Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 14 de março de 2011

A história de Genji - um das mais importantes obras da literatura mundial foi escrita por uma japonesa

Murasaki Shikibu - gravura de Kikuchi Yosai

Genji Monogatari

Amor, traição e ambição num dos romances mais antigos e famosos do Japão.
A obra literária mais famosa do Japão antigo foi escrita por uma mulher, curiosamente numa época em que escrever ou fazer poemas era privilégio de homens.

Murassaki Shikibu, filha de um poeta que exerceu vários cargos no governo, tornou-se dama de companhia de uma das mulheres favoritas do imperador Itijô. Permaneceu oito anos no palácio imperial e nesse ínterim captou todos os conhecimentos para colocar o “Genji Monogatari”, um romance que retrata o drama vivido pelos homens e mulheres da época. Amor, traição, ambição, angústia e tristeza, enfim, todas as paixões da vida humana são apresentadas com clareza em cinqüenta e quatro seções do livro.


NO TEMPO DE GENJI

No século XI, Era Heian, a cultura japonesa de modo geral floresceu e se desenvolveu espantosamente. Não havia guerra nem cataclismos, nem grandes modificações políticas. O povo vivia em paz. E no palácio imperial, promovia-se festas, concursos e competições, os quais propiciavam o surgimento de muitos romances entre os privilegiados membros da corte.

O personagem principal é Hikaru Genji (lê-se rikaru guenji). Como demonstra seu próprio nome (“hikaru” significa brilhar), era o que se poderia dizer um príncipe verdadeiramente brilhante, que se destacava em todos os sentidos, tanto pela beleza física como pela sua educação cultural.

Hikaru era um dos filhos do imperador, mas não conseguiu ser o seu sucessor. Ainda jovem, se apaixonara por uma das favoritas do imperador, Fujitsubo, o grande amor de sua vida, e por infelicidade, um amor impossível. Durante sua vida, ele amou diversas mulheres, mas não conseguiu esquecer o primeiro amor. Possuía todas as condições para ser o imperador, mas não o podia. Esses dois motivos o perseguiram a vida toda, causando-lhe constante conflito interno.

A história começa com Kiritsubo, mãe de Hikaru Genji, que recebia atenção especial do imperador por sua beleza incomum. Por outro lado ela sofria com a inveja das outras mulheres. Kiritsubo faleceu muito cedo, mas a imagem da mãe de fina educação que causava inveja e ciúme a outras mulheres ficou guardada na mente de Hikaru. Tanto que Hikaru, muito jovem, se apaixona por Fujitsubo, que possuía fina educação e tinha feições parecidas com a da sua falecida mãe. Aos doze anos, segundo o costume da época, Hikaru teve seu penteado alterado para o de adulto (considerava-se então adulto aos doze anos de idade). E na mesma noite ele contrai matrimônio com a filha de um poderoso fidalgo, a quem o imperador havia prometido o seu filho.

Hikaru foi morar na casa da noiva, conforme o costume, mas não se interessava pela esposa, saía a procura de aventuras amorosas. Foram muitas as aventuras com mulheres de todas as classes sociais, algumas belas, algumas cultas e outras nem belas nem cultas.

Um dia um sábio olhou para Hikaru Genji e lhe disse que possuía tudo para ser imperador, mas não chegaria a sê-lo. Em contrapartida um filho subirá ao trono, outro será “Dajôdaijin” (um cargo supremo) e a única filha, imperatriz. Tudo aconteceu exatamente segundo esta profecia. Primeiramente, Hikaru Genji ousou a conquista de Fujitsubo, a eleita do pai imperador, a qual concebeu um menino que reconheceram como se fosse filho do imperador. Embora suas feições se assemelhassem evidentemente com as de Hikaru Genji o imperador o adorava sem desconfiar da verdade.

Fujitsubo, de vergonha e remorso, não suportou a situação. Pediu a Hikaru Genji que cuidasse do menino, e decidiu-se drasticamente a isolar-se do mundo enclausurando-se num monastério. Hikaru Genji pela primeira vez sentiu a felicidade de ser pai, mas dadas as circunstâncias, esteve impedido de senti-la na sua plenitude, porque não podia trata-lo como filho. Este menino tão lindo quanto o pai, mais tarde subiu ao trono para ser imperador.

Genji Monogatari não é um romance sobre disputa de poderes. É uma obra sobre o amor e o sofrimento causado por esse amor, no cenário de luxo da corte e dos costumes da época. Trata-se de um documento precioso que é considerado um tesouro da história do Japão.

Em português: A escritora e tradutora Mitsuko Kawai, falecida em 1996, publicou um livrete chamado “Introdução ao Guenji Monogatari”, com tiragem limitada, de onde foram tiradas muitas das informações deste artigo.


Autor: Francisco Handa – doutor em história pela UNESP, desenvolve pesquisa sobre cultura tradicional japonesa. É monge da escola Soto Zenshu.
AO USAR INFORMAÇÕES DESTE SITE, NÃO DEIXE DE MENCIONAR A FONTE www.culturajaponesa.com.br – autor: Francisco Handa.
LEMBRE-SE: AS INFORMAÇÕES SÃO GRATUÍTAS, MAS ISTO NÃO LHE DÁ DIREITO DE SE APROPRIAR DELAS.
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Fonte: Blog Cultura Japonesa

Para quem se interessar, há no youtube a animação dessa história em 10 partes, mas a legenda é em inglês (bom para treinar, imprescindível para conhecermos mais desse universo japonês). Segue o link da 1ª parte, que levará as demais partes também: http://www.youtube.com/watch?v=CYwJaO88mm4

Vamos continuar a orar pelo Japão! 

2 comentários:

Cacá - José Cláudio disse...

Eu fico aqui pensando o que a literatura mundial não perdeu num amontoado de séculos quando se vetava às mulheres muitos direitos, inclusive o de manifestar-se nas artes em geral, especialmente na literatura. Ler e escrever foi privilégio masculino por anos a fio. Há suspeitas de que muitos trabalhos científicos e obras literárias antigas tenham sido escritas por elas e apropriadas por eles. Òtima esta indicação. Meu abraço. Paz e bem.

Casal 20 disse...

É mesmo, Cacá. Certa vez, li uma reportagem que revelava que muitos escritos de poetas e filósofos importantes foram mesmo roubados de suas esposas e namoradas.

Que coisa, não?

Abraços sempre afetuosos.

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