Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Love is a losing game (Amy Winehouse) - Cantares de todos nós (X)

O amor é um jogo de azar

Para você eu fui um caso
O amor é um jogo de azar
Cinco andares se incendiaram quando você veio
O amor é um jogo de azar
Como eu queria nunca ter jogado
Oh, que estrago que nós fizemos
E agora o lance final...
O amor é um jogo de azar

Desgastado pela banda
O amor é uma aposta perdida
Mais do que eu poderia aguentar
O amor é uma aposta perdida
Declarado... intenso
Até o encanto se quebrar
Notar que você é um jogador
O amor é uma aposta perdida

Apesar de estar bastante cega
O amor é um resignado destino
Lembranças frustram minha mente
O amor é um resignado destino
Acima de inúteis expectativas
E ridicularizado pelos deuses
E agora o lance final
O amor é um jogo de azar


Será o amor, então, um jogo de azar? O “jogo”, essa palavra que marca insistentemente toda a música de Amy Winehouse, expressa o velho modelo do amor como um campo de batalha. Uma disputa em que ele e ela se veem como adversários e, armados de suas estratégias e mentiras, precisam se impor ao outro como o melhor jogador.

Será o amor, então, um jogo de azar? Um jogo entre duas pessoas que se desejam, mas que não se entregam, antes, elas marcam suas áreas de ação, lançam seus dados, fazem suas apostas e aguardam o resultado? Distâncias que se queriam próximas, entretanto, há um jogo que não se pode perder, há uma diferença que não pode ser transposta...

Por mais estabelecida que esteja a premissa errada do amor como um jogo, a trama se complica ainda mais no fato de ambos aceitarem que o amor seja um jogo de azar, um lance de sorte. Ambos aceitam de comum acordo o fato infeliz de estarem esperando o resultado dos dados que foram lançados sobre a mesa. E seguirão assim até o lance final!


O que há de comum nestas velhas histórias de amor? A certeza tardia de que, em algum momento, houve a chance de se decidir não jogar. Aquele mesmo momento que foi dado a Caim de não sucumbir ao turbilhão das emoções: “Cabe a ti dominar-se”, ouviu Caim. Estamos falando agora da paixão como aquele fogo que vem e incendeia os 5 andares do prédio. A paixão tem muitas acepções, mas trato aqui da acepção grega, ligada à história da palavra, que nos coloca a todos numa condição passiva. Assim, a paixão será sempre aquela que nos atropela, que está à espreita de nós, escondida atrás da porta, e pronta para desestruturar todas as nossas convenções...



A confusão entre amor e paixão está no cerne da decepção na música. Porque é do amor a característica da racionalidade, da perseverança, do planejamento, mas é da paixão o impulso, a pulsão, o instinto, o momento. Daí ela se arrepender de ter entrado nesse jogo, de ter cometido esse estrago ao lado dele e, tarde demais, só agora perceber que, para ele, ela sempre foi apenas um caso, uma chama, uma brincadeira. O arrependimento, então, é de quem cedeu à paixão em braços alheios, sabendo que houve um momento em que poderia ter decidido não continuar. A belíssima voz de Amy embala toda essa frustração de perceber tarde demais que, ao final de tudo, ela era apenas um jogo para ele - este é o momento da quebra do encanto.

E qual o destino final disso tudo? A resignação. Aqui, há uma triste ironia na letra da música, porque resignação é o contrário da paixão. Se paixão é fúria, resignação é exatamente renunciar ao desatino do destino. Todavia, a resignação não vem mais pela via da decisão (esta já fora desperdiçada quando ainda podia ter sido tomada), a resignação vem pela constatação humilhante de que tudo não passou de inúteis expectativas. Dizer que o amor é um resignado destino é compreender que toda aquela paixão foi uma aposta perdida - e ela confessa isso agora, apesar de estar bastante cega. E toda aquela sensação de onipotência e de que "tudo no universo conspirava em favor dos amantes", percepções ilusórias que nos são dadas pela paixão, “os deuses”, enfim, se riem de todas essas tolices.


Mas há como evitar tudo isso? Há como se proteger do turbilhão que se anuncia ainda antes que você se abandone sobre a mesa de apostas desse cassino dos desejos irrefreáveis? Sim, do contrário, Deus não teria dito a Caim sobre sua responsabilidade moral:  é a vitória de José diante da mulher de Potifar; é a vitória de Daniel diante das iguarias da Babilônia. Mas o que mais demonstra a nossa oportunidade como seres morais é aquela fração do tempo. A fração momentânea e eterna de tempo, precioso presente que Deus nos dá para tomarmos consciência de todas as coisas antes que seja tarde demais e decidirmos, assim, se daremos ou não o passo seguinte.


A paixão é um sentimento natural tanto para homens como para mulheres. Entretanto, cabe a cada um de nós controlá-la e canalizá-la para retirar dela toda a possibilidade de uma experiência positiva, construtiva, criativa, artística e bela.  E, enfim, direcioná-la, toda a nossa paixão, a quem prometemos amar até que a morte nos separe.




8 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Eu acredito que a infelicidade é calculada pela racionalidade (estaria mais próxima do cálculo). Digo assim porque acho que ser infeliz é muito mais fácil, faz parte da própria existência (daí vivermos tanto em busca da tão almejada felicidade). Apesar disso, concordo que a paixão precisa de uma etapa onde haja um freio e um encaminhamento da vida mais racionalmente para que se transforme em um amor duradouro.
Adorei esta abordagem, Fábio. Meu abraço. Paz e bem.

Casal 20 disse...

Cacá, mais uma vez você me visita e me presenteia com suas belas palavras e reflexões sobre o que escrevo. Sempre me coloco atento a tudo o que você diz.

Muito obrigado, meu amigo.

Abraços sempre muito afetuosos.

CORAÇÃO QUE PULSA disse...

Amigo...O teu coração fala de coisas perdidas pelo mundo.As pessoas já não sabem mais o que é AMAR...AMOR.Vivem paixões desenfreadas mas...fogem de AMAR.Assim...machucam...se machucam...ferem...destroem e continuam não sabendo o que é AMAR.
Se tornou um JOGO... NUNCA há DOIS vencedores.
Muito bom...ótimo o teu post.
Um abraço e fica com DEUS...sempre.

disse...

Esta parte aqui se resume todo seu artigo Fabio, que por sinal é bom demais.
"E, enfim, direcioná-la, toda a nossa paixão, a quem prometemos amar até que a morte nos separe".

Paz e bom dia!

Casal 20 disse...

Clélia, muito obrigado, minha amiga, por você ser tão sensível às minhas palavras.

Abraços sempre muito afetuosos.

Casal 20 disse...

Rô, querida amiga, vamos seguir salgando e esperar que nossos casamentos possam expressar toda a beleza e sabedoria do nosso Deus.

Estamos juntos!

Abraços sempre muito afetuos.

"LABAREDAS DE FOGO" disse...

Compreendo esse seu tipo de "dialogo" e posso afirmar que sou totalmente favorável a essa prática de trazer luz às trevas.

Eu, particularmente, como não falo inglês, ainda, sou capaz de ouvir e gostar apenas bela bal´ssima voz e a boa melodia.

No pasado eu poderia me identificar com com muitas palavras dessa letra; tempo em que o fundamento maior era o amor "eros".

Mas hoje, fundamentado no amor "agapé" perdi toda e qualquer identificação com esse tipo de jogo, perdendo também a condição de julgar, digo mesmo, com "reta justiça". Mas... preciso dizer algo para eles, então...: "Tomará alguém fogo no seu seio, sem que as suas vestes se queimem?".

Cris Campos disse...

Fábio,
Creio que a vida podemos comparar a um jogo por que nela, no seu todo, há muitos caminhos, atalhos e personagens. Nunca conseguiremos entender a tudo e a todos. Somos levados a escolhas constantemente e as opções que fazemos abrem-se em outras e outras e outras... Mas o amor definitivamente não é e nem deve ser comparado a um jogo. Foi dito a Caim "cabe a ti dominar-se" mas creio que se isso não nos for concedido por Aquele que tem o domínio soberano sobre o que somos, não acontece. A paixão é a criança, o amor é o adulto. Não há como ser o último sem antes passar pelo primeiro. A paixão pode sim amadurecer no seio em que nasce. Penso que quando alguém passa de paixão em paixão é porque a maturidade nunca aconteceu. Esse tem dentro de si uma criança que recusa-se a alçar voos mais plenos. Quando encontramos na vida alguém com o qual nos identificamos, costumamos dizer que estamos apaixonados. De fato, sim estamos, mas esse sentimento à medida que cresce, amadurece; ganha novas dimensões e profundidade. Amy fala de amor mas talvez tenha conhecido apenas a paixão,e o encara como jogo porque certamente teve muitas decepções. Quando você diz que a paixão é um sentimento natural mas que nos cabe controlá-la e canalizá-la, concordo, entendo que ela pode acontecer, ao longo da vida, em vários momentos e, em assim sendo, seriam desejos, que podem ser totalmente refreados. A paixão ilude, quantos já não vimos sucumbir à ela? Davi, por exemplo. E na vida? Já vi de perto tantos e tantos cederem ao sabor dos prazeres, inclusive alguns estavam atrás dos púlpitos. Uma coisa é certa, a queda é inerente ao homem, todos nós estamos debaixo do mesmo sol, sujeitos às mesmas circunstancias, de um modo ou de outro, e na paixão e amor isso não é diferente, portanto, como vc, sabiamente, disse, cabe a cada um direcionar os rompantes para o caminho certo, aquele que escolhemos, por que nos foi permitido, para percorrer. Penso que a paixão está intimamente relacionada à insatisfação, ao descontentamento, lembra da música? "...é um contentamento descontente..." paradoxo esquisito não? É nesse "descontente" que as possibilidades se instalam. Ora, se amo e estou desfrutando de uma plenitude nesse amor, como posso estar insatisfeito? Por outro lado, a plenitude é eterna? NÃO. Não é. Em algum momento do dia ou da noite o inverso se fará, é aí que devemos ajustar os ponteiros com paciência, controle e perseverança, para que o sol no meio da madrugada se extinga e a escuridão no meio do dia cesse. Putz! Falei demais outra vez! Abrç! Vou sair fora antes que escreva mais...!

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