo é a prova disso. Deus não me aceita condicionalmente, com base em meu desempenho. Ele mantém Sua promessa, e nela reside a graça.

Philip Yancey


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Teus mistérios e segredos - Cantares para ela mesma (IX)



Para L.R.

Hei visto segredos sob a tez insuspeita de teu corpo:
teus prazeres e medos que somente eu haja beijado...

Havia esconderilhos ocultados aos olhos de todos:
sucessão de movimentos que os houvera decifrado...

Há mistérios que não ainda foram compartilhados:
é teu sorriso sério e a lágrima ridente em teu cado. 

Falsa a sinonímia entre teus segredos e mistérios:
Mistérios hão revelados, mas não teus segredos!

(Repousa inaudito em ti o que de ti sei e não digo)...

"Não haverá aonde tu possas fugir", foi-me sentenciado:
teu labirinto infindo que me houvera ter-me teu iniciado!

F.R.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

E se você rir ao ouvir a minha história triste?



Lembro de ter cursado uma disciplina sobre humor, chistes e piadas há muito tempo na UNB. Discutia-se a partir da leitura textos de um dramaturgo (que não me lembro mais quem era) e de uma obra de Freud sobre esse tema. O ponto do curso era exatamente este: “o que nos faz rir? O que nos faz rir do outro e de nós mesmos?” Porque, embora pareça que o humor seja algo universal (e é!), certamente ele está condicionado às culturas específicas de cada povo mundo à fora. Assim, pode ser que algo que faça alguém chorar aqui no Brasil seja ridículo noutra cultura e vice-versa. E mesmo dentro de uma mesma cultura, há uma série de elementos objetivos e subjetivos, que podem fazer com que as pessoas reajam de maneira diferente umas das outras em relação à alguma piada, provocação ou sátira. Por exemplo, a imagem que abre este post é uma boa maneira de vermos como o humor é algo muito mais complexo do que podemos imaginar. A fonte da piada na imagem acima é uma tragédia para milhares de famílias que foram atingidas naquele 11 de setembro. Para mim, portanto, é uma piada de péssimo gosto (ainda que se queira justificá-la pelo fato dela se encontrar na categoria de "humor negro")... 
 

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A confidência - Cantares de todos nós (IX)


 A Bruxa


Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse neste minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e clama.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

(Carlos Drummond de Andrade)

Estava naquele quarto, deitado na cama de cima de um dos beliches. Havia mais uns 8 hóspedes dividindo aquele mesmo espaço em beliches que se apertavam ali... Era o único lugar que o resto de dinheiro que eu tinha poderia pagar. Havia feito as escolhas erradas.

Naquela noite, antes de ir para lá, passei na casa de alguns "amigos" para conseguir alguma coisa que me entorpecesse, porque eu queria dormir o mais rápido possível. Esquecer que estava dormindo num lugar como aquele. Contudo, o efeito foi reverso e o sono não veio. 

Não sei mais se imaginei ou se realmente ouvi, mas, de repente, um dos hóspedes disse a um outro que queria fazer alguma coisa, mas, então, escutei o dono dali dizer que não fizessem nada comigo, porque eu era menor de idade. Virei para o lado da parede e, enquanto fingia dormir, chorei. Chorei, porque me dava conta de que naquela Belo Horizonte de tantos milhões de habitantes eu estava sozinho. Percebi que nem era preciso tantas pessoas no mundo, se houvesse apenas UM amigo. Entretanto, não houve ninguém que saísse do meio daquela multidão que me sufocava... Naquela noite, nenhum amigo veio me socorrer. E dormi.

Na manhã seguinte, quando acordei, vi que não tinha mais ninguém no quarto, já era hora avançada do dia, e, olhando para o lado, vi que o meu cinto e os meus sapatos haviam sido roubados... 

Por muito tempo, desde a minha infância, o poema de Drummond me acompanha e, claro, naquela triste noite em Belo Horizonte, lembrei-me diversas vezes dessa bruxa que marca a solidão amorosa, urbana, existencial e universal, cantada pelo poeta. A solidão de quem desanda por entre as gentes, a solidão de quem apenas precisa de um amigo, mas ele não vem. 

Nestes dias, esse poema veio à tona novamente de algum lugar escondido lá de dentro de mim. Não mais por causa da minha solidão, mas por causa da morte da Amy Winehouse. Passei a semana lembrando da letra de "Rehab" em que ela dizia, assim como Drummond, que o que ela estava precisando era apenas de UM amigo. Acho que esse amigo nunca veio para ela. Acho que nunca veio para Drummond também. E sei que há milhares de pessoas, neste exato momento em que escrevo, que estão em algum lugar esperando que apareça alguém, uma única pessoa, um abraço, um telefonema, um beijo, um carinho, uma palavra de salvação como, um dia, eu também precisei e, finalmente, recebi de alguém o Evangelho que me reconciliou com Deus, meu verdadeiro amigo. 

Há, ainda, no poema de Drummond uma realidade universal que pode nos escapar numa leitura apressada: na falta de um amigo, acabamos tentando suprir essa carência com alguém que é MENOS do que um amigo (no poema, uma mulher, mas ela também não vem, porque ela também está só! E aqui, a ironia drummondiana revela que a selva de pedra pode ser um amontoado de milhões de pessoas solitárias vivendo ao lado umas das outras). Em outras palavras, se não encontramos a pessoa que poderá ser aquela que verdadeiramente precisamos, findamos por nos contentar com alguém que seja menos que um amigo. E nessa troca urgente e desesperada, a solidão aprofunda e dilacera ainda mais a carência que há, porque dois cegos tendem apenas a cair juntos no mesmo abismo.  

A minha oração é que eu - e você também - possamos ser o amigo que chegará em momentos como esses, momentos em que alguém percebe que dois milhões de pessoas são muito pouco, porque, na verdade, nem é preciso tanta gente assim. Apenas Um amigo!

Abraços sempre muito afetuosos.




sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Antropologia da amizade


Shrek: Pra sua informação, há mais do se imagina nos ogros.
Burro: Exemplo?
Shrek: Exemplo? Ok… Ah… Nós somos como cebolas.
Burro: Fedem?
Shrek: Sim. Não!
Burro: Oh. Fazem você chorar.
Shrek: Não.
Burro: Oh, deixa eles no sol e eles ficam marrons e soltam aqueles cabelinhos…
Shrek: Não! Camadas! As cebolas têm camadas, os ogros têm camadas. A cebola tem camadas, entendeu? Nós dois temos camadas.
Burro: Oh, vocês dois têm camadas. Oh. Sabe, nem todo mundo gosta de cebolas. Bolo! Todo mundo adora bolo! E tem camadas.
Shrek: Eu não ligo pro que todo mundo gosta! Ogros não são como bolos.
Burro: Sabe do que todo mundo gosta? Pavê! já conheceu alguém que você falasse: “Ei, vamos comer pavê?” e ele dissesse: “Céus, não gosto de pavê”? Pavê é delicioso!
Shrek: Não! Sua besta ambulante de irritação constante! Os ogros são como cebola! Fim da história, bye bye, tchauzinho.”
Do filme Shrek 1


Inevitavelmente, avaliamos o outro pela mesma régua de nossa cultura. Entretanto, nesta trajetória a que chamamos “vida”, as minhas descobertas mais fascinantes nunca se deram propriamente por essa régua (que, indubitavelmente, também carrego na mochila de minhas experiências), mas, antes, minhas mais maravilhosas descobertas se deram pelo que descobri a partir do olhar do outro. 
 
Explico-me. Por exemplo, frequento uma igreja pequenininha de uma cidadezinha do interior do Brasil. Nesta igrejinha, embora de poucos membros, há nela estrangeiros, brasileiros e indígenas. Há pobres e ricos. Há bêbados e sóbrios também. Entre os brasileiros, há os mato-grossenses, goianos e sulistas (pelo menos). Entre os indígenas, há pelo menos três culturas de línguas diferentes. Na cidade, esbarramos sempre com pessoas do mundo todo: franceses, alemães, japoneses (pelo menos). Há indígenas de mais de dez povos de línguas e culturas diferentes passeando pela cidade. Assim, estar com pessoas e comunidades tão diversas da sua própria cultura nativa é uma aventura que se desenvolve em algumas etapas (ou “camadas” nas palavras do Shrek). Vejamos...
 

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A beleza de cantares e a "beleza americana" - Cantares de Salomão (IX)

... o nosso leito é verde.
As traves da nossa casa são de cedro, as nossas varandas de cipreste.
(Ct 1: 16b e 17)



O convite à vida, eis o que é o casamento. Esse leito viçoso, verde, pleno de vida e de gozo!

Paradoxalmente, impressiona ver como a vida sexual está tão ligada à morte na nossa sociedade, quando, biblicamente, ela é um projeto de vida para o casal.

As aulas de educação sexual nas escolas gastam a maior parte do seu tempo ensinando os púberes aprendizes a se defender da morte: ensina-se o uso correto da camisinha, enquanto são apresentados os dados estatísticos de contágio e morte pelo vírus do HIV e demais dst's; fala-se, ainda, sobre estupro, assédio, violência, divórcio, incesto, a dor dos filhos de famílias sucessivas, traição, perversões, bizarrices e tantas outras experiências de morte que fariam corar de vergonha os antigos habitantes de Sodoma e Gomorra.

Lembro de uma edição antiga de um jornal brasiliense em que havia uma reportagem sobre adereços usados para disfarçar certas carências físicas (sutiãs e calcinhas com enchimento, etc). O que me chamou a atenção não foi o uso em si de tais adereços, mas sim o desenho que ilustrava aquela reportagem. Era um desenho em tons de roxo, que tomava praticamente toda a folha do jornal e que mostrava, ao fundo, um homem deitado numa cama à espera de uma mulher. Em primeiro plano, no desenho, havia essa mulher que, sem graça, tirava seu sutiã com farto enchimento de espuma. O desenho era forte e passava muito bem a atmosfera deprimente em que essa mulher se encontrava. Ela estava cabisbaixa, olhava de soslaio, sem graça, porque seria revelada ali, na verdade do quarto, que tudo não passara apenas de uma falsa propaganda. Chegara a hora de retirar as máscaras.

Outra história. Estávamos eu e meu amigo, em minha juventude pregressa, sentados à mesa de um bar. Ele se levanta e logo vem uma menina sentar ao meu lado. Ela era quase nada atraente aos meus padrões da época, fosse física ou intelectualmente, entretanto seu rosto era marcado  por dois lindos olhos azuis, acerca dos quais não me furtei a perguntar. Quando meu amigo retorna, ela se retira. Ele me confessa: "Que olhos azuis lindos daquela menina"! Parei, olhei para ele e estraguei sua admiração: "'É lente de contato"! Nós rimos. Assustou-nos e nos fez muito mal que a única coisa admirável que alguém pudesse oferecer de si mesmo fosse falso, propaganda enganosa, um adereço, um band-aid para cobrir a ferida de uma alma vazia... Ficamos com aquela estranha sensação de tudo realmente ser apenas vaidade, vento e nada mais. Olhei em volta e pensei o que mais estávamos escondendo uns dos outros, personagens soturnos de um leilão de aparências em busca da melhor oferta que valorizasse aquela nossa existenciazinha.

Lembro-me do filme "Beleza americana". Sei que é um filme que nem todos podem assistir ("tema adulto tratado com impropriedade, linguagem obscena, etc"). Contudo, enquanto escrevo estas linhas, é inevitável lembrar que o filme trata exatamente sobre o tema deste post. No filme, todos os personagens não são o que aparentam ser. Tudo é falsa propaganda, tudo é plástico, tudo é aparência, é vaidade e vento sobre o qual jamais poderemos nos apoiar. 

A vida, a sexualidade e a espiritualidade fast-food e a liberdade com promessas de satisfação imediata que o mundo tem oferecido, tudo isso é pura "beleza americana", uma tênue cortina que se rasga ao mínimo toque da vida como ela é. Cantares não nos quer assim. Deus quer resgatar uma vida conjugal que não se esconda por trás de máscaras e maquiagens. Enquanto a proposta do mundo é uma frágil ilusão, o matrimônio cristão é um chamado de Deus para a construção de uma casa fortemente alicerçada na verdade.

O chamado do amor é para um leito viçoso, verde, vivo, verdadeiro. O arauto do amor nos chama à verdade firme. Um convite que nos leva a uma casa sustentada por cedros e ornamentada por ciprestes. Enfim, em Cristo, o resgate de um tempo edílico em que um e outro, o homem e sua mulher, estavam nus e não se envergonhavam.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...