Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sábado, 29 de janeiro de 2011

Sabá - Cantares da Felicidade (III)




Bem-aventurados os teus homens,
bem-aventurados estes teus servos que estão sempre diante de ti, que ouvem a tua sabedoria!
I Reis 10:8

Em quais lugares temos buscado a felicidade? 

Como não sabemos de fato o que pode nos trazer felicidade, não sabemos também onde procurá-la. Como consequência, terminamos por achar falsas experiências de felicidade. 

Muitos têm vivenciado momentos de êxtase e de alegria, de riso e de satisfação, todavia, seria a bem-aventurança uma coleção de momentos distribuídos insatisfatoriamente pela vida do ser humano? Segundo as palavras do poeta: "Trsisteza não tem fim/ Felicidade, sim"!

A Rainha de Sabá, que também ansiava encontrar a verdadeira bem-aventurança, descobriu-a, assim como Moisés, no Deus de Salomão. Ela veio de longe atrás de ver e ouvir o testemunho da sabedoria encontrada no Rei Salomão. Vendo essa sabedoria e tudo o mais que Deus fizera naquele povo, ela reconheceu o Deus de Israel, chamando-O pelo nome: Yaweh! A Rainha de Sabá descobriu que é feliz aquele que está próximo dos escolhidos de Deus. Felizes são os que de perto podem ver as maravilhas operadas por Deus no meio dos que Ele escolheu. Deus tem levantado pessoas sábias em meio à confusão dos nossos dias para pregarem a fonte da verdadeira bem-aventurança: aproximemo-nos delas!

Reconhecer, discernir em meio aos chilreios e murmurações quem são as pessoas verdadeiramente sábias, aquelas que são benditas exatamente porque foram alvos da salvação, da proteção e da defesa divinas: isto se constitui em maravilhosa bem-aventurança!

A Rainha de Sabá ouviu falar da fama do Rei Salomão e veio de longe em busca do Deus desse rei. Nesse pequeno episódio, se realiza a razão de ser de toda a Antiga Aliança: os povos seriam atraídos ao Deus de Israel pelas coisas maravilhosas que Ele fazia no meio do Seu povo. “Serás luz para as nações” - eis a ordenança de Deus para seu povo. 

Ora, Salomão não foi perfeito, cedeu aos caprichos de suas esposas, construiu templos idólatras e sofreu as consequências danosas de seus pecados. O Reino de Salomão, o grande reino de Israel, se dividiu e nunca mais pode se ajuntar por causa dos pecados de Salomão. Este, contudo, ao fim da vida, pode avaliar sua época de ouro e os efeitos de seus atos profanos e retornou ao caminho da Sabedoria, como vemos no livro de Eclesiastes, que foi escrito ao fim da vida desse rei.

Então a Sabedoria nos diz: Bem-aventurado o homem que me dá ouvidos, velando às minhas portas cada dia, esperando às ombreiras da minha entrada (Pv 8:34). Assim foi com a Rainha de Sabá, que reconheceu que estar às ombreiras da Sabedoria é bem-aventurança maravilhosa; e assim será conosco, se nos aproximarmos da Sabedoria como fonte da felicidade que pode saciar a nossa sede. 

Jesus é a Sabedoria de Deus.

Então, em quem devemos procurar a felicidade que transcenderá este mundo? Naquele que habita no meio do Seu povo!

 



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Há um lugar de vitória para sua família, creia!

E aconteceu no caminho, numa estalagem, que o SENHOR o encontrou, e o quis matar. Então Zípora tomou uma pedra aguda, e circuncidou o prepúcio de seu filho, e lançou-o a seus pés, e disse: Certamente me és um esposo sanguinário. E desviou-se dele. Então ela disse: Esposo sanguinário, por causa da circuncisão (Êxodo 4. 24-26; Fiel).


O texto acima parece cair de pára-quedas e ficar meio que sem ligação com o resto que passou e a história que ainda segue. Moisés havia tido um encontro maravilhoso com Deus na sarça ardente e, depois de muita relutância, Deus o impele ao Egito para libertar os hebreus da escravidão. Nada mais estranho, nada mais contraditório do que ver Deus, repentinamente, ir ao encontro de Moisés no caminho do deserto para colocar todo o seu acordo com ele a perder, intentando matá-lo!


Mas creia que o deserto pode ser um lugar de encontro
preparado por Deus para toda a sua família!


  • Foi no deserto que Deus estabeleceu uma aliança com Hagar e seu filho, socorrendo eles na sua aflição e morte certa!
  • No deserto do Sinai, Deus sela a aliança com o povo liberto do Egito!
  • É no deserto que Deus levanta a serpente de bronze que livrou da morte o povo de Israel.
  • No deserto de Em-Gedi, Deus entrega nas mãos de Davi Saul, o seu perseguidor!
  • Em Isaías 43.19, o povo escravizado pela Babilônia, é neste deserto que Deus promete colocar um caminho de libertação!
  • É no deserto que a voz de João Batista deveria clamar para preparar o caminho do Senhor!
  • Foi no deserto que Jesus travou batalha contra Satanás e suas tentações e saiu vitorioso!
  • É no deserto que Deus prepara para a igreja um lugar de proteção contra Satanás (Ap12.6)!

Deus mesmo preparou um lugar de encontro
no deserto para nos convidar a uma Aliança eterna com a nossa família!


Nesse deserto, Deus poderá nos chamar para uma aliança com as nossas famílias. Essa aliança contém duas exigências:


  1. A Aliança de Deus exige a santidade!
Deus matará Moisés, se este não for vaso santo em suas mãos. Será que Moisés não era circuncidado? Pois, assim que nascera, havia sido mantido escondido por sua família das vistas dos egípcios e depois foi criado na corte do faraó. E seu filho, Géferson, já haveria sido circuncidado? Neste momento específico, na noite daquela estalagem, o que aquela pequena família sabia acerca do ensino bíblico, que , desde Gn 3:21, nos ensina que sem derramamento de sangue não podemos nos aproximar de Deus?


Creio que Moisés tardava em fazer a circuncisão, Moisés era negligente em marcar seu filho com o sinal visível da aliança. E Deus mostra que a sua Santidade não permitirá que mesmo Moisés sobreviva sem o sinal da separação. Ser santo é ser separado para Deus. O Deus de Moisés quer separá-los para que eles sejam obedientes em todas as coisas.


Perceba a cena: estamos falando de um povo de escravos, distanciados de seu pacto com Deus, que fora firmado com Abraão, há mais de 400 anos; escravos acostumados à pluralidade dos vários deuses egípcios e suas frouxidões morais, agora, esses mesmos escravos confrontam-se com um Deus moral. Um Deus moral que estava chamando para o pacto aquele povo de escravos que viviam no meio da imoralidade pagã. Um Deus santo e puro, um Deus moral que não pouparia o próprio servo escolhido se esse não obedecesse aos estatutos da sua lei.


Leia Gen. 17. 1.Anda na minha presença e seja perfeito”, diz Deus a Abraão na instauração da circuncisão. Leia, ainda, Gen 17. 10. "Esta é a minha aliança, que guardareis entre mim e vós, e a tua descendência depois de ti: Que todo o homem entre vós será circuncidado". Há um selo da aliança com Deus.


É importantíssimo lembrar que durante o fato histórico dessa noite no deserto, noite dramática para a família de Moisés, sequer o livro de Gênesis havia sido escrito e que Moisés está há mais de 4 séculos distante da aliança revelada ao patriarca Abraão! Há quase 400 anos o povo de Abraão está escravizado. O que é essa aliança para o povo, senão uma distante história da tradição oral de seus antepassados? Mas Deus intervirá nessa situação e mostrará quem é o Deus de Abraão, Isaac e Jacó! É preciso que o povo saiba quem é esse Deus, mas, antes, é preciso que o próprio Moisés e sua família tenham um encontro com o Deus vivo.


Leia Gen 17.14. "E o homem incircunciso, cuja carne do prepúcio não estiver circuncidada, aquela alma será extirpada do seu povo; quebrou a minha aliança". Sim, Deus matará o seu eleito se esse não cumprir com a sua responsabilidade espiritual dentro da sua casa! Compare com os versos 21-23. "A minha aliança, porém, estabelecerei com Isaque, o qual Sara dará à luz neste tempo determinado, no ano seguinte. Ao acabar de falar com Abraão, subiu Deus de diante dele. Então tomou Abraão a seu filho Ismael, e a todos os nascidos na sua casa, e a todos os comprados por seu dinheiro, todo o homem entre os da casa de Abraão; e circuncidou a carne do seu prepúcio, naquele mesmo dia, como Deus falara com ele".


Moisés é um incircunciso e também seu filho. A circuncisão é o selo visível da santidade do povo de Deus; o selo que sinalizava a separação daquele povo para o serviço do Deus de Abraão, Isaac e Jacó!


Qual é a responsabilidade espiritual que você não tem cumprido dentro da sua casa, com a sua família? Como Moisés, será que nós estamos tratando a Palavra de Deus como histórias distantes, muito longe das nossas realidades? Será que nós acreditamos na Palavra de Deus e a pregamos aos nossos filhos e às nossas esposas? Temos vivido diariamente em santidade como manda a Palavra de Deus dentro de nossas casas? Temos desejado de coração andar na presença de Deus e alcançar a perfeição? E, o mais importante, há em nossa casa, a marca dessa circuncisão, este derramamento de sangue que nos permitirá nos aproximarmos de Deus?


Mas, essa aliança tem uma segunda exigência:


  1. A Aliança de Deus exige uma fé que obra!
Noivo de sangue ou noivo sanguinário”. Estranho texto, no qual, no hebraico, o nome de Moisés não aparece, sendo designado apenas por referência. Os únicos nomes próprios são de Deus e de “Tsiporá”. Estes, assim, saltam como personagens principais dessa passagem, na qual Deus intenta matar Moisés.


E, como vimos, em Gn 17. 14, o incircunciso seria eliminado do povo. Não se pode ser negligente com os mandamentos do Senhor e, provavelmente por negligência, Moisés, que já não era circunciso, também não circuncidara seu filho.


O que vemos na cena de Ex. 4 é a circuncisão do filho de Moisés, mas, também, a circuncisão figurada do próprio Moisés, quando “Tsiporá” encosta nos genitais do seu marido o sangue da circuncisão do seu filho. Sim, no texto hebraico, o termo usado designa os órgãos genitais de Moisés (רגל, regel, reh'-gel), mas na tradução, preferiu-se o eufemismo de “pés”, assim como provavelmente teria ocorrido em outras narrativas bíblicas como na história de Rute e Boaz na eira ou, ainda, na visão de Isaías dos Querubins.


Zípora, uma pagã, filha de um sacerdote pagão, finalmente vê-se num encontro face a face com Deus, o Deus verdadeiro, o Deus do seu esposo. Veja que situação dramática: Moisés sendo flagelado por Deus por causa de sua negligência, por causa de sua fé vacilante, por frouxidão moral, e sua esposa, uma desconhecedora desse Deus, diante da crise de perder o marido, converte-se e, numa atitude de fé, faz o que Moisés até então procrastinara: circuncidar o próprio filho! Zípora, ao lado de Jó, passou a conhecer Deus, não por ouvir falar, mas porque este a visitou naquela terrível noite na hospedaria do deserto.


Deus usa a fé vacilante de Moisés para mostrar à jovem Zípora a realidade e singularidade do Deus de Abraão, Isaac e Jacó.


Ao iniciarem viagem deserto adentro, havia um homem de fé titubeante, uma mulher pagã e um filho incircunciso. Todavia, o que chegou ao Egito, saído do deserto, foi uma família completamente separada para o que viria a ser uma das maiores histórias de todos os tempos!


Deus é Santo. Logo antes de estabelecer o selo da aliança com Abraão, Deus exige que seu servo seja nada menos e nada mais que perfeito (Gn 17.1).


Aquele povo de escravos e “Tsiporá” estavam acostumados à promiscuidade dos deuses pagãos, estavam com suas mentes moldadas por aquelas culturas diabólicas, contudo, nós também nos encontrávamos outrora escravizados neste mundo pagão. E fomos libertados. Mas Deus ainda exige de nós, como o fez com Abraão e Moisés, que andemos com Ele e tenhamos nova postura de vida e que esta vida seja marcada por um sinal externo, a nossa circuncisão batismal. A circuncisão do coração que se renova a cada dia! Deus não nos poupará se não tivermos fé e se não formos santos, se não crermos e se não estivermos, verdadeiramente, separados para Ele. Mas seria essa separação possível de nós mesmos fazermos? Sinceramente, eu creio que as duas exigências para podermos participar (fé e santidade) da Aliança de Deus são IMPOSSÍVEIS de eu mesmo gerá-las na minha vida.


Mas a boa-nova é que
tanto a fé como a santidade são obras exclusivas do Espírito Santo,
assim, o que é impossível aos homens é possível para Deus. Aleluias!!!


O caminho para participarmos da aliança de Deus tem que passar pela fé (Zípora) e pela santidade (Moisés). E esta experiência de conversão só será possível pelo derramamento de sangue – não mais o derramar do sangue do prepúcio – o derramar do sangue do cordeiro na cruz do calvário.

Deus quer levar você e sua família para Sua aliança, mas o deserto pode ser o lugar preparado para esse encontro. O deserto é doloroso, é árido, repleto de desafios… mas pode ser um lugar de vitória para a sua família!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A alegria - Cantares de Salomão (III)

Leva-me tu; correremos após ti. O rei me introduziu nas suas câmaras; em ti nos regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho; os retos te amam.
(Ct 1: 4; Fiel)


O desejo agora é expressado no coro, o coro das virgens que se alegram e que se identificam com a mulher que deseja. O desejo pelo amado é revelado com tanta sinceridade - a entrega explícita que ela faz ao seu amado: "leva-me tu" – que contagia as amigas que passam a reverberar com a noiva o seu cântico que se espalha no ar.

Quantas pessoas se vêem envolvidas nas festividades dos noivos! Nossa geração esqueceu que o casamento, além de ter sido instituído por Deus, apresenta-se como um evento no qual "deixa o homem seu pai e sua mãe". Há um marco. Um rito. A sacralidade do matrimônio que é público e divino. As amigas da noiva estão em festa, porque sabem do coração efusivo da noiva apaixonada. Não é possível ficarmos inertes diante da celebração de um homem e uma mulher apaixonados. Esse momento era tão sublime, rito sagrado marcado por tão grande reverência pelos judeus, que o livro de Cantares era lido em toda festa de Páscoa. Mas, por quê? A Páscoa era a passagem da escravidão à vida de liberdade – eis o matrimônio: uma passagem, um batismo que nos leva da morte para a verdadeira vida! Hipérbole metafórica? Mas, são exatamente estas as imagens cristalizadas no simbolismo judeu.

As imagens vão transbordando da taça inebriante desses versos que nos lembra a frase divina, sentença do Criador: "Não é bom que o homem esteja só". Sozinho, quem é o homem? Um ser criado à imagem e semelhança de Deus, portanto, completo! A que solidão, então, Deus estaria se referindo? Qual o objetivo, afinal, da criação da mulher? A mulher é a ajudadora, a companheira, aquela que levará o homem a compreender sua própria relação com Deus. Há analogia na relação de um homem e sua mulher e a relação de Deus com esse homem. A entrega ao amor matrimonial guarda a promessa de podermos aprofundar nossa vida espiritual com o Criador. Assim, saídos da escravidão do Egito passamos agora a fazer festa para o Deus da nossa libertação, o Deus do nosso amor.

Ao realizar o primeiro casamento, Deus o faz no contexto do sábado. O sábado é o dia da recreação, do gozo eterno diante da obra do Criador! Os judeus compreendiam que o sábado era o "intercessor" entre o povo e o Deus Yaweh! Daí, lerem o livro de Cantares durante as festas da Páscoa. Daí, precisarmos reler essas páginas de celebração e corrermos após a noiva contagiados por sua alegria. Esta alegria transforma nossos olhos: eis que o amado dela é comparado a um rei que a carrega ao palácio dele. Ela o aclama, aprecia, considera, elogia, enaltece o seu amado. À semelhança do povo que festeja no deserto a libertação, ela festeja o seu amado. O casamento é, por isso mesmo, a analogia do amor de Deus pela sua Igreja, entregando esta ao seu Filho amado, o noivo.

A entrega ao amor matrimonial guarda a promessa de podermos compreender o amor de Deus pela Igreja e como deveria ser nossa resposta apaixonada ao Deus da Igreja. Contagie-mo-nos, então, dessa alegria!


sábado, 22 de janeiro de 2011

A biblioteca - Cantares de todos nós (III)

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando se com vê la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: —Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
Camões

Cresci ouvindo minha mãe recitar esses versos dentro de nossa casa. Ela sempre se postava imponente, levantava levemente seu rosto e, então, começava sua interpretação. Nem sequer imaginava, naquela infância, que o soneto tantas vezes declamado por ela era sobre uma linda história bíblica de amor. Aqui comigo, fico a pensar quais histórias os pais andam contando aos seus filhos e quais versos recitam para eles hoje em dia!...


Minha mãe também gostava de repetir para nós as conjugações do latim que aprendera na escola. Sei, infelizmente, que da minha parte já não poderei presentear minhas filhas recitando conjugações de um latim que só vim a estudar tardiamente.


Outra característica marcante daquele tempo é que minha casa era uma "casa de apostas". Reuníamo-nos, a família toda ao redor da mesa, e as apostas começavam. "Mãe, o que quer dizer...?" Aí, ela respondia: "Isto significa isso"! Então, minhas irmãs respondiam: "Mãe, acho que a senhora está errada"... Pronto! Era o suficiente para ela desafiar: "Quer apostar? Olha, não aposta comigo não, que vocês vão perder". Elas apostavam e corríamos aos dicionários da Biblioteca e... Pá! Minha mãe ganhava!


Minha mãe sempre nos impressionava com seu vasto vocabulário de inglês: "Aurélia! A mulher dicionário!", dizia ela de si mesma toda vez que perguntávamos o significado de alguma palavra, fosse em inglês, fosse em português. Mas aquela infância ficou há muito num tempo reservado apenas às lembranças de nossas conversas saudosas, quando ainda hoje conseguimos nos reunir uma vez mais...


Meu pai foi professor também. Que privilégio esse de crescer numa casa em que havia biblioteca. Li a Barsa e a Delta Larousse na minha infância. Acho que vem daí sempre ter sido um apaixonado por história e geografia, matérias que meu pai ensinava. Entretanto, preciosa mesmo era a coleção de literatura dos premiados pelo Nobel, que havia naquela biblioteca: pude ler Sidarta, de Hermann Hess; li, nesta mesma coleção, Thomas Mann, Rudyard Kipling, Anatole France, Yeats, Bernard Shaw, Eugene O'Neill e tantos outros ainda antes dos 14 anos de idade: era a vasta biblioteca do meu pai! Nela, pude ler a deliciosa coleção "Mundo da criança"; a Coleção "Histórias e Lendas", que trazia uma seleção de narrativas folclóricas de cada região do Brasil... Sei do valor de uma biblioteca, esforço-me para montar uma para minhas filhas.


A Biblioteca do meu pai se foi, mas os seus livros, coleções e enciclopédias ficaram registrados em mim. Ainda antes daquela preciosa biblioteca se perder, ela me deu um último presente. Foi quando eu estava vivendo o período crítico que antecedeu à conversão e, convidado para visitar uma igreja, saindo às pressas de casa, encontrei naquela biblioteca uma Bíblia que nunca antes havia visto. Uma Bíblia de capa preta e, ao mostrá-la para minha mãe, ela disse que havia sido um presente que meu pai recebera quando vivo. Surpreso pelo achado inusitado, abri e apareceram diante dos meus olhos os seguintes versos marcados ali à caneta:


"Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação. Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (I Cor 1: 18-25).


Ao terminar de ler, levantei os olhos daqueles versos maravilhosos. Ali, eles me atingiram de um modo indelével e fiquei como que encantado. Assim, pude perceber, mais uma vez, que a partir daquela vasta biblioteca, algo novo, inefavelmente novo, eu estava prestes a aprender...

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

A mística do vício




           
            Alieksei morre. Não a morte de todos os homens, mas a que se impinge sobre todos aqueles que caem nas armadilhas da mística de quaisquer vícios que tenta nos ludibriar.
           
            Alieksei se entrega às ganas do pano verde. Entre os números vermelhos e os pretos da roleta, nosso personagem encanta-se pela mística do jogo. Esta é um fervor, um fanatismo, uma concupiscência dos olhos, da carne, do espírito... Em algum momento, há em nós esse desejo de nos tornarmos deuses; controlarmos o que está totalmente fora do nosso controle. As mãos tremem, a boca seca, o músculo do rosto se contrai e algo em nossos estômagos se lança sobre o altar de sacrifício, à mesa de pedra, à roleta do jogo: “que fisionomias ávidas e transtornadas”! - analisa Alieksei, observando os jogadores.

            Criatura semelhante ao seu criador, Alieksei - protagonista de “O Jogador” - nos revela o mundo que aprisionava Dostoiévski: a roleta, o jogo, os cassinos alemães do século século XIX. Dostoiévski se rendeu à mística das noites e dias insones daqueles templos. Dívidas e mais dívidas soterraram nosso genial romancista russo que esvaziava suas burras diante do croupier. Nosso protagonista chega ao fim do livro, repetindo aquilo que é a frase comum aos que sucumbem à qualquer vício: “Amanhã, amanhã, tudo isso terá terminado”!

            A alma humana, toda alma humana, diz-nos Dorian Gray (Oscar Wilde), pode ser vendida, trocada, barganhada. “O jogador” é uma ilustração dessa sentença. Os personagens que rodeiam Alieksei interagem entre si como num jogo. Todos arriscam seus lances, blefam, recuam, avançam, ganham, perdem no pano verde da vida. Todos têm seu preço.

            O general que aguarda ansioso a morte de babuschka para receber a herança desta. Mlle. Blanche, que domina o general (e os homens) com suas promessas de fazê-los ver estrelas, aguarda um que lhe dê a segurança financeira que necessita. Des Grieux empresta à juros e controla vários viciados por detrás da cortina da história, inclusive era credor do general. Babuschka mesmo sabe dos abutres que só esperam vê-la morrer para se apoderarem de sua fortuna; mas ela, então, vem ao Cassino e arrisca todos os seus florins para o desespero dos que, de alguma forma, dependiam da herança dela.

            Mas havia também Paulina com quem Alieksei estabelecera uma relação de servilismo. E esta é a bancarrota do protagonista de Dostoiévski: sucumbe ao jogo e não à amada. Pois o amor é apenas um lance de sorte, mais um item a ser manipulado sobre o pano verde. Pauline não se entrega ao nosso personagem, embora o ame também, por ter ela também seus próprios interesses e dívidas a resolver. Assim, nessas tramas da vida, que se torna o croupier de todos os personagens, eles se apresentam como jogadores: alguns com seus caderninhos nas mãos, fazendo cálculos matemáticos na tentativa de adiantar o próximo lance; outros, como Alieksei, são impetuosos e irresponsáveis, arriscando o próprio coração. Na mesa de jogo, todos escondem suas verdadeiras intenções e motivações; na vida, também.

            Dostoiévski teve sorte melhor do que seu personagem. Aliéksei sonha com uma ressurreição que não acontece; Dostoiévski, embora mergulhado na mais terrível miséria por causa das dívidas de jogo, amargando mesmo a pobreza e a quase demência, vê-se resgatado pelo amor de Ana Grigorievna e pelos romances que escreveu às pressas “tendo os credores a bater em sua porta”. Na verdade, Ana era uma jovem estenógrafa de apenas 21 anos de idade e que o ajuda datilografando os livros que ele dita para ela. As dívidas são exorbitantes e o tempo para a entrega dos livros exiguo. A nova contratada, admiradora da obra do escritor russo, encanta-o. Assim, Dostoiévski aproxima-se de Ana expondo a ideia de um novo romance a ser escrito. Dostoiévski diz que gostaria de escrever “sobre um romancista velho e doente, que deseja casar-se com uma jovem cheia de vida. “Mas”, pergunta ele a Ana, “não será inverosímel dizer que essa jovem o ama?” Ao que Ana responde: “Eu lhe diria que o amo e vou amá-lo a vida inteira”. Foi o modo como ele, 25 anos mais velho do que ela, propôs casamento à mulher que andara buscando a vida toda e finalmente encontrara”.


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A matemática das coisas - Cantares para ela mesma (II)

      Para Lucila Ribas











Palavras são números!...
Portanto, são tolices os escritos
derramados nesta folha de papel.

Explico: números são infinitos,
e, nem por isso, são para sempre
os extensos números aqui inscritos.

Essa ilusória infinitude matemática!...
Os números - assim como as palavras -
esmaecem na marcescibilidade das coisas.

Contudo, se nem as palavras e os números
são imortais, o que me resta são teus beijos -
enquanto, sobre a tez universal de teu corpo mágico,

eu dure.



Fábio Ribas

sábado, 15 de janeiro de 2011

O testemunho do mundo - Cantares alheios (II)

12 Novembro 2008

O testemunho do mundo

Desde adolescente, de vez em quando eu ouvia na rádio uma música muito triste de Carly Simon, chamada That's the Way I Always Heard it Should Be. Nunca conseguia prestar atenção na letra, mas apenas pescava o refrão: “You want to marry me; we'll marry.” Não entendia como uma música que falava de casamento podia ser tão triste; no entanto, mesmo de modo inconsciente, percebia o recado: a infelicidade no casamento é algo inevitável. De fato, a letra fala dos vários modos que essa infelicidade pode assumir, com a concordância conformada da mulher que, depois de enumerá-los, parece dar de ombros: “Mas, se você quer casar mesmo assim, a gente casa.” Deprimente!

Um dia, ouvindo essa música mais uma vez na minha rádio da internet, resolvi pesquisar a vida de Carly Simon. A única coisa que eu sabia é que ela havia sido muito infeliz com James Taylor. Pois sua vida foi uma sucessão de relacionamentos malsucedidos. Casou-se duas vezes. No fim, ela já estava compondo canções com letras do tipo “que o amor seja eterno enquanto dure”. Li que é conhecida por um gênio difícil e que topa relações com mulheres. Está sozinha. A música é de 1975, mas Carly Simon continua fiel a seu triste testemunho.

Esse é o testemunho que o mundo tem a proclamar, hoje, sobre o casamento: é ruim, não dá certo, ambos serão infelizes e terminarão se separando. A culpa? Do destino; ninguém sabe muito bem onde está a culpa; ninguém a assume. É engraçado como, proclamando-se muito “científico”, o homem moderno consegue pensar e se comportar como um pagão de tempos idos. Ninguém pensa nas motivações que levaram à escolha do outro. Ninguém pensa que deixou de dedicar tempo e cuidados ao outro. Ninguém pensa na intimidade que se negou a permitir ao outro, por medo de destruir uma imagem positiva demais de si mesmo... e que casamento sem intimidade é como a nudez através de um vidro fosco: como amar profundamente a quem não se conhece? Enfim, pressupõe-se que um casamento infeliz é algo que simplesmente “acontece”, tão inexplicável e imprevisível como seriam os acidentes naturais para os antigos.

Se você é cristão e está solteiro, não creia nessa mentira diabólica. Espere em Deus. O casamento entre dois cristãos sinceros, que amam a Deus e procuram viver em santidade, cuidando para não reproduzir dentro da relação os modos mundanos de ser e agir, tem um destino certo: revelar ao mundo sedento o profundo amor de Deus através de um homem e uma mulher que se amam incondicionalmente. E esse talvez seja o testemunho mais belo que um cristão pode deixar nesta terra. Não desista. Guarde-se com esperança; se você não tiver o dom do celibato (algo muito mais raro que se pensa), ele (ou ela) virá. E, se permanecerem em Cristo, vocês serão felizes!

Blog da Norma Braga

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Moisés - Cantares da Felicidade (II)

Bem-aventurado és tu, ó Israel!
Quem é como tu, um povo salvo pelo Senhor,
o escudo do teu socorro e a espada da tua alteza?
Pelo que os teus inimigos te serão sujeitos, e tu pisarás sobre as suas alturas
Dt 33:29


Quão diferentes palavras são ditas aqui por Moisés! Léia, veja, parece que aqui surge uma outra proposta, outra visão, outro destino. Léia, você abriu poços secos – buscou a realização da felicidade em filhos, marido e no reconhecimento social – para tentar arrancar deles a alegria tão almejada. Passou mesmo a manipular o incontrolável a partir de suas crenças antigas, de seus deuses do lar, das suas mandrágoras... O que mais você seria capaz de fazer pela felicidade? Entretanto, Moisés encontrou do alto do monte a resposta da bem-aventurança. Esta não poderá ser encontrada em algo que façamos, mas naquilo que Alguém tenha feito por nós! 
 
Moisés, o que você viu? Você foi ao Egito, viu a mão poderosa de Deus na luta pelo povo dEle; viu esse mesmo Deus acompanhar esse povo e seus filhos pelo deserto por quarenta anos, sustentando a cada um deles com disciplina, maná, água, carne, roupa e proteção contra os inimigos. Você, Moisés, está no final da sua vida agora, no final de uma carreira imposta por Ele e não escolhida, e, talvez, seja esse o seu olhar, agora maravilhado, que avalia e descobre o que é a felicidade, o que é a plena bem-aventurança para qualquer homem: a salvação, a proteção e a defesa do Deus do povo de Israel. O que surge aqui, portanto, é uma proposta totalmente diversa àquela encarnada por Léia. É como se pudéssemos ouvir: “Léia, alegra-te naquele que a salvou, naquele que tem protegido e defendido você”! Léia já deveria saber dessa verdade, Léia já deveria conhecer as histórias de seu parente Abraão que abandonou a casa, a sua parentela, a sua terra em busca da benção pronunciada por Noé e garantida a Abraão em aliança com Deus! O avô de seu marido, Léia, creu que Deus proveria o impossível, ainda que a morte fosse o destino de Isaac, filho de Abraão, no monte Moriá. As histórias estavam ali, o Deus de Abraão e Isaac já se apresentara a Jacó. Mas Léia não abriu seus olhos para ver que a verdadeira bem-aventurança estava em pertencer ao Deus que tomava como sua propriedade exclusiva aquela família. Assim, o que se nota aqui são duas propostas: a busca pela felicidade em nós mesmos e nas coisas que nos cercam ou a buscarmos no Deus que salva, protege e defende.

Enfim, Moisés se maravilha com a felicidade que sempre esteve ali perto dele por toda a sua vida. Deus os havia escolhido e providenciado a salvação de Israel. Deus havia tomado a iniciativa de prometer e fazer cumprir a sua própria promessa feita a Jesus desde antes da fundação do mundo e que revelava-se ali, historicamente, a Abraão, Isaac e Jacó.

Tal qual Léia, contudo, temos buscado a felicidade como um bem que possamos produzir e, portanto, teríamos o direito de possuir, daí gastarmos tanta energia para que a possamos ter: é um direito humano apregoado hoje em todo o mundo! Moisés, pleno de perplexidade maravilhada, descobre, ao fim de sua vida, vendo as miríades formadas por Israel, que eles eram um povo singular e que não havia nada semelhante na terra: um povo salvo, protegido e defendido pelo próprio Deus. Eis a bem-aventurança!

Então, o que faz você feliz? A Bíblia começa a nos apresentar que a verdadeira felicidade está no Deus que nos salva. Talvez, sejamos como Léia: ouvimos as verdades de Deus, mas não conhecemos o Deus dessas verdades. 

Então, em que lugar você tem procurado a sua felicidade?

sábado, 8 de janeiro de 2011

O beijo - Cantares de Salomão (II)

"Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho. Suave é o aroma dos teus ungüentos; como o ungüento derramado é o teu nome; por isso as virgens te amam" (Ct 1: 2-3).

O beijo desejado pela mulher apaixonada. O verso arrancado do anseio, da espera, da ausência que não se sacia. A mulher apaixonada que expressa claramente os seus desejos, sem jogos ou subterfúgios. A mulher que fala. Nada se insinua, nada se esconde. Tão pouco, ela se coloca no papel de coagida, tímida ou distante. Ela deseja. Não há metáfora no verso, não há ainda comparação alguma. O livro é iniciado com essa lâmina cortante do desejo expresso em toda sua sinceridade. Sim, o desejo feminino pelos beijos da boca do homem amado.

A primeira fala de um ser humano na Bíblia é ocasionada pela admiração. O primeiro verso surge da boca de Adão extasiado pelo vislumbre daquela que agora era "osso dos meus ossos e carne das minhas carnes". Agora, mais uma vez, o verso da admiração. A admiração que surge do simples, do cotidiano, do comum alcançado pelos olhos de todos nós, mas que poucos, muito poucos são capazes de perceber.

Há prazer na Bíblia e o prazer aqui não é masculino, mas é expresso por uma mulher que não reprime ou esconde aquilo que sente: prazer. Quelquer beijo? O beijo fruto do amor, porque o amor dele por ela é melhor do que o vinho. A qualidade do amor que nos falta à nossa geração carente da embriaguês causada pelo verdadeiro amor. A embriaguês sublime não se encontra nem nos melhores vinhos. É no amor dele para com ela que se identifica o melhor beijo. O beijo profundo, inebriante, prazeroso do amor verdadeiro.

Há prazer sensitivo que se derrama como taça do melhor vinho da boca da mulher amada. O prazer das impressões sensoriais. O corpo dela totalmente envolvido no fato declarado de se encontrar totalmente apaixonada. Paladar, olfato e audição se misturam, agora, numa sinestesia, impulsionados pela força do amor. O perfume dele, suave e leve. O cheiro do corpo do amado que se estende ao nome dele. O nome, um perfume derramado. Que mistura de sentidos! Que celebração do corpo, criação prazerosa de Deus. O corpo, que para muitos filósofos gregos era a prisão da alma, é para Deus digno da ressurreição da carne. A carne retornará. Essa carne cantada, provada, cheirada pela mulher apaixonada não será condenada à terra e nem ao aniquilacionismo. Deus, o criador do nosso corpo, tem um plano maravilhoso para ele e os homens não podem rebaixá-lo à vulgaridade e ao animalismo e, nem tampouco, sublimá-lo à categoria dos seres celestiais que não se entregam uns aos outros em casamento.

Por isso as virgens desejam o corpo do amado, por ser o corpo fonte de prazer e de experiências sensoriais inefáveis àquelas que aguardam castas a vinda do seu amado. Esta exaltação do corpo, da pele, do cheiro, do sabor nos vem inaugurando essa peça de maravilhosa beleza e nos vem dos lábios desejos de uma mulher.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Blog do Casal 20 - aniversário de 1 mês!


Casal 20 - a série que nos embalou a adolescência!




Um mês de blog! E, com mais este link acima, encerramos a inauguração das séries que nos havíamos proposto postar:
4) http://casal20ribas.blogspot.com/search/label/todos.

Certa vez, apresentei alguns textos para Norma Braga e ela sugeriu que fizéssemos um blog. Contudo, ainda não estávamos morando na cidade. Assim, com a nossa vinda para um lugar "um pouco mais urbano", possibilitou-nos concretizar a ideia.

Por que "casal 20"? Desde que nos casamos, eu e minha esposa sempre tivemos o privilégio de trabalhar juntos nas mesmas escolas.  Bem, esse sempre foi nosso apelido nos lugares em que dávamos aula em Brasília. Foi nos dado um dia por uma professora, amiga nossa, o apelido pegou... e ficou!

Por que um blog? Queríamos uma nova ferramenta que nos desse acesso às pessoas que queriam saber um pouco mais de nós, mas não tinham contato com nosso trabalho entre os povos indígenas do Brasil. Queríamos criar um espaço que fosse mais amplo e de maior acesso, mas que, também, fosse a nossa "cara". Queríamos um novo veículo que pudesse abençoar mais pessoas.

Queridos, o nosso desejo é que nossa família continue a ser uma benção para cada uma das pessoas que nos acompanham já há alguns anos e outras que chegaram agora. Queremos ser abençoados pelos queridos também, assim, aguardamos sua visita, presença, comentário nesse espaço que foi feito para ministrar VIDA sobre a sua casa! Para isso, esperamos (se Deus quiser) postar um tema de cada série toda terça e sábado. Algumas vezes, penso eu, falaremos de algum outro assunto em outro dia da semana, mas, queremos nos manter fiéis às terças e sábados com vocês nos temas das séries.

Para quem está chegando agora, queremos seguir abençoando famílias, casais e amigos - eis a proposta do blog. Está tudo explicadinho aqui:

http://casal20ribas.blogspot.com/p/cantares-alheios.html

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Eros e Psique - Cantares de todos nós (II)

 










Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
 

Fernando Pessoa



Novamente, Fernando Pessoa. Os versos, sua mitologia, seus símbolos. Quantas leituras!

Quem é a Princesa? Quem é o Infante? Psique fora encantada e só acordará aos desejos da carne se for despertada – como a noiva em cantares de Salomão – pelo infante Eros. Psique é a personagem que sublima, a alma, o espírito, o céu, a religião etérea, o divino, a figura da castidade com todas as suas implicações. Eros, o infante - infantil e guerreiro! Ele é a sexualidade que precisa ser realizada, que urge como pulsão da carne, do desejo, o inferno, a religião vulgar, o terreno, o natural, o imperfeito, o humano.

Psique está trancada em seu castelo, mas há um caminho... o caminho errado que deve levar nosso herói até ela. Errado pelas dificuldades, obstáculos, terribilidades. Mas Eros precisa se libertar? Ele também está preso? A Princesa  presa no castelo e ele, no emaranhado dos discursos sobre o Bem e o Mal? Ele precisa se libertar desse maniqueísmo funesto que o separa de sua amada. O mundo não é a luta eterna de duas forças iguais e, muito menos, se manterá o equilíbrio das coisas, acreditando-se nisso. Não! Nem ele é o inferno, nem ela é o céu!

A Princesa, como que morta, enfeitada em seu esquife, aguarda por aquele que pode trazer vida à morte que a domina. Ela anseia, ela deseja, ela espera. Mas, as imagens agora parecem se inverter, pois ela, a vida, está morta e ele, a morte, luta contra o equilíbrio das coisas para dar a vida que ela tanto necessita. E ele, o infante, lutará e virá, ainda que sem saber qual o propósito de tudo isso, apenas porque as coisas devem ser assim... Ele não é razão. Ele é pulsão. É preciso enfrentar o caminho errado. Por quê? Ele não sabe: ele não é razão. Ele segue, esforçado. Quem é ele? Ela não sabe. Quem é ela? Ele não conhece.

Todavia, ainda que ignorantes acerca do verdadeiro conhecimento sobre si mesmos, há um Destino, um propósito que os guia e faz existir a estrada. Alguém quer este encontro entre o Infante e a Princesa, entre Eros e Psique. Tudo está sendo cumprido: este encontro, a busca da unidade!

A nossa ignorância do que somos e do que há na estrada não é usada como desculpa para a fatalidade ou desistência. Ele segue até ela, ainda que não possa nem mesmo confiar na estrada, porque também não a compreende na sua totalidade.

A luta do Infante – a passagem da infância para a vida adulta – o despertar do amor erótico na tez fria da razão que nega que ela mesma era o príncipe que a descobre! 

Finalmente, revela-se a todos (personagens e leitores) que a luta era pela unidade dos cacos dispersados pela excessiva queda – o fim da dicotomia, o fim desse dualismo!

Enfim, a negação da existência de um conflito cósmico entre o reino da Luz (Psique) e o das sombras (Eros), porque somos uma unidade: Eros e Psique são uma só natureza - caída, depravada, estilhaçada, carentes da glória de Deus - esta natureza  humana de cada um de nós. 

sábado, 1 de janeiro de 2011

Cantares para ela mesma (I)



__________________________________________Quase

Para Lucila Ribas

Sei da palavra a sua quase falência!

Nada lavra tanto quanto o inaudito
E se repito o já dito é que a palavra
é fraca ao desenhar o traço delicado
entre o tudo e o nada, universo vasto
que não se inscreve na letra morta
de um papel branco...

Extensa é a realidade que foge aos olhos!

Mas se aos teus olhos é que escrevo,
que faço então? Combato uma luta vã
na qual quase nada e nada é tão pouco e tão distante do tudo
que quase se torna nada o amor do qual anseio que entendas!

Dilatada é a realidade que escapa do espaço físico da palavra!

Mas se é ela a única ferramenta e ouro que sustento
- garimpeiro das letras -
Entrego que é improfícuo o ato de escrever.

Enfim, quase nada e nada é tão pouco
que se torna escasso o que de mim transborda...

Como pela janela aberta vem o ladrão,
e pelo que falta é que se manifesta a sua presença,
o meu verso é passagem de palavras que invadem a tua alma
e é pelo que de ti retiro, espaços vazios que forço, é que revelo
algo da palavra que não consigo!

Fábio Ribas
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