Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos - Cantares alheios (XVI)

 
A maioria das doenças que as pessoas têm
São poemas presos.
Abscessos, tumores, nódulos, pedras são palavras calcificadas,
Poemas sem vazão.
Mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado.
Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema.
Mas não.
Pessoas às vezes adoecem da razão
De gostar de palavra presa.
Palavra boa é palavra líquida
Escorrendo em estado de lágrima
Lágrima é dor derretida.
Dor endurecida é tumor.
Lágrima é alegria derretida.
Alegria endurecida é tumor.
Lágrima é raiva derretida.
Raiva endurecida é tumor.
Lágrima é pessoa derretida.
Pessoa endurecida é tumor.
Tempo endurecido é tumor.
Tempo derretido é poema
Você pode arrancar poemas com pinças,
Buchas vegetais, óleos medicinais.
Com as pontas dos dedos, com as unhas.
Você pode arrancar poemas com banhos
De imersão, com o pente, com uma agulha.
Com pomada basilicão.
Alicate de cutículas.
Com massagens e hidratação.
Mas não use bisturi quase nunca.
Em caso de poemas difíceis use a dança.
A dança é uma forma de amolecer os poemas,
Endurecidos do corpo.
Uma forma de soltá-los,
Das dobras dos dedos dos pés, das vértebras.
Dos punhos, das axilas, do quadril.
São os poema cóccix, os poemas virilha.
Os poema olho, os poema peito.
Os poema sexo, os poema cílio.
Atualmente ando gostando de pensamento chão.
Pensamento chão é poema que nasce do pé.
É poema de pé no chão.
Poema de pé no chão é poema de gente normal,
Gente simples,
Gente de espírito santo.
Eu venho do Espírito Santo
Eu sou do Espírito Santo
Trago a Vitória do Espírito Santo
Santo é um espírito capaz de operar milagres
Sobre si mesmo.

 
(Viviane Mosé; título original: Receita para arrancar poemas presos)


Assista Antônio Abujanra recitando parte do poema acima.

2 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Que espetáculo, hein, Fábio? Não só adorei como concordei com as premissas poéticas todas.

VERSINHOS PATOLÓGICOS
Complica qualquer sistema
Pessoal, social relacional
A pessoa, sabendo que tem problema
Não admitir por ignorância, dolo,
Ou mesmo arrogância
Isso é maior do que o próprio problema
Não há remédio que cure
Não há terapia que resolva.
Poesia nela.rsrs

Grande abraço. paz e bem.

Casal 20 disse...

Cacá, também achei esse texto sensacional. Até porque me identifiquei muito com ele. Acho que, vez em quando, minhas doenças eram na verdade poesia retida e que gritava por liberdade, por se fazer escrita, falada, chorada.

É muito interessante este texto!

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

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