Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

À sombra da macieira - Cantares de Salomão (XIII)

Qual a macieira entre as árvores do bosque, tal é o meu amado entre os filhos;
desejo muito a sua sombra, e debaixo dela me assento; e o seu fruto é doce ao meu paladar
(2: 3; Fiel).


Durante milênios, Cantares resistiu à oposição por causa da interpretação alegórica que lhe era dada e que fez com que essa obra se mantivesse no cânon graças ao poder do Espírito Santo, seu autor. Foram raros os que ousaram desafiar a alegoria dada ao texto e enfrentar o óbvio: a celebração do amor erótico entre um homem e uma mulher. Todas essas aventuras da interpretação histórica do Cântico dos Cânticos temos compartilhado na página “Cantares sobre Cantares”.

“Cantares de Salomão” ou “Cântico dos Cânticos” é um dueto entre o amado e a amada. Um livro feminino no qual somos guiados o tempo todo pela Sulamita e pelos desejos que nela são despertados pelo seu amado. Cristaliza-se na obra a imagem da mulher que não se vê cerceada, censurada e nem castrada ao expressar o próprio desejo que deflagra o filete de suor que agora lhe escorre pelo corpo ávido dos carinhos do homem amado. 

E ela agora volta à cena desse palco e devolve a ele o elogio feito a ela: a singularidade! O amor singulariza. Dentre tantos homens, tantos jovens, o amado é por ela comparado à macieira: distinto, único e seu odor a domina e o identifica entre tantos... A função dos cheiros no livro é perene e recorrente. O corpo, a carne, a pele exalam os perfumes da sedução e desperta o noivo e a noiva para o desejo sexual.

Há a corte e há o tempo exigido pela corte. Os dois se identificam e se percebem pelo cheiro, pelo perfume, pelos odores que exalam: o amor elege!

Assim como o lírio se encontrava entre as sarças, a macieira se destaca em meio a um terreno inóspito e impróprio. O paralelismo entre os dois versos trocados pelos noivos revelam a mensagem central do livro: o amor vencerá todas as dificuldades, todos os obstáculos... O amor é mais forte do que a morte!

Ela o compara à macieira e a maçã – o fruto doce ao paladar da Sulamita – era tida no Oriente não apenas como alimento desejado, mas também remédio e poderoso afrodisíaco. Assim, ainda que, mais uma vez, haja dúvidas em relação à identificação da palavra hebraica tapuah com a maçã, permanece sustentada a interpretação histórica – como retórica poética – da maçã como fruta simbólica do amor.

Agora, a noiva se apropria da metáfora da sombra. Metáfora riquíssima e que, biblicamente, nos aparece quase sempre associada à ideia de proteção militar ou divina, mas também de relação sexual. Ela canta, então, para o amado com toda força poética que a tem caracterizado desde o início de suas ousadas palavras: “Eu desejo entregar-me sexualmente a você”! Ela confessa: “Eu desejo abrigar-me à sombra protetora de teu corpo”. Ela o deseja! Ou numa outra tradução do verso: “Sob a sua sombra me sentei e tive desejo” (Medina Rodrigues). “Com seu doce fruto na boca” traduz a Bíblia Católica (Edição Pastoral).

Além do contexto apresentado pelos versos e também por causa da pequenina palavra "doce" - mtk -, que pode significar "qualquer atividade agradável, principalmente para o prazer erótico", muitos intérpretes modernos viram na passagem a alusão ao sexo oral por parte da Sulamita que, mais à frente, por sua vez, convidará o seu amado a também comer dos frutos saborosos do seu jardim: "Levanta-te, vento norte, e vem tu, vento sul; assopra no meu jardim, para que destilem os seus aromas. Ah! entre o meu amado no jardim, e coma os seus frutos excelentes!" (4:16; Fiel). Paralelamente, contudo, não podemos negligenciar o apelo à proteção que ela anseia do homem: um homem que se distingua dos demais no carinho, na atenção e na proteção dados a ela! Ela precisa e tem prazer na figura protetora do seu homem e não se importa em demonstrar isso com todas as palavras possíveis. Ela se assenta à sombra da macieira e se entrega ao abrigo do seu amado.

Mas já haveria, então, o noivo e a noiva saído do ambiente das intenções e desejos expressos de um pelo outro para, finalmente, terem concretizado os versos de suas paixões? Iremos encontrar a resposta a essa pergunta mais adiante no próprio livro. 

2 comentários:

Mariani Lima disse...

Q beleza!! Gostei demais de sua exposição do texto de Cantares. Parabéns ao casal pelo bom gosto da postagem.
Fiquem com Deus!

Alessandra Santos. disse...

Belíssimo texto. parabéns! É sempre encantador vir aqui. Abraços queridos.

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