Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Hannah Arendt (ou "Porque talvez eu também esteja mudando")


"Sob condições de tirania é muito mais fácil agir do que pensar"
A saraivada de críticas foi inevitável. A filosofa foi acusada de ter pouco apreço pelos judeus. Respondendo a um dos seus acusadores, ela escreveu uma carta, publicada em diferentes jornais europeus, na qual comentava – sem mencionar o nome do interlocutor – uma conversa mantida com um alto dirigente de Israel durante o julgamento de Eichmann.

O interlocutor era Golda Meir, então ministra das Relações Exteriores, que era contra a separação entre Estado e religião em Israel. Meir disse: “Você irá compreender que, como socialista, eu, naturalmente, não acredito em Deus; acredito no povo judeu.” Arendt comentou:

"Considerei isso uma afirmação chocante e, por isso, não repliquei na época. Mas poderia ter respondido: a grandeza desse povo foi outrora o fato de acreditar em Deus, e acreditava Nele de tal maneira que sua confiança e amor por Ele era muito maior que seu medo. E agora esse povo acredita apenas em si mesmo? Que bem pode resultar disso? Ora, nesse sentido eu não amo os judeus, nem acredito neles; meramente pertenço a eles por uma questão de fato, além da controvérsia e da argumentação”.

“Uma questão de fato”, meramente: a ruptura de Arendt com o sionismo representou um gesto filosófico decisivo. Para ser leal aos direitos humanos, denunciando as sementes totalitárias espalhadas por todas as sociedades, ela não seria leal a nenhuma corrente doutrinária particular. 


6 comentários:

Amana disse...

Hannah Arendt sempre surpreendendo... AMO!

Amana disse...

conheço a arendt menos do que deveria. estudo ciências sociais e a arendt teve grande importância para a ciência política. li apenas um pouco, mas quero ler mais! ela encanta! rs

Jorge Fernandes Isah disse...

Fábio,

estou com dois livros da Arendt para ler, mas cadê o tempo?

Pensei que à medida em que envelhecia, teria mais tempo reservado para gastá-lo melhor, mas vejo que andamos sempre tão atarefados e aflitos que gostaria de experimentar um pouquinho do "marasmo" que meus avós e bisavós provavelmente desfrutaram...

A declaração da H. Arendt revela o quanto o homem tem se dedicado e especializado na "destruição" de Deus, achando que todas as respostas estão nele, homem, e o que vemos é cada vez mais as pessoas perdidas, desorientadas, vivendo um caos constante, sabendo que ele tem início, mas sem saber se terá fim.

O mundo reserva-lhes sabor apenas nas ideias, mas nada delas tem se transformado, na prática, em deleite e gozo. Quando experimentam dos seus ideais e ideologias acalentados, o resultado, quase sempre, será o desgosto e a frustração. E assim o homem vai, cavando mais fundo e fundo, no abismo que diz não estar nem existir.

Ao contrário, Paulo nos dá todos os motivos pelos quais o homem pode ter paz e ser feliz [independente das circunstâncias e do que o cerca]: "E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado. Porque Cristo, estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios" [Rm 5.5-6].

Grande abraço, meu irmão!

Cristo o abençoe!

Casal 20 disse...

Jorge, verdade! Eu conheço a Arendt só de ouvir falar, mas depois da ótima apresentação que o livro "Liberdade versus Igualdade" faz da obra dela, resolvi separar dois livros-chave dela para ler nas férias. Espero compartilhar minhas leituras ano que vem.

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

Cacá - José Cláudio disse...

Hannah sentiu na pele o peso da discriminação. Mesmo sendo cidadã nascida alemã, pagou um alto preço por sua origem judaica. Isso a tornou apátrida por longos 14 anos e só então, conseguiu uma igualdade social (reconhecimento), não através de sua liberdade mas através de sua independência como livre pensadora. A liberdade como conceito puro não permite iguladade do ou no que quer que seja. A independência, sim, pois ela passa a ser um exercício de liberdade intrínseca. Eu sempre admirei-a demais por esta e outra razões que a sua filosofia suscitava (mesmo ela recusando modestamente o rótulo de filósofa). Abraços, Fábio e um ótimo final de semana.

Casal 20 disse...

"A liberdade como conceito puro não permite iguladade do ou no que quer que seja. A independência, sim, pois ela passa a ser um exercício de liberdade intrínseca" - Cacá, mais uma vez me levaste à reflexão: a independência como exercício da liberdade intrínseca e que permitiria, portanto, um caminho para a igualdade.

Sabendo que tanto a liberdade como a igualdade como conceitos puros não dão, verdade, espaço nem para uma nem para a outra. Mas a independência poderia ser uma liga que mistuarada a esses conceitos permitiria algum equilibrio.

Penso que a independência também tem seus limites, embora seja fundamental para a existência de um pensamento filosófico. Tenho proposto que a fraternidade cristã seja uma liga que produziria menos individualismo e que daria mais equilibrio a esses dois polos: igualdade e liberdade.

Cacá, sempre me fazendo pensar!

Abraços sempre afetuosos.

Fábio.

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