Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 1 de março de 2011

O Deus do Sexo (Resenha)

FIDES REFORMATA XI, Nº 2 (2006): 157-161


Valdeci da Silva Santos

JONES, Peter. The God of sex: how spirituality defines your sexuality
[O Deus do sexo: como a espiritualidade define a sua sexualidade]. Colorado
Springs: Victor, 2006. 239 p.

A erotização da sociedade é um dos desafios morais mais urgentes do cristianismo contemporâneo. Comportamentos e atitudes considerados imorais e até ilegais em um passado não muito distante são celebrados hoje como ícones da sensualidade cultural e da liberdade de expressão. Contudo, a exposição crescente à estimulação erótica acaba por gerar nos expectadores uma necessidade de doses maiores e mais intensas do produto exposto. Conseqüentemente, esse processo cíclico de dependência resulta em desintegração social e superficialidade nos relacionamentos humanos. Além do mais, algumas propostas do processo de erotização da sociedade representam um ataque frontal à santidade do casamento e ao conceito bíblico do sexo.

Em seu livro The God of Sex, o professor Peter Jones defende a tese de que sexo é um assunto espiritual e que as decisões tomadas a esse respeito transcendem o campo das preferências pessoais e encontram-se alicerçadas na perspectiva religiosa das pessoas. Assim, a desintegração moral da sociedade não é apenas produto de uma revolução sexual ocorrida na década de 1960, mas o resultado direto da espiritualidade emergente que rejeita os valores teístas. Embora a combinação entre sexualidade e espiritualidade possa soar estranha aos ouvidos de alguns, Jones insiste que Deus e sexo são assuntos profundamente relacionados (p. 10). De fato, o autor considera imperativo que os cristãos compreendam a conexão entre teologia e sexualidade, pois somente assim eles poderão responder adequadamente aos desafios morais encontrados na sociedade contemporânea.

Peter Jones é professor de Novo Testamento no Seminário Teológico Westminster, em Escondido, Califórnia. Nos últimos anos ele tem produzido uma variedade de livros e artigos acadêmicos, dois dos quais foram traduzidos para o português, A Ameaça Pagã (Cultura Cristã, 2002) e Desmascarando o Código Da Vinci (A. D. Santos, 2005), e outros estão a caminho. Além do mais, Peter Jones é pessoalmente conhecido de uma pequena parcela de protestantes brasileiros que assistiram as suas palestras no Brasil em 2003 (São Paulo, Recife e Belo Horizonte). Uma das características marcantes do trabalho de Jones diz respeito à busca de uma interação entre a fé cristã e o mercado
de idéias na sociedade contemporânea. O procedimento apologético de Jones tem rendido importante contribuição para a igreja cristã.

O livro The God of Sex consiste de duas partes principais, uma bibliografia e algumas importantísimas notas sobre o assunto, que podem ser utilizadas como guias de estudos para pequenos grupos. Na primeira parte, o autor analisa algumas características básicas do processo de intensa erotização vigente na sociedade. Segundo ele, cada uma dessas características encontra-se embasada em uma espiritualidade pagã, que adora e serve a criatura e rejeita o Criador e os seus princípios para a criação. Na segunda parte do livro, Peter Jones analisa as características da cosmovisão cristã sobre a sexualidade. Essa cosmovisão não é apenas um produto da tradição eclesiástica, mas é fruto de uma interação séria com a revelação de Deus sobre si mesmo e sobre a sua criação, conforme encontrada nas Escrituras. Dessa forma, a conclusão do autor é que, em matéria de sexo, a igreja e a sociedade contemporânea não estão divididas apenas em torno de opções e preferências, mas de duas cosmovisões distintas: uma pagã e outra bíblica.

Duas observações devem ser ressaltadas à luz da tese de Peter Jones. Os cristãos não têm qualquer motivo para se sentir intimidados em uma sociedade que os acusa de manter uma cosmovisão arcaica, pois embora os acusadores não percebam, o fato é que eles também abraçam uma cosmovisão que é tão antiga quanto a queda, ou seja, a cosmovisão pagã. Em segundo lugar, há que se atentar para o fato de que, quando a igreja não distingue entre essas duas cosmovisões, ela facilmente se deixa seduzir por propostas, atitudes e comportamentos que são contrários à verdade revelada nas Escrituras. Com isso, muitos elementos da suposta “vida sexual excitante” são práticas pagãs que resultam em tensões na vida cristã, insatisfação íntima e procedimentos escandalosos.

Na parte inicial de sua obra, Peter Jones delineia a via percorrida pelos proponentes de uma recontrução (ou desconstrução) moral na sociedade contemporânea. Segundo ele, este processo foi marcado por dois fatores básicos:
(1) a normatização dos excessos heretossexuais e (2) a normatização da homossexualidade.

O ímpeto inicial para ambos foram as pesquisas do sexólogo americano Alfred C. Kinsey, que ocorreram bem antes da revolução sexual da década de 1960. Através de seus estudos, Kinsey procurou mostrar que a “pansexualidade” era a norma, não a excessão, nos relacionamentos humanos (p.20). Todavia, os estudos de Kinsey foram altamente prejudicados pela ausência de objetividade, algo reconhecido até pela comunidade científica. Kinsey era homossexual e o seu comprometimento ideológico parece ter orientado as suas conclusões como pesquisador (p. 21).

Vários outros fatores devem ser considerados no processo da revolução sexual ocorrida nos últimos anos, mas o fato é que “antes de Kinsey, as pessoas denominavam o amor sexual de ‘ato conjugal’. Depois de Kinsey, a expressão sexual passou a desconhecer limites” (p. 22). Ao abandonar o padrão tradicional de expressão sexual, a pornografia proliferou e hoje polui visualmente os grandes centros urbanos e domina os espaços cibernéticos. Além do mais, a legalização do aborto tornou relativo o valor do amor materno e a aceitação social da homossexualidade quebrou os elos do relacionamento familiar (p. 22-26). Dessa forma, a desconstrução ocorrida na área da sexualidade parece ser apenas um reflexo da desconstrução operada na dimensão teológica, ou seja, a rejeição de Deus e seus princípios para a expressão da sexualidade humana.

Segundo Peter Jones, a base da sexualidade contemporânea encontra-se no monismo e no politeísmo. O autor lembra que “idéias possuem conseqüências – especialmetne as idéias sobre Deus” (p. 55). O fato é que as opções religiosas de uma sociedade se refletirão na perspectiva da mesma sobre váriados assuntos, inclusive a sexualidade.

Em contraste com a compreensão dualista cristã da distinção entre Deus e o mundo, a perspectiva monista insiste que o Criador e o universo são essencialmente um. Abolindo a distinção entre o Criador e a criatura, os agentes da erotização da sociedade defendem que as relações humanas também não devem ressaltar qualquer distinção de gênero sexual. O argumento é que uma vez que Eros – o deus do amor, duplamente sexuado – não conhece qualquer limite... o ser humano espiritual do futuro será libertado igualmente de quaisquer barreiras a ele impostas no que diz respeito à sexualidade masculina ou feminina (p. 48).

A mistura da cosmovisão entre o Criador e a criatura produz a desconstrução das normas heterosexuais nos relacionamentos. Conseqüentemente, a sociedade contemporânea celebra a figura do indivíduo andrógino, ou seja, masculino e feminino ao mesmo tempo. Efeitos dessa perspectiva podem ser observados no debate mundial sobre casamentos e reconhecimentos legais de pessoas do mesmo sexo, na padronização unissex da moda e dos comportamentos, bem como na exaltação, especialmente através da mídia, de pessoas que reivindicam ser sexualmente andróginas. O fato é que na sociedade contemporânea a norma sexual requer uma identidade mutável (p. 55).

O autor ainda insiste que a sexualidade moderna também se encontra ancorada no politeísmo. Jones observa que politeísmo produz poligênero e por trás das variadas escolhas sexuais há a crença na existência de vários deuses (p. 17). Se a perpectiva monista produz a pessoa andrógina, a politeísta promove a polissexualidade, que também é chamada de pansexualidade. Desta forma, o conceito de casamento e família é redefinido pela sociedade que considera o prazer pessoal como o padrão de qualquer relacionamento. Conceitos como monogamia e normalidade sexual são males a serem extintos na sociedade que celebra a liberdade em todos os sentidos. Peter Jones cita um dos defensores da nova sexualidade que declara: “Eu visualizo um mundo onde poderemos fazer amor com qualquer pessoa, de qualquer forma que desejarmos, a qualquer tempo e em qualquer lugar” (p. 52-53). Logo, observa-se que “o que [os defensores dessa perspectiva] realmente querem é uma sociedade que reconhece toda combinação sexual como normal – inclusive sexo grupal e poligamia” (p. 57).

O conceito contemporâneo de poligamia, que tem sido chamado de poliamor (um termo mais sofisticado), inclui todas as formas de combinações sexuais: uma mulher e dois homens, duas mulheres e um homem, grupos ou mais do que três, troca de casais, etc. (p. 61). O fato é que os conceitos bíblicos de união conjugal, fidelidade e pureza moral são completamente rejeitados e destruídos pela erotização prática da sociedade. Quem reflete sobre os acontecimentos nesta área não consegue deixar de imaginar o que está por vir: insanidade psicológica, enfermidades físicas, confusão social e condenação espiritual (p. 85-98). Em todo esse contexto, não se pode ignorar que a expressão sexual contrária aos padrões de Deus continua sendo uma expressão séria e guiada por uma opção religiosa, ainda que pagã.

Na segunda parte do seu livro, Peter Jones descreve as principais características de uma cosmovisão cristã sobre o sexo. Essa perspectiva começa com o reconhecimento da distinção existente entre o Criador e a criatura. Dessa forma, a perspectiva bíblica sobre o sexo leva em consideração a santidade e a singularidade de Deus (p. 108-111). Segundo Jones, “não há apenas um círculo envolvendo a realidade como os monistas reivindicam. A Bíblia insiste que os cristãos estabeleçam dois círculos”: um que descreve a realidade do Criador divino e o outro que descreve a realidade da ordem criada (p. 115). Nesse sentido, o dualismo é parte fundamental da cosmovisão cristã. A perspectiva de que Deus é o criador, santo e pessoal, determina a visão que os cristãos têm sobre o mundo como um todo e sobre a sexualidade em particular.

A partir da compreensão da diferença existente entre o Criador e o mundo criado, a Bíblia enfatiza a diferença existente entre o homem e a mulher e descreve a união dos dois como um complemento necessário e prazeroso. O homem e a mulher se complementam em cada aspecto; igualmente valiosos, mas essencialmente diferentes; e tudo isto é considerado bom aos olhos do Criador (p. 119). Por essa razão, a Bíblia nunca descreve o sexo como uma mera válvula mecânica para satisfazer o apetite da carne nem como um impulso animal de autogratificação, mas como um fator de exercício da comunhão e da intimidade existente em um relacionamento saudável. “Sexo, de acordo com a Bíblia, é uma bela criação da mente do Criador, coberta com suas perfeições morais” (p. 121). Diferenças e intimidade são essenciais na perspectiva bíblica do ato sexual. O casamento e a intimidade sexual foram primeiramente estabelecidos na humanidade por ordem do Criador para serem desfrutados através de uma comunhão exclusiva do casal.

A cosmovisão cristã sobre a sexualidade é edificada sobre o ensino bíblico acerca da mesma e, no contexto bíblico, a intimidade sexual é algo a ser desejado e celebrado, pois é obra do bondoso Criador. Contrária a outras cosmovisões, a perspectiva cristã não trata as pessoas como objetos para satisfação própria, mas como seres criados à imagem de Deus. O prazer sexual não é analizado como um fator meramente genital, mas como um produto da intimidade dos cônjuges. Dessa forma, até o prazer solitário é reprovado pela perspectiva divina para o sexo: comunhão conjugal. Dentre os resultados da prática desses princípios, o casal contará com o fortalecimento da união e a comunhão com o Senhor. Todavia, a presença do pecado e seus efeitos no
mundo certamente causam distorções na perspectiva humana sobre a vida ao redor, inclusive a perspectiva sexual. Esta é uma das razões pelas quais mesmo os cristãos continuam batalhando contra a idolatria de seus próprios desejos.

Ao descrever a cosmovisão cristã sobre o sexo Peter Jones é realista. Ele sabe que a conversão de uma pessoa não concede à mesma santidade completa nesta vida. Ele reconhece que a redenção nos livra da culpa do pecado, mas não nos livra da presença do mesmo. Dessa forma, ele instrui a igreja para que retorne à Bíblia em busca de uma teologia da sexualidade sadia. A fim de mostrar a relação íntima existente entre religiosidade e sexualidade, ele cita o texto de Romanos 1.18-32, onde o apóstolo Paulo apresenta um argumento teológico (v. 23) que promove uma prática espiritual (v. 25) e afeta a sexualidade dos envolvidos (v. 26). Logo, o autor conclui que a espiritualidade (cristã ou pagã) governa a sexualidade das pessoas.

Em resumo, o livro The God of Sex é uma obra que atende aos anseios de grande parte da igreja contemporânea. Em primeiro lugar, ele é relevante, pois a igreja cristã tem sido encurralada em meio à pressão em prol da erotização social. Há muitos cristãos que gostariam de fazer algo, mas não sabem por onde começar e nem como responder à série de acusações e questionamentos levantados nesse sentido. Em segundo lugar, o livro foi muito bem escrito e academicamente alicerçado. Como é característico do autor, são oferecidas várias referências para as observações e argumentos apresentados. Em terceiro lugar, a obra traz um chamado para os cristãos se voltarem para as Escrituras na tarefa de resgatar uma teologia da sexualidade sadia. Embora o interessado nessa empreitada possa sentir que o autor deveria ter se aprofundado mais no assunto, pois em algumas partes os argumentos de Jones parecem ser demasiadamente gerais, isto não tira o valor da obra como um instrumento para despertar a reflexão cristã sobre a sexualidade.

3 comentários:

Rita disse...

A Paz queridos amigos, irmãos !
Que excelente artigo,especialmente para atualidade,quando os dias são maus...em todos os sentidos.
E a igreja vai mal no que diz respeito ao tema proposto,a obra de Satã é justamente perverter a moral de maneira que até entre os convertidos a lascívia seja fato.
Os casamentos são o alvo maior do inimigo,pois destes nascem famílias que podem ser salvas na sua totalidade,a família ,o bem mais precioso do Eterno está em fase de extinção...a homossexualidade é apenas uma das armas do diabo para destruir a formação dos lares,a violência, a vida sexual precoce dos adolescentes,os divórcios cada vez mais acelerados por diversas razões, entre elas a traição, a mais comum,e tudo isso gira em torno do sexo, a carne grita em pecado,os que conhecem a verdade,e que não andam segundo a carne,mas segundo o espírito,têm mais facilidade em entender e se defender dos ataques e das vãs sutilezas do inimigo,já o mundo jaz no maligno para todo que está sem Cristo,as obras da carne são manifestas hoje de forma assustadora, o melhor caminho é voltar a sã doutrina,ensinar segundo as Escrituras os valores perdidos,e a verdade,o que agrada ao Pai,pois santidade é condição para se ver a Deus....
A verdade é que muitos 'cristãos' tem erroneamente aprendido e não questionam,pois é conveniente,que a roupa não importa,pois Deus quer o coração,mas,que tipo de templo onde habita o Espírito DA VERDADE, se expõe ao mundo na moda sensual que impera nos nossos dias??
A vida sexual no casamento,a vestimenta,o comportamento das mulheres e dos homens em relação ao sexo deve ser pautado nos ensinamentos do Evangelho, no amor puro e sem malícia de quem verdadeiramente serve a Deus,falta doutrina séria e voltada para o que é de fato pecado nas igrejas,pois o pecado não é fruto de boa árvore....não que não pecamos,mas temos que estar vigilantes e manejando bem a palavra da verdade,e revestidos da armadura de Deus.

Paz e bem,abraço afetuoso!!

disse...

Gostei da Resenha Fabio. Muito bom E pertinente para os dias que vivemos. Paz!

Pr. Anselmo Melo disse...

"caracas" meu irmão.Que brilhantismo e lucidez nas argumentações do autor.Me recuso ler agora esse texto.Coisas assim precisam ser degustadas.Vou comprar o livro e achar tempo para dar um bom mergulho.
D+ mesmo.Obrigado pela dica.Paz!

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