Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

A confidência - Cantares de todos nós (IX)


 A Bruxa


Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.

Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida ao meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.

De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?

E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse neste minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.

Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e clama.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?

Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de mãos, afetos, procuras.
Mas se tento comunicar-me
o que há é apenas a noite
e uma espantosa solidão.

Companheiros, escutai-me!
Essa presença agitada
querendo romper a noite
não é simplesmente a bruxa.
É antes a confidência
exalando-se de um homem.

(Carlos Drummond de Andrade)

Estava naquele quarto, deitado na cama de cima de um dos beliches. Havia mais uns 8 hóspedes dividindo aquele mesmo espaço em beliches que se apertavam ali... Era o único lugar que o resto de dinheiro que eu tinha poderia pagar. Havia feito as escolhas erradas.

Naquela noite, antes de ir para lá, passei na casa de alguns "amigos" para conseguir alguma coisa que me entorpecesse, porque eu queria dormir o mais rápido possível. Esquecer que estava dormindo num lugar como aquele. Contudo, o efeito foi reverso e o sono não veio. 

Não sei mais se imaginei ou se realmente ouvi, mas, de repente, um dos hóspedes disse a um outro que queria fazer alguma coisa, mas, então, escutei o dono dali dizer que não fizessem nada comigo, porque eu era menor de idade. Virei para o lado da parede e, enquanto fingia dormir, chorei. Chorei, porque me dava conta de que naquela Belo Horizonte de tantos milhões de habitantes eu estava sozinho. Percebi que nem era preciso tantas pessoas no mundo, se houvesse apenas UM amigo. Entretanto, não houve ninguém que saísse do meio daquela multidão que me sufocava... Naquela noite, nenhum amigo veio me socorrer. E dormi.

Na manhã seguinte, quando acordei, vi que não tinha mais ninguém no quarto, já era hora avançada do dia, e, olhando para o lado, vi que o meu cinto e os meus sapatos haviam sido roubados... 

Por muito tempo, desde a minha infância, o poema de Drummond me acompanha e, claro, naquela triste noite em Belo Horizonte, lembrei-me diversas vezes dessa bruxa que marca a solidão amorosa, urbana, existencial e universal, cantada pelo poeta. A solidão de quem desanda por entre as gentes, a solidão de quem apenas precisa de um amigo, mas ele não vem. 

Nestes dias, esse poema veio à tona novamente de algum lugar escondido lá de dentro de mim. Não mais por causa da minha solidão, mas por causa da morte da Amy Winehouse. Passei a semana lembrando da letra de "Rehab" em que ela dizia, assim como Drummond, que o que ela estava precisando era apenas de UM amigo. Acho que esse amigo nunca veio para ela. Acho que nunca veio para Drummond também. E sei que há milhares de pessoas, neste exato momento em que escrevo, que estão em algum lugar esperando que apareça alguém, uma única pessoa, um abraço, um telefonema, um beijo, um carinho, uma palavra de salvação como, um dia, eu também precisei e, finalmente, recebi de alguém o Evangelho que me reconciliou com Deus, meu verdadeiro amigo. 

Há, ainda, no poema de Drummond uma realidade universal que pode nos escapar numa leitura apressada: na falta de um amigo, acabamos tentando suprir essa carência com alguém que é MENOS do que um amigo (no poema, uma mulher, mas ela também não vem, porque ela também está só! E aqui, a ironia drummondiana revela que a selva de pedra pode ser um amontoado de milhões de pessoas solitárias vivendo ao lado umas das outras). Em outras palavras, se não encontramos a pessoa que poderá ser aquela que verdadeiramente precisamos, findamos por nos contentar com alguém que seja menos que um amigo. E nessa troca urgente e desesperada, a solidão aprofunda e dilacera ainda mais a carência que há, porque dois cegos tendem apenas a cair juntos no mesmo abismo.  

A minha oração é que eu - e você também - possamos ser o amigo que chegará em momentos como esses, momentos em que alguém percebe que dois milhões de pessoas são muito pouco, porque, na verdade, nem é preciso tanta gente assim. Apenas Um amigo!

Abraços sempre muito afetuosos.




Um comentário:

CORAÇÃO QUE PULSA disse...

UM AMIGO....É SÓ DISSO QUE PRECISAMOS...UM VERDADEIRO AMIGO.

"E nessa troca urgente e desesperada, a solidão aprofunda e dilacera ainda mais a carência que há, porque dois cegos tendem apenas a cair juntos no mesmo abismo.
"possamos ser o amigo que chegará em momentos como esses, momentos em que alguém percebe que dois milhões de pessoas são muito pouco, porque, na verdade, nem é preciso tanta gente assim. Apenas Um amigo!
LINDO!
Um abraço amigo...fica com DEUS.

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