Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Porque escrevemos, segundo George Orwell - Cantares alheios (IX)

George Orwell - autor de 1984 e Revolução dos Bichos

Aparte a neces­si­dade de ganhar a vida, penso haver qua­tro gran­des moti­vos para escre­ver, segu­ra­mente para escre­ver prosa. Exis­tem em dife­ren­tes graus em cada escri­tor, e no mesmo escri­tor vari­a­rão com o tempo, e de acordo com a atmos­fera em que ele está a viver. São eles:

1. Puro egoísmo. O desejo de pare­cer esperto, de ser falado, de ser recor­dado depois da morte, de con­se­guir a des­forra dos adul­tos que nos des­pre­za­ram na infân­cia, etc., etc. É ridí­culo fin­gir que isto não é um motivo, e forte. Os escri­to­res par­ti­lham esta carac­te­rís­tica com os cien­tis­tas, artis­tas, polí­ti­cos, advo­ga­dos, sol­da­dos, empre­sá­rios de sucesso – em suma, com a camada supe­rior da huma­ni­dade. A grande massa dos seres huma­nos não são pro­fun­da­mente egoís­tas. Depois dos trinta anos aban­do­nam quase por com­pleto o sen­ti­mento de indi­vi­du­a­li­dade – e vivem ape­nas para os outros, ou dei­xam sim­ples­mente abafar-​​se pelas suas labu­tas. Mas há tam­bém a mino­ria de pes­soas dota­das, espe­ran­ço­sas, que estão deter­mi­na­das a viver as suas vidas até ao fim, e os escri­to­res per­ten­cem a esta classe. Os escri­to­res sérios, devo acres­cen­tar, são de forma geral mais vai­do­sos e egoís­tas que os jor­na­lis­tas, embora menos inte­res­sa­dos no dinheiro.

2. Entu­si­asmo esté­tico. A per­cep­ção da beleza no mundo exte­rior, ou, por outro lado, nas pala­vras e na sua pre­cisa dis­po­si­ção. O pra­zer do impacto de um som em outro, da fir­meza da boa prosa ou do ritmo de uma boa estó­ria. O desejo de par­ti­lhar uma expe­ri­ên­cia que se con­si­dera de valor, e imper­dí­vel. A moti­va­ção esté­tica é muito débil em inú­me­ros escri­to­res, mas mesmo um pan­fle­teiro ou um autor de manu­ais terá pala­vras favo­ri­tas e fra­ses que lhe ape­lam por razões não uti­li­tá­rias; ou pode ainda ser sen­sí­vel à tipo­gra­fia, ou à lar­gura das mar­gens, etc. Acima do nível dos horá­rios dos com­boios nenhum livro está com­ple­ta­mente livre das con­si­de­ra­ções estéticas.

3. Impulso his­tó­rico. O desejo de ver as coi­sas como são, de des­co­brir os fac­tos verí­di­cos e preservá-​​los para uso da posteridade.

4. Pro­pó­sito polí­tico – usando a pala­vra “polí­tico” no seu sen­tido mais lato. O desejo de empur­rar o mundo numa certa direc­ção, de mudar as ideias das pes­soas sobre o tipo de soci­e­dade pela qual devem lutar. Mais uma vez, livro algum está livre de uma ten­dên­cia polí­tica. A ideia de que a arte não deve ter nada a ver com a polí­tica é, em si mesma, uma ati­tude política. 

Encontrei o texto acima no Uai, mundo? O blog do Cacá. Que, por sua vez, o achou no blog do João Nunes. Que, por sua vez, foi quem o traduziu do original.

4 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Obrigado pela referência, Fábio. Este texto fez parte da série que screvi (Conversas com quem gosta de escrever). É muito pertinente a postura do Orwell (esta e tantas outras que a gente pode ver pela sua magnifica obra literária). Um abração. Paz e bem.

Fruto do Espírito disse...

Amados do Senhor!

Que alegria foi receber a sua visita no meu espaço! já os conhecia do Blog da Rô.
Inclusive, comentei em uma de suas postagens de despedida....
Realmente irmãos como vocês, nos incentivam a continuar na nossa maravilhosa missão: Cumprir o "IDE".
Fazemos parte da mesma família: Nova Vida, temos muitas afinidades espirituais, a maior delas é que iremos morar eternamente com o Senhor e Salvador de nossas vidas.
Eu louvo a Deus pela sua vida, família e ministério.
Estejam a vontade para me visitar sempre que quiser.

Ósculo Santo!

***Lucy Araújo***

mulherices disse...

Eu certamente me encaixo na 1a. alternativa. Escrevo por puro egoísmo - e como cientista me encaixo no resto!

Escrevo por egoísmo porque pra mim é uma espécie de catarse. Descobri que funciona muito bem para tirar algumas coisas de dentro de mim, meramente para desafogar.

Adorei a análise, parabéns ao João Cláudio e a você pela seleção.


Forte abraço

Lílian Buzzetto
Do Mulherices

Carlos Lopes disse...

Olá amigos, após ler Porque Escrevemos, passei o seguinte mote ao amigo Carlos Costa: Porque eu escrevo. Em pouco tempo o jornalista amazonense criou a sua versão do tema. Aliás, um tema é uma excelente pergunta e resposta.
Um abraço amigos.

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