Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

A última testemunha - um post para minha mãe

Queridos amigos e leitores, dei essa sumida sem tempo de dar um aviso prévio, porque minha mãe deu entrada na UTI em São Paulo. Assim, vim ficar com ela. Ela se recupera bem e, depois de oito dias na UTI, ela já se encontra na UTI semi-intensiva. Agradeço as orações e, quando possível, estarei retornando. Reposto este texto baseado em reflexões de minha mãe. Abraços sempre afetuosos. 

Tia Doris, Tia Regina, Tio Roni abraçado pela Tia Doli, Tia Cecília e tio Roseny (só faltou mamãe).


Quando minha mãe nos visitou por aqui no mês passado, ela nos disse algo, à mesa da cozinha, que me surpreendeu, porque eu jamais havia antes pensado sobre aquilo: “Fábio, eu sou a última testemunha. Eu sou a última testemunha da minha infância”.


Um dia desses, postei sobre o clã dos Ribas e ali, naquele post, havia uma foto de todos os irmãos da minha mãe. Os meus avós, que estão naquela foto, há muito se foram. E quase todos irmãos da minha mãe também. Tia Doli, Tia Dóris, Tia Cecília e Tio Roseny, todos já foram e causaram as dores de suas mortes a minha mãe. Foram falecimentos doídos, não apenas pela morte em si, mas, principalmente, por causa do câncer que arrastou pelo menos três dos meus tios.

“Fábio, eu sou a última testemunha da minha infância! Se teu tio Roni morrer, morre com ele as minhas lembranças da infância. Eu não tenho mais com quem conversar sobre aquele passado em Vitória no Espírito Santo”, disse-me minha mãe. Essas palavras dela abriram uma outra realidade para mim: a vida da minha mãe está se apagando e ela tem toda consciência disso. Senti como que se fosse uma espécie de amnésia existencial, porque eram nessas conversas que uns relembravam os outros de detalhes esquecidos. Contudo, agora, havia um apagamento se formando, uma lacuna, um pano negro sobre um tempo cuja única testemunha seria ela. Isto é uma espécie de solidão com a qual eu ainda não havia me deparado.

Há ainda uma última irmã, tia Regina, mas ela é uma verdadeira temporã, nascida fora de época, tardia, quando a família da minha mãe já morava no Rio de Janeiro. A diferença de idade das duas talvez seja de uns vinte anos, mais ou menos.

Enquanto escrevo este texto, minha mãe está se preparando para ir a São Paulo. Meu tio Roni também está sendo arrastado pelo câncer. Não preciso dizer como isso afeta minha mãe. Ela segue para ver partir a última pessoa que viveu com ela sua infância. Com a partida do meu tio, ela não vai mais ter com quem relembrar seus tempos de menina, as brincadeiras, a escola, as vivências com os pais dela, a casa em Vitória... Morre a conivência, morre a confidência, morre esse conluio, esta cumplicidade dos olhos que testemunharam as mesmas histórias. Com a partida do meu tio, morre o fato, o objeto, as provas e a infância da minha mãe torna-se, agora, uma arqueologia mais difícil de ser realizada.

Um dia, eu morrerei e comigo o meu testemunho pessoal e ocular daquilo que vi e vivi. Quando eu me for, vão-se comigo as provas daquilo que apenas eu sei. Acredito que é por isso que eu escrevo: eu escrevo para que esse meu testemunho resista a ela, à morte, este monstro que nos devora a existência e as lembranças daqui na terra. Escrevo, porque quero que minhas filhas herdem as minhas memórias, o legado de uma tradição que deixo a elas.

Tio Roni está marcado por três fortes cenas na minha mente. A primeira cena é ele chegando em nosso apartamento em Brasília e trazendo para nós as camisetas do “Quem sabe, sabe”, antigo programa televisivo no qual ele trabalhava. A segunda cena é a minha festa de aniversário em que entreguei para ele o primeiro pedaço de bolo, pequenino gesto de honra de minha infância, mas que nos marcou pelo resto de nossas vidas (tio Roni sempre lembrava disso quando nos encontrávamos). Há uma terceira cena, inesquecível para mim, eu no quarto de um hospital em São Paulo, recém-operado das amídalas, tio Roni entra e me dá de presente uma pequenina lanterna. Era uma caixinha vermelha com uma lampadazinha, mas que iluminou aquelas noites nas quais sequer eu podia falar por causa da cirurgia.

Bem, agora, eu estou compartilhando contigo essas minhas lembranças. Então, elas já não são apenas as minhas lembranças e, de uma forma muito estranha, eu trouxe você para ver comigo essas cenas. Já não sou só eu que sei... Acho que escrevo também, porque não quero saber sozinho.

6 comentários:

Fabi Ribas disse...

olá primo...
Sua mae chegou...
As coisas aqui estão mto dificies, e tio rony sofrendo mto e sua hora não chegou...é mto dificil ver esse sofrimento...não entendo os designos de Deus, n sei q que Ele pretende...enfim, vamos ver o que vai ser...Ore bastante por ai, quem sabe Deus escuta mais vc do q eu....bjs primo...fica com deus ai...bjs

Casal 20 disse...

Prima, acabei de chegar em casa e vi seu recado. Liguei para mamãe. Estamos orando por vocês aí que estão em SP e vão acompanhar esse momento.

Beijos e abraços sempre muito afetuosos.

Casal 20 disse...

Queridos, queremos agradecer o apoio que tivemos nesse momento. Foram muitos amigos que acessaram este post e outros que escreveram para nós e, sei, todos oraram por minha família.

Acabei de receber a notícia do falecimento do meu tio Roni nesta madrugada.

Certos de que continuaremos a contar com o apoio de vocês, desde já agradecemos.

disse...

Fabio. Sinto muito pela perda de seu tio. Que o Espírito Santo os console nesta hora ,sei o que sente neste momento. Toda perda dói. Mas, Deus é contigo e com sua mãe, tenha certeza disso. Paz querido!

Casal 20 disse...

Rô, minha amiga, muito obrigado pelo apoio e e-mail seu e do Djalma também.

Abraços sempre afetuosos.

Ligian disse...

Fábio,
estava na Bahia e somente agora li o post e, também, o email.
Lamento que tenham que passar por essa tristeza...
Espero que o consolo do Espírito Santo seja sobre sua família!
Lindo post!
Agora eu sei e, de alguma forma, vou levar comigo...
bjim

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